O Sol na Cabeça

Só mesmo o ódio que a grande imprensa, capacho da elite brasileira e dos partidos que a representam, nutre pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para fazer com que um prêmio Nobel da Paz chegue ao país e nenhuma reportagem especial, nenhuma entrevista seja realizada com ele por qualquer dos grandes jornais ou emissoras de TV. Refiro-me a Adolfo Pérez Esquivel, que veio ao Brasil, na semana que termina, a fim de visitar o ex-presidente, detido há duas semanas nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba.

Só mesmo uma Justiça comprometida com os interesses por que se orienta o golpismo fascista, que impera no Brasil, para impedir que um prêmio Nobel da Paz possa visitar um amigo, não por acaso a maior e mais importante liderança de esquerda viva do Continente, e uma das maiores e mais importantes figuras públicas do mundo.

Só mesmo num país atrasado e moralmente desfigurado é possível ocorrer tão inequívoca prova de despreparo político e intelectual, a exemplo do que se viu por esses dias em Curitiba. Uma vergonha!

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Em tempo: Aonde anda a corriola da Praça Portugal? Onde quedam, pálidos de vergonha, os batedores de panela? Em que lugar, tomada de ódio e intolerância, a gente bonita, as camisas "oficiais" da seleção brasileira? Onde, em que escaninho da desfaçatez, os apitos, as coreografias ensaiadas, os adesivos dos automóveis, "Eu não tenho culpa, votei no Aécio"?

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À uma poltrona da Livraria Cultura, chega-me ao encontro o poeta e membro da Academia Cearense de Letras, Dimas Macedo. Aborda-me sobre o escritor carioca Geovani Martins, cujo livro de estreia chega às lojas do Brasil e de mais sete outros países como um sucesso estrondoso. 

Tomo nas mãos o livro de contos "O Sol na Cabeça", título que me remete, de imediato, à belíssima "Trem Azul", de Lô Borges. Subjetivação à parte, leio de cabo a rabo essa verdadeira obra-prima de feitio neorrealista que explora o submundo do morro carioca, de personagens marcados há décadas pelo sofrimento, sobreviventes das UPP's, das guerras entre facções, milícias e incursões militares, da segregação social e do preconceito da classe média alta do Rio de Janeiro. 

Os contos, embora vazados num estilo que se pode considerar clássico do gênero, objetividade, unidade de tema e ação, número reduzido de personagens, diálogos como fator narrativo decisivo para a elucidação da trama etc., traz um tratamento de linguagem que se notabiliza pela força dramática e fidedignidade ao mundo em que transcorre a quase totalidade das narrativas. 

É o que se pode concluir, por exemplo, da leitura do primeiro conto, "Rolézim", com discurso em primeira pessoa e uma linguagem extraída da voz do morro, em que pontuam, por isso mesmo, um quase dialeto eivado de gíria e estilizações que se permitem, aqui e além, a introdução de termos advindos da classe média carioca que constitui, em grande parte das histórias, o contraponto do olhar humilhado e ofendido do narrador, que não raramente dá a ver a própria figura humana do autor, ele mesmo morador da favela. 

A propósito dessa incomunicabilidade, dessa invariavelmente frustrada experiência de alteridade, verdadeiro leitmotiv do que existe de mais humano nesse livro desconcertante, vejamos o fragmento: --- "De um momento pro outro tudo se desfaz, tudo desaba, e ficamos sozinhos frente ao abismo que é a outra pessoa. Daí vem uma vontade de falar não sei o quê, só pra tentar reunir uns pedaços da gente, meia dúzia de restos espalhados pelo mistério que é a convivência". 

É que a forma como Geovani Martins expõe a verdadeira luta de classes em que se veem inseridas as personagens dos contos, ao lado de todas as imensas qualidades de uma escrita original e coerente, reflete a maturidade precoce do escritor e aponta para uma nova percepção estética em termos da prosa de ficção brasileira contemporânea. Um achado. 

 

 

 

 

 

 

 


 

Direita e Esquerda

É obsedante a evocação de conceitos ideológicos, poucas vezes utilizados com exatidão, em meio ao festival de tolices que tomam conta do país num dos momentos mais graves de sua História. O espectro dos termos "direita" e "esquerda" é um deles. E haja afirmações que a um só tempo expõem a ignorância intelectual e o exercício do ódio desmedido ao contraditório, alimentando de substâncias nocivas o ar quase irrespirável do ambiente político nacional.

