Prece do Brasileiro

O Brasil estreia neste domingo 17, contra a Suiça. Mas, na contramão do que já fez história, em lugar do entusiasmo de uma "pátria de chuteiras", na feliz metáfora de Nelson Rodrigues, paira no ar um desânimo que parece tomar conta de todos os brasileiros. E não é, como ocorreu em outras copas do mundo, 1966, por exemplo, pela descrença nas possibilidades concretas da seleção canarinho. Não, que poucas vezes fomos à disputa com um time tão bem estruturado e com tantos grandes valores individuais como agora. A que se deve, então?

O desânimo, estou certo, é reflexo de que, na peia, é verdade, estamos aprendendo a entender como tem funcionado este País, e a sonhar com o essencial em lugar do supérfluo. Ao invés de um troféu (e que ele venha, com milagre ou sem, como quis Drummond), capaz de embotar nossa atenção para o que é fundamental neste instante, o brasileiro dá sinais de, finalmente, ter despertado para o que realmente importa: educação, saúde, condições de vida digna para todos; justiça sem dois pesos e duas medidas, políticos comprometidos com os interesses mais legítimos do povo, tomando a palavra, aqui, pelo que ela é deve traduzir na perspectiva da gigantesca maioria dos filhos desta terra, dos que, desde o golpe de 2016, voltam a engordar revoltantemente os índices de miséria, as estatísticas daqueles que vivem a baixo da linha de pobreza.

E já que citei o poeta de Minas, explico-me por que o fiz.

Às vésperas da Copa do Mundo de 1970, estava o Brasil no México pouco antes da estreia, Carlos Drummond de Andrade escreve e pública Prece do Brasileiro, um poema antológico, cujo substrato temático ironiza a nossa vocação para o sentimentalismo piegas e nossa histórica incapacidade de pensar criticamente a realidade. De não ter, noutras palavras, olhos capazes de enxergar as nossas mazelas, os nossos infortúnios e, que me perdoem a deselegância, as sacanagens que têm feito ao nosso país.

"Meu Deus, / só me lembro de vós para pedir, / mas de qualquer modo é uma lembrança. / Desculpai vosso filho que se veste / de humildade e esperança / e vos suplica: Olhai para o Nordeste / onde há fome, Senhor, e desespero / rodando nas estradas / entre esqueletos de animais"., é como abre o poema Drummond, para prosseguir na prece tresloucada:

"Em Iguatu, Parambu, Baturité, / Tauá / (vogais tão fortes não chegam até vós?) / vede as espectrais / procissões de braços estendidos / assaltos, sobressaltos, armazéns / arrombados e --- o que é pior --- não tinham nada".

E vai o eu-lírico pedindo, pedindo, sem no entanto tirar os olhos de Guadalajara, cidade mexicana em que atuariam as nossas feras:

"Meu coração, agora, tá no México / batendo pelos músculos de Gérson / a unha do Pelé, / a cuca do Zagalo, a calma do Leão / e tudo mais que liga o meu país / a uma bola no campo e uma taça de ouro".

Àquela altura, escrevia o Brasil uma de sua páginas mais aterradoras, em plena Ditadura militar, torturas inomináveis, exílios forçados, corrupção desabrida só ignorada por força do discurso autoritário reinante e pelo temor das ameaças de toda ordem. Mas o Brasil, santa ingenuidade, entrava em campo para enfrentar a então Tchecoslováquia, que venceria com o escore humilhante de 4 a 1, e era isso o que, senso comum, parecia verdadeiramente importar!

Na mais feliz das astúcias poéticas, Drummond refere o ditador, o presidente Médici, com a genialidade do grande poeta:

"Comigo é na macia, no veludo / lã / e, matreiro, rogo, não /ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) / mas ao Deus que Bandeira, com carinho / botou em verso: 'meu Jesus Cristinho'."

Neste domingo, dizia eu, o Brasil entra em campo. Se não vivemos a Ditadura aberta, escancarada, para me valer da expressão do jornalista famoso, contados 48 anos desde a Copa de 70, é que a temos mal disfarçada sob a capa preta de uma Justiça tendenciosa, a sonhar, entre envergonhada e cínica, para a volta aos tempos sombrios, com que, aliás, esteve àquela época comprometida, descaradamente.

Que o Brasil vença a Suiça, que a esmague, se possível, e que isso, por milagre ou sem ele, ao contrário do que o futebol parece ter feito sempre, sirva para abrir nossos olhos às vésperas da escolha com que decidiremos nosso real destino... "Do contrário / ficará a Nação tão malincônica, / tão roubada em seu sonho e seu ardor / que nem sei como feche a minha crônica".

 

 

 

 

 

 

Memória e silêncio no cinema chileno

Cada vez mais as fronteiras entre as diferentes linguagens têm se mostrado devassáveis. Esse campo epistemológico, já há muito examinado por grandes estudiosos, na linha das contribuições de nomes importantes como os de Umberto Eco e Susanne Lange, para ficar em dois autores que curiosamente se colocam tão próximos e tão distantes, mas que são em igual medida incontornáveis no território do que se tem produzido sobre linguagem, vem despertando desde algum tempo o interesse do professor e eminente pesquisador Régis Frota, de que resultaram livros muito interessantes em torno das traduções intersemióticas, a exemplo de literatura/cinema, direito/cinema e arquitetura/cinema.

