Entre meu natalício, em novembro, e o Ano Novo, fui agraciado com muitos presentes, todos vindos de amigos e parentes adoráveis, e carregados de profunda simbologia. Há dois tipos de coisas que adoro receber: canetas e livros. Por mais simples que sejam. As primeiras me dão a impressão de que vou gravar em vários lugares a certeza de que passei pela Terra, deixando marcas do meu trabalho e da minha alma. Os segundos me enriquecem a alma. Eis que recebi vários. Entre eles, um me chamou a atenção, pela origem e pelo conteúdo. De Lia, minha sobrinha adolescente, recebi Do amor e outras crônicas, de autoria de Álder Teixeira. Pouco volumoso, o que já foi um convite para se ler de uma sentada, num domingo de folga, suas duzentas e seis páginas são surpreendentes e fascinantes.
Álder é a pessoa talhada para falar de amor (e escrever). A Natureza presenteou-o com belo porte físico, sua afinidade pelas letras o fez um intelectual, professor de Literatura, além de um papo agradável, principalmente, diga-se de passagem, para as mulheres. Ao longo da vida teve grandes amores, "com mulheres maravilhosas", como ele mesmo diz. Um casal de belos filhos é um exemplo da amplitude e profundidade com que viveu o amor em toda sua plenitude. E Álder não se fez diferente dos demais mortais, ao vivenciar o amor, prova que esse sentimento cantado e decantado em todas as línguas, não respeita blindagens sociais, financeiras ou intelectuais. Sofreu, fez sofrer, perdoou e foi perdoado. Avançou, recuou, às vezes venceu, às vezes foi derrotado. Mas, pelo brilho do seu conteúdo pessoal, tem mais bagagem para falar do assunto. Mesmo que não tenha razão em tudo, mas seu relato tem mais brilho.
Álder Teixeira não exprime apenas sua visão do amor. Mas busca raízes históricas, que vão de Platão a Nelson Rodrigues. Respeita o pensamento e avaliação de homens e mulheres de todos os idiomas e matizes. Em suas páginas desfilam romances liberais como o de Sartre e Simone de Beauvoir ou a paixão desenfreada de Romeu e Julieta, ligações que desafiam o tempo como Tarcísio Meira e Glória Menezes. Não falta Shakespeare, em Hamlet, nem Rosa Montero, em Paixão e desamor. Da literatura parte para a música. Explora Vinicius, Elano de Paula, levita na dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues. É manifesta sua admiração pelo "Rei" Roberto Carlos. Expõe ideias e manifestações de alunas suas e de leitoras. Enfim, trabalha como um apresentador de TV, lidando com o universo inteiro de seres humanos, agindo muito mais como moderador, para deleite de seu público, enriquecendo o debate.
Por fim, o livro é uma delícia. Álder discorre, ora com suavidade, ora com apreensão, ora com rispidez sobre o amor. Não nos deixa certos de ter uma rígida posição sobre o amor, mas muito mais uma flexibilidade tão grande quanto a do próprio sentimento. Afinal, amor é como democracia: cada um tem seu jeito, vive com ela, dorme e acorda com ela, ora adora-a, ora odeia, mas sempre acha que ela é a melhor, e sabe que tem de respeitar o sentimento do outro. Se você já amou, se acha que não ama mais, ou se não amou ainda, vale a pena ler Do amor e outras crônicas. Você vai terminar melhor do que quando começou a lê-lo.
O milagre do amor e da paixão
Revista Isto é, em edição recente, publicou interessante matéria sobre o Amor. Tomando por base pesquisa levada a efeito pela Universidade de Northwestern's, de Weinberg, nos Estados Unidos, editores de comportamento mostram que algumas crenças consagradas sobre o relacionamento entre homens e mulheres são equivocadas ou sofreram mudanças significativas. A revista aponta nove mitos sobre um dos sentimentos mais estudados da humanidade. Um deles, particularmente, é o de que o homem tende a ser mais atraído pela beleza física enquanto a mulher valoriza em princípio o status social do homem. Segundo os resultados obtidos pela conceituada universidade americana, a beleza física ainda é "a caracteríscia mais desejada tanto para os homens quanto para as mulheres."
Coisas das pesquisas, posto que a matéria não leva em consideração que a beleza é em si um dos temas mais complexos de todos os tempos, objeto de exame num dos campos mais ricos da Filosofia, a Estética. Etimologicamente, sabe-se, a palavra vem do grego e significa "sensação", o que justifica o fato de ser essa uma parte da Filosofia que trata de uma teoria geral da sensibilidade. Em Crítica da Razão Pura, por exemplo, Kant toma como seu objetivo de estudo a sensilidade e as formas puras do sentimento. Assim, é ela a ciência do Belo. Mas, o que seria o Belo? A Verdade, como quis Platão? E o que seria a Verdade? O Belo é o que agrada, como em Santo Tomás de Aquino, para quem "belas são as coisas que vistas, agradam"? Ou, como está em Aristóteles, "o Belo consiste na ordem e na grandeza"? Ou, ainda, "a expressão sensível do infinito", segundo Kant.
Quem nunca ouviu a expressão?: - "Para quem ama, o feio bonito lhe parece!" Bingo. Acho que a sabedoria popular, como não tem sido raro, traz uma percepção mais satisfatória sobre o assunto. Relativiza o conceito do Belo, vai nas entranhas do que, no milagre de um encontro, faz correr pela espinha o friozinho inconfundível da atração. A química, para usar de uma palavra mais contemporânea. Um dia, na praia, ela abaixou os óculos de sol e ele deparou com o sortilégio do desejo, vindo dos olhos que jamais vira iguais. Ele era gordo, meio careca, mas tinha um jeito de falar, de usar as mãos... Ela, um nariz ligeiramente adunco, mas o sorriso era estonteante. E tinha um viço no olhar. Ele era baixinho, mas tinha um jeito terno que a enlouqueceu. Se magra, demasiado magra, que pernas torneadas, que textura de pele. Ele era manco, mas possuidor de uma sensibilidade... e suas palavras tinham poesia. E assim, você se sentiu dominada pela força da paixão, enamorou-se na rapidez de um instante. E a vida lhe pareceu impossível sem ele ou ela, a partir de 'agora'.
A beleza física, pois, é algo que se diferencia para um e outro, que se escalona em ordens variadas, o sublime, o belo, o bonito, o formoso. A inteligência, a capacidade de sedução, o charme, a correção do caráter, a elegância e outros tantos atributos, até onde posso ver, podem pesar muito mais desde o primeiro lance do olhar - e fazer desmoronar o coração. Eis que muitas vezes o inexplicável se explica, "ele é belo e ela tão feia", "ela é lindíssima, o cara um bagulho." Como pode?, você se pergunta. E o coração dele ou dela tem para o fato a mais convincente explicação. A relatividade da Beleza, o milagre do amor e da paixão.
Coisas das pesquisas, posto que a matéria não leva em consideração que a beleza é em si um dos temas mais complexos de todos os tempos, objeto de exame num dos campos mais ricos da Filosofia, a Estética. Etimologicamente, sabe-se, a palavra vem do grego e significa "sensação", o que justifica o fato de ser essa uma parte da Filosofia que trata de uma teoria geral da sensibilidade. Em Crítica da Razão Pura, por exemplo, Kant toma como seu objetivo de estudo a sensilidade e as formas puras do sentimento. Assim, é ela a ciência do Belo. Mas, o que seria o Belo? A Verdade, como quis Platão? E o que seria a Verdade? O Belo é o que agrada, como em Santo Tomás de Aquino, para quem "belas são as coisas que vistas, agradam"? Ou, como está em Aristóteles, "o Belo consiste na ordem e na grandeza"? Ou, ainda, "a expressão sensível do infinito", segundo Kant.
Quem nunca ouviu a expressão?: - "Para quem ama, o feio bonito lhe parece!" Bingo. Acho que a sabedoria popular, como não tem sido raro, traz uma percepção mais satisfatória sobre o assunto. Relativiza o conceito do Belo, vai nas entranhas do que, no milagre de um encontro, faz correr pela espinha o friozinho inconfundível da atração. A química, para usar de uma palavra mais contemporânea. Um dia, na praia, ela abaixou os óculos de sol e ele deparou com o sortilégio do desejo, vindo dos olhos que jamais vira iguais. Ele era gordo, meio careca, mas tinha um jeito de falar, de usar as mãos... Ela, um nariz ligeiramente adunco, mas o sorriso era estonteante. E tinha um viço no olhar. Ele era baixinho, mas tinha um jeito terno que a enlouqueceu. Se magra, demasiado magra, que pernas torneadas, que textura de pele. Ele era manco, mas possuidor de uma sensibilidade... e suas palavras tinham poesia. E assim, você se sentiu dominada pela força da paixão, enamorou-se na rapidez de um instante. E a vida lhe pareceu impossível sem ele ou ela, a partir de 'agora'.
A beleza física, pois, é algo que se diferencia para um e outro, que se escalona em ordens variadas, o sublime, o belo, o bonito, o formoso. A inteligência, a capacidade de sedução, o charme, a correção do caráter, a elegância e outros tantos atributos, até onde posso ver, podem pesar muito mais desde o primeiro lance do olhar - e fazer desmoronar o coração. Eis que muitas vezes o inexplicável se explica, "ele é belo e ela tão feia", "ela é lindíssima, o cara um bagulho." Como pode?, você se pergunta. E o coração dele ou dela tem para o fato a mais convincente explicação. A relatividade da Beleza, o milagre do amor e da paixão.
A natureza do ciúme
"Quem ama tem ciúme". A frase é da psiquiatra italiana Donatella Marazziti, autora do livro ... E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, publicado no Brasil pela Lumiara. Se não traz novidades muito significativas para a interpretação desse sentimento que atormenta a vida de tantos casais, a obra estabelece a existência de tipos de ciúme que podem ser 'trabalhados' a fim de que, mesmo nos casos ditos anormais, os amantes possam levar uma relação saudável. A exemplo do que teoriza Freud em um dos estudos mais respeitados sobre o tema, objeto de uma crônica publicada no meu livro Do Amor e Outras Crônicas, para Donatella existem diferentes tipos de ciúme: o depressivo, o obsessivo, o paranoide, o hipersensível e o ansioso.
O primeiro, segundo a psiquiatra italiana, é comum nos casos em que um dos parceiros sente-se inferior ao outro. O curioso é que neste caso o ciumento não manifesta seu sentimento e tende a sofrer em silêncio, na expectativa de que, cedo ou tarde, será traído. O segundo, a que chama de obsessivo, é recorrente e marcado por desentendimentos. O ciumento obsessivo é levado a procurar 'provas' em tudo, como a agenda do celular do parceiro e as mensagens realizadas ou recebidas. Normalmente tem a necessidade de se sentir amado e cobra do outro declarações do tipo "eu te amo!". No terceiro tipo, o ciúme paranoide, o ciumento tem a quase convicção de que é traído. Exige do parceiro comportamentos e renúncias iguais aos seus, como deixar de sair com amigos em favor da companhia um do outro. É um caso anormal, posto que o ciumento vê indícios muitas vezes extraídos da sua capacidade de fantasiar. No ciúme hipersensível, comum nas pessoas muito afirmativas e melindrosas, o ciumento sofre em silêncio, mas torna a relação pesada e sufocante. E, por último, o tipo ansioso, que leva a pessoa a viver em alerta, sob o efeito de uma ansiedade incontrolável.
Donatella levanta afirmações curiosas, inclusive, quando se refere aos casos em que o amor já faliu e a pessoa nutre pela outra um sentimento de posse. É o mais grave, doentio e a superação do problema requer tratamento, que nem sempre apresenta resultados totalmente positivos. O que é realmente significativo em ... E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, por certo, é que a autora reconhece a existência do ciúme como algo inerente à vida de todo amante, um sentimento natural e importante, quando bem trabalhado, para a manutenção de relações amorosas bem sucedidas e duradouras. A estudiosa aponta alternativas de ação contra esse sentimento muitas vezes insuportável e destruidor. Donatella é autora, também, do clássico A Natureza do Amor, à venda no Brasil desde 2007. Recomendo.
O primeiro, segundo a psiquiatra italiana, é comum nos casos em que um dos parceiros sente-se inferior ao outro. O curioso é que neste caso o ciumento não manifesta seu sentimento e tende a sofrer em silêncio, na expectativa de que, cedo ou tarde, será traído. O segundo, a que chama de obsessivo, é recorrente e marcado por desentendimentos. O ciumento obsessivo é levado a procurar 'provas' em tudo, como a agenda do celular do parceiro e as mensagens realizadas ou recebidas. Normalmente tem a necessidade de se sentir amado e cobra do outro declarações do tipo "eu te amo!". No terceiro tipo, o ciúme paranoide, o ciumento tem a quase convicção de que é traído. Exige do parceiro comportamentos e renúncias iguais aos seus, como deixar de sair com amigos em favor da companhia um do outro. É um caso anormal, posto que o ciumento vê indícios muitas vezes extraídos da sua capacidade de fantasiar. No ciúme hipersensível, comum nas pessoas muito afirmativas e melindrosas, o ciumento sofre em silêncio, mas torna a relação pesada e sufocante. E, por último, o tipo ansioso, que leva a pessoa a viver em alerta, sob o efeito de uma ansiedade incontrolável.