De resto, sabe-se ou deveria saber-se que os conceitos "direita" e "esquerda" remontam ao século XVIII, e prendem-se a uma necessidade de natureza prática: "Os que forem contrários às mudanças, sentem-se à minha direita, o que forem favoráveis, à minha esquerda", foi como decidiu organizar o auditório o presidente da mesa da Assembleia pouco antes da Revolução Francesa. Daí, convencionou-se rotular de "direita" aqueles que se posicionam contra as transformações, e, de "esquerda", os que defendem essas transformações. Mas a coisa, claro, teve desdobramentos conceituais significativos, como tentaremos explicar.

Há os radicalmente contrários às mudanças, ditos de "extrema-direita ou reacionários", que não admitem avanços e, mais que isso, desejam o retrocesso; 2. os que não querem mudanças, mas se mostram satisfeitos com o que existe no cenário político, sendo rotulados de "centro-direita ou conservadores"; 3. os que defendem mudanças graduais, consentidas pela sociedade, aos quais se aplica a classificação de "centro-esquerda ou reformistas"; e 4. aqueles que pregam transformações radicais, os de "extrema-esquerda ou revolucionários".

Simplificações à parte, o certo é que tais conceitos são de uso recorrente nos dias de hoje, mundo afora, nomeadamente no Brasil, em que os avanços sociais do governo do Partido dos Trabalhadores já em parte foram enterrados pelo golpismo de Michel Temer e sua quadrilha, cuja tão cobiçada cereja encima o bolo do retrocesso desde a semana passada com a prisão (sem provas!) do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não custa reconhecer, no entanto, que o país volta ao tempo do autoritarismo e das práticas nazi-fascistas ombreando-se a outros países do Continente, no que parece ser uma onda reacionária cujas consequências se fazem notar, no Brasil,  com o movimento orquestrado do Executivo, do Congresso Nacional e do Judiciário no sentido de espezinhar a Constituição Federal e tirar das eleições de outubro o líder das pesquisas de intenção de voto para presidente, pela objetiva razão de que sua vitória representaria a superação do golpe de 2016 e a recondução do país a uma orientação de governo mais à esquerda.

No que tange à classificação do espectro de ideias a que nos referíamos, é oportuno ressaltar que, na contramão do que professam diferentes teses acadêmicas no contexto da pós-modernidade, para as quais os conceitos de direita e esquerda perderam a sua validade, tornando-se obsoletos em face da complexidade de motivações políticas e estruturas de governo por que se orienta o mundo contemporâneo, sobressaem as contribuições teóricas do pensador italiano Norberto Bobbio no clássico Direita e Esquerda, para quem não se pode negar validade àquilo que faz parte do imaginário e da linguagem da vida cotidiana.

Considerando que a realidade é bem mais complicada do que as tipologias abstratas com que se tem procurado rotular convicções e práticas políticas, e o despreparo com que tais termos são utilizados, na maior parte das vezes, por quem não tem a menor ideia do que significam, ocorre-me lembrar das palavras do linguista americano Noam Chomsky, ele mesmo citado por Bobbio no referido livro: --- "... a distinção entre direita e esquerda é claríssima e poderia ser resumida de modo breve e simplificado, sem distinções sutis mais sofisticadas, na tese de que a esquerda está do lado dos pobres e a direita do lado dos ricos". Simples assim.

 

 

 

 

 

Valorizar o silêncio

"E eu que ouvia o que não dizias, apaixonei-me por ti porque calavas!", Stecchetti, poeta italiano.

Tchékhov confiara a segunda montagem da peça A Gaivota a Stanislávski. Espetáculo pronto, chega para o diretor e reclama: - "O que você fez, o espetáculo vai ficar esticado, muito maior do que o previsto?" Ao que Stanislávski responde: - "Nada, apenas observei as pausas, valorizei o silêncio." Que bela lição não apenas de semiótica teatral. Falo de uma outra lição, que pouca gente aprendeu: observar as pausas, valorizar o silêncio.

Na vida, quase sempre, é assim. A gente não observa as pausas, não valoriza o silêncio. E, no entanto, quanta coisa ruim poderia ser evitada. Quantas feridas abertas a menos, quanto sofrimento... É que quase nunca percebemos o momento de calar, de ouvir mais o outro. Nos relacionamentos, não raro, acontece de uma palavra desnecessária pôr por terra o que se ergueu com tanto entusiasmo, o que se fez com tanto amor. Na ânsia de construir, destruímos. Na vontade de fazer valer a nossa vontade, não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio. E o mundo desmorona.

