Como se trata de uma pessoa de excelente nível intelectual, boa argumentadora e exemplarmente descontraída, deixamos a conversa fluir por um tempo considerável, até que o adiantado da hora e o sono nos cobrassem beijinhos de despedida. Desliguei o telefone e me ocorreram, como que num passe de mágica, as palavras de Thelma Ritter para Doris Day em Confidências à meia-noite, a interessante comédia de Michael Gordon. Lembrei detalhes porque revira o filme havia poucos dias. A uma dada altura, Thelma Ritter, dirigindo-se a Doris Day, afirma: - "Só há alguma coisa pior do que uma mulher vivendo sozinha: é uma mulher dizendo que gosta disso." Risos à parte, pus-me a pensar.
Não concordo muito com a afirmação, embora o telefonema da leitora coubesse como luva para o que diz a personagem de Ritter, nesse clássico de 1959, sobre a solidão feminina. Sempre achei que as mulheres via de regra sabem lidar melhor com o problema, se é que estar sozinha por uns tempos constitui mesmo algum problema para uma pessoa como a referida leitora, a quem sobram beleza, desenvoltura e inteligência, atributos pelos quais foi sempre uma mulher muitíssimo admirada. E continuará sendo.
Ainda sobre solidão, dessa vez no blog, ficou registrado o elogio: - "[...] Parece que seus textos são escritos para quem os lê. (sic) Faço sempre uma reflexão profunda e me vejo espelhada em suas palavras. Palavras muito tocantes, profundas, que chegam a doer..." Pura elegância, pura generosidade... Está feito o registro.
Acerca da coluna anterior, leitor cinéfilo reclama: - "Você falou sobre a saudade na literatura e na música popular, mas esqueceu o cinema." É verdade, 'parceiro', não houve espaço para citar uma cena de filme que explorasse o tema, a exemplo do que fiz com livros e letras de música. Nem haverá hoje. Fica a provocação, num excerto de Casablanca. A cena final da película, de que cito de memória o diálogo de despedida, quando Humphrey Bogart, por uma causa mais nobre, renuncia ao seu amor pela personagem de Ingrid Bergman, guardando do mesmo as boas lembranças: - "E nós?", ao que ele responde: - "Nós sempre teremos Paris."