Aos leitores, em resposta

Sobre a coluna de sábado, é significativo o número de e-mails com comentários em torno do tema da solidão. Mas um telefonema, sobremaneira, vindo de uma leitora conhecida, chamou-me a atenção. Elogia a perspectiva através da qual abordei o assunto, mas assume, enfaticamente, não saber lidar com o problema desde a separação do marido, há coisa de pouco mais de dois anos: - "Para mim, tem sido um inferno! Não sei estar sozinha e acho improvável que alguém possa ser feliz assim." Reportava-se ao fato de que, no texto, afirmávamos ser possível tratar com a solidão de forma criativa, saudável e produtiva sob muitos aspectos. Existenciais, sobretudo, aproveitando a fase do 'sem-ninguém' para ler bons livros, assistir a bons filmes e escrever, entre outras alternativas indicadas para o solteiro bem-resolvido. O ócio, inclusive.

Como se trata de uma pessoa de excelente nível intelectual, boa argumentadora e exemplarmente descontraída, deixamos a conversa fluir por um tempo considerável, até que o adiantado da hora e o sono nos cobrassem beijinhos de despedida. Desliguei o telefone e me ocorreram, como que num passe de mágica, as palavras de Thelma Ritter para Doris Day em Confidências à meia-noite, a interessante comédia de Michael Gordon. Lembrei detalhes porque revira o filme havia poucos dias. A uma dada altura, Thelma Ritter, dirigindo-se a Doris Day, afirma: - "Só há alguma coisa pior do que uma mulher vivendo sozinha: é uma mulher dizendo que gosta disso." Risos à parte, pus-me a pensar.

Não concordo muito com a afirmação, embora o telefonema da leitora coubesse como luva para o que diz a personagem de Ritter, nesse clássico de 1959, sobre a solidão feminina. Sempre achei que as mulheres via de regra sabem lidar melhor com o problema, se é que estar sozinha por uns tempos constitui mesmo algum problema para uma pessoa como a referida leitora, a quem sobram beleza, desenvoltura e inteligência, atributos pelos quais foi sempre uma mulher muitíssimo admirada. E continuará sendo.

Ainda sobre solidão, dessa vez no blog, ficou registrado o elogio: - "[...] Parece que seus textos são escritos para quem os lê. (sic) Faço sempre uma reflexão profunda e me vejo espelhada em suas palavras. Palavras muito tocantes, profundas, que chegam a doer..." Pura elegância, pura generosidade... Está feito o registro.

Acerca da coluna anterior, leitor cinéfilo reclama: - "Você falou sobre a saudade na literatura e na música popular, mas esqueceu o cinema." É verdade, 'parceiro', não houve espaço para citar uma cena de filme que explorasse o tema, a exemplo do que fiz com livros e letras de música. Nem haverá hoje. Fica a provocação, num excerto de Casablanca. A cena final da película, de que cito de memória o diálogo de despedida, quando Humphrey Bogart, por uma causa mais nobre, renuncia ao seu amor pela personagem de Ingrid Bergman, guardando do mesmo as boas lembranças: - "E nós?", ao que ele responde: - "Nós sempre teremos Paris."


Solidão, BBB e Luisa no Canadá

Há uma fala de Robert de Niro, no filme Taxi Driver, o clássico de Martin Scorsese, de que nunca me esqueci: - "A solidão tem me acompanhado a vida toda, em todos os lugares. Nos bares, nos carros, nas calçadas, lojas, em todos os lugares. Não há saída: eu sou o homem solitário de Deus." A frase, dita nas circunstâncias da cena, pela boca de um homem atormentado pelas lembranças de uma guerra, claro, tem ainda mais força, mais dramaticidade. No entanto, acho que todos nós, cedo ou tarde, uma vez que seja, vivemos um momento assim, e sabemos o que isso quer dizer.