Consta que a primeira montagem de A Gaivota, em 1896, fora um fiasco. De público e de crítica. Uma pena, leve-se em consideração que o texto é maravilhoso, poético, de uma harmonia estética invulgar. O próprio autor dissera sobre ela: - "[...] uma comédia, três papeis de mulher, seis para homens, quatro atos, uma paisagem (vista para o lago), muitas conversas sobre a literatura, um pouco de ação, um toque de amor." Mas o público a repudiara. Não se observaram as pausas, não se valorizara o silêncio.
Dois anos mais tarde, sob nova direção, marcaria época no teatro universal. Desde então, uma gaivota passou a ser o símbolo do Teatro de Arte de Moscou, uma das mais prestigiadas casas de espetáculo do mundo.

Como se explica que uma mesma peça seja um fracasso hoje, um sucesso estrondoso pouco tempo depois? Simples: Stanislávski, que a dirigiu numa segunda montagem, percebera na obra uma economia de voz, de movimento, uma contenção de gestos, como jamais alguém fizera. Numa palavra: observou as pausas, valorizou o silêncio.

Na vida, como no teatro, a essência das coisas muitas vezes está nas entrelinhas, num gesto que quase não se percebe, numa palavra que não se diz, num sinal que nunca vemos...

Nas pequenas coisas da vida estão os mais fortes sentimentos, as maiores aflições. Todavia, quantas vezes não deixamos de fazer na vida como Stanislávski no teatro? Não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio...

E, no entanto, é em silêncio que fala a eternidade de Deus.

Feliz Páscoa! 

O Cão Sem Plumas

A cidade é passada por um rio/como uma rua é passada por um cachorro;/uma fruta/por uma espada.

J.C.M.N.

Fui ver, por ocasião de sua curta temporada em Fortaleza, o espetáculo O Cão Sem Plumas, de Deborah Colker, construído a partir do livro-poema homônimo de João Cabral de Melo Neto.

Há muito, confesso, não deparava com um trabalho tão extraordinário do ponto de vista estético, em que pesem os pequenos defeitos e o fato de tratar-se de uma mistura de cinema, balé, literatura e teatro, bem na linha do que se convencionou classificar como "arte intersemiótica", aquela em que diferentes códigos são utilizados pelo realizador da obra. 

Se o poema em que se apoia o espetáculo, dos mais típicos da lavra do autor pernambucano, inícios da década de 50, notabiliza-se pela linguagem árida de um artista assumidamente avesso ao esteticismo modelar do modernismo e de alguns nomes de sua geração (a Geração de 1945), Murilo Mendes, por exemplo, a coreografia de Deborah Colker ousa lhe fazer acréscimos radicais do ponto de vista formal, indo-se aqui muito além do que se considera uma mera adaptação do objeto artístico, uma releitura ou coisa que o valha. Longe disso. 

No seu O Cão Sem Pluma, entre as muitas interlocuções  de linguagens, Deborah Colker lança mão do filme como contraponto da dança contemporânea, sua praia de origem, à frente de cuja intervenção se encontra ninguém menos que Claudio Assis, um dos grandes nomes do cinema brasileiro contemporâneo. 

De um lado, essa parceria, esse encontro de códigos, para ser mais preciso, produz um resultado extremamente bem sucedido, pois tudo é beleza enquanto expressão artística; de outro, infelizmente, deixa ver a única imperfeição digna de nota: cinema e dança competem durante os setenta minutos de duração do espetáculo. 

Constantemente, por isso mesmo, o espectador se perde na tentativa de eleger o código estético "dominante" no desenrolar de cada sequência dramática, o que resulta lamentavelmente confuso para uma construção narrativa estruturada com a participação uníssona de dois artistas de enorme talento. Não existe a perfeição.

Mas há outro aspecto, ainda, que me parece merecedor de consideração: se Claudio Assis foi muitíssimo feliz na escolha do preto e branco fílmico, ampliando com isso a beleza e a força poética das imagens projetadas na tela, todas elas alusivas à contingência humana que é mesmo o eixo dramático do poema de João Cabral de Melo Neto, o mangue e os homens-caranguejos interpretados à perfeição pelos treze bailarinos em cena, o mesmo não se pode dizer da luz amarela que cobre o palco. Se este é, no pacto ilusório estabelecido com o espectador, a continuidade do campo fílmico, como sugere a abertura do espetáculo na tela (uma criança caminha ao encontro da câmera até o enquadramento em primeiríssimo plano sugerir sua entrada na cena teatral), o preto e branco do filme choca-se com o amarelo que ilumina a dança; criam-se, por consequência, dois espaços cênicos, e isso estabelece, inevitavelmente, a briga indesejável entre o cinema e a dança. O diálogo entre essas duas linguagens é rompido --- ou nem se estabelece, o que é mais comprometedor. 