Donatella levanta afirmações curiosas, inclusive, quando se refere aos casos em que o amor já faliu e a pessoa nutre pela outra um sentimento de posse. É o mais grave, doentio e a superação do problema requer tratamento, que nem sempre apresenta resultados totalmente positivos. O que é realmente significativo em ... E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, por certo, é que a autora reconhece a existência do ciúme como algo inerente à vida de todo amante, um sentimento natural e importante, quando bem trabalhado, para a manutenção de relações amorosas bem sucedidas e duradouras. A estudiosa aponta alternativas de ação contra esse sentimento muitas vezes insuportável e destruidor. Donatella é autora, também, do clássico A Natureza do Amor, à venda no Brasil desde 2007. Recomendo.
A arte do (re)encontro
Na caminhada da praia, reencontro amigo que havia tempos não via. O homem estava exultante. Vai casar novamente com a primeira mulher. Separaram-se por dez anos, durante cujo tempo cada um reconstruiu a sua vida. Tiveram novos filhos e foram felizes, ao que me consta. Constava, uma vez que me diz nunca ter sido feliz na nova relação. Não esquecera a primeira mulher. Por coincidência, romperam seus relacionamentos há coisa de uns seis, sete meses. Mês e pouco atrás, reencontraram-se na sala de espera de um consultório médico. Enquanto aguardavam seus horários, aproximaram-se para uma conversa como há muito não tinham. Daí a um jantar juntos, um flashback sem compromisso, foi um passo. Agora, decidiram morar juntos de novo.
Diz-me que sofrera bastante com a primeira separação. Havia sido decidida pela mulher e o homem entregara-se a um sofrimento sem nome. Emagreceu, desorganizou-se financeiramente, passou a beber muito e fez análise com diferentes especialistas, até tentar reconstruir sua vida de forma mais equilibrada. Mas nunca mais fora feliz de verdade, afirma. Como tivesse umas manchas brancas mas discretas no rosto e nas mãos, novidade para quem não o via há muito, dou a ver minha curiosidade, ao que satisfaz: - "Vitiligo, amigo. Desilusão amorosa leva da reprovação no colégio ao vitiligo." Disfarço a minha surpresa e seguimos a nossa caminhada, entre uma e outra amenidades.
Fiquei contente com a alegria estampada nos olhos do M., o tal amigo. Tirando as marcas da doença, no fundo irrelevantes, o homem está bem. Delineou o corpo, perdeu a barriga e caminha com uma disposição de fazer inveja, dando-se o direito de uns piques de velocista a cada duzentos metros. Vai bem nos negócios e é hoje um exportador de sucesso num campo de que não me recordo neste instante.
Foi o meu melhor amigo dos tempos de faculdade, mas a vida corrida levou-nos, um e outro, a anos e anos de ausência. Mora em São Paulo e só de vez em quando visita o Ceará. Como sabe que escrevo, brinca: - "Como gostava de fazer, escreva uma crônica sobre o nosso reencontro." Fico sem saber se se refere ao reencontro com a ex-mulher, com quem vai juntar escovas decorridos dez anos da separação, ou se ao nosso, amigos de amizade estreita. Na dúvida, sento-me diante do computador para traçar uma linhas em sua homenagem. Ocorre-me Vinícius: - "A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida." Incompleto, poeta. A vida é a arte do (re)encontro.
Diz-me que sofrera bastante com a primeira separação. Havia sido decidida pela mulher e o homem entregara-se a um sofrimento sem nome. Emagreceu, desorganizou-se financeiramente, passou a beber muito e fez análise com diferentes especialistas, até tentar reconstruir sua vida de forma mais equilibrada. Mas nunca mais fora feliz de verdade, afirma. Como tivesse umas manchas brancas mas discretas no rosto e nas mãos, novidade para quem não o via há muito, dou a ver minha curiosidade, ao que satisfaz: - "Vitiligo, amigo. Desilusão amorosa leva da reprovação no colégio ao vitiligo." Disfarço a minha surpresa e seguimos a nossa caminhada, entre uma e outra amenidades.
Fiquei contente com a alegria estampada nos olhos do M., o tal amigo. Tirando as marcas da doença, no fundo irrelevantes, o homem está bem. Delineou o corpo, perdeu a barriga e caminha com uma disposição de fazer inveja, dando-se o direito de uns piques de velocista a cada duzentos metros. Vai bem nos negócios e é hoje um exportador de sucesso num campo de que não me recordo neste instante.
Foi o meu melhor amigo dos tempos de faculdade, mas a vida corrida levou-nos, um e outro, a anos e anos de ausência. Mora em São Paulo e só de vez em quando visita o Ceará. Como sabe que escrevo, brinca: - "Como gostava de fazer, escreva uma crônica sobre o nosso reencontro." Fico sem saber se se refere ao reencontro com a ex-mulher, com quem vai juntar escovas decorridos dez anos da separação, ou se ao nosso, amigos de amizade estreita. Na dúvida, sento-me diante do computador para traçar uma linhas em sua homenagem. Ocorre-me Vinícius: - "A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida." Incompleto, poeta. A vida é a arte do (re)encontro.
A poesia cintilante de Martha Medeiros
Li esta semana o livro Cartas Extraviadas, de Martha Medeiros. Popularmente conhecida como cronista, a escritora gaúcha não é menos talentosa como poeta. A exemplo do que faz nos textos em prosa, Martha revela-se na poesia uma criadora de fina sensibilidade, explorando em textos o mais das vezes ligeiros (embora aqui e além existam nos diferentes livros poemas mais longos e elaborados) o que move a vida das pessoas na vida cotidiana, notadamente quando tematiza com uma percepção a um tempo vertical e simples os ditos motivos eternos, o amor à frente: “Pequeno grande amor / que gerou toda sorte de reflexão / se fosse apenas um pequeno grande amor / passaria longe do meu epicentro / se fosse um grandíssimo amor / estaria tudo ao meu redor devastado / mas foi um pequeno grande amor / daqueles que têm tamanhos para todos os lados / e só podem ser medidos por dentro.”
Martha é um dos nomes mais expressivos da chamada geração de 80 e sua poesia tem extração romântica, mas, do ponto de vista formal, exemplifica à perfeição o que em linhas gerais caracteriza o que há de mais moderno em literatura. Seus poemas não são intitulados, embora no interior dos mesmos se possa sem dificuldade identificar um ou outro verso que lhes cairia bem como título. Cantam as diferentes dimensões da experiência amorosa, ora doída e amargurada, ora confiante na possibilidade de novas conquistas: “De novo a pausa entre um amor e outro / terei dias de vento e noites de embriaguez pela frente / alguns jantares aborrecidos e quanta gente a me insultar / terminaste outro relacionamento, és um homem supérfluo / entre um amor e outro irei ao cinema sozinho / intimamente satisfeito mas faltando uma mão para segurar [...]”.
Mas é quando aborda a dor do abandono e a decisão de superá-la que a poeta produz alguns dos poemas mais belos de sua lavra: “A partir de amanhã não corro mais para atender o telefone / a caixa de fotos vou colocar na última prateleira do armário / onde só alcançarei com muito esforço e escada / a partir de amanhã não abro mais o correio eletrônico / nem voo até sua letra no alfabeto / não passarei mais pela sua rua / a partir de amanhã / nem na vizinhança, atalharei por outro bairro / não há necessidade e meu coração não é de confiança / a partir de amanhã interrompo o surto e esqueço a placa do seu carro / não há perigo de eu sonhar com você, a partir de amanhã / não durmo mais, e as músicas que eu escutava, evitarei / já não te velarei, a partir de amanhã.”.
E, na mesma linha, o poema cortante, literalmente cortante: “Aspiração em mesa de cirurgia: / doutor, não quero tirar culote, barriga ou pedaço da coxa / deixe o corpo como está que tenho mais o que perder / arranque-o de mim, doutor, é desse amor que preciso emagrecer.” Assim, com uma poesia pessoal e simples, mas invariavelmente inspirada, Martha Medeiros canta o amor e seus desencontros, no que se reconhecem aqueles que amam e vivem intensamente as suas diferentes circunstâncias. Com uma dicção e um estilo inconfundíveis, pois, a poeta deixa ecoar nos textos em verso a mesma voz entre ingênua e irreverente que a consagrou na prosa. A exemplo, está em Strip-Tease, livro de 85: “Ele era gago, vesgo e mancava de uma perna / e daí? Era gostoso, inteligente e tinha uma boca linda / sabia dizer coisas belas em horas estranhas / e chorava quando se sentia completamente feliz.”
Ou, em Persona Non Grata, de 1991: “Passei tanto tempo procurando as palavras / que resumiriam nossa relação / mas tudo o que encontrei / foi pontuação / exclamações, interrogações, reticências / muita vírgula no lugar errado / tremas e acentos desatualizados / aspas que deixavam tudo formal / e um ponto final pra lá de precipitado.” Poesia cintilante, compreensível, vigorosa, simplesmente perfeita.
P.S. Leitor estranha que use o substantivo 'poeta' referindo-me a uma mulher. Agradeço a observação purista, mas defendo o que, modernamente, no Brasil e em Portugal, é mais comum nos meios literários: o uso do substantivo como s.2g., a exemplo do que registra o Houaiss em sua última edição.
Martha é um dos nomes mais expressivos da chamada geração de 80 e sua poesia tem extração romântica, mas, do ponto de vista formal, exemplifica à perfeição o que em linhas gerais caracteriza o que há de mais moderno em literatura. Seus poemas não são intitulados, embora no interior dos mesmos se possa sem dificuldade identificar um ou outro verso que lhes cairia bem como título. Cantam as diferentes dimensões da experiência amorosa, ora doída e amargurada, ora confiante na possibilidade de novas conquistas: “De novo a pausa entre um amor e outro / terei dias de vento e noites de embriaguez pela frente / alguns jantares aborrecidos e quanta gente a me insultar / terminaste outro relacionamento, és um homem supérfluo / entre um amor e outro irei ao cinema sozinho / intimamente satisfeito mas faltando uma mão para segurar [...]”.
Mas é quando aborda a dor do abandono e a decisão de superá-la que a poeta produz alguns dos poemas mais belos de sua lavra: “A partir de amanhã não corro mais para atender o telefone / a caixa de fotos vou colocar na última prateleira do armário / onde só alcançarei com muito esforço e escada / a partir de amanhã não abro mais o correio eletrônico / nem voo até sua letra no alfabeto / não passarei mais pela sua rua / a partir de amanhã / nem na vizinhança, atalharei por outro bairro / não há necessidade e meu coração não é de confiança / a partir de amanhã interrompo o surto e esqueço a placa do seu carro / não há perigo de eu sonhar com você, a partir de amanhã / não durmo mais, e as músicas que eu escutava, evitarei / já não te velarei, a partir de amanhã.”.
E, na mesma linha, o poema cortante, literalmente cortante: “Aspiração em mesa de cirurgia: / doutor, não quero tirar culote, barriga ou pedaço da coxa / deixe o corpo como está que tenho mais o que perder / arranque-o de mim, doutor, é desse amor que preciso emagrecer.” Assim, com uma poesia pessoal e simples, mas invariavelmente inspirada, Martha Medeiros canta o amor e seus desencontros, no que se reconhecem aqueles que amam e vivem intensamente as suas diferentes circunstâncias. Com uma dicção e um estilo inconfundíveis, pois, a poeta deixa ecoar nos textos em verso a mesma voz entre ingênua e irreverente que a consagrou na prosa. A exemplo, está em Strip-Tease, livro de 85: “Ele era gago, vesgo e mancava de uma perna / e daí? Era gostoso, inteligente e tinha uma boca linda / sabia dizer coisas belas em horas estranhas / e chorava quando se sentia completamente feliz.”
Ou, em Persona Non Grata, de 1991: “Passei tanto tempo procurando as palavras / que resumiriam nossa relação / mas tudo o que encontrei / foi pontuação / exclamações, interrogações, reticências / muita vírgula no lugar errado / tremas e acentos desatualizados / aspas que deixavam tudo formal / e um ponto final pra lá de precipitado.” Poesia cintilante, compreensível, vigorosa, simplesmente perfeita.
P.S. Leitor estranha que use o substantivo 'poeta' referindo-me a uma mulher. Agradeço a observação purista, mas defendo o que, modernamente, no Brasil e em Portugal, é mais comum nos meios literários: o uso do substantivo como s.2g., a exemplo do que registra o Houaiss em sua última edição.