O tema, por si só, é muitíssimo sedutor, uma vez que o cinema trabalha no âmago da linguagem, constituindo, como já nos advertiu Julio Plaza, em livro obrigatório, o mais perfeito modelo das inter-relações semióticas desde suas bases estéticas, que exploram, é sabido, o cruzamento de diferentes códigos numa perspectiva de tempo/espaço que é mesmo o existe nele de mais específico: a montagem.

É pela montagem, pois, que o cinema condiciona o espectador a preencher vazios, silêncios, fragmentos de memória, estabelecendo com ele, o espectador, um tipo de parceria sem a qual nenhuma narrativa se sustenta, e a comunicação se tornará impossível em termos satisfatórios.

Não é muito lembrar o que teorizou sobre isso o cineasta russo Sergei Eisenstein em suas Reflexões de um cineasta: "A imagem inventada pelo autor torna-se a própria substância da imagem do espectador... Fabricada por mim, espectador, nascida em mim. Não somente obra do autor, mas obra minha como espectador, espectador que também é criador".

Digo isso para ressaltar o empenho bem sucedido de Régis Frota em parte significativa de sua vasta produção. Agora, vem a público com um livro diferente, sem abadonar, no entanto, sua visada atenta e habilidosa acerca das traduções entre diferentes linguagens, objeto epistemológico, como já disse, tão caro ao estudioso cearense, bem na linha do que faz quando examina Inocência, de Visconde de Taunay, levado para o cinema pelas mãos sensíveis de Walter Lima Jr., ou São Bernardo, de Graciliano Ramos, com a direção "segura" de Leon Hirszmann, dois dos muitos filmes sobre os quais se debruça Régis Frota em sua mais recente incursão no campo cinematográfico.

Mas o livro Memória e Silêncio no Cinema Chileno, como é fácil deduzir a partir do seu belo título, tem como escopo, mesmo, é o cinema do Chile, que Régis, pela paixão com que encara todos os desafios relacionados à sétima arte, passou a conhecer como poucos. Desse modo, não bastassem as numerosas e inquestionáveis qualidades da pesquisa, presta o autor um serviço sem precedentes à ensaística cinematográfica brasileira, preechendo, com mérito que devemos aplaudir, uma lacuna inaceitável, considerando-se aquilo que representa a cinematografia chilena, desde suas origens aos dias atuais.

Aprendi muito, pois, com o livro do Régis Frota, no que diz respeito ao cinema do Chile e a realizadores da envergadura de Raul Ruiz, Patrício Gúzman, Pablo Larrain, Matias Bize e Fernando Lavanderos, para citar uns poucos dentre aqueles já "vistos" por cinéfilos brasileiros. Aprendi muito, insisto. "Não fosse isso e era muito, não fosse tanto e era quase", que me ocorrem, neste instante, as palavras do poeta Leminsky.

Régis Frota, mais uma vez, enriquece o repertório crítico-analítico do cinema latino-americano, com destreza e aguda percepção do que é de fato relevante numa realização fílmica, e se firma como um conhecedor e crítico de cinema muito acima da média. O que dignifica a cinefilia do Ceará.

Do bisonho à grande arte


Sentava-me diante do computador para produzir a coluna semanal do jornal 'A Praça' e percebo, no monitor do celular, a mensagem de um amigo, cujo conteúdo, em palavras ligeiras, é este: -- "Agora entendo por que o Brasil é o único país em que professor vota em analfabeto" (sic).

O texto servia de legenda para um "infográfico" que destaca o Brasil  --- sem premiação --- entre os países agraciados com o prêmio Nobel. Ato contínuo, respondo: "Só mesmo num país em que Bolsonaro pode vir a ser eleito presidente pode-se considerar aceitável esse tipo de argumento.

Também médicos, cientistas, intelectuais de toda ordem e escritores brasileiros jamais foram contemplados com um Nobel, e, nem por isso, é aceitável ignorar que os temos da melhor qualidade, muitos com prestígio em meios acadêmicos dos EUA e da Europa.

Isso se confunde com a nossa história de atraso e pequenez assumida, algo como aquilo que o teatrólogo Nelson Rodrigues definiu como "complexo de vira-lata". A minha indignação, claro, é menos com o amigo, tolo, e mais com o conteúdo do post, contra o preconceito bisonho do que pretende ser uma reflexão inteligente e desinteressada. Concluo: O "analfabeto" a que tacanhamente o texto alude, devia-se saber, é doutor honoris causa em pelo menos 20 universidades, muitas europeias, entre as quais a Universidade de Coimbra, em Portugal, que tive a alegria de visitar há poucos dias. Por curioso, havia lá uma pixação: "Lula Livre!"

Mas era outro o assunto da coluna de hoje, ao qual me reporto agora.