O milagre está em saber conviver com isso, em aproveitar esse tempo para rever algumas coisas do nosso mundo interior, e buscar na experiência muitas vezes dolorosa da solidão, sentido para a nossa vida. Agora, por exemplo, pelo menos no que diz respeito à vida amorosa, tenho, por opção, dado um tempo para mim, para me curtir mais um pouco, junto dos meus livros, meus discos, meus filmes ou, o que é maravilhoso, para o ócio momentâneo de que todos nós precisamos um dia... e que nos faz muito bem.

O mal está em que poucas vezes somos capazes de trabalhar a solidão com a sabedoria necessária, e fugimos dela como desesperados (ou desesperançados da felicidade que não seja ao lado de alguém), não raro como faz no vigoroso filme de Scorsese a personagem Travis Bickle. O filme, aliás, é antes de tudo uma obra sobre a busca incansável do outro, essa tentativa de encontrar em alguém a parte perdida de nós mesmos, que é, em essência, o que existe de dramático na solidão com que não sabemos lidar em momentos cruciais de nossas vidas. Por isso, estou certo, é um filme tão atual, mesmo decorrido tanto tempo desde que foi rodado, por volta de 1975, 76.

Dia desses o revi, pela terceira ou quarta vez, não me lembro, e fiquei novamente tão seduzido pela densidade do seu roteiro e pela beleza de linguagem com que Scorsese soube à perfeição narrar a história de Travis, esse heroi tão moderno, tão representativo desses tempos em que se relacionar com o outro parece tão complicado para a grande parte das pessoas. Numa cena inesquecível do filme, diante do espelho, Travis, como que num tipo de ato falho, dirige-se à sua imagem e indaga: - "Você está falando com quem?" Para responder em seguida, angustiado: - "Bem, eu sou o único aqui!"

Num ensaio sobre Taxi Driver, Roger Ebert, o renomado crítico de cinema americano, faz sobre o filme de Martin Scorsese uma ponderação bastante consistente, quando afirma que 'a mensagem subjacente [...] é que um homem alienado é incapaz de estabelecer relacionamentos normais e termina se transformando num solitário.' Num mundo em que os valores estão de tal forma revirados, em que BBBs e tantas inacreditáveis tolices ocupam espaços preciosos de nossa televisão, a exemplo do "... Menos, Luisa, porque está no Canadá!", tenho medo, muito medo de que estejamos caminhando para um mundo da mais perversa solidão: aquela que é resultado da nossa alienação, da nossa perturbação intelectual e da nossa vulgaridade interior. Que pena!

O abismo entre autor e obra

Li com entusiasmo o livro O vento do mar, do poeta e prosador Lêdo Ivo. Lançado há dois anos, só agora chega em nova edição às livrarias da cidade. Extremamente bem cuidado do ponto de vista editorial, o livro reúne textos críticos e memorialísticos, constituindo em seu conjunto um tipo de autobiografia bastante envolvente. Assim, entra-se em contato com a história pessoal e intelectual de um dos maiores vultos das letras nacionais -- e principal poeta da chamada Geração de 45, em que figuram personalidades importantes da grande literatura brasileira, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Ferreira Gullar.

Gostoso, pela leveza do texto e pelo tom poético que é mesmo uma marca da escritura de Lêdo Ivo, O vento do mar traz belíssimos ensaios sobre alguns dos principais escritores brasileiros, modernistas todos, com quem o autor privou de amizade estreita e com os quais conviveu em diferentes lugares, de Maceió, onde nasceu, ao Rio de Janeiro e a outras cidades mundo afora. Mas são os textos sobre Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Gracialiano Ramos que constituem o que há de mais interessante no livro. Sobre o autor de Vidas Secas, alagoano como Ivo, passa-se a conhecer um lado pouquíssimo conhecido de sua personalidade: o homem profundamente reacionário, política e esteticamente falando, rancoroso, ácido em suas críticas pessoais e incapaz de perdoar. Além de vaidoso e afeito a bajulações, desde que fosse ele o alvo da atenção.