Hora de chorar com eles
Em meio à cobertura jornalística das trágicas ocorrências no Haiti, um depoimento aparentemente desimportante deixou-me profundamente comovido: - "Queria poder estar lá, ao lado do meu povo, dos meus conterrâneos. Se nada pudesse fazer, pelo menos queria estar chorando com eles." Foram essas as palavras de um jovem universitário daquele país, que estuda em Porto Alegre por força de um desses muitos projetos de cooperação entre nações amigas. É isto, há momentos na vida das pessoas em que quase nada se pode fazer para aliviar o seu sofrimento, amenizar a sua dor, além de chorar com elas.
O fato fez-me recordar uma crônica de Nelson Rodrigues a que fiz alusão no livro Do amor e outras crônicas. Nelson se refere a um amigo que marcara com ele um almoço. Diz o cronista: - "Éramos amigos e fundamos naquela mesa a nossa solidão (a perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real!)." O homem assumia em prantos jamais ter superado a perda do pai. Essas e outras perdas são muitas vezes dores insuportáveis, pelo menos durante um tempo que não se pode estabelecer com precisão. Esta semana pude testemunhar a dor de um amigo que, havia dias, perdera a mulher em um desastre de carro. Ligou-me com a carência de um desesperado: - "Amigo, preciso de ti, não estou suportando mais!" Fui ao seu encontro.
O homem estava numa angústia sem nome, contorsia-se como se uma dor física lancinante o dilacerasse naquele instante. Tinha os olhos injetados. A quem o visse naquele desespero haveria de alguma forma tocar fundo. Nessas circunstâncias, pouco, quase nada se pode fazer, além de compreender o que se passa com o outro. Se não se chora com ele, que nem todos têm a emoção assim aguçada, a presença silenciosa já é o bastante. A presença silenciosa e solidária, a solidão numerosa de um amigo real. Quase sempre, sem dizer palavra, que em certas horas de nada valerá dizer.
Na vida de cada um de nós, quando menos se espera, depara-se com o golpe inclemente. A perda de um parente, de um amor, a derrocada financeira, a doença sem cura... É quando tudo parece não ter mais qualquer sentido. Nesse momento, como que em milagre, muitas vezes de onde quase nada se espera, vem a bondade inata de que nos falou Rousseau. A palavra doce e impotente, o ombro acolhedor, a mão generosa como uma oferenda de Deus. Pouco, quase nada, dizia eu, pode-se fazer para aplacar a ferida aberta, molhada de soluços. É a hora em que a presença silenciosa e solidária, a presença numerosa de um amigo real, como disse o cronista, é algo mais eficaz que toda a ciência, que todos os remédios, que todas as ações. As palavras do jovem haitiano comoveram-me tanto quanto as imagens chocantes na tevê, tanto quanto a própria dor dos nossos irmãos miseráveis e esquecidos, trucidados impiedosamente pela sanha da Natureza. Elas estavam carregadas de amor ao próximo, de solidariedade humana, coisa rara em nossos dias. Além de tudo o que se tem podido fazer de concreto para diminuir o martírio dos nossos irmãos do Haiti, silenciosa e solitariamente, é hora de chorar com eles.
O fato fez-me recordar uma crônica de Nelson Rodrigues a que fiz alusão no livro Do amor e outras crônicas. Nelson se refere a um amigo que marcara com ele um almoço. Diz o cronista: - "Éramos amigos e fundamos naquela mesa a nossa solidão (a perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real!)." O homem assumia em prantos jamais ter superado a perda do pai. Essas e outras perdas são muitas vezes dores insuportáveis, pelo menos durante um tempo que não se pode estabelecer com precisão. Esta semana pude testemunhar a dor de um amigo que, havia dias, perdera a mulher em um desastre de carro. Ligou-me com a carência de um desesperado: - "Amigo, preciso de ti, não estou suportando mais!" Fui ao seu encontro.
O homem estava numa angústia sem nome, contorsia-se como se uma dor física lancinante o dilacerasse naquele instante. Tinha os olhos injetados. A quem o visse naquele desespero haveria de alguma forma tocar fundo. Nessas circunstâncias, pouco, quase nada se pode fazer, além de compreender o que se passa com o outro. Se não se chora com ele, que nem todos têm a emoção assim aguçada, a presença silenciosa já é o bastante. A presença silenciosa e solidária, a solidão numerosa de um amigo real. Quase sempre, sem dizer palavra, que em certas horas de nada valerá dizer.
Na vida de cada um de nós, quando menos se espera, depara-se com o golpe inclemente. A perda de um parente, de um amor, a derrocada financeira, a doença sem cura... É quando tudo parece não ter mais qualquer sentido. Nesse momento, como que em milagre, muitas vezes de onde quase nada se espera, vem a bondade inata de que nos falou Rousseau. A palavra doce e impotente, o ombro acolhedor, a mão generosa como uma oferenda de Deus. Pouco, quase nada, dizia eu, pode-se fazer para aplacar a ferida aberta, molhada de soluços. É a hora em que a presença silenciosa e solidária, a presença numerosa de um amigo real, como disse o cronista, é algo mais eficaz que toda a ciência, que todos os remédios, que todas as ações. As palavras do jovem haitiano comoveram-me tanto quanto as imagens chocantes na tevê, tanto quanto a própria dor dos nossos irmãos miseráveis e esquecidos, trucidados impiedosamente pela sanha da Natureza. Elas estavam carregadas de amor ao próximo, de solidariedade humana, coisa rara em nossos dias. Além de tudo o que se tem podido fazer de concreto para diminuir o martírio dos nossos irmãos do Haiti, silenciosa e solitariamente, é hora de chorar com eles.
Sobre o Amor
Do poeta e cantor Cícero Braz vem a crítica pertinente: - "Você está batendo demais no Amor." Como entendesse a crítica desse leitor diferenciado como uma observação de que tenho sido redundante, acenei com a motivação de escrever sobre outros temas, ao que retrucou: - "Não, não é que esteja sendo redundante. É que tem açoitado impiedosamente o Amor." Ah, o Amor..., querido amigo. Acho mesmo que, na linha do que nos falou Cecília, a gente tem fases, como a lua. Você, que escreve, sabe o que estou querendo dizer. O Amor tem muitas faces, muitas fases, e acaba sendo inevitavelmente uma projeção daquilo que vivemos em dado momento de nossa vida. Mas com uma coisa você há de concordar: o final feliz é mesmo uma raridade. Não me ache negativista, que nem o outro poeta, sobre quem escrevi pela fobia que nutre da paixão. E por falar em paixão, uma das faces ou fases do Amor, que tal lembrar a etimologia da palavra para constatar que tenho alguma razão? Vem do latim tardio e significa sofrimento. Eis a razão por que se fala da Paixão de Cristo, ou seja, o martírio de Jesus Cristo, nome que se dá, também, à parte do Evangelho que narra o sofrimento de Cristo. Mas esteja tranquilo, poeta amigo, que vou afinar o cinzel com que serão vazados os novos textos sobre o Amor. O Amor feliz!
Acho mesmo, como disse em crônica recente, que o amor é felicidade, mas não é a felicidade, pelo menos quando se fala do amor Eros. Sei que mais uma vez estou pisando em terreno escorregadio, pois é outro desafio discutir ou tentar conceituar a felicidade. Vêm-me à cabeça a fala inesquecível de uma personagem do filme Desejos Proibidos, que revi outro dia em DVD. Um homem diz a sua mulher: - "A infelicidade é uma invenção." Ele se refere ao que considera uma determinação da mulher, ser infeliz. Existe mesmo quem, como Louise (como se chama a personagem), viva a infelicidade como uma escolha. No amor, contudo, não é raro que a infelicidade seja uma decorrência natural do desgaste que o tempo e as circunstâncias lhe impõem. Aliás, considero o filme de Max Ophuls um clássico sobre esse tema a um tempo tão simples e tão complicado.
O filme está ambientado na cidade de Viena, onde um homem desposa uma mulher extremamente bela e a presenteia com um par de brincos. É Louise, a tal inventora da infelicidade, que, para pagar uma dívida que a desespera, vende os tais brincos. Diz ao marido que os perdera. Mas o joalheiro leva o fato ao conhecimento do marido, que, agora, os adquire para dar de presente à amante. Esta, pelas mesmas dificuldades de Louise, vende-os ao mesmo joalheiro. O novo comprador, Donati, interpretado à perfeição por Vittorio De Sica, apaixona-se por Louise, com quem vem a manter um caso. Dá-lhe de mimo o mesmo par de brincos. A farsa amorosa, obviamente, é desvendada.
Para o bem ou para o mal, leitor amigo, o amor é cantado na literatura, no cinema, no teatro etc., como algo que tanto leva à felicidade quanto à infelicidade. São momentos diferentes da mesma história, que se repete através dos tempos com uma regularidade e uma lógica que me parecem inquestionáveis. No filme a que me refiro, os brincos valem como o lenço de Desdêmona, em Otelo, ou o broche da protagonista de Um corpo que cai. São símbolos dos muitos contratempos a que o amor está condenado. Na arte, como na vida. No amor, a felicidade e a infelicidade são as duas faces de uma mesma moeda. O que não significa que não valha a pena vivê-lo, sempre e intensamente.
Acho mesmo, como disse em crônica recente, que o amor é felicidade, mas não é a felicidade, pelo menos quando se fala do amor Eros. Sei que mais uma vez estou pisando em terreno escorregadio, pois é outro desafio discutir ou tentar conceituar a felicidade. Vêm-me à cabeça a fala inesquecível de uma personagem do filme Desejos Proibidos, que revi outro dia em DVD. Um homem diz a sua mulher: - "A infelicidade é uma invenção." Ele se refere ao que considera uma determinação da mulher, ser infeliz. Existe mesmo quem, como Louise (como se chama a personagem), viva a infelicidade como uma escolha. No amor, contudo, não é raro que a infelicidade seja uma decorrência natural do desgaste que o tempo e as circunstâncias lhe impõem. Aliás, considero o filme de Max Ophuls um clássico sobre esse tema a um tempo tão simples e tão complicado.
O filme está ambientado na cidade de Viena, onde um homem desposa uma mulher extremamente bela e a presenteia com um par de brincos. É Louise, a tal inventora da infelicidade, que, para pagar uma dívida que a desespera, vende os tais brincos. Diz ao marido que os perdera. Mas o joalheiro leva o fato ao conhecimento do marido, que, agora, os adquire para dar de presente à amante. Esta, pelas mesmas dificuldades de Louise, vende-os ao mesmo joalheiro. O novo comprador, Donati, interpretado à perfeição por Vittorio De Sica, apaixona-se por Louise, com quem vem a manter um caso. Dá-lhe de mimo o mesmo par de brincos. A farsa amorosa, obviamente, é desvendada.
Para o bem ou para o mal, leitor amigo, o amor é cantado na literatura, no cinema, no teatro etc., como algo que tanto leva à felicidade quanto à infelicidade. São momentos diferentes da mesma história, que se repete através dos tempos com uma regularidade e uma lógica que me parecem inquestionáveis. No filme a que me refiro, os brincos valem como o lenço de Desdêmona, em Otelo, ou o broche da protagonista de Um corpo que cai. São símbolos dos muitos contratempos a que o amor está condenado. Na arte, como na vida. No amor, a felicidade e a infelicidade são as duas faces de uma mesma moeda. O que não significa que não valha a pena vivê-lo, sempre e intensamente.
Na imensidão do infinito
Quando morrem pessoas queridas, com o passar do tempo costumo ter a impressão de que vão se distanciando lentamente, lentamente, lentamente... até se tornarem um pontinho de luz na imensidão do infinito. E um dia, sem que nem ao menos a gente perceba, desaparecem no azul a que se convencionou chamar de céu. É claro que, por amadas e inesquecíveis, costumam voltar, aqui e além, nas coisas que nos fazem recordá-las com uma saudade que, durante algum tempo, é mesmo um tipo de dor que não se pode definir com palavras. Depois, voltam nas boas recordações que já não incomodam, mas que nos proporcionam uma sensação agradável, que reeditam fragmentos do que vivemos com essas pessoas queridas.
Nos relacionamentos amorosos acho que acontece o mesmo, quando morrem. Durante um tempo que não se pode precisar, porque a experiência repercute diferentemente em cada um, o outro vai se distanciando lentamente, lentamente, lentamente... até se tornar, como no caso da morte verdadeira, um pontinho de luz no sem-fim do que chamamos de horizonte. Se foi um relacionamento feliz ou não, pouco importa, porque de tudo é inevitável que fiquem marcas, leves e belas como o desenho da boca em batom, ou indeléveis e feias como a cicatriz da ferida. Mas permanecem, e por um tempo vão ficar assim, insistindo num tipo de obsessão de que não se pode libertar. Depois, eventuais e imprevistas, vão se transformando em lembranças cada vez mais esparsas, até que desaparecem como que para sempre...