A poucos dias do início da Copa do Mundo, visito a cidade russa de São Petesburgo, levado, devo dizer, pelo amor à cultura desse país imenso, por sua literatura, suas tradições nos campos da inteligência e da estética, seu teatro, sua Arte, enfim. Eis que deparo com uma cidade alucinantemente bela, com suas avenidas largas, seus numerosos parques povoados de árvores a perder de vista, monumentos e estátuas que são, antes de qualquer coisa, obras-primas da escultura imperial. Mas, acima de tudo, e na contramão daquilo para o que fui equivocadamente preparado, descubro-me diante de um povo simpático, atencioso e acolhedor.

Aqui está o Hermitage, um conjunto paladino que surpreende pela grandeza e suntuosidade, tendo como eixo central o Palácio de Inverno, admirável exemplar do barroco russo, antiga morada dos imperadores, ao redor de cujo edifício se estendem numerosas outras grandes construções, não menos suntuosas e belas, pontuadas todas pela harmonia de ritmos arquitetônicos e proporcionalidade. Aqui está, pois, um dos mais importantes museus do mundo, e aquele que abriga, de longe, o maior número de quadros de quantos museus existem. Aqui está, insisto, o Hermitage, ícone da cultura e orgulho de um povo que se notabiliza pela desmedida telúrica e pela capacidade de tudo transfigurar em tradição russa.

Para que se tenha uma ideia do que representa o Hermitage para o mundo artístico, não se sabe com exatidão quantas peças de arte existem no seu acervo. O folder que tomo nas mãos ao adentrar o museu, aponta para números impressionantes: em torno de três milhões de obras (você não leu errado, três milhões), da escultura egípcia sem datação possível às pinturas joviais e festivas do estilo rococó, de Jean-Honoré Fragonard e Antoine Watteau; da arte inglesa dos séc. XVI - XIX ao impressionismo francês, de Renoir, Cézanne, Monet, Manet; da Judite (princípios dos anos 1500), obra-prima do renascentista Giorgione (Giorgio da Castelfranco) à famosa O Jovem do Alaúde, de Michelangelo Merisi da Caravaggio, expoente da arte barroca italiana; de Dança, de Henri Matisse, às composições alegres de Vassili Kandinsky. 

Um pouco europeu, um pouco asiático, a um só tempo ocidental e oriental, aqui vive um povo diferenciado, que produz uma literatura soberba, um teatro que não tem par... e que renasce do que diziam cinzas, para se reafirmar como uma superpotência que o mundo por inteiro se vê na obrigação de respeitar.  

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Karl Marx e a modernidade

Com algum atraso, chega finalmente às livrarias da cidade Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna, o muito aguardado livro de Michael Heinrich. Trata-se do primeiro volume de uma série de três livros sobre vida e obra do pensador alemão (os outros dois estão previstos para 2019 e 2020), resultado de uma pesquisa exaustiva e invulgarmente criteriosa do ponto de vista acadêmico acerca do processo histórico em que o biografado se desenvolveu como homem, teórico, político e revolucionário. Não sem razão, pois, Heinrich, já nas primeiras linhas do prefácio à obra, põe em evidência as motivações que o levaram a se debruçar anos a fio sobre documentos e fatos jamais explorados em outras biografias do autor de O Capital. Como afirma, sua intenção não é cultuar uma personalidade.

De fato. Ainda que a obra de Michael Heinrich se coloque na perspectiva festiva de outras produções ligadas aos 200 anos de nascimento de Karl Marx, o livro vai muito além do culto a sua personalidade, como que empenhado em mostrar-se fiel ao perfil pouco afeito a qualquer tipo de publicidade por que se orientou o revolucionário alemão. Esta a razão por que Heinrich começa a sua narrativa com o fragmento de uma carta em que Marx dá a ver sua indiferença com a popularidade que parecia mesmo persegui-lo: "[...] Comprovei aversão a todo tipo de culto à personalidade, por exemplo, no período em que participei das internacionais [refere-se à criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864), quando impedi que se tornassem públicas as várias tentativas incômodas  --- vindas de diferentes países --- de reconhecimento; nem sequer as respondi, a não ser uma ou outra vez, rejeitando-as".

Irrelevâncias à parte, o livro corresponde ao prestígio que lhe tem sido atribuído por especialistas há poucos meses de sua publicação. Abordando do nascimento de Marx, em 1818, a inícios dos anos 40 (1841, para ser mais preciso), Karl Marx e o nascimento da sociedae moderna notabiliza-se por um rigor científico invulgar, e, esteio da pesquisa, pela consciência acadêmica do autor diante do que reconhece como projeto inacabado, a obra de Karl Marx, marcada por começos e rupturas que são mesmo o sentido e a razão por que se ressignifica com o passar do tempo, constituindo uma teoria de incontornável validade intelectual e política ainda hoje, ainda que o próprio Marx nos advirta que toda produção intelectual se prenda a um momento histórico específico.