Leio isso e ponho-me a pensar: não se pode mesmo misturar o autor e sua obra. Tem sido assim desde tempos remotos. Leonardo da Vinci, o maior gênio da Arte em todos os tempos, era um vaidoso doentio, incapaz, por exemplo, de suportar que outros gênios pudessem brilhar. Michelângelo foi alvo de sua perseguição, como está em qualquer bom manual de história da arte; Picasso arrancava os cabelos (que não tinha!) diante do sucesso de alguns pintores contemporâneos, a exemplo do que ocorreu a Modigliani. O mesmo que, por sua vez, levou ao desespero, que culminaria com o suicídio, grávida, a mulher Jeanne Hébuternne. Tal qual faria Picasso com as mulheres com as quais viveu. Tolstói, o incomparável romancista de Anna Karenina e Guerra e Paz, era também um marido autoritário e castrador. E por aí vai.

No livro de Lêdo Ivo, uma declaração atribuída a Gracialiano Ramos, a mim, que sou um admirador confesso de sua literatura de altíssimo nível estético, causou espécie: - "Para que liberdade de imprensa e de pensamento? Para o povo se envenenar com esses livros chinfrins, cheios de imoralidade e de erros de gramática?" Contradições à parte, vindas tais afirmações de um comunista, existem no livro revelações ainda mais graves, como uma em que Ivo insinua a prática de tortura ou coisas piores contra os moradores de rua de Palmeiras dos Índios, à época em que Graciliano Ramos foi prefeito da cidade. Inacreditável, sobremaneira em se tratando de um artista que nos legou uma obra imorredoura e profundamente humana.

Saudade entre aspas

Outro dia, uma amiga me enviou um texto em que aparece uma bela definição de saudade, este sentimento sobre o qual tenho escrito tantas vezes no blog: "Saudade é o amor que fica!" Li-a, e me entreguei a uma divagação gostosa (e um tanto triste, é verdade!) sobre pessoas que passaram em minha vida e que, às vezes na contramão do que seria mais lógico, continuam vivas no coração, apesar do tempo e da distância. Só então pude ver que é mesmo assim: Saudade é o amor que fica!

Uma a uma, foram voltando à mente algumas outras definições, na literatura, na música, no cinema. Proust, o escritor francês de Em busca do tempo perdido, um livro que marcou minha vida, levanta sobre a saudade uma questão desconcertante: "Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?" Para Bob Marley, "Saudade é um sentimento que, quando não cabe mais no coração, escorre pelos olhos." Em Asa Partida, a mais bela, a mais comovente de suas músicas, Raimundo Fagner desabafa: "E continua o teu sorriso no meu peito, esta saudade, o cigarrro, a luz acesa. E esta noite posta sobre a mesa." Diz isto antes de concluir: "Eu não queria a vida desse jeito, meu olho armando o bote sem futuro!"

Que dizer da afirmação certeira de Charles Baudelaire?: "Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno!" Ou uma outra, atribuída a Pablo Neruda: "Saudade é amar um passado que ainda não passou; é recusar um presente que nos machuca; é não ver o futuro que nos convida." O educador Rubem Alves, nos clarifica que "A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar." Ocorre-me lembrar dos versos, não do seu autor: "Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor não foi embora, mas a pessoa amada sim." E Cecília, "Quando penso em você, encho os olhos de saudade." De Martha Medeiros, a adorável cronista gaúcha, vem a sábia reflexão: "Saudade a gente tem é dos pedaços de 'nós' que ficaram pelo caminho."

Há, contudo, sobre a saudade, versos mais 'valentes', como o de Ana Carolina, na letra de uma canção: "Eu não te procurei para que a saudade fortalecesse o nosso amor!" Mais frios, como em Pessoa: "O mundo é dos que não sentem..." Mais ternos, como em Quintana: "Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho." Impassíveis, como em La Fontaine: "A ausência tanto é um remédio contra o ódio, como um veneno contra o amor!"