A música que foi a "nossa" música, o perfume que ela usava, o jeito com que ele fala, a mesa do restaurante em que jantamos juntos a primeira vez, o carro igual ao dela, a praia que frenquentávamos, a tomada aérea da cidade em que se viveu a lua de mel na entrecena da telenovela, a voz rouca, o detalhe da boca, do nariz, o corte do cabelo dela, o prato que ele sugeriu e que você amou, tudo... tudo traz a presença da pessoa que foi a razão da felicidade fugaz. E um dia, exatamente como na recordação dos mortos, sem que se perceba, o outro vai ficando longe, longe, longe... até que desaparece, até ficar um sonho perdido no vazio impreenchível do nosso coração.
Nos relacionamentos amorosos acho que acontece o mesmo, quando morrem. Durante um tempo que não se pode precisar, porque a experiência repercute diferentemente em cada um, o outro vai se distanciando lentamente, lentamente, lentamente... até se tornar, como no caso da morte verdadeira, um pontinho de luz no sem-fim do que chamamos de horizonte. Se foi um relacionamento feliz ou não, pouco importa, porque de tudo é inevitável que fiquem marcas, leves e belas como o desenho da boca em batom, ou indeléveis e feias como a cicatriz da ferida. Mas permanecem, e por um tempo vão ficar assim, insistindo num tipo de obsessão de que não se pode libertar. Depois, eventuais e imprevistas, vão se transformando em lembranças cada vez mais esparsas, até que desaparecem como que para sempre...
A música que foi a "nossa" música, o perfume que ela usava, o jeito com que ele fala, a mesa do restaurante em que jantamos juntos a primeira vez, o carro igual ao dela, a praia que frenquentávamos, a tomada aérea da cidade em que se viveu a lua de mel na entrecena da telenovela, a voz rouca, o detalhe da boca, do nariz, o corte do cabelo dela, o prato que ele sugeriu e que você amou, tudo... tudo traz a presença da pessoa que foi a razão da felicidade fugaz. E um dia, exatamente como na recordação dos mortos, sem que se perceba, o outro vai ficando longe, longe, longe... até que desaparece, até ficar um sonho perdido no vazio impreenchível do nosso coração.
Ano Novo, Ano Bom
Enquanto aguardávamos o momento da confraternização em família, à mesa do happy hour, ouço a declaração pessimista: - "Quanta hipocrisia!" O amigo fazia alusão aos cumprimentos, não raro mecânicos, com que pessoas às vezes estranhas desejavam-se feliz Natal. Ousei ponderar. Acho que a data, como que em milagre, opera transformações momentâneas nas pessoas. É como se, por instantes, o amor vencesse a desfaçatez. Por isso, em que pese entender o comentário feito meio que em protesto, prefiro crer na beleza desses dias do ano e na possibilidade (utópica?) de que os corações estejam de fato tocados pelos bons sentimentos.
Estamos a poucas horas da virada do ano. Acho que não há melhor oportunidade de fazermos uma reflexão sobre o ano que termina, que, sabemos, não terá sido muito bom para tanta gente. É claro que para muitos 2009 foi o ano em que se perdeu a chance tantas vezes sonhada, que o dinheiro não deu para a viagem que se quis fazer, que houve perdas, desilusões, que choveu em excesso aqui, que faltou chuva acolá, que o amor acabou etc. Mas chorar sobre o leite derramado, sobre o que poderia ter sido e não foi, sobre o que fizemos de errado... interessa tão-somente na medida exata em que puder contribuir para o nosso crescimento como pessoa. Só assim estaremos dando o primeiro passo para o desconhecido que vem com a passagem do ano, e que pode ser bom se nos entregarmos ao movimento das mudanças que se darão para melhor.
Decepções, fracassos, desencantos etc., são coisas naturais, que fazem parte da vida por inteiro, que ela não é só feita de graças. O amigo faltou, a namorada desistiu de tentar, o sonho da viagem não se tornou possível? Fazer o quê? Entregar-se à tristeza, à saudade que dilacera, à frustração que silencia a nossa capacidade de sonhar? Acho que a virada do ano traz consigo a possibilidade de sermos melhores, de darmos o troco ao que não deu certo nutrindo a esperança de que no Ano Novo haverá de dar, de conquistarmos novas amizades, de que o dinheiro, se bem gasto, poderá ser suficiente para aquela viagem com que você sonhou, de que a natureza seja mais generosa, de que surgirá o grande amor, de que poderá se dar o reencontro, de que tanta coisa boa está por acontecer. A vida é bailarina, já nos dizia o poeta, e nenhum ponto inerte anula o eterno viravoltear das coisas.
Que o Ano Novo venha cheio da sabedoria que nos faltou, da fé que não tivemos, da certeza de que Deus é bom e nunca faltará com aqueles que acreditam na eternidade de sua existência. Que o Ano Novo nos renove naquilo que ficou envelhecido, que se desgastou pelos tantos equívocos que cometemos, pelas faltas que poderíamos ter evitado, pela intolerância com que nos tratamos tantas vezes uns aos outros. Que o Ano Novo, de tão bom, seja o ano de nossas vidas!
Feliz 2010!
Estamos a poucas horas da virada do ano. Acho que não há melhor oportunidade de fazermos uma reflexão sobre o ano que termina, que, sabemos, não terá sido muito bom para tanta gente. É claro que para muitos 2009 foi o ano em que se perdeu a chance tantas vezes sonhada, que o dinheiro não deu para a viagem que se quis fazer, que houve perdas, desilusões, que choveu em excesso aqui, que faltou chuva acolá, que o amor acabou etc. Mas chorar sobre o leite derramado, sobre o que poderia ter sido e não foi, sobre o que fizemos de errado... interessa tão-somente na medida exata em que puder contribuir para o nosso crescimento como pessoa. Só assim estaremos dando o primeiro passo para o desconhecido que vem com a passagem do ano, e que pode ser bom se nos entregarmos ao movimento das mudanças que se darão para melhor.
Decepções, fracassos, desencantos etc., são coisas naturais, que fazem parte da vida por inteiro, que ela não é só feita de graças. O amigo faltou, a namorada desistiu de tentar, o sonho da viagem não se tornou possível? Fazer o quê? Entregar-se à tristeza, à saudade que dilacera, à frustração que silencia a nossa capacidade de sonhar? Acho que a virada do ano traz consigo a possibilidade de sermos melhores, de darmos o troco ao que não deu certo nutrindo a esperança de que no Ano Novo haverá de dar, de conquistarmos novas amizades, de que o dinheiro, se bem gasto, poderá ser suficiente para aquela viagem com que você sonhou, de que a natureza seja mais generosa, de que surgirá o grande amor, de que poderá se dar o reencontro, de que tanta coisa boa está por acontecer. A vida é bailarina, já nos dizia o poeta, e nenhum ponto inerte anula o eterno viravoltear das coisas.
Que o Ano Novo venha cheio da sabedoria que nos faltou, da fé que não tivemos, da certeza de que Deus é bom e nunca faltará com aqueles que acreditam na eternidade de sua existência. Que o Ano Novo nos renove naquilo que ficou envelhecido, que se desgastou pelos tantos equívocos que cometemos, pelas faltas que poderíamos ter evitado, pela intolerância com que nos tratamos tantas vezes uns aos outros. Que o Ano Novo, de tão bom, seja o ano de nossas vidas!
Feliz 2010!
Natal
Enquanto sento diante do computador para escrever a coluna de hoje, ouço, vinda da tevê, a notícia hedionda: padrasto assume ter introduzido mais de quarenta agulhas em enteado de quatro anos. Queria escrever sobre o tema do Natal, uma vez que esta é a última edição do jornal antes da festa de nascimento do Menino-Jesus. Não saberia fazê-lo mais, é o que me passa pela cabeça neste instante. Numa data que mais alegra o coração das crianças, como será o Natal desse menino a quem se destinou tanto ódio, por que se fez dele o objeto de ação tão diabólica?
A cada Natal, vem com a lembrança da noite abençoada um pouco de crença na possibilidade de um mundo melhor, em que pese ter-se 'industrializado' tanto o que deveria ser a festa do amor desprendido, do amor desinteressado e gratuito. E como nos deixa desesperançado o gesto diabólico desse homem. Que o fez assim tão monstruoso, que força do destino moveu a mão criminosa com tamanha fúria? São perguntas que não querem calar no momento em que pensava poder produzir uma crônica sobre os bons sentimentos de que deveriam estar eivados todos os corações. E a realidade ceifa com um golpe certeiro toda a poesia, todo o encanto, toda a ternura com que viera escrever esta crônica.
Tenho a consciência de que o fato ocorrido com essa criança é apenas um dos muitos casos que parecem negar o significado do Natal. Peço desculpa se manifesto assim tão indignadamente a minha revolta contra tudo isto. A data deixa com efeito o coração da gente mais sensível. A cada ano, por força das transformações que a vida nos impõe, ficamos tristes e nostálgicos, cada vez mais voltados para o tempo que passou, e que nos pareceu melhor. Acontece de acharmos um ou outro Natal o mais sem cor desde muitos anos. Mas não podemos, quando isto acontece, deixar de crer na certeza de novas alegrias, coisas passageiras que chamamos felicidade. Vamos em frente, tirando dos escaninhos da alma as boas recordações.
Sobre o Natal, no que há de silencioso e solitário na vida de algumas pessoas, resolvi escrever o conto que segue:
A cada Natal, vem com a lembrança da noite abençoada um pouco de crença na possibilidade de um mundo melhor, em que pese ter-se 'industrializado' tanto o que deveria ser a festa do amor desprendido, do amor desinteressado e gratuito. E como nos deixa desesperançado o gesto diabólico desse homem. Que o fez assim tão monstruoso, que força do destino moveu a mão criminosa com tamanha fúria? São perguntas que não querem calar no momento em que pensava poder produzir uma crônica sobre os bons sentimentos de que deveriam estar eivados todos os corações. E a realidade ceifa com um golpe certeiro toda a poesia, todo o encanto, toda a ternura com que viera escrever esta crônica.
Tenho a consciência de que o fato ocorrido com essa criança é apenas um dos muitos casos que parecem negar o significado do Natal. Peço desculpa se manifesto assim tão indignadamente a minha revolta contra tudo isto. A data deixa com efeito o coração da gente mais sensível. A cada ano, por força das transformações que a vida nos impõe, ficamos tristes e nostálgicos, cada vez mais voltados para o tempo que passou, e que nos pareceu melhor. Acontece de acharmos um ou outro Natal o mais sem cor desde muitos anos. Mas não podemos, quando isto acontece, deixar de crer na certeza de novas alegrias, coisas passageiras que chamamos felicidade. Vamos em frente, tirando dos escaninhos da alma as boas recordações.
Sobre o Natal, no que há de silencioso e solitário na vida de algumas pessoas, resolvi escrever o conto que segue:
Natal na Rua do Fogo
Desde que o marido morrera, havia muitos anos, dona Lili vivia na mais absoluta solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer. A rotina de sempre: receber clientes, cada vez mais raros nestes tempos de griffes, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, zíper, tubos de linha, agulha, alfinete - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas - dizia ao dono do armarinho, que a coisa melhora véspera do Natal e do Ano-Novo."
Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado - o dourado da abotoadura esfregado no vestido para conservar o brilho. Com o desvelo das apaixonadas, dobrava cada gravata, cada cueca... E eram vinte e sete anos de viuvez!
No começo, passados os quatro ou cinco primeiros anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de achar um marido novo: - "Quarentona muito da bem-apanhada", brincavam.
Mas o tempo, tão afeito a surpresas, não trouxe surpresas para dona Lili. A vida-vidinha passando sem novidades, e com ela a beleza e o encanto da velha costureira, o verde dos olhos ainda chamando a atenção de todos. Não tivera filhos, e Maria, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili anos a fio, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz.
Contudo, tendo como amiga a eterna solidão, dona Lili não maldizia a vida: - "É assim mesmo, até que Deus me leve outra vez para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.
Com a proliferação das butiques, as dificuldades aumentavam, as freguesas escasseando com o passar dos anos.
Hora existia na solidão de dona Lili, que lhe passava pela cabeça largar a velha Singer e tentar recomeçar a vida, balconista de loja de tecido, manicure, vendedora de produtos de beleza... Depois, recomposta a lucidez e a solenidade da velhice, dona Lili via com clareza que já não era tempo de recomeçar. E voltava, alfinete à boca, a dobrar o corte de fazenda de que surgiria o vestido de término de curso da filha de Zenaide, a mulher do tabelião, "tão exigente!", pensava com seus botões.
Dia após dia, a rotina era de tristeza e solidão na velha casa. Varrer, lavar, passar, fazer a comida e arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado no vestido de organdi, para retomar o brilho.
Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa azul segurando o penteado simples, o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se na pedra da janela para admirar o mundo. Ao longo da Rua do Fogo, que era o nome da rua em que dona Lili morava, as barracas de guloseimas, de bugingangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento de Jesus, dali a poucas horas. E que a vida, no viravoltear das coisas e na repetida utopia dos homens, anunciava-se nova, porque era Natal.
Alforriando o olhar cansado para o além, dona Lili deixou-se transportar para os tempos ao lado de Murilo, a tão esperada missa-do-galo na Matriz, o calçadão da praça - o braço enlaçado à cintura do homem amado - e a sensação há tanto esquecida de que a vida pode ser feliz.
Exausta, que foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu, passo trôpego e tateando o ar, o corredor que levava ao quarto. Ainda uma vez, antes de deitar, dona Lili abriu a gaveta do guarda-roupa, reorganizou as gravatas, as cuecas, o pente, a navalha de barbear, a aliança de Murilo - "Ainda mando o relojoeiro tirar os riscos!" - o dourado da abotoadura contra o vestido, para reconquistar o brilho.
Sob o domínio da insônia, companheira de toda noite, dona Lili ainda pode escutar o pipocar das bombas, o badalar do sino da Matriz. E, antes de soprar a vela, bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia há vinte e sete anos, antes de dormir beijou o retrato de Murilo.
Dessa vez, no entanto, dos olhos verdes de dona Lili, duas lágrimas, grossas e cristalinas, rolaram serenamente pelas maçãs do rosto.
Na manhã seguinte, a muito custo, conseguiu-se entrar na casa de dona Lili, onde a encontraram sem vida, em decúbito dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos, já endurecidas.
Ao enterro, rigorosamente contadas, compareceram dezoito pessoas - onze homens, seis mulheres e um menino.
Dizem que do interior daquela casa enorme e vazia, à meia-noite, por muitos anos, ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.
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Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado - o dourado da abotoadura esfregado no vestido para conservar o brilho. Com o desvelo das apaixonadas, dobrava cada gravata, cada cueca... E eram vinte e sete anos de viuvez!
No começo, passados os quatro ou cinco primeiros anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de achar um marido novo: - "Quarentona muito da bem-apanhada", brincavam.
Mas o tempo, tão afeito a surpresas, não trouxe surpresas para dona Lili. A vida-vidinha passando sem novidades, e com ela a beleza e o encanto da velha costureira, o verde dos olhos ainda chamando a atenção de todos. Não tivera filhos, e Maria, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili anos a fio, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz.
Contudo, tendo como amiga a eterna solidão, dona Lili não maldizia a vida: - "É assim mesmo, até que Deus me leve outra vez para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.
Com a proliferação das butiques, as dificuldades aumentavam, as freguesas escasseando com o passar dos anos.
Hora existia na solidão de dona Lili, que lhe passava pela cabeça largar a velha Singer e tentar recomeçar a vida, balconista de loja de tecido, manicure, vendedora de produtos de beleza... Depois, recomposta a lucidez e a solenidade da velhice, dona Lili via com clareza que já não era tempo de recomeçar. E voltava, alfinete à boca, a dobrar o corte de fazenda de que surgiria o vestido de término de curso da filha de Zenaide, a mulher do tabelião, "tão exigente!", pensava com seus botões.
Dia após dia, a rotina era de tristeza e solidão na velha casa. Varrer, lavar, passar, fazer a comida e arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado no vestido de organdi, para retomar o brilho.
Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa azul segurando o penteado simples, o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se na pedra da janela para admirar o mundo. Ao longo da Rua do Fogo, que era o nome da rua em que dona Lili morava, as barracas de guloseimas, de bugingangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento de Jesus, dali a poucas horas. E que a vida, no viravoltear das coisas e na repetida utopia dos homens, anunciava-se nova, porque era Natal.
Alforriando o olhar cansado para o além, dona Lili deixou-se transportar para os tempos ao lado de Murilo, a tão esperada missa-do-galo na Matriz, o calçadão da praça - o braço enlaçado à cintura do homem amado - e a sensação há tanto esquecida de que a vida pode ser feliz.
Exausta, que foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu, passo trôpego e tateando o ar, o corredor que levava ao quarto. Ainda uma vez, antes de deitar, dona Lili abriu a gaveta do guarda-roupa, reorganizou as gravatas, as cuecas, o pente, a navalha de barbear, a aliança de Murilo - "Ainda mando o relojoeiro tirar os riscos!" - o dourado da abotoadura contra o vestido, para reconquistar o brilho.
Sob o domínio da insônia, companheira de toda noite, dona Lili ainda pode escutar o pipocar das bombas, o badalar do sino da Matriz. E, antes de soprar a vela, bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia há vinte e sete anos, antes de dormir beijou o retrato de Murilo.
Dessa vez, no entanto, dos olhos verdes de dona Lili, duas lágrimas, grossas e cristalinas, rolaram serenamente pelas maçãs do rosto.
Na manhã seguinte, a muito custo, conseguiu-se entrar na casa de dona Lili, onde a encontraram sem vida, em decúbito dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos, já endurecidas.
Ao enterro, rigorosamente contadas, compareceram dezoito pessoas - onze homens, seis mulheres e um menino.
Dizem que do interior daquela casa enorme e vazia, à meia-noite, por muitos anos, ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.
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Do amor e outras crônicas - Intervenções
Nas livrarias a partir de hoje, Do amor e outras crônicas circulou por toda a semana passada 'informalmente' pela cidade e chegam comentários sobre o livro por e-mail, alguns dos quais tenho a motivação de responder neste espaço.
Leitora diz ter adorado o livro, mas observa ter "uma atmosfera triste e desencantada sobre o tema", o que afirma poder ser desinteressante para "os amantes mais felizes."
- Agradeço o comentário e concordo em parte. Acho que na nota do autor procurei explicar tal leitura dos relacionamentos, sem deixar de apontar para o lado bom e feliz dos mesmos. As crônicas pretendem explorar a face mais realista da vida amorosa, passada a fase de enamoramento que leva à equivocada impressão de que a felicidade é para sempre.
Uma outra elogia o trabalho e aplaude o que diz ser "o olhar do homem sobre questões tão femininas, algo não muito comum entre eles (sic)." Mas acrescenta: - "As mulheres sofrem muito mais que os homens e seu livro parece não levar isso em conta."
- Não percebi, acredite, que tenha estabelecido perspectivas de olhar sobre a dor decorrente das separações. Sendo mais claro: acho que homens e mulheres passam inevitavelmente por momentos de sofrimento quando o relacionamento acaba. O que é fato, quero crer, é que o rompimento vai doer muito mais em quem se sente preterido, independentemente de ser homem ou mulher. Ademais, cada um reage de forma diferente diante das turbulências, seja ele ou ela. Se você, leitora, exige de mim uma posição sobre ser um ou outro quem mais sofre nessas horas, penso mesmo que a mulher lida com mais equilíbrio com as dificuldades, as perdas, as desilusões passionais. O que não significa dizer que não sofra também. É que antes, antigamente, digamos, a decisão de terminar o relacionamento partia mais do homem. A mulher se submetia a relacionamentos falidos, renunciava ao direito de recomeçar sua vida sozinha e os casamentos, por exemplo, eram duradouros, para sempre, mesmo quando o amor deixara de existir ou mesmo nunca existira . Hoje, posso afirmar sem medo, os rompimentos decorrem em maior escala da decisão da mulher sobre continuar ou não o casamento, os namoros, as relações amorosas de qualquer ordem. Faz parte da sua bagagem de conquistas, da sua liberdade para decidir sobre a sua vida em todos os campos. O amoroso sobremaneira.
Ainda uma leitora diz que o livro é "pessimista e muito pra baixo, embora bem escrito e bonito (sic)."
- Com efeito o livro trata enfaticamente dos desencontros, o que me parece ser coisa recorrente em nossos dias. É ver por qual perspectiva é o amor cantado em prosa e verso na literatura, no cinema, no teatro, na música popular etc. Sem falar que poucas vezes dispensei ao tema a realidade da traição, do adultério, que, está no belíssimo "História do amor no Ocidente", de Denis Rougemont, confunde-se com a própria história do amor na cultura ocidental.
Por último, quero me referir a um comentário sobre o texto propriamente dito. Diz uma leitora: - "Embora já conhecesse suas crônicas do blog, li o seu livro e gostei muito. Tenho recomendado para as amigas. Como fazer para adquiri-lo.
- Que bom que você gosta do meu texto. É uma coletânea de crônicas tiradas do blog, de fato, o que dá ao livro um jeito de coisa mal alinhavada e, como digo na nota do autor, canhestra. É uma tendência que vem se afirmando na literatura de hoje, textos ligeiros, um tanto 'marginais', destituídos do bom acabamento da literatura 'maior'. Quanto ao que fazer para comprá-lo, está a partir de hoje na livraria Siciliano do Shopping Deo Passeo" e, na semana que vem, na Saraiva do Iguatemi. E, em meados desta semana, na Sicialiano da Santos Dumont. Obrigado pela divulgação.
Leitora diz ter adorado o livro, mas observa ter "uma atmosfera triste e desencantada sobre o tema", o que afirma poder ser desinteressante para "os amantes mais felizes."
- Agradeço o comentário e concordo em parte. Acho que na nota do autor procurei explicar tal leitura dos relacionamentos, sem deixar de apontar para o lado bom e feliz dos mesmos. As crônicas pretendem explorar a face mais realista da vida amorosa, passada a fase de enamoramento que leva à equivocada impressão de que a felicidade é para sempre.
Uma outra elogia o trabalho e aplaude o que diz ser "o olhar do homem sobre questões tão femininas, algo não muito comum entre eles (sic)." Mas acrescenta: - "As mulheres sofrem muito mais que os homens e seu livro parece não levar isso em conta."
- Não percebi, acredite, que tenha estabelecido perspectivas de olhar sobre a dor decorrente das separações. Sendo mais claro: acho que homens e mulheres passam inevitavelmente por momentos de sofrimento quando o relacionamento acaba. O que é fato, quero crer, é que o rompimento vai doer muito mais em quem se sente preterido, independentemente de ser homem ou mulher. Ademais, cada um reage de forma diferente diante das turbulências, seja ele ou ela. Se você, leitora, exige de mim uma posição sobre ser um ou outro quem mais sofre nessas horas, penso mesmo que a mulher lida com mais equilíbrio com as dificuldades, as perdas, as desilusões passionais. O que não significa dizer que não sofra também. É que antes, antigamente, digamos, a decisão de terminar o relacionamento partia mais do homem. A mulher se submetia a relacionamentos falidos, renunciava ao direito de recomeçar sua vida sozinha e os casamentos, por exemplo, eram duradouros, para sempre, mesmo quando o amor deixara de existir ou mesmo nunca existira . Hoje, posso afirmar sem medo, os rompimentos decorrem em maior escala da decisão da mulher sobre continuar ou não o casamento, os namoros, as relações amorosas de qualquer ordem. Faz parte da sua bagagem de conquistas, da sua liberdade para decidir sobre a sua vida em todos os campos. O amoroso sobremaneira.
Ainda uma leitora diz que o livro é "pessimista e muito pra baixo, embora bem escrito e bonito (sic)."
- Com efeito o livro trata enfaticamente dos desencontros, o que me parece ser coisa recorrente em nossos dias. É ver por qual perspectiva é o amor cantado em prosa e verso na literatura, no cinema, no teatro, na música popular etc. Sem falar que poucas vezes dispensei ao tema a realidade da traição, do adultério, que, está no belíssimo "História do amor no Ocidente", de Denis Rougemont, confunde-se com a própria história do amor na cultura ocidental.
Por último, quero me referir a um comentário sobre o texto propriamente dito. Diz uma leitora: - "Embora já conhecesse suas crônicas do blog, li o seu livro e gostei muito. Tenho recomendado para as amigas. Como fazer para adquiri-lo.
- Que bom que você gosta do meu texto. É uma coletânea de crônicas tiradas do blog, de fato, o que dá ao livro um jeito de coisa mal alinhavada e, como digo na nota do autor, canhestra. É uma tendência que vem se afirmando na literatura de hoje, textos ligeiros, um tanto 'marginais', destituídos do bom acabamento da literatura 'maior'. Quanto ao que fazer para comprá-lo, está a partir de hoje na livraria Siciliano do Shopping Deo Passeo" e, na semana que vem, na Saraiva do Iguatemi. E, em meados desta semana, na Sicialiano da Santos Dumont. Obrigado pela divulgação.