Se não fui capaz de resistir à tentação de explorar esses detalhes, para mim, no entanto, importantes para o espetáculo como um todo, é preciso dizer que O Cão Sem Plumas, de Deborah Colker e Claudio Assis, constitui uma leitura intersemiótica que reascende a presença de João Cabral de Melo Neto no cenário da grande arte nacional como um dos nossos três maiores poetas de todos os tempos. 

Ao lado de ser um espetáculo novo, exuberante como experiência criativa, O Cão Sem Plumas é forte e belo, para o que contribuem com louvor o cenário ao mesmo tempo despojado e profundamente expressivo de Gringo Cardia (gaiolas que numa cena representam armadilhas e noutra as palafitas do rio Capibaribe) e a trilha sonora assinada por Jorge Du Peixe, do Nação Zumbi, embora claudicante aqui e além na intenção de reproduzir a dicção regional do poema.

A coreografia propriamente dita, necessário frisar, é soberba, reeditando as grandes montagens da Companhia. Os bailarinos, irrepreensíveis tecnicamente falando, e os efeitos cênicos, de levantar pelos. O uso tremendamente inventivo de adereços simples, como as faixas que já constituem uma marca de Colker, como na passagem em que simbolizam o canavial submetido aos ventos, entre cuja folhagem entreveem-se os trabalhadores do eito, força motriz do poema, é inesquecível de tão bela. Além de conferir uma mudança positiva no ritmo dramático da narrativa, um tanto monocórdico.  

Em linhas conclusivas, este virá a ser, supostamente, o momento mais elevado do ano em termos de arte no Ceará. Uma pena ter sido tão curta a sua temporada entre nós.

 

Os livros e as Mulheres

A minha relação com os livros tem sempre um componente passional, assumo! Via de regra, começa com um flerte, a uma certa distância, quase sempre na vitrine da loja.

Como em se tratando das mulheres, me chama a atenção a forma como se vestem. Adoro as discretas, que sabem com aparente desleixo compor o traje, combinando bem a textura dos tecidos com a expressividade das cores. As que exibem sua beleza com discrição e charme. As que sugerem displicência e, sob a capa, revelam-se antenadíssimas, e tudo sabem. Enciclopédicas.

No caso deles, os livros, há os que, já de longe, impressionam pela encadernação, o look da capa, o colorido da gravura (quando têm gravura!), a elegância com que se apresentam, sem afetação.

Assim, é comum que me apaixone por um desses como por uma mulher, meio sorrateiro, como quem finge não querer e quer. Mas, de perto, e mal disfarçando, é preciso checar antes o volume do corpo, a maciez da pele, e, importante!, quais as intenções com que veio parar à sua frente.

Curioso: logo se estabelece a comunicação. Entre intimidados e desejosos, aproximamo-nos, um tanto sorrateiros e desconfiados, ainda.

Aí, vem a primeira troca de informações, a primeira sugestão de intimidade; a mão no dorso, ligeiramente arredondado, nunca esquelético, e gostoso de pegar.

Em pouco tempo, se a atração se confirma, a entrega é mútua. Os primeiros afagos, os toques sutis e o cheiro bom, que provoca um ligeiro arrepio de pelos. E a gente vai sentindo uma vontade de levar para casa, de se entregar horas a fio no bem-bom, agarradinhos e afáveis. Detalhe: quase sempre na cama.

Mas há que se tomar cuidado, posto que existem os enganosos, os que vendem gato por lebre e são mal intencionados.

Há os surpreendentes, os que decepcionam, os reticentes, os vulgares, os indecentes.

Os passageiros.

Um grande livro, como uma grande mulher, tem poderes para transformar sua vida, de operar milagres...

Como as mulheres, há os rebuscados, os artificiosos, os superficiais.

Há os tímidos, que vão se revelando aos poucos. A esses, deve-se abandonar por uns tempos, dando-lhes, quando muito, uma chance aqui, outra acolá, alimentando possibilidades. Não raro, valem a pena, e, dia desses, sem que você espere, são capazes de lhe deixar nas nuvens. Delícia.

Há, no entanto, aqueles que você mal larga vem um outro e...

Vulgarizam-se, e, para seu desencanto, andam logo de mão em mão. Banalizam as relações.