Na poesia memorialística de Drummond deparamos com o verso antológico: "Itabira é apenas um retrato na parede. Mas como dói!" Nos meus tempos de menino, ouvia minha mãe cantar: "Saudade, torrente de paixão. Emoção diferente, que aniquila a vida da gente... Uma dor que não sei de onde vem." Minha mãe tinha uma veia poética e escrevia cartas lindíssimas. Certa vez, estando eu distante, que quase criança já corria as estradas do mundo, disse-me numa delas: "Filho, toda noite, pelas oito horas, olha para a lua, se lua houver. Através dela, meus olhos haverão de encontrar os teus!" Lembro disso e o peito se abre ao meio. Isto o que a saudade é!




Antes de mergulhar

Toda noite eu arrancava meu coração. Mas de manhã ele tornava a crescer. (O Paciente Inglês)


Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna deste sábado. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim. Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Valorize as pequenas coisas, exercite a delicadeza, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2011 está chegando ao fim, foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!



Natal na Rua do Fogo

Dona Lili, desde que o marido morrera, havia muitos anos, vivia na mais desumana solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer, comprada nas casas Pernambucanas em módicas prestações. A rotina de sempre: receber clientes -- cada vez mais raros nesses tempos de butique --, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, fecho éclair, tubo de linha, agulhas, alfinetes: - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas, Fernando", dizia esperançosa ao dono do armarinho.

Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal, e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado, o dourado da abotoadura esfregado ao vestido, para conservar o brilho. O desvelo de uma apaixonada, nem parecia que já se contavam 27 anos de viuvez.

No começo, passados os quatro ou cinco anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de casar de novo, "quarentona muito da bem apanhada!", brincavam. Mas o tempo, amigo das surpresas, não fazia surpresa para dona Lili. A vida vidinha ia passando e, com ela, a juventude da velha costureira, o verde dos olhos ainda capaz de chamar a atenção... Nem filhos tivera, e Raimunda, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili por muitos anos, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz. Mas dona Lili nunca maldizia a vida, "até que Deus me leve para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.

Dia após dia, a rotina era a mesma no velho casarão: varrer, lavar, passar, fazer a comida e, no sem-fim daquela solidão, arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado contra o vestido de organdi para retomar o brilho.

Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa de tartaruga segurando o penteado simplório e o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se sobre o parapeito da janela para admirar o mundo: o movimento da rua, as barracas de guloseimas e bugigangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento do Menino-Deus, dali a poucas horas. E que a vida, no eterno viravoltear das coisas, anunciava-se nova a partir daquela noite, porque era Natal.

Alforriando o olhar para o longe da rua, a boa senhora deixou-se transportar para os velhos tempos ao lado do marido, a missa do galo na Matriz, as voltas incontáveis sobre o calçadão da praça (o braço enlaçando a cintura de Murilo) e aquela sensação gostosa de que a vida era um milagre...

Cansada, que por sorte foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu com cuidado, tateando o ar, o longo corredor e, como uma sombra, adentrou o quarto para dormir, não sem antes reorganizar as gavetas do marido, as gravatas, o pente, a navalha de barbear, a aliança -- "Ainda mando o joalheiro tirar os riscos!" --, o dourado da abotoadura arrastado no vestido para readquirir o brilho.

Lá fora, ainda se podia ouvir o pipocar das bombas, dos fogos de artifício, o badalar dos sinos da Matriz... Antes de assoprar a vela bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia havia 27 anos, beijou o retrato de Murilo, enquanto duas lágrimas, serenamente, rolaram sobre as maçãs do rosto.

Na manhã seguinte, a custo, conseguiu-se entrar no velho casarão, onde acharam dona Lili sem vida, em decúbido dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos. Ao enterro, compareceram dezoito pessoas, onze homens, seis mulheres e um menino.

Dizem que do interior da velha casa, à meia-noite, por muitos anos ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

O amor do futuro

A Revista da Cultura traz, em sua edição de dezembro, um curioso artigo da psicanalista Regina Navarro. Para ela, está com os dias contatos o relacionamento 'fiel', fundamentado no que considera a fantasia de que, para ser feliz, só pode existir 'uma pessoa certa' com quem nos relacionar. A tese, sobre a qual escrevi há algum tempo neste espaço, reedita o que Navarro defende no best seller A cama na varanda. Até aí, nada de novo, não se leve em conta o fato de que, com distribuição gratuita, a revista tende a atingir um público maior e, em princípio, mais susceptível de se deixar influenciar. Ou não, como diria Caetano.