Almodóvar
Não tive tempo de assistir ao último filme de Almodóvar, em cartaz há dois ou três dias em Fortaleza. Entre amigos, comentava com entusiasmo: - "Vou ver Almodóvar amanhã." E M., respeitado amante da sétima arte, dispara: - "Um chato!" Como quisesse que justificasse o rótulo peremptório, tergiversou: - "Muito mexicano para o meu gosto." Referia-se, depreciativo, à linhagem mais cult do cinema espanhol, um tanto preso à realidade de um povo marcado culturalmente, o que se faz notar nos perfis psicológicos das personagens de Almodóvar. Visão de superfície. Penso que o cineasta espanhol está para além dessas delimitações. Aliás, considero-o um dos artistas da hora mais universais na abordagem dos grandes conflitos de nosso tempo. Arrisco afirmar que existe em Almodóvar algo de Bergman, guardadas as diferenças da análise psicológica que move um e outro.
Explico-me: acho que Bergman sobressai pela abordagem quase existencialista dos dramas humanos, da consciência de que estamos todos condenados ao pesadelo da desesperança, onde a morte põe em relevo o não sentido das coisas. É aí, quero crer, que me parece possível a comparação entre artistas tão 'pessoais'. Talvez essa proximidade esteja nas diferenças já conhecidas da vida de um e outro. Bergman teve uma vida 'sueca', tome-se o adjetivo pela condição social que lhe assegurou tranquilidade para estudar a sua arte e compreendê-la intelectualment desde os primeiros passos. Privilégio que não teve Almodóvar, filho de uma família extremamente pobre, que sequer pode ser um frequentador assíduo dos cinemas.
Que os aproxima, então? O fato de que as grandes dores, se por um lado estão sempre associadas às condições sociais em que vive o homem, por outro independem dessa realidade, são consequências naturais do próprio existir de cada um de nós. Como não perceber isto em filmes como Fale com ela ou Volver, para me reportar a dois grandes momentos de Almodóvar? Quem, além de Bergman (ou Antonioni) fixou com tamanha atenção as grandes indagações existenciais que permeiam a história dos homens? Acho que não é atrevido defender essa depreensão dos conflitos do homem, da mulher, notadamente, nas obras gigantescas do sueco e do espanhol. Por isso me fascinam os filmes de Almodóvar, pelo que revelam, exploram, discutem sobre dramas tão rotineiros de nossas vidas. De forma visceral, verossímil, assumidamente real.
Que seja muito 'mexicano' para seu gosto, amigo M., admito. Mas vou ver Almodóvar amanhã.
Explico-me: acho que Bergman sobressai pela abordagem quase existencialista dos dramas humanos, da consciência de que estamos todos condenados ao pesadelo da desesperança, onde a morte põe em relevo o não sentido das coisas. É aí, quero crer, que me parece possível a comparação entre artistas tão 'pessoais'. Talvez essa proximidade esteja nas diferenças já conhecidas da vida de um e outro. Bergman teve uma vida 'sueca', tome-se o adjetivo pela condição social que lhe assegurou tranquilidade para estudar a sua arte e compreendê-la intelectualment desde os primeiros passos. Privilégio que não teve Almodóvar, filho de uma família extremamente pobre, que sequer pode ser um frequentador assíduo dos cinemas.
Que os aproxima, então? O fato de que as grandes dores, se por um lado estão sempre associadas às condições sociais em que vive o homem, por outro independem dessa realidade, são consequências naturais do próprio existir de cada um de nós. Como não perceber isto em filmes como Fale com ela ou Volver, para me reportar a dois grandes momentos de Almodóvar? Quem, além de Bergman (ou Antonioni) fixou com tamanha atenção as grandes indagações existenciais que permeiam a história dos homens? Acho que não é atrevido defender essa depreensão dos conflitos do homem, da mulher, notadamente, nas obras gigantescas do sueco e do espanhol. Por isso me fascinam os filmes de Almodóvar, pelo que revelam, exploram, discutem sobre dramas tão rotineiros de nossas vidas. De forma visceral, verossímil, assumidamente real.
Que seja muito 'mexicano' para seu gosto, amigo M., admito. Mas vou ver Almodóvar amanhã.
As time goes by
Leitor comenta crônica que publiquei sobre Casablanca e discorda de que a cena final do filme seja a mais bonita. Gosto à parte, faz referência à cena em que Laszlo, ao ver soldados cantarem o hino da Alemanha, manda que a orquestra do Rick's Bar execute a Marselhesa, que, a uma só voz, é entoada pelos franceses que ali se encontram. De fato emocionante, esta cena é o outro grande momento do filme Michael Curtiz.
Acho, contudo, que a cena final de Casablanca diz mais do enredo do filme, a história de amor que envolve Ilsa, Rick e Laszlo. A propósito, uma outra cena é particularmente tocante. Refiro-me ao encontro de Ilsa e Rick, quando fica evidenciado que os ex-namorados continuam apaixonados. Ao deparar com Ilsa, Rick manda que o pianista Sam toque a belíssima As Time Goes By, música que marcara o seu romance com Ilsa em Paris:
Você precisa lembrar disso:
Um beijo é sempre um beijo
Um gesto de emoção.
Coisas marcantes acontecem
Enquanto o tempo passa.
E quando dois amantes
Declaram que se amam
Esteja certo
Que o futuro não importa
Enquanto o tempo passa.
Os luares e as canções de amor,
O ciúme e o ódio
Que movem os corações apaixonados.
Tudo tem seu tempo.
A verdade é que
O homem e a mulher
São partes um do outro.
Esta história é a mesma velha história:
Na luta pelo amor e pela glória
Se ganha aqui, se perde ali.
O mundo sempre vai censurar os amantes
Enquanto o tempo passa.
A licenciosa tradução que apresento acima para As Time Goes By dá uma demonstração da força poética de Casablanca. Um filme inesquecível sobre o amor e seus desencontros. Vale rever.
Acho, contudo, que a cena final de Casablanca diz mais do enredo do filme, a história de amor que envolve Ilsa, Rick e Laszlo. A propósito, uma outra cena é particularmente tocante. Refiro-me ao encontro de Ilsa e Rick, quando fica evidenciado que os ex-namorados continuam apaixonados. Ao deparar com Ilsa, Rick manda que o pianista Sam toque a belíssima As Time Goes By, música que marcara o seu romance com Ilsa em Paris:
Você precisa lembrar disso:
Um beijo é sempre um beijo
Um gesto de emoção.
Coisas marcantes acontecem
Enquanto o tempo passa.
E quando dois amantes
Declaram que se amam
Esteja certo
Que o futuro não importa
Enquanto o tempo passa.
Os luares e as canções de amor,
O ciúme e o ódio
Que movem os corações apaixonados.
Tudo tem seu tempo.
A verdade é que
O homem e a mulher
São partes um do outro.
Esta história é a mesma velha história:
Na luta pelo amor e pela glória
Se ganha aqui, se perde ali.
O mundo sempre vai censurar os amantes
Enquanto o tempo passa.
A licenciosa tradução que apresento acima para As Time Goes By dá uma demonstração da força poética de Casablanca. Um filme inesquecível sobre o amor e seus desencontros. Vale rever.
Casablanca
A cena final de Casablanca é sem dúvida uma das mais bonitas do cinema. Como nem todo leitor desta coluna terá visto o filme - e os que o viram talvez não recordem dele amiúde -, sinto-me motivado a (re)contar o que me parece essencial na história, que se passa nos anos 40 do século passado.
Vencedor do Oscar de 1943 como melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro, Casablanca se passa no Marrocos, à época uma possessão francesa em que aportavam aqueles que queriam fugir dos horrores da Grande Guerra rumo à América. Era uma travessia complicada: em sua grande maioria, os refugiados partiam de Paris, seguiam para Oran, na Argélia, e de lá para Lisboa, de onde era possível o sonho de chegar à América. O sucesso dessa empreitada, como é comum em tais circunstâncias, envolvia corrupção da polícia. O clima era terrificante e os que não tinham dinheiro esperavam meses até obter seus vistos de saída.
Nesse cenário de angústia e medo, pois, se passa essa belíssima história de amor, um triângulo entre Ilsa (interpretada pela estonteante Ingrid Bergman em momento culminante de sua carreira), Rick, seu ex-namorado, e seu marido Victor Laszlo. O filme, em flashback, dá-nos a conhecer o romance de Ilsa e Rick. Os dois têm de deixar Paris com a invasão dos alemães, mas Ilsa, na hora do embarque, não aparece, enviando para Rick um bilhete de despedida. Algum tempo depois, já casada com Laszlo, Ilsa chega a Casablanca e depara com seu ex-namorado Rick. A cena transcorre no Rick's Bar. O filme coloca, assim, as primeiras reflexões sobre o amor: pode-se amar duas vezes a mesma pessoa? Ou o amor de Ilsa jamais morrera? O que justifica, então, não ter partido com Rick de Paris? Já existira Laszlo em sua vida? Que bela trama, tão simples e ao mesmo tempo tão complexa.
É antológica a fala de Rick na cena em que Ilsa apresenta-o a seu marido dizendo conhecê-lo de Paris. Na contramão do que se diz sempre sobre os homens, que nada lembram dos encontros amorosos, Rick diz: - "Eu me lembro de todos os detalhes. Os alemães vestiam cinza e você azul." Noutra cena emocionante, Ilsa pede a Rick os vistos de saída para que possa salvar Laszlo. Num rompante da paixão, Ilsa e Rick abraçam-se e decidem partir juntos. A proxima-se a cena final de Casablanca, que disse considerar uma das mais bonitas do cinema.
No aeroporto, minutos antes da partida, encontram-se Ilsa, Lazslo e Rick. São dois os vistos e alguém terá de ceder. Numa atitude estóica, que arrebata os espectadores dessa obra grandiosa, Rick abre mão do seu amor por Ilsa em favor de Laszlo. Tomada de paixão pelo ex-namorado, Ilsa indaga: - "E nós, Rick?" E ele, do alto de sua dignidade, desfecha: - "Nós sempre teremos Paris." Arrepiante.
Acho que esta cena, na simplicidade de seus recursos, reedita de forma tocantemente poética a história de tantos amantes. Quantas vezes na vida temos de renunciar a um grande amor. Na dilacerante dor de tantas decisões, quantas vezes temos de sacrificar um grande amor. O amor de Rick transforma-se, na gratuidade de um instante, na memória dolorosa dos momentos felizes. Na vida de todos nós, aqui e além, o amor está condenado a ser apenas uma bela recordação. Mas como dói!
Agora a pressa é amiga da perfeição. Chegou Windows 7. Conheça.
Vencedor do Oscar de 1943 como melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro, Casablanca se passa no Marrocos, à época uma possessão francesa em que aportavam aqueles que queriam fugir dos horrores da Grande Guerra rumo à América. Era uma travessia complicada: em sua grande maioria, os refugiados partiam de Paris, seguiam para Oran, na Argélia, e de lá para Lisboa, de onde era possível o sonho de chegar à América. O sucesso dessa empreitada, como é comum em tais circunstâncias, envolvia corrupção da polícia. O clima era terrificante e os que não tinham dinheiro esperavam meses até obter seus vistos de saída.
Nesse cenário de angústia e medo, pois, se passa essa belíssima história de amor, um triângulo entre Ilsa (interpretada pela estonteante Ingrid Bergman em momento culminante de sua carreira), Rick, seu ex-namorado, e seu marido Victor Laszlo. O filme, em flashback, dá-nos a conhecer o romance de Ilsa e Rick. Os dois têm de deixar Paris com a invasão dos alemães, mas Ilsa, na hora do embarque, não aparece, enviando para Rick um bilhete de despedida. Algum tempo depois, já casada com Laszlo, Ilsa chega a Casablanca e depara com seu ex-namorado Rick. A cena transcorre no Rick's Bar. O filme coloca, assim, as primeiras reflexões sobre o amor: pode-se amar duas vezes a mesma pessoa? Ou o amor de Ilsa jamais morrera? O que justifica, então, não ter partido com Rick de Paris? Já existira Laszlo em sua vida? Que bela trama, tão simples e ao mesmo tempo tão complexa.
É antológica a fala de Rick na cena em que Ilsa apresenta-o a seu marido dizendo conhecê-lo de Paris. Na contramão do que se diz sempre sobre os homens, que nada lembram dos encontros amorosos, Rick diz: - "Eu me lembro de todos os detalhes. Os alemães vestiam cinza e você azul." Noutra cena emocionante, Ilsa pede a Rick os vistos de saída para que possa salvar Laszlo. Num rompante da paixão, Ilsa e Rick abraçam-se e decidem partir juntos. A proxima-se a cena final de Casablanca, que disse considerar uma das mais bonitas do cinema.
No aeroporto, minutos antes da partida, encontram-se Ilsa, Lazslo e Rick. São dois os vistos e alguém terá de ceder. Numa atitude estóica, que arrebata os espectadores dessa obra grandiosa, Rick abre mão do seu amor por Ilsa em favor de Laszlo. Tomada de paixão pelo ex-namorado, Ilsa indaga: - "E nós, Rick?" E ele, do alto de sua dignidade, desfecha: - "Nós sempre teremos Paris." Arrepiante.