Como entre elas, há os invejosos, os sem originalidade, que querem ser o que não são.

Não se surpreenda. Há os demasiado formais, os levianos, os que preferem a meia-luz, outros, a plena claridade. Há os lentos, cheios de rodeios, os apressados, que vão direto ao assunto. Falta-lhes uma pitada de poesia.

Há os que adoram as preliminares, os que deixam você em êxtase, mas logo perdem a graça.

Um bom livro, é que nem a mulher amada: você não dá, não troca, não empresta.

A esses, como à mulher que tenho, sou fiel, tenho sempre ao alcance da mão, e, dedos em cruz, posso afirmar: --- "Nunca traio, e sou incapaz de uma ingratidão". 

De Shakespeare a Hawking

Poucas vezes a grande literatura terá alcançado a dimensão do Hamlet, de Shakespeare. Essa a razão por que, para o leitor apaixonado, a exemplo do que assumidamente sou, em se tratando do dramaturgo inglês, torna-se difícil decidir que cena da peça mais nos impressiona. 

Tudo no texto shakespeariano é perfeição, mesmo quando o leitor mais atento pode, sem grande esforço, identificar equívocos, que a meus olhos mais refletem o domínio do autor sobre a matéria explorada que desleixo, desatenção ou pressa em produzir uma obra tão grandiosa. 

Licença poética, desde sempre, faz parte da invenção artística e é quase improvável que uma exista sem a outra. A propósito, é conhecida a análise de Harold Bloom, especialista em Shakespeare, em que aponta erro do autor quanto a idade atribuída a Hamlet na famosa cena do cemitério, na altura do quinto ato da peça. Pouco importa.

Se se costuma ressaltar a cena do solilóquio como momento mais elevado do texto, bastando para isso lembrar a famosa fala "ser ou não ser, eis a questão", de Hamlet, no terceiro ato, já incorporada ao discurso coloquial para expressar o conflito fundamental do homem entre aceitar aquilo de que discorda, a injustiça, o ultraje, a miséria absoluta a que se condena o outro e lutar pelo restabelecimento do bem e da verdade, por um mundo de justiça, não é menos verdadeiro afirmar que a todo instante o texto pulsa, incontido, por sua força de sentido e beleza poética raramente atingidos com tamanha profundidade.

Quanto a mim, não me furtaria a considerar a cena do cemitério, referida acima, como uma das passagens mais sublimes da literatura mundial, já não bastassem suas qualidades estilísticas, pelo que traz de contundente em termos reflexivos num momento em que parece imperar, no Brasil e o no mundo, a intolerância, o ódio, a soberba de parte significativa de nossa elite. O texto ressignifica-se. 

Impactado diante da cova em que conversam dois coveiros, diz ele: --- "Aí está outra [caveira]; por que não poderá ser a caveira de um jurista? Onde agora as suas cavilações, os seus processos, as suas sutilezas, os seus truques, as suas trapaças? [...] Hum! Esse camarada pode ter sido, por seu tempo, grande comprador de terras, com seus títulos e contratos, com suas obrigações a solver, suas multas, suas testemunhas, suas cobranças. Será este o cobro de suas cobranças, a paga de seus contratos, ficar com seu belo crânio cheio do mais fino pó?" 

É impagável a passagem em que, recebendo-a de um coveiro, Hamlet toma nas mãos a caveira de Yorick: --- "Ai, ai, pobre Yorick. Eu o conheci, Horário, um tipo de infinita graça e da mais excelente fantasia. Carregou-me nas costas mais de mil vezes, e agora  ---  agora como é horrível imaginar essas coisas! Onde estão agora os teus gracejos?" 

E Hamlet, voltando-se para Horácio, quer saber se o mesmo terá ocorrido a Alexandre, O Grande, que quis conquistar o mundo: --- "Acreditas que o próprio Alexandre tenha esse aspecto, dentro da terra?"

Ao que o amigo responde: --- "Esse mesmo."

E a César, o imperador romano, tão poderoso? O mesmo. 

Coube a Stephen Hawking, o gênio que nos deixou ontem, provar que nada neste universo é eterno. Nem mesmo os buracos negros.

Entre as mais de 100 milhões de galáxias, brilham as estrelas. Seu brilho, que inspirou dos amantes de Shakespeare às obras mais encantadoras de Van Gogh, levam milhões, talvez milhares de milhões de anos para chegar até nós. De que valemos nós? Quem somos, afinal? Grãos de areia no deserto imenso...

Os buracos negros, segundo M. L. von Franz, como a alma fora do "horizonte de acontecimentos" do espaço e do tempo, existiriam para além da morte. 