Mas, é sobretudo num aspecto que o livro de Heinrich me impressionou positivamente, distanciando-se de algumas das publicações vindas à tona por ocasião do bicentenário de nascimento de Karl Marx: a recusa à tendência reinante de se querer historicizar a teoria marxista como página virada, sem qualquer potencial acadêmico e político na atualidade. Na contramão do que é mesmo lugar-comum nas muitas biografias de Marx, recentemente disponibilizadas no mercado e empenhadas em reproduzir o discurso de que "Marx está morto", o livro de Michael Heinrich aponta para um outro rumo. Se Marx estivesse de fato morto, como diz o jovem cientista político alemão, "não seria necessário evocar tanto a sua morte".

Um livro excelente!   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando o mundo tremeu


Durante voo entre Fortaleza e Lisboa, leio 1968, quando o mundo tremeu, do jornalista Roberto Sander. Não está no mesmo nível de 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura, por exemplo, o melhor livro brasileiro sobre os movimentos estudantis de 50 anos atrás. E, é claro, perde feio para trabalhos de fôlego sobre o maio de 68 publicados na França, sobretudo lá, epicentro da rebelião que se propagaria mundo afora, o Brasil inclusive. Mas é leitura agradável que recomendo, notadamente para o público mais jovem, a quem o livro de Sander poderá prestar um relevante serviço do ponto de vista político, quando estamos a pouco menos de cinco meses de escolher deputados, senadores, governadores e, principalmente, o novo presidente brasileiro.

Refiro-me ao fato de que pesquisas recentes apontam Jair Bolsonaro como o primeiro ou segundo nome mais simpático aos eleitores brasileiros da faixa dos 20, 30 anos. Um absurdo, uma vez que só a ignorância (tomo a palavra aqui em seu sentido etimológico) para explicar tal fenômeno entre os jovens, que, presumo, desconhecem o que vivia o Brasil há meio século, e o que representa eleger um candidato de extrema-direita, militar e assumidamente identificado com o que existe de mais devastador como proposta de governo para o Brasil dos próximos quatro anos.

Escrito numa linguagem referencial, o livro de Roberto Sander é uma publicação mais que aconselhável para quem precisa saber o que foi 1968, a propósito de cujo ano é de cara justificável a expressão "quando o mundo tremeu", referência objetiva do autor a fatos que mudariam o mundo nos cenários político, social, econômico, cultural e científico.

Como afirma Roberto Sander com aguçada capacidade de análise, ainda que, sob muitos aspectos, conciso no registro de fatos que mereceriam ser tratados com maior riqueza de detalhes, bem na perspectiva do que parecem cobrar do historiador a Guerra do Vietnã, as manifestações em favor dos direitos civis, A Primavera de Praga e, acima de tudo, o explosivo movimento dos estudantes franceses em maio de 1968, o livro constitui mais que uma reflexão sobre tantos e tão importantes acontecimentos: o trabalho "garimpa histórias esquecidas pelo tempo que contribuíram para que 1968 fizesse a Terra tremer e selasse, de vez, o fim dos chamados anos de ouro".

Aos jovens brasileiros, como disse, em grande número empenhados em fortalecer a candidatura de Jair Bolsonaro e o seu ideário político tomado das piores intenções, destaco o capítulo do livro dedicado especificamente ao movimento estudantil brasileiro desde o início do ano, particularmente quando Roberto Sander registra o assassinato do estudante Edson Luís, em março, no Restaurante Central dos Estudantes. Popularmente conhecido pelo nome de Calabouço, o restaurante era o reduto estudantil que viria a ser palco das grandes discussões sobre o destino do país nas mãos da Ditadura Militar.

Impedidos de sair do Calabouço e participar de uma marcha histórica por algumas das principais ruas do Rio de Janeiro, "os estudantes avançaram e conseguiram, a muito custo, libertar Edson Luís", àquela altura, por volta das 18h 30, apreendido e submetido a maus-tratos por policiais. "Quando recuaram, narra o autor, foram ouvidos vários tiros. Um deles atingiu o rapaz [Edson Luís], que tombou ensanguentado e desacordado".

A exemplo do que fizera com brilhantismo Zuenir Ventura, Sander descreve como as coisas aconteceriam a partir daí: a revolta dos estudantes e a cinematográfica marcha até a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro carregando nos braços, sobre a multidão, o corpo do colega que se tornaria um dos principais ícones das lutas políticas dos jovens brasileiros há exatos 50 anos  ---  "Não era um cadáver qualquer, diz o autor, por trás de Edson Luís estava toda uma geração de jovens com princípios democráticos aflorados, sonhando com a liberdade e com um mundo mais justo. Eram tempos que não combinavam em nada com o regime de força que governava o Brasil. O choque entre duas partes da vida, cedo ou tarde. O peito baleado do jovem estudante do Calabouço apenas acelerou o embate".

   

  

 

  

  

Viagem à Escandinávia

"Ela é viva, inquieta, contraditória, animal, carnal. Ela é plena, dessa plenitude Harriet Andersson dá conta com tanta desenvoltura que não é de estranhar que Bergman tenha feito dela sua musa quase ao primeiro olhar".