O que chama a atenção agora, é o fato de que, cada vez mais, a psicanalista tem baseado a sua teoria em dados obtidos em seu consultório, uma espécie de muro das lamentações classe A, para o qual se dirige todos os dias um contingente feminino de elevado status social e, supostamente, de maior escolaridade. Nesse sentido é que Navarro cita, já no início do artigo, um caso em que está envolvida uma professora de 33 anos. Sil, como é referida no texto, depois de um tempo curtindo a vida de solteira, descobre-se apaixonada por Mário, com quem passa a dividir uma experiência amorosa absolutamente feliz. Até que um dia, sem que existam motivos aparentes, a admiração e o desejo pelo namorado vão diminuindo e ela passa a achar a relação desinteressante: - "De uns tempos para cá, tenho me decepcionado com o Mário. Chego a achar que ele não é essa maravilha que eu imaginava." A agonia do amor.

A razão (ou razões) por que isso ocorre, sabemos: quando nos apaixonamos, invariavelmente construimos uma relação idealizada, e o objeto do nosso desejo é fruto de uma utopia, de uma cegueira momentânea em face das limitações e imperfeições do outro, fenômeno absolutamente natural, soubéssemos, ao contrário do que quase sempre ocorre, lidar com esse sentimento fugaz -- que é a paixão -- com o equilíbrio necessário quando do nosso retorno à realidade. Se nos falta esse tino, essa aceitação da realidade humana, com suas imperfeições e suas contradições mais íntimas, o insucesso da relação é inevitável.

Segundo Navarro, no que considero o ponto alto de sua teoria, "o amor é uma construção social e em cada período da história se apresentou de uma forma." Se é procedente a sua afirmação, e é, num tempo em que a individualidade é cultuada como um bem inalienável, a tendência lógica é que homens e mulheres se atirem em busca de novas descobertas. E não foi sempre assim?, haverá de questionar o leitor. Sim, essa busca é inerente ao homem de todos os tempos. A diferença, diz a pesquisadora, é que, desta vez, ela se dá para dentro de si mesmo. Ou seja, no caso, já não precisamos do outro para ser feliz.

A morte do amor romântico, como está anunciada no artigo de Regina Navarro, abre espaço para o amor do futuro, "com a possibilidade de amar e de nos relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo." Em certa medida consistente, a teoria de Navarro peca, no entanto, por não considerar que, sendo uma construção social, como afirma, o amor traz dentro dele todas as contradições de qualquer construção social. Inclusive a fantasia de querer amar e ser amado com exclusividade.

A separação em números

É fato: casa-se mais, separa-se mais, recasa-se mais. Nunca tive pruridos em relação a certas coisas que comumente ruborizam a maioria das pessoas. O fato de ter casado muitas vezes, por exemplo. No meu caso foram três, com três mulheres que um dia foram os meus amores e com as quais dividi casa, vivi momentos importantes, viajei muito, fiz projetos e realizei sonhos. E, claro, com as quais dividi a dor de toda separação. Foram relacionamentos felizes. Acabaram, o que não é o mesmo que dizer que não deram certo. Foram 10, 10 e 11 anos. Tempo bom, como se pode ver. É verdade que, nesse aspecto, estive sempre à frente do meu tempo e o primeiro deles, tinha eu 20 anos, não precisou de papeis passados para acontecer. Que diferença fez? Nunca fui freelancer em matéria de amor. Sexo é outra coisa. Mas amar exige proximidade, convivência, roçar de pele na madrugada.

Escrevo sobre isso quando tenho em mãos alguns resultados do último censo do IBGE. 243.224 casais brasileiros se divorciaram no ano passado. Nada preocupante: são quase 500 mil brasileiros que tentaram ser felizes juntos, até que a convivência por algum motivo tenha se tornado insuportável. E, o que mais importa, que viram na separação legal a alternativa para tentarem reconstruir suas vidas e buscar de novo a felicidade.