Ledo engano. A vida termina em pó. 

 

  

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 


 

A voz inconfundível das ruas

Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto.

                                    (João, 12, 24)

 

Numa passagem memorável de Cervantes, no inigualável Dom Quixote, pode-se ler: --- "É de gente bem nascida agradecer os benefícios recebidos, e um dos pecados que mais ofendem a Deus é a ingratidão".

Ato contínuo, que as guardo de cor, foram essas palavras que me ocorreram tão logo recebi, das mãos gentis do amigo Paulo de Tarso, o vídeo em que pude acompanhar a despedida do povo de Iguatu a João Elmo Moreno.

Na vida da gente, é curioso, há momentos, assim, como esses, em que a sensação que sentimos diante dos fatos traz em si algo de paradoxal. Confesso que vivi nessa sexta-feira 8, essa experiência a um só tempo pontuada de tristeza e de incontida alegria. Explico-me.

Perdíamos, com a morte de Elmo Moreno, um homem por inteiro, dentro de cujo coração pulsava um tal senso de responsabilidade, de altruísmo, de fina compreensão dos valores fundamentais da vida, que custou-me, ali, diante daquelas imagens, mensurar com precisão o vazio que fica no espaço que Elmo ocupou com galhardia, e soube exercer, exemplarmente bem, como cidadão, como chefe de família, como empresário e como político, os papéis que lhe couberam numa existência longa e coberta de tanta luz, de um brilho tão intenso e tão invulgar, como só é dado possuir às estrelas.

Mas, onde é possível existir alegria, na mínima porção que seja, agora que nos deixou e que advém disso dor, sofrimento, saudade?

Pois bem. Havia naquele vídeo imagens impressionantes, de admiração, de carinho, de respeito pela figura incomensurável de João Elmo Moreno. Havia ali, como no verso de um poeta, na manifestação espontânea dos iguatuenses, "gratidão, essa palavra-tudo!"

E isso, num tempo de homens pequenos, de valores retorcidos, de motivações inconfessáveis, de interesses amesquinhados, de pobreza em todos os sentidos..., fez explodir de dentro, do mais fundo da alma, um grito de esperança, de confiança no porvir, de fé na força que vem dessa gente simples da qual, cedo ou tarde, haverá de brotar uma flor, a "rosa do povo", de que nos falou Drummond, em metáfora de um país mais humano, mais livre e mais justo!

Conheci-o de perto, amigo que sempre fui de sua família, Francisco Alberto à frente, meu querido Bertinho.

Tanto quanto ao prefeito do século XX, em Elmo Moreno admirei uma qualidade que poucos, talvez, saibam ter tido, para além da inteligência notável, da capacidade de trabalho invulgar, da correção moral e da nobreza de caráter: o amor pelos livros, pela poesia, pela grande literatura.

Não raras vezes, sentado à cadeira de balanço da varanda de sua casa, ouvi dele verdadeiras aulas sobre a poesia do Brasil e de Portugal.

Quantas vezes, como lhe fazendo a segunda voz, disse com Elmo fragmentos de poemas antológicos, modulando a dicção, dramatizando com gestos e meneios o conteúdo dramático do texto?!

Tempos bons, ao lado de outro imenso filho da terra, Roberto Costa, com quem Elmo Moreno praticamente transformou uma cidade inteira. A mesma cidade que, agora, reedita o que já fizera a Roberto, rendendo-lhe inapagável preito de gratidão.

A voz inconfundível das ruas.

 

 

 

 

 

 

 

 


 

O Jovem Marx

O Jovem Karl Marx. Direção: Raoul Peck. Elenco: August Diehl (Marx), Vicky Krieps (Jenny), Stefan Konarske (Engels). Produção: Alemanha, França Bélgica, 2017.

👍👍👍 

É claro que a crítica especializada não gostou. Tradicionalmente voltada para o feijão com arroz do cinema americano, que lhe dá suporte e lhe garante leitores, invariavelmente tende a ver a produção cinematográfica de outros países com olhos preconceituosos. A menos que a obra explore questões que passem ao largo da dimensão político-ideológica, num tipo de concessão aparentemente despretensiosa a garantir a manutenção do seu prestígio e a equivocada ideia de que julga com imparcialidade. Aí, sem problema, vamos de Abbas Kiarostami ou Guillermo del Toro, que tanto faz.