São as palavras do crítico Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, sobre a personagem central de "Mônica e o desejo", 1953, de que recordo mal sinto os pés pisarem o solo da Capital sueca.

Vívidas, apaixonantes, vêm-me à mente imagens clássicas do cinema: o olhar perdido no vazio do mar imenso, de Greta Garbo, em "Rainha Cristina", altiva, sedutora, deslumbrante. E Anita Ekberg, linda, transgressora, adentrando as águas da Fontana de Trevi com Marcello Mastroianni, em "La Dolce Vita", de Federico Fellini. E Ingrid Bergman, nos closes inigualáveis de "Casablanca". E, Liv Ullmann, atormentada sob as sombras da neurose, em "Persona", de Bergman.

Que cinéfilo, como eu, não terá plasmado seu amor pelo cinema nas estrelas dos grandes filmes, Greta Garbo, Anita Ekberg, Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Harriet e Bibi Andersson, Britt Ekland, Ann-Margret e tantas outras atrizes nascidas neste país sobre cujo solo meus pés caminham pela primeira vez, nesta bela manhã sueca.

É maio, início da primavera na Escandinávia, mas o frio ainda é intenso, cortante, enquanto Ticiana e eu percorremos, tomados de espanto, as ruas desta cidade fantástica e de uma vitalidade contagiante...

Inevitável pensar como países assim puderam passar de pobres, para os padrões europeus, para liderar os mais elevados níveis de desenvolvimento, os números mais impressionantes de qualidade de vida, de educação, saúde, segurança... de justiça social, de direitos plenos, de renda pessoal e de harmonia entre as pessoas.

Enquanto os meus olhos se encantam, o coração aperta com a recordação de minha terra, da realidade do meu país longínquo, tão triste e revoltantemente explorado, usurpado, vilipendiado pelas forças do atraso e da desfaçatez.

Aqui, quando estamos a poucos dias da abertura da Copa do Mundo, lembro de que o Brasil conquistou o seu primeiro título mundial, em 1958, pelos pés de Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Bellini, Vavá, Zagallo... Pelas mãos de Gilmar!

Aqui, pela primeira vez na história do cinema, filmaram-se seios nus, os seios de Ulla Jacobsson, em "A última felicidade", de Arne Mattsson, por volta de 1951.

No táxi, que me leva ao teatro ao longo de tantos anos dirigido por Ingmar Bergman, Ticiana e eu comentamos a beleza chamativa das mulheres, essas deusas de olhos acesos a transitar, com passos de garças, os paradisíacos parques que cobrem de verde-cana áreas imensas da cidade.

As mulheres das quais se forjou o mito da sexualidade licenciosa e insaciável, a fome de amor de que nos falou o escritor português Fernando Namora em "Os adoradores do sol", libertas e soberanas, que tiveram forças para conquistar do homem a independência e o direito de cometer, como ele, os mesmos erros da concupiscência e do erotismo desenfreado, e, no entanto, "sonham com toureiros castigadores e com árabes ciumentos".

Estocolmo, 8 de maio de 2018
















Enviado do meu iPad

As Boas Mulheres da China

Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores.

Há coisa de uns cinco, seis anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse As Boas Mulheres da China, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo, contudo, lembro com detalhes do livro e do impacto que me causou. 

Quando sento à frente do computador para escrever a coluna de hoje, vêm-me à mente alguns dos depoimentos que fazem parte da narrativa, e que ainda repercutem em mim sempre que sou levado a refletir sobre a violência praticada contra mulheres no mundo inteiro. 

O livro nasceu do conjunto de entrevistas realizadas por Xinran num programa de rádio com nome delicado e poético: Palavras na Brisa Noturna, no qual, a então jovem jornalista, dedicou-se durante oito anos a discutir questões femininas que poucos teriam a coragem de tratar, num país curvado ao peso de tradições culturais milenares e num contexto profundamente machista e autoritário. O que resulta dessas conversas, ao contrário da delicadeza e poesia do título, é aterrador. 

Impossibilitada de publicar o livro na China, Xinran, nascida em Pequim, em 1958, teve de abandonar o país e se fixar em Londres, onde As Boas Mulheres da China pôde finalmente ser lançado. No Brasil, sairia pela Companhia Das Letras. 

Com sensibilidade, prudência e um senso de realidade que viriam a constituir um dos aspectos mais notáveis do livro, conferindo-lhe uma densidade poucas vezes alcançada sobre um tema nem sempre tratado com a devida atenção, Xinran foi tomando esses relatos, pontuados de sofrimento, desilusões, opressão, tristezas de toda espécie, para edificar uma obra que o mundo inteiro deveria ler. 

São mulheres dilaceradas pela brutalidade masculina, num país que se vangloria de ser hoje a segunda maior potência econômica do mundo. Estupros, casamentos forçados, práticas perversas a fim de proporcionar o prazer sexual do homem, tudo no livro é bastante para gerar a indignação do leitor. Casos como o de Hongxue, para ficar num exemplo, a mulher que se descobriu para o afeto não pelas carícias de mãos humanas, mas pelas patas de um inseto. 