Acho que esta cena, na simplicidade de seus recursos, reedita de forma tocantemente poética a história de tantos amantes. Quantas vezes na vida temos de renunciar a um grande amor. Na dilacerante dor de tantas decisões, quantas vezes temos de sacrificar um grande amor. O amor de Rick transforma-se, na gratuidade de um instante, na memória dolorosa dos momentos felizes. Na vida de todos nós, aqui e além, o amor está condenado a ser apenas uma bela recordação. Mas como dói!
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Ainda sobre tempo e paixão
A propósito da crônica Tempo e paixão chegam-me inúmeros e-mails de leitores. Leitoras, sobremodo. Como este é um tema recorrente neste espaço, passo a impressão, não intencional, de ser um especialista no assunto. Ledo engano. Com efeito, tenho procurado estudar sobre relacionamentos, passionalidade, amor, embora viva, como todo mundo, os mesmos conflitos que, por vezes, têm levado a desfechos jamais desejados. Um desses e-mails levanta a seguinte questão: - "Você descarta a possibilidade do reencontro, passada a crise que levara à separação?"
Ah, não creio ter sido afirmativo neste sentido ou mesmo ter insinuado isto. Conheço casais que se reencontraram depois de um longo período de separação e vivem felizes hoje. Nesse caso não creio que a paixão tivesse desaparecido. Ela se recolhera por força das crises recorrentes, hibernara por um tempo que é muitas vezes indispensável para que os amantes possam ter uma nova chance. Quando isto ocorre, e não é raro que ocorra, acho que a tendência natural é que a relação volte fortalecida.
No livro Homens são de marte, mulheres são de vênus John Gray defende uma tese que me parece extremamente feliz: os homens são como elástico, as mulheres como ondas. Os homens sentem uma necessidade de se afastar, de ir até à extremidade de sua fuga para sentir o desejo de estar perto. A mulher tem movimentos que se assemelham ao ir e vir das ondas. Quando atinge a plenitude de seus desejos de ser amada, quando ela se percebe objeto do amor incondicional do homem amado, curiosamente tende a mudar seu estado de ânimo e a tendência natural é mudar também os seus sentimentos, a quebrar abruptamente a sua onda. Acho que o famoso terapeuta compreendeu à perfeição o que, nos casos em que a paixão, existindo ainda, não é suficiente para sustentar a relação, explica às claras o motivo por que se dão os rompimentos que não raro se tornam defintivos.
Acho que é o tempo a que me refiro na crônica Tempo e paixão, o que não ficou evidenciado no texto, a concluir pelo que questiona a referida leitora no seu e-mail. A nova paixão, embora não sendo esta uma situação muito comum, pode ser o despertar da paixão que se recolhera, que hibernara por um tempo necessário para que se dê o reencontro mais amadurecido dos amantes. É a reflexão que levanta Gray: "Quando não está se sentindo tão bem consigo mesma, ela [a mulher] não pode ser tão acolhedora e apreciar tanto o seu parceiro. [...] Quando sua onda atinge o fundo, ela fica mais vulnerável e precisa de mais amor. É crucial que seu parceiro entenda o que ela precisa nesses momentos, do contrário ela pode fazer exigências irracionais." Perfeito. O mesmo, na perspectiva de sua elasticidade, quero crer, se dá com o homem. E aí, não sendo definitiva, a separação será inevitável. E o tempo, que afirmo em minha crônica ser o único remédio capaz de curar a paixão, que adoeceu pela incompreensão das diferenças existentes entre o marciano e a venusiana de que nos fala Gray, tem uma outra configuração. É o tempo da reorganização dos sentimentos, da avaliação menos emocional das qualidades e defeitos de cada um. De pesar o que houve de positivo e negativo na relação, e de decidir ou não pela chance de recomeçar.
Se defendo a opinião de que o tempo é remédio mesmo para as paixões que jamais se reencontrarão, não fecho os olhos para a triste realidade de que nem sempre é um remédio infalível. E os amantes que nasceram um para o outro e tomaram rumos diferentes estarão condenados a carregar no peito a ideia fixa, a obsessão que jamais desaparecerá. Como diz Martha Medeiros em O centro das atenções, a pessoa amada "Acomoda-se dentro da gente e de vez em quando cutuca, se mexe, nos faz lembrar de sua existência."
Talvez seja o momento de perceber que o que se chama paixão devesse ter um outro nome, que, na falta da explicação exata, pode-se chamar de amor.
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Ah, não creio ter sido afirmativo neste sentido ou mesmo ter insinuado isto. Conheço casais que se reencontraram depois de um longo período de separação e vivem felizes hoje. Nesse caso não creio que a paixão tivesse desaparecido. Ela se recolhera por força das crises recorrentes, hibernara por um tempo que é muitas vezes indispensável para que os amantes possam ter uma nova chance. Quando isto ocorre, e não é raro que ocorra, acho que a tendência natural é que a relação volte fortalecida.
No livro Homens são de marte, mulheres são de vênus John Gray defende uma tese que me parece extremamente feliz: os homens são como elástico, as mulheres como ondas. Os homens sentem uma necessidade de se afastar, de ir até à extremidade de sua fuga para sentir o desejo de estar perto. A mulher tem movimentos que se assemelham ao ir e vir das ondas. Quando atinge a plenitude de seus desejos de ser amada, quando ela se percebe objeto do amor incondicional do homem amado, curiosamente tende a mudar seu estado de ânimo e a tendência natural é mudar também os seus sentimentos, a quebrar abruptamente a sua onda. Acho que o famoso terapeuta compreendeu à perfeição o que, nos casos em que a paixão, existindo ainda, não é suficiente para sustentar a relação, explica às claras o motivo por que se dão os rompimentos que não raro se tornam defintivos.
Acho que é o tempo a que me refiro na crônica Tempo e paixão, o que não ficou evidenciado no texto, a concluir pelo que questiona a referida leitora no seu e-mail. A nova paixão, embora não sendo esta uma situação muito comum, pode ser o despertar da paixão que se recolhera, que hibernara por um tempo necessário para que se dê o reencontro mais amadurecido dos amantes. É a reflexão que levanta Gray: "Quando não está se sentindo tão bem consigo mesma, ela [a mulher] não pode ser tão acolhedora e apreciar tanto o seu parceiro. [...] Quando sua onda atinge o fundo, ela fica mais vulnerável e precisa de mais amor. É crucial que seu parceiro entenda o que ela precisa nesses momentos, do contrário ela pode fazer exigências irracionais." Perfeito. O mesmo, na perspectiva de sua elasticidade, quero crer, se dá com o homem. E aí, não sendo definitiva, a separação será inevitável. E o tempo, que afirmo em minha crônica ser o único remédio capaz de curar a paixão, que adoeceu pela incompreensão das diferenças existentes entre o marciano e a venusiana de que nos fala Gray, tem uma outra configuração. É o tempo da reorganização dos sentimentos, da avaliação menos emocional das qualidades e defeitos de cada um. De pesar o que houve de positivo e negativo na relação, e de decidir ou não pela chance de recomeçar.
Se defendo a opinião de que o tempo é remédio mesmo para as paixões que jamais se reencontrarão, não fecho os olhos para a triste realidade de que nem sempre é um remédio infalível. E os amantes que nasceram um para o outro e tomaram rumos diferentes estarão condenados a carregar no peito a ideia fixa, a obsessão que jamais desaparecerá. Como diz Martha Medeiros em O centro das atenções, a pessoa amada "Acomoda-se dentro da gente e de vez em quando cutuca, se mexe, nos faz lembrar de sua existência."
Talvez seja o momento de perceber que o que se chama paixão devesse ter um outro nome, que, na falta da explicação exata, pode-se chamar de amor.
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Tempo e paixão
Leio numa crônica de Martha Medeiros: - "Estar só, totalmente só, é um direito e um dever. Não todo o tempo, mas por um breve tempo, o tempo que a gente precisa para reencontrar a si mesma." Bárbaro, Martha. O grande equívoco dos que se separam, notadamente os homens, sempre mais apressados sob este aspecto, é sair à caça, querendo a custo substituir a pessoa amada. A leitura machista, retrógrada, de que só se cura uma paixão com outra paixão. E o cara se entrega na busca insana, conquista Maria e Joana, mas o abismo só aumenta. É que para curar a velha paixão só existe um remédio, e esse remédio é o tempo. Ademais, a paixão é felicidade, mas não é a felicidade.
Fazer o quê?, o leitor há de querer saber. Não há fórmulas, receitas prontas. Entendo que o segredo está em lidar bem com a solidão e aproveitá-la construtivamente. É hora dos bons livros, de rever alguns filmes de que você mais gostou, de retomar projetos esquecidos, de reencontrar velhos amigos, e, coisa importante, deixar-se ficar só, sem fazer nada previamente pensado. Sim, esse ócio que nos permite sentir o corpo, educar a respiração, deixar os olhos passearem pelos cantinhos nunca visitados do nosso espaço. Ocupar o tempo com ações menos produtivas, mas revigorantes para a alma. E rever um pouco do que fomos, num tipo de autocrítica que possa nos fazer mudar para melhor.
Descrença no amor, na linha do que escrevi em outra crônica sobre um amigo que foge de uma nova paixão? Não, bem longe disso. Acho que uma nova paixão é um tipo de contemplação para o espírito que se fortaleceu no processo de reencontro consigo mesmo. A paixão é prêmio para a alma resolvida, nunca o recheio para o vazio que se instala em nós com o fim de um relacionamento. Uma nova paixão não é algo que se procure de lupa na mão, agulha no palheiro.
A paixão vem do inusitado, daquilo que você nunca previu. A paixão é sorrateira, moleca, brinca de esconde-esconde, de pega-pega. Mas vem de repente, não tolera festa de recepção, por isso nunca avisa quando vai chegar. Está na canção de Dusek: "Quem será que me chega / na toca da noite / Vem nos braços de um sonho / que eu não desvendei / Eu conheço o teu beijo / mas não vejo o teu rosto / Quem será que eu amo / e ainda não encontrei." Bravíssimo.
Se está acontecendo com você o mesmo, se ainda não reorganizou por inteiro sua vida e seu coração, não abra mão de um tempo sozinho, esse tempo que não tem preço, que é, na mesma medida e proporção, um direito e um dever. Deixe que a novidade aconteça assim, como uma novidade, não como um filme em que você atuou. E que não teve um final feliz.
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Descrença no amor, na linha do que escrevi em outra crônica sobre um amigo que foge de uma nova paixão? Não, bem longe disso. Acho que uma nova paixão é um tipo de contemplação para o espírito que se fortaleceu no processo de reencontro consigo mesmo. A paixão é prêmio para a alma resolvida, nunca o recheio para o vazio que se instala em nós com o fim de um relacionamento. Uma nova paixão não é algo que se procure de lupa na mão, agulha no palheiro.
A paixão vem do inusitado, daquilo que você nunca previu. A paixão é sorrateira, moleca, brinca de esconde-esconde, de pega-pega. Mas vem de repente, não tolera festa de recepção, por isso nunca avisa quando vai chegar. Está na canção de Dusek: "Quem será que me chega / na toca da noite / Vem nos braços de um sonho / que eu não desvendei / Eu conheço o teu beijo / mas não vejo o teu rosto / Quem será que eu amo / e ainda não encontrei." Bravíssimo.
Se está acontecendo com você o mesmo, se ainda não reorganizou por inteiro sua vida e seu coração, não abra mão de um tempo sozinho, esse tempo que não tem preço, que é, na mesma medida e proporção, um direito e um dever. Deixe que a novidade aconteça assim, como uma novidade, não como um filme em que você atuou. E que não teve um final feliz.
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Nunca mais
Quando era menino, num seriado de tevê chamado Ratos do deserto, sem razão aparente, a fala de uma personagem me tocou profundamente: - "Nunca mais! Que coisa triste é ouvir nunca mais!" Até então não me ocorrera pensar sobre isso, pensar que algumas experiências, um dia, jamais serão revividas por você. Com o passar dos tempos, como na vida de todo mundo, a frase inclemente tem-me voltado à cabeça. A morte de uma pessoa amiga, a morte do pai, da mãe, de um sobrinho, o fim de um relacionamento de amor, a partida de alguém para um paradeiro que você desconhece etc., e a afirmação retorna, implacável, desumana, cruel: "Nunca mais!"