Este ano, a exemplo do que se tornou uma praxe, escolheu como bola da vez O Jovem Marx (2017), de Raoul Peck. E haja abordagem típica do cabotinismo dominante na grande imprensa, bem na linha do que fez, no Brasil, um prestigiado colunista da Folha de S. Paulo, para quem, entre outras coisas, foi "embaraçoso" o filme mostrar que Marx fazia sexo.

E olha que estamos falando de Inácio Araújo, inatingível no alto de sua inquestionável posição de mais renomado crítico brasileiro de cinema da atualidade.

O certo é que se trata de um filme de grandes qualidades estéticas e conteudísticas, em que pese resultar de um recorte histórico ousado (pouco mais ou menos de quatro anos) o que, em se tratando de cinebiografia, comumente tem levado a verdadeiros desastres.

Não é o que se verifica em relação ao longa O Jovem Marx, exemplarmente bem sucedido em sua beleza como cinema e seu didatismo oportuno, pois lançado quando se comemoram os 200 anos de nascimento de Karl Marx. Mesmo na cena que tanto incomodou ao crítico da Folha, quando a câmera mostra o pensador revolucionário fazendo amor com a mulher. Ao crítico, é lamentável, nada despertou interesse, nem a suavidade do movimento de câmera, nem a composição do quadro, nem a luz, a merecer a atenção pelo rigor técnico e notável poesia visual alcançada, nem a textura da imagem, que nos dá a sensação de estarmos diante de um óleo sobre tela de Rembrandt, ou a beleza da trilha sonora. Não, para ele, há nisso um pecado imperdoável: revelar que Marx, além de produzir uma obra imorredoura, fazia sexo com a mulher Jenny.

A despeito disso, oportuno frisar, merece atenção a importância que Peck dá à figura de Jenny, para além de apenas fazer sexo com Karl Marx, aspecto pouco explorado em biografias do pensador alemão.

Se o biografado é muito maior que o filme, no que me parece uma conclusão de consenso, nada desmerece a obra de Raoul Peck, cineasta afrodescendente, nascido no Haiti, que já se notabilizara pelo inquietante Eu não sou seu negro (2016), documentário com que levanta debate profundo sobre direitos civis, movimento Black Power e o assassinato de mitos da resistência racial americana, como Malcolm X e Martin Luther King.

No mais, é ver O Jovem Marx para entender do que (e de que perspectiva) nos fala  ---  plena Revolução Industrial e seus desdobramentos perversos: desemprego, salários infames, exploração do trabalho infantil e, essencial, o surgimento de teorias que viriam a constituir o Materialismo Histórico pouco depois. Faz isso, no entanto, sem ser leviano sob qualquer aspecto e com fundamentação e domínio de informações desejáveis.

As relações pessoais entre Marx e Proudhon, um dos esteios dramáticos do filme, na segunda metade de 1844, quando o autor de A Miséria da Filosofia chega a Paris e o filme começa, eram de fato boas. Não é muito lembrar que Marx nutria pelo autor de O que é a propriedade?, publicado quatro anos antes, assumida admiração, ao ponto de considerá-lo o "maior socialista de então", segundo Auguste Cornu em livro importante sobre Marx e Engels.

Quanto a este, fique claro, recebe no filme o tratamento que lhe é devido, licenças "poéticas" à parte. Ocorre-me lembrar, aqui, que o pai de Engels, cuja presença no filme é explorada pelo viés metafórico (representa O Capital), em verdade jamais possuiu indústria têxtil na cidade de Londres. Irrelevante, para o conjunto da obra.

Enquanto obra de arte, deve ser ressaltado, por exemplo, que o filme termine com a voz de Marx lendo trechos do Manifesto Comunista (1848), uma solução simples e extremamente bem sucedida do ponto de vista cinematográfico. Em medida não desprezível, pelo que pude observar ao final do filme, essa escolha narrativa, quando menos, torna visível o que existe de atual no texto de Marx e Engels.

 

 

 

 

 

 

 

 

Farewell em grande estilo

Desde A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin, para me reportar a um texto clássico, sabe-se que a arte do ator de cinema está em parte nas mãos do diretor do filme. Um enquadramento, um movimento, uma angulação de câmera etc., podem subtrair ou acrescentar ao seu desempenho, o que levou grandes estudiosos da sétima da arte a afirmar que "algumas obras-primas do cinema só acessoriamente utilizam o homem", isto é, o ator.

Segundo André Bazin, autor de O Que é o Cinema?, registros aparentemente banais podem dizer além do que é permitido ao ator numa cena fílmica: --- "Uma porta que bate, uma folha no vento, as ondas que lambem uma praia podem aceder à potência dramática [do filme]".