A violência contra a mulher chinesa, já não bastassem as informações culturais transmitidas de uma geração a outra, começa muito antes do nascimento. A política de um só filho, estimulada pelo governo, vem resultando num desequilíbrio brutal entre homens e mulheres, numa população que passa hoje de 1,3 bilhão de pessoas. Esta a razão por que os abortos se dão no país de forma seletiva, isto é, quando os exames de ultrassom indicam o sexo feminino do bebê durante a gravidez. Muitas mães fazem o aborto para se livrarem de fetos do sexo feminino. 

Estatísticas dão conta de que 25 milhões de rapazes estão em idade de casar, mas não encontram com quem. Isso tem levado ao aumento da violência contra a mulher, sequestros e comércio de meninas e adolescentes, bem como ao crescimento da prostituição. 

Se as mulheres na China, desde a Revolução de 1949, livraram-se dos chamados "pés de lótus" (ataduras eram violentamente apertadas a fim de impedir que crescessem), que lhe garantiam "beleza, fidelidade e submissão ao homem", ainda hoje o estupro é fato recorrente no país em proporções gritantes. 

É triste saber que a realidade do Brasil hoje, nos quatro cantos deste imenso país, não difere muito da realidade chinesa. E, por absurdo, parece vir se tornando pior.

 

 

 

  

 

 


 

Pleonasmo para Normando

Nos limites do estado, ou mesmo fora dele, não será fácil encontrar um homem com a densidade humana de Pedro Normando Feitosa. Digo isso, assim, sem meias-palavras, porque tenho a convicção do que isso representa, num tempo em que estamos tão carentes de nomes valorosos como ele foi, como pessoa e como profissional.

Conheci-o, mais inteiramente, como colega de trabalho, assim que ingressou como professor, poucos anos depois de mim, e logo engajou-se nas lutas pela redemocratização da então Escola Agrotécnica Federal de Iguatu, passando, em questão de dias, a fazer parte de uma geração que despontava no cenário da educação profissionalizante federal como uma alternativa para o modelo vigente desde o Golpe de 1964, com a antiga COAGRI.

Eram tempos difíceis, autoritários, muito embora, em nível da EAFI, contássemos com gestores mais arejados e afeitos ao diálogo, a exemplo do que foram, enquanto diretores, Elze Montenegro e Pedro Hiromasa Osawa, com quem sempre tivemos relações cordiais, na perspectiva pessoal e profissional. Mas, insisto, eram tempos difíceis, quando a educação profissionalizante no país encontrava-se umbilicalmente ligada aos ditames do famigerado acordo MEC-USAID. Um horror.

Pois bem, desde os primeiros dias como contratado da Escola, Pedro Normando tornou-se uma liderança inconteste, sobrepujando os da linha mais combativa, comprometida ideologicamente com um projeto de esquerda, de que eu fazia parte, por seu perfil conciliador e aberto ao diálogo com que se tornaria, em pouco tempo, um elemento catalisador das diferentes frentes de militância que defendiam um projeto de transformação do modelo de gestão até então adotado.

Com sua desenvoltura política, no que inequivocamente guardava algumas características mais conservadoras, Normando foi ocupando espaços, negociando, com um talento insuspeito, propostas e linhas de ação; conversando com adversários, apontando saídas para as questões mais polêmicas, adoçando o debate com um jeito inconfundível de tratar com as diferenças e o contraditório. Enfim, fazendo como sabem fazer as grandes lideranças a fim de obter os bons resultados, mesmo quando, não raro, tornam-se alvo de julgamentos precipitados e de incompreensões muitas vezes injustas.

Tornou-se diretor "pró-tempore", mostrou trabalho, ganhou adeptos, convenceu descrentes, indicou caminhos e soluções, fez e refez, liderou radicais e conciliadores, suplantou barreiras, venceu desafios, agigantou-se como um nome imbatível nas eleições para Diretor-Geral da Escola Agrotécnica Federal de Iguatu. Venceu, elaborou um projeto de gestão moderno, sintonizado com o que existia de mais avançado em termos de educação técnica no país --- e elevou a EAFI a uma posição de destaque na rede em nível nacional, de que se tornaria, ele, Normando, uma das vozes mais respeitadas e ouvidas de todos os tempos.