Tenho dois filhos que me amam e que amam sua mãe e o seu atual marido, com quem mantenho uma relação de respeito, cordialidade e admiração recíprocos. Não raro, sentamos à mesa para pôr em dia o que é de interesse comum de nossas vidas: os filhos à frente. Casar não é renunciar à vida em favor de ninguém, o que muitas vezes constitui o segredo dos casamentos longevos. Nem a separação, por dolorosa que seja, é algo com que mesmo os filhos não possam lidar com naturalidade. É bastante que os pais saibam administrar esse momento difícil com serenidade e equilíbrio, o que muitas vezes significa saber chorar juntos. Há sempre mais que adeuses nas despedidas.

Não há separação sem dor. É natural que haja sofrimento, notadamente quando existem filhos pequenos. Assim como é natural que uma das partes saia machucada, que nem sempre é possível, nesse aspecto, que a separação se dê por vontade subjetiva dos dois. Quando isso acontece, tudo se torna mais fácil, desde a partilha dos bens até a educação dos filhos. No meu caso, isso jamais foi um problema. Nunca foi necessário marcar dia e hora para ver os pequenos ou território neutro para apanhá-los. Por isso, estou certo, nossos filhos puderam crescer bem, saudáveis e felizes.

Vejo que há entre os jovens um potencial romântico enorme, e que, por mais levianas que pareçam ser as relações, no tempo do "ficar", compram-se mais livros sobre relacionamentos e sobre o amor; veem-se mais filmes sobre casais, encontros, reencontros, perdas e recomeços. Sinto que ainda é possível alimentar o sonho de que o casamento seja para sempre. É preciso, no entanto, pensar mais sobre as renúncias e as concessões que esta decisão exige. Acho mesmo que existe no casamento alguma coisa sagrada, que deve ser alimentada no coração dos nossos filhos, mas que ele nunca seja visto como um tipo de condenação, uma morte em vida. Separar pode ser um ato de amor.






A qualquer tempo, eis a lição

Durante o happy hour da sexta-feira, depois de alguns uísques, amigo resolve desabafar a sua neura com a certeza de que a velhice vai chegar: - "Velhice é uma doença. Não me identifico mais na imagem do espelho. Estou me tornando uma outra pessoa!" É verdade que ninguém conseguiu conter o riso, mas, no discreto disfarçar de cada expressão, passado o hilário da coisa, pude perceber alguma medida de preocupação. Mínima que fosse.

Ataquei de Cecília: "Eu não tinha este rosto de hoje, / assim calmo, assim triste, assim magro, / nem estes olhos tão vazios, nem este lábio amargo. / Eu não tinha estas mãos sem força, / tão paradas e frias e mortas; / eu não tinha este coração que nem se mostra. / Eu não dei por esta mudança, / tão simples, tão certa, tão fácil. / Em que espelho ficou perdida a minha face?" E a conversa me fez lembrar de tantas outras... dos tantos e-mails que me chegam de amigos, para alguns dos quais está ainda tão distante a indesejada das gentes, como no verso clássico de Bandeira.

Ocorre-me um diálogo do belo filme do argentino Marcos Carnevale: a filha visita o pai viúvo e depara com o velhinho preparando um banho com um entusiasmo que havia tempos não possuia. Os remédios, aos montes, atirados na lixeira. "Papai, o que é isso? Decidiu morrer?" E ele responde: - "Não. Decidi viver!" Alfredo, como se chama o bom velhinho, descobrira-se apaixonado aos 80 anos. Nada surpreendente, não fosse Elsa, o objeto de sua paixão, mais velha que ele, imprevisível e feliz do alto dos seus 83 anos, que (re)ensina a Fred a alegria de viver.