A expressão, assim, vai adquirindo na vida da gente quase sempre essa conotação pesada, agressiva, sombria, normalmente associada ao sofrimento e à dor. De uns dias para cá, no entanto, com a proximidade do final do ano, que é sempre a nova chance de você recomeçar a vida, a impassível expressão tem assumido um significado novo, positivo, para cima, sugerindo possibilidades de mudanças para melhor. Nunca mais vou ser indelicado com quem quer que seja; nunca mais vou fumar; nunca mais vou exagerar no uísque; nunca mais vou protagonizar uma cena de ciúme; nunca mais vou me deixar dominar pela emoção; nunca mais vou emitir julgamentos prévios; nunca mais vou amar tanto a ponto de me perder de mim. De uns dias para cá, como disse, venho desfiando um rosário de "nunca mais" que haverá de me fazer melhorar como gente, de me aperfeiçoar como homem.
Estou convencido de que os "nunca mais" podem ser muito úteis na vida das pessoas, tornando-as mais humanas, mais bonitas por dentro, mais solidárias, mais sensíveis, mais humildes, compreensivas, tolerantes. Estou convencido de que o mundo, a vida de todos, podem ser transformados para o bem: nunca mais vou ser insincero; nunca mais vou amar sem amor; nunca mais vou valorizar as pequenas tolices que vinha valorizando tanto; nunca mais vou abrir mão do essencial em favor do supérfluo; nunca mais vou esquecer de que as coisas mais belas podem estar nas coisas mais simples; nunca mais vou alimentar sentimento de culpa; nunca mais vou me torturar porque o amor não foi para sempre; nunca mais vou fechar os olhos para as virtudes e abri-los para os defeitos; nunca mais vou deixar de perdoar; nunca mais vou deixar de dar a última chance; nunca mais vou cometer os mesmos erros; nunca mais vou pisar na bola e perder o gol da felicidade, a chance de virar o jogo que parecia perdido. Nunca mais!
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A expressão, assim, vai adquirindo na vida da gente quase sempre essa conotação pesada, agressiva, sombria, normalmente associada ao sofrimento e à dor. De uns dias para cá, no entanto, com a proximidade do final do ano, que é sempre a nova chance de você recomeçar a vida, a impassível expressão tem assumido um significado novo, positivo, para cima, sugerindo possibilidades de mudanças para melhor. Nunca mais vou ser indelicado com quem quer que seja; nunca mais vou fumar; nunca mais vou exagerar no uísque; nunca mais vou protagonizar uma cena de ciúme; nunca mais vou me deixar dominar pela emoção; nunca mais vou emitir julgamentos prévios; nunca mais vou amar tanto a ponto de me perder de mim. De uns dias para cá, como disse, venho desfiando um rosário de "nunca mais" que haverá de me fazer melhorar como gente, de me aperfeiçoar como homem.
Estou convencido de que os "nunca mais" podem ser muito úteis na vida das pessoas, tornando-as mais humanas, mais bonitas por dentro, mais solidárias, mais sensíveis, mais humildes, compreensivas, tolerantes. Estou convencido de que o mundo, a vida de todos, podem ser transformados para o bem: nunca mais vou ser insincero; nunca mais vou amar sem amor; nunca mais vou valorizar as pequenas tolices que vinha valorizando tanto; nunca mais vou abrir mão do essencial em favor do supérfluo; nunca mais vou esquecer de que as coisas mais belas podem estar nas coisas mais simples; nunca mais vou alimentar sentimento de culpa; nunca mais vou me torturar porque o amor não foi para sempre; nunca mais vou fechar os olhos para as virtudes e abri-los para os defeitos; nunca mais vou deixar de perdoar; nunca mais vou deixar de dar a última chance; nunca mais vou cometer os mesmos erros; nunca mais vou pisar na bola e perder o gol da felicidade, a chance de virar o jogo que parecia perdido. Nunca mais!
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Saudade
Com rigor, não existe em outro idioma equivalente para a palavra portuguesa saudade. Ela traduz o mais comovente sentimento humano, o mais dilacerante, o mais doloroso, a lástima da ausência, a tristeza das perdas e das separações. Só em língua portuguesa existe um vocábulo capaz de definir com exatidão o que sentimos na ausência da coisa amada. Em nenhum outro idioma haverá um vocábulo que possa dizer precisamente o que dói no fundo da alma quando desejamos conosco aquilo que se foi, que ficou enquanto partimos, que nos deixou ou foi deixado por alguma razão. Está na pedra dos túmulos, no coração dos viajantes, dos exilados, dos solitários e dos esquecidos. Serve para definir a mais íntima tortura, a pior das emoções.
Em Canção de Amor, um dos clássicos do cancioneiro popular, Elano Paula diz: "Saudade torrente de paixão, / emoção diferente, que aniquila a vida da gente, / uma dor que não sei de onde vem." Chico Buarque, em Pedaço de Mim, criou a mais completa tradução, a metáfora desconcertante: "A saudade é o revés do parto / a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." Fausto Nilo, em Asa Partida, traz o verso antológico: "E continua o teu sorriso no meu peito, / esta saudade, o cigarro, a luz acesa, /e esta noite posta sobre a mesa." É que a poesia pode dizer figuradamente o sentimento, transferindo para o outro o que parece ser incomunicável. É a força da poesia, o prodigioso milagre da arte. Que dizer de Brant? - "Amigo é coisa pra se guardar / do lado esquerdo do peito, / dentro do coração / mesmo que o tempo e a distância / digam não." Ou Duran: "Ah, a rua escura, o vento frio / esta saudade, este vazio, esta vontade de chorar."
Dia desses, conversando com amigos, o tema veio à baila: - "É o dolorido gozo!", alguém falou. Perfeito, que não existe saudade que seja, por completo, uma experiência agradável, mesmo quando a sentimos daqueles que amamos, da viagem inesquecível, da boa infância, dos dias idos que foram felizes. Não há saudade que não seja dor, ferro em brasa no coração, golpe bárbaro no mais íntimo do ser. Se vem acompanhada da cruel sentença, então, escalpela, maltrata como o ácido na ferida aberta: "Nunca mais!"
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Em Canção de Amor, um dos clássicos do cancioneiro popular, Elano Paula diz: "Saudade torrente de paixão, / emoção diferente, que aniquila a vida da gente, / uma dor que não sei de onde vem." Chico Buarque, em Pedaço de Mim, criou a mais completa tradução, a metáfora desconcertante: "A saudade é o revés do parto / a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." Fausto Nilo, em Asa Partida, traz o verso antológico: "E continua o teu sorriso no meu peito, / esta saudade, o cigarro, a luz acesa, /e esta noite posta sobre a mesa." É que a poesia pode dizer figuradamente o sentimento, transferindo para o outro o que parece ser incomunicável. É a força da poesia, o prodigioso milagre da arte. Que dizer de Brant? - "Amigo é coisa pra se guardar / do lado esquerdo do peito, / dentro do coração / mesmo que o tempo e a distância / digam não." Ou Duran: "Ah, a rua escura, o vento frio / esta saudade, este vazio, esta vontade de chorar."
Dia desses, conversando com amigos, o tema veio à baila: - "É o dolorido gozo!", alguém falou. Perfeito, que não existe saudade que seja, por completo, uma experiência agradável, mesmo quando a sentimos daqueles que amamos, da viagem inesquecível, da boa infância, dos dias idos que foram felizes. Não há saudade que não seja dor, ferro em brasa no coração, golpe bárbaro no mais íntimo do ser. Se vem acompanhada da cruel sentença, então, escalpela, maltrata como o ácido na ferida aberta: "Nunca mais!"
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Samba do avião
Sobrevoando o Rio, leio uma matéria curiosa na Isto é sobre infidelidade feminina. As mulheres, segundo pesquisa, assumem que estão traindo mais. Na cadeira ao lado, uma mulher que apanhara o avião em Fortaleza olha de soslaio para a revista, discreta, apenas correndo o olhar para mim, vez e outra. Finjo não ver, mas diante de sua curiosidade convidativa, retribuo o olhar e só então constato. É bonita, 40 anos, pouco mais ou menos. Previdente, certifico-me de que esteja só, e pergunto se concorda com o teor da reportagem. Sem titubear, diz ela: - "... mais e melhor!" Risos.
Entre curioso e intrigado, indago-lhe por que "melhor". Ela, que me parece de um bom nível cultural, larga um Saramago de que iniciara a leitura e voltando-se na cadeira, esbanja convicção: - "Porque as mulheres aprenderam a diferença entre sexo e amor." Fecho a revista e fico em silêncio, até que me vem a resposta que é mais uma pergunta. Por que então manter uma relação que já não a satisfaz? Por que não romper o casamento falido e sair de vez para a liberdade lá fora? A moça ajeita o cabelo, no que dá a ver um charme que envolve e desfia afirmações peremptórias sobre o assunto, que agora vai tomando um rumo que já conheço de 'outras viagens'.
Fala que nem sempre separar é o caminho, que o casamento não se limita a sexo, que manter uma relação às vezes é o melhor para os dois, que isto e aquilo. Sem vacilar, com a serenidade de quem traz no currículo um histórico de causar inveja a qualquer Luana Piovani. E não espera mais que lhe pergunte. Vai sem-cerimônia, dando exemplos. Referindo-se a uma amiga: - "A Fabíola vive bem com o marido e tem um amante que a realiza sexualmente." Tento questionar o "vive bem com o marido", mas não me deixa falar. E prossegue, desenvolta: - "A Roberta, uma amiga gaúcha de 32 anos, é casada há seis e já teve três homens na vida dela, mas o marido é o mesmo."
Depois de desfiar outros casos de infidelidade entre amigas, Carla, que enfim se apresenta, decorridos dez, quinze minutos de conversa, só então pergunta o que penso sobre o assunto. Digo-lhe que entendo a infidelidade como algo às vezes compreensível, nunca aceitável. Falo-lhe das razões que podem levar a tal experiência. Que, não sendo um crime, poderia ser evitada se os casais fossem mais tolerantes, se buscassem compreender melhor os motivos que levam duas pessoas a decidir pela vida juntos. Quando acho ter contribuído com suas análises, tão pessoais, tão independentes, posto que me escuta atentamente, desconcerta-me: "Fica no Rio até quando?" Digo-lhe que estou indo a São Paulo, onde minha namorada me espera e que estamos ansiosos pelo reencontro, depois de um mês separados. Diz ela, taxativa: - "Ah... Se fosse ficar no Rio, meu marido está viajando e poderíamos nos encontrar para um chope à noite, no Leblon, perto de casa."
Agradeço-lhe a gentileza, olho através da janela do avião e, discretamente, baixinho, canto o samba de Jobim: "Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, estou morrendo de saudade..."
Chegou o Windows 7: Incrivelmente simples! Clique e conheça.
Entre curioso e intrigado, indago-lhe por que "melhor". Ela, que me parece de um bom nível cultural, larga um Saramago de que iniciara a leitura e voltando-se na cadeira, esbanja convicção: - "Porque as mulheres aprenderam a diferença entre sexo e amor." Fecho a revista e fico em silêncio, até que me vem a resposta que é mais uma pergunta. Por que então manter uma relação que já não a satisfaz? Por que não romper o casamento falido e sair de vez para a liberdade lá fora? A moça ajeita o cabelo, no que dá a ver um charme que envolve e desfia afirmações peremptórias sobre o assunto, que agora vai tomando um rumo que já conheço de 'outras viagens'.
Fala que nem sempre separar é o caminho, que o casamento não se limita a sexo, que manter uma relação às vezes é o melhor para os dois, que isto e aquilo. Sem vacilar, com a serenidade de quem traz no currículo um histórico de causar inveja a qualquer Luana Piovani. E não espera mais que lhe pergunte. Vai sem-cerimônia, dando exemplos. Referindo-se a uma amiga: - "A Fabíola vive bem com o marido e tem um amante que a realiza sexualmente." Tento questionar o "vive bem com o marido", mas não me deixa falar. E prossegue, desenvolta: - "A Roberta, uma amiga gaúcha de 32 anos, é casada há seis e já teve três homens na vida dela, mas o marido é o mesmo."
Depois de desfiar outros casos de infidelidade entre amigas, Carla, que enfim se apresenta, decorridos dez, quinze minutos de conversa, só então pergunta o que penso sobre o assunto. Digo-lhe que entendo a infidelidade como algo às vezes compreensível, nunca aceitável. Falo-lhe das razões que podem levar a tal experiência. Que, não sendo um crime, poderia ser evitada se os casais fossem mais tolerantes, se buscassem compreender melhor os motivos que levam duas pessoas a decidir pela vida juntos. Quando acho ter contribuído com suas análises, tão pessoais, tão independentes, posto que me escuta atentamente, desconcerta-me: "Fica no Rio até quando?" Digo-lhe que estou indo a São Paulo, onde minha namorada me espera e que estamos ansiosos pelo reencontro, depois de um mês separados. Diz ela, taxativa: - "Ah... Se fosse ficar no Rio, meu marido está viajando e poderíamos nos encontrar para um chope à noite, no Leblon, perto de casa."
Agradeço-lhe a gentileza, olho através da janela do avião e, discretamente, baixinho, canto o samba de Jobim: "Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, estou morrendo de saudade..."
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