Mas é da pessoa humana que gostaria de falar, dedicando-lhe, exatamente como o escrevi no momento em que fui comunicado de sua morte, sob o peso de uma incontida emoção, este pequeno e mal traçado poema em prosa, Pleonasmo para Normando: "Amigo, irmão de tantas estradas, de tantas lutas... de tantas utopias! Meu irmão querido, das vezes em que concordávamos e, muito mais, amigo das dissidências, não raras! Amigo e irmão Normando, das viagens juntos, de tantas conquistas, das tardes de conversas jogadas fora! Meu amigo, meu irmão, meu companheiro de batalhas, meu confidente nas horas de aflição e medo do desconhecido, que ainda sinto a força da tua mão amiga, quando dos passos inseguros, dos titubeios inomináveis da vida! Meu patrono de ECC, meu desafeto das ideologias, meu eterno parceiro das tardes de sexta-feira, da cerveja gelada, do queijo assado na varanda de tua casa, do cigarro ruim, do falso amigo que mata! Meu Diretor, meu amigo, meu querido companheiro de voos, meu vizinho de quarto nos hotéis, meu incansável lutador, meu chefe, meu querido Normando... Meu admirável sonhador, meu exemplo de fidalguia, meu bom conterrâneo, meu eterno conselheiro! Meu insubstituível professor das melhores lições: deixa que te diga, insisto, que te tente dizer, agora que não escutas (a voz embargada pela notícia que dói, que me abre o peito), que vamos, meu ídolo e de todos nós, que haveremos, assim repetindo palavras e juras, eu e os de tua equipe dos tempos de Escola, te amar sempre, apesar da tua ausência e da falta imensa que fazes! Te amar e encontrar formas de continuar a tua luta, teus planos que ficaram por realizar, teus inumeráveis projetos, tua maneira sem par de acreditar na vida e nos homens! Deixa, por Deus, deixa que te agradeça por tudo, meu amigo e meu irmão Normando... grande, imenso cidadão, deixa que te dê um último abraço e que me espelhe no teu exemplo, na tua dignidade e na tua retidão! Para sempre, deixa!, que ainda existe  ---  pela frente  ---, um caminho de pó e de esperança!

   

Nelson Pereira dos Santos

Com a morte de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), perdeu o Brasil seu mais importante realizador de cinema desde Glauber Rocha (1931-1981). Intelectual de esquerda, com passagem pelo PCB, para cujo partido produziu trabalhos memoráveis no campo da crítica cinematográfica, e da literatura, de que era profundo conhecedor, Nelson foi presença notável em momentos decisivos das lutas em favor da redemocratização do país. 

Como poucos grandes artistas brasileiros, tinha uma fina compreensão do que se pode definir como a função social da arte, o que salta aos olhos de qualquer espectador minimamente atento aos conteúdos explorados por ele em sua vasta cinematografia. Estão nela, desde a estreia com Rio, 40 graus, em 1956, os despossuídos de uma sociedade cruelmente desigual, negros e mestiços, a gente simples do morro e da periferia, os humilhados e ofendidos dos quatro cantos do país. 

Mas, se é oportuno realçar o compromisso com as lutas em favor de uma sociedade mais justa e mais humana, de que Nelson Pereira dos Santos jamais se esquivou, num momento em que mesmo o audiovisual presta-se a fortalecer a retomada de um pensamento de extrema-direita, a exemplo do que fazem despudoradamente os cineastas José Padilha e Marcos Prado com a série O mecanismo, em streaming da Netflix, é sobre o artista brilhante que gostaria de tecer aqui algumas considerações. 

Na melhor tradição do cinema neorrealista, Nelson Pereira dos Santos deixa-nos com sua obra um dos mais expressivos legados do cinema mundial. Refiro-me, aqui, ao esteta, ao diretor de algumas das mais inesquecíveis sequências do cinema brasileiro, bem na linha do que se vê logo no início de Rio, 40 graus, quando a câmera subjetiva de Nelson acompanha um menino pobre atrás de sua lagartixa de estimação, que fugira para o zoológico da Quinta da Boa Vista, alojando-se na jaula das cegonhas; chama-a, e a custo a resgata. Vê-se, então, em closes bergmanianos, a expressão terna do garoto diante da beleza imensa do parque, atração turística inacessível para ele. A sequência torna-se ainda mais tocante quando um segurança toma-lhe a lagartixa das mãos e a atira para as cobras. Em plano fechado, vê-se o réptil dirigindo-se no rumo de sua presa inesperada. Que bela alegoria da sociedade de classes. 

Entretanto, a despeito de ter feito com Rio, 40 graus uma estreia notável, por suas imensas qualidades de forma e conteúdo, nada que se possa comparar a Vidas Secas (1963), quarto filme de Nelson Pereira dos Santos, roteirizado a partir do romance de mesmo nome do escritor alagoano Graciliano Ramos. 

Aqui, plasmando-se no que define como inigualável senso dos valores dramáticos e na segura penetração psicológica do escritor, Nelson realizou um singular trabalho de adaptação: reinventou a narrativa do livro sendo-lhe, no entanto, rigorosamente fiel; modificou sua estrutura textual a fim de obter resultados impensáveis numa linguagem não literária, como o discurso indireto livre ou fluxo de consciência*, que torna possível para o espectador acompanhar o que se passa na cabeça de Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e, numa prova de sua genialidade com a câmera, da própria cachorra Baleia. 

É esse recurso narrativo, por sinal, que Nelson Pereira dos Santos explora à perfeição já nas sequências iniciais do filme, quando revela, por exemplo, o desejo obsessivo de Sinhá Vitória de ter uma cama confortável como a de Seu Tomás, um proprietário de terras para quem o marido trabalhara. Para não falar da comovente (e plasticamente soberba) cena da morte lenta de Baleia, quando a montagem da narrativa remete o espectador para o poético delírio da cachorra, a ver nutridos preás que, supostamente, surgiriam do mato ressequido como alternativa para matar a fome de Fabiano e sua família.