A cena em que os dois fogem sem pagar a conta do jantar em um restaurante, é desconcertante de tão bonita e tão cheia de significados. Para não falar de um dos momentos altos da cinematografia nesses últimos anos, que é a sequência em que Fred torna possível a realização de um sonho antigo de Elsa: tomar banho à noite, na Fontana de Trevi, em Roma, numa citação da cena clássica de Anita Ekberg e Marcelo Mastroiani em A doce vida, de Fellini. A cena dói de tão linda.

Envelhecer é passar algumas páginas de nossas vidas... e complicamos tanto! Fazer amigos e preservar os que já temos; viajar, ler um bom livro, assistir a um filme de que nunca vamos esquecer; descobrir e redescobrir a beleza que está nos pequenos gestos, nas coisas simples, na capacidade de amar que devemos exercitar sempre... Acho que são tantos os caminhos para que não percamos a nossa identidade, para que continuemos nos reconhecendo na imagem do espelho... Elsa, a velhinha serilepe que nos faz chorar e rir às escancaras no filme de Carnevale, ajuda-nos a entender a vida e a tirar dela o que de melhor tiver para nos dar. A qualquer tempo, eis a lição!






Isto o que a Arte é

De bem longe, vem um comentário sobre a crônica do último sábado: - "Veja como são as interpretações. O seu texto não me fez pensar que você tivesse se tornado descrente quanto ao amor. Logo você...?" Li o e-mail e fiquei matutando sobre esta relação curiosa entre o eu que está naquilo que escrevemos e o eu biográfico, de resto um dos problemas mais comuns no complexo terreno da Estética. Pode o conhecimento da vida do artista desvendar os mistérios de sua arte? Pode a obra de um artista revelar a personalidade do seu autor? Escrever é sempre uma arte, mesmo quando se trata de uma crônica de jornal.

A personalidade artística é uma, a personalidade do autor é outra. A importância da arte reside em ela provocar sentimentos que nem sempre coincidem com os setimentos de quem a produz, mesmo no instante de uma escritura, como ocorre a um cronista quando escreve o seu texto. A arte existe quando alguém é capaz de expressar, por meios formais exteriores, os sentimentos que experimentou direta ou indiretamente, e encontra caminhos estéticos pelos quais transmite esses sentimentos aos outros, contagiando-os com a mesma emoção que sentiu, sente ou que é capaz de imaginar o que seria sentir.

Uma das funções indispensáveis à arte, é que ela possibilite a comunicação entre aquele que a realiza e aquele que a recebe, pelos diferentes meios com que pode o artista se expressar. Por isso, lotamos os teatros, os museus, compramos romances e livros de poesia. Por isso, vamos ao cinema e confundimos, no espaço de uma, duas horas, a nossa vida com a vida dos personagens. Choramos, sentimos ódio, abrimos a alma e o coração diante daquela irrealidade como se tratasse da realidade intensificada. E essa comunicação é tanto maior e mais poderosa porque, através da arte, o artista é capaz de transmitir sentimentos, enquanto as palavras, em estado frio de dicionário, apenas podem transmitir pensamentos.

A palavra saudade, por exemplo, não tem um equivalente exato em outro idioma que não o português. Como dizer o que ela significa para quem desconhece o nosso idioma? Como levar um inglês, um francês, um alemão, a compreender o que representa este sentimento intraduzível comum a todos os homens de qualquer país? O poeta nos ensina: - "A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." Ao que consta, Chico Buarque jamais experimentou a dor que é perder um filho, mas é capaz de "mentir" esta experiência com a genialidade do seu talento, a sensibilidade do poeta extraordinário que é. E com ele, sentimos a dimensão de uma dor que jamais sentimentos. Trocadilho à parte, é isto o que a arte é.

A propósito, o verso antológico que citamos acima, no contexto do poema, não se refere à perda de um filho. É a metáfora de que se vale o eu lírico para a expressar o que dói a perda da mulher ou do homem que se ama. Quando se perde um grande amor, está na letra de Pedaço de mim, a saudade que se sente "é o pior tormento, é pior que o esquecimento, é pior do que se entrevar."