Como só os grandes diretores são capazes de fazer de forma exemplarmente bem sucedida, em meio à pobreza da produção cinematográfica nacional da época, Nelson Pereira dos Santos tirou leite de pedras, esgotou, com uma criatividade incomum, os parcos recursos de que dispunha para realizar uma filmografia de altíssimo nível, por que não dizer a mais elevada experiência estética do Brasil em termos cinematográficos.

Do experimentalismo de Vidas secas ao realismo elegante de Memórias do cárcere (1984), da ousadia estilística de Como era gostoso o meu francês (1972) ao naturalismo de O amuleto de Ogum (1975), sem esquecer Rio, Zona Norte (1957), Tenda dos milagres (1977), Jubiabá (1987), e tantos outros filmes importantes de sua lavra, ombreando-se a Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos é muito mais que uma figura central do Cinema Novo. Seu nome se confunde com a própria história do Cinema, do Brasil e do mundo

 * Representação verbal ou imagética do conteúdo e processos psíquicos da personagem de modo parcial ou totalmente desarticulado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

O Sol na Cabeça

Só mesmo o ódio que a grande imprensa, capacho da elite brasileira e dos partidos que a representam, nutre pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para fazer com que um prêmio Nobel da Paz chegue ao país e nenhuma reportagem especial, nenhuma entrevista seja realizada com ele por qualquer dos grandes jornais ou emissoras de TV. Refiro-me a Adolfo Pérez Esquivel, que veio ao Brasil, na semana que termina, a fim de visitar o ex-presidente, detido há duas semanas nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba.

Só mesmo uma Justiça comprometida com os interesses por que se orienta o golpismo fascista, que impera no Brasil, para impedir que um prêmio Nobel da Paz possa visitar um amigo, não por acaso a maior e mais importante liderança de esquerda viva do Continente, e uma das maiores e mais importantes figuras públicas do mundo.

Só mesmo num país atrasado e moralmente desfigurado é possível ocorrer tão inequívoca prova de despreparo político e intelectual, a exemplo do que se viu por esses dias em Curitiba. Uma vergonha!

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Em tempo: Aonde anda a corriola da Praça Portugal? Onde quedam, pálidos de vergonha, os batedores de panela? Em que lugar, tomada de ódio e intolerância, a gente bonita, as camisas "oficiais" da seleção brasileira? Onde, em que escaninho da desfaçatez, os apitos, as coreografias ensaiadas, os adesivos dos automóveis, "Eu não tenho culpa, votei no Aécio"?

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À uma poltrona da Livraria Cultura, chega-me ao encontro o poeta e membro da Academia Cearense de Letras, Dimas Macedo. Aborda-me sobre o escritor carioca Geovani Martins, cujo livro de estreia chega às lojas do Brasil e de mais sete outros países como um sucesso estrondoso. 

Tomo nas mãos o livro de contos "O Sol na Cabeça", título que me remete, de imediato, à belíssima "Trem Azul", de Lô Borges. Subjetivação à parte, leio de cabo a rabo essa verdadeira obra-prima de feitio neorrealista que explora o submundo do morro carioca, de personagens marcados há décadas pelo sofrimento, sobreviventes das UPP's, das guerras entre facções, milícias e incursões militares, da segregação social e do preconceito da classe média alta do Rio de Janeiro. 

Os contos, embora vazados num estilo que se pode considerar clássico do gênero, objetividade, unidade de tema e ação, número reduzido de personagens, diálogos como fator narrativo decisivo para a elucidação da trama etc., traz um tratamento de linguagem que se notabiliza pela força dramática e fidedignidade ao mundo em que transcorre a quase totalidade das narrativas. 

É o que se pode concluir, por exemplo, da leitura do primeiro conto, "Rolézim", com discurso em primeira pessoa e uma linguagem extraída da voz do morro, em que pontuam, por isso mesmo, um quase dialeto eivado de gíria e estilizações que se permitem, aqui e além, a introdução de termos advindos da classe média carioca que constitui, em grande parte das histórias, o contraponto do olhar humilhado e ofendido do narrador, que não raramente dá a ver a própria figura humana do autor, ele mesmo morador da favela. 

A propósito dessa incomunicabilidade, dessa invariavelmente frustrada experiência de alteridade, verdadeiro leitmotiv do que existe de mais humano nesse livro desconcertante, vejamos o fragmento: --- "De um momento pro outro tudo se desfaz, tudo desaba, e ficamos sozinhos frente ao abismo que é a outra pessoa. Daí vem uma vontade de falar não sei o quê, só pra tentar reunir uns pedaços da gente, meia dúzia de restos espalhados pelo mistério que é a convivência". 

É que a forma como Geovani Martins expõe a verdadeira luta de classes em que se veem inseridas as personagens dos contos, ao lado de todas as imensas qualidades de uma escrita original e coerente, reflete a maturidade precoce do escritor e aponta para uma nova percepção estética em termos da prosa de ficção brasileira contemporânea. Um achado.