Polêmica à parte, o fato é que muitas vezes um grande ator ou uma grande atriz pode segurar o filme, encobrindo com a luminosidade de sua atuação as fragilidades de um roteiro, a insegurança de um diretor, o  baixo nível de sua direção de arte. Um grande ator é capaz de operar milagres e tornar inesquecíveis filmes ruins do ponto de vista cinematográfico. São numerosos os casos que poderia citar.

Digo isso a propósito de referir, com tristeza, a aposentadoria de um dos grandes atores do cinema, Daniel Day-Lewis, cujo "canto de cisne" fez-se ouvir com o filme Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson, a que assisti em sua estreia, ontem.

Não que, no caso, se trate de um filme ruim (muito pelo contrário), nem que Lewis tenha ido além do que fez em outros papéis, como Lincoln (2012), de Steven Spielberg, em sua luta tenaz pela libertação dos escravos no EUA, no filme de mesmo nome; o diretor em crise, Guido Contini, no musical Nine (2009), de Rob Marshall; o pretensioso mineiro Daniel Plainview, em Sangue Negro (2007), do próprio Thomas Anderson; o violento açougueiro The Butcher, de Gangues de Nova York (2002), de Martin Scorsese, ou o inexcedível Christy Brown, de Meu Pé Esquerdo (1989), para citar alguns dos seus melhores papéis. Não, Day-Lewis apenas reedita em Trama Fantasma o que sempre fez como ator, isto é, está perfeito em cena.

O filme não tem nada de extraordinário, embora sofisticado esteticamente falando. Tudo certinho, no que parece vir se tornando uma marca de Thomas Anderson: roteiro bem construído, estratégias narrativas clássicas, com um ou outro momento de estilização, a exemplo do "travelling" com angulações de câmera ousadas em planos de conjunto, cenário e figurinos, ritmo, tudo construído com a habilidade de um diretor competente e sensível.  Ao que se soma uma música que envolve o espectador numa atmosfera poética e sedutora do começo ao fim.

Mas de que fala Trama Fantasma?

Bem, o filme narra a história do costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), uma personagem bem elaborada do ponto de vista dramático: elegante, mas ciclotímica, obscurecida pela sombra da mãe já falecida e guiada em suas ações pela presença marcante da irmã Cyrill, notavelmente interpretada por Lesley Manville. Mas é o surgimento de Alma (Vicky Krieps), uma garçonete de restaurante de estrada, que Woodcock traz para o seu ateliê (e por quem se apaixona), quem passa a constituir o eixo dramático de Trama Fantasma, emprestando ao filme um perfume bergmaniano capaz de o redimensionar como obra de arte. Como a Alma de Persona (Bibi Andersson), o belíssimo filme de Ingmar Bergman, a Alma de Thomas Anderson revela a mesma complexidade psicológica: é doce, fria, frágil e astuciosa ao mesmo tempo. Ademais, no filme de Anderson Alma absorve o que, em Bergman, é o sonho doentio de Elizabeth Vogler, a personagem soberbamente interpretada por Liv Ullmann: o desejo de ser a própria alma do objeto amado, no caso, Woodcock.

Mas não é a simples composição da personagem, por importante que seja, que me fez lembrar de um certo Bergman ao assistir ao filme de Anderson. É que Bergman, como poucos na mesma dimensão, conseguiu explorar o tema do amor com tanta verticalidade, com sondagem psicológica em níveis tão profundos, que fez disso sua marca. Thomas Anderson nos faz lembrá-lo com estilo, sabendo tirar dos recursos de linguagem aquilo de que necessita para tratar os grandes conflitos da alma  ---  e transmiti-los com exatidão ao espectador.  

Por isso, não é sem razão que se pode dizer que é o tratamento formal dispensado ao conflito de Woodcock e Alma, ao lado da direção de atores, que faz de Trama Fantasma um filme denso, inteligente e refinado do ponto de vista estético. Como num filme de Bergman, pois, o amor é o tema central de Trama Fantasma, com a diferença de ser percebido pelo que tem de contraditório, a felicidade que se desfaz sob o peso das angústias e das frustrações.

Daniel Day-Lewis encerra, pois, sua carreira, em grande estilo. E brilha com destaque em meio a um grande elenco. 

 

 

 

 

200 anos de Karl Marx

2018 assinala o segundo centenário de nascimento de um dos maiores pensadores de todos os tempos. Refiro-me ao alemão Karl Marx, nascido na Renânia, em 5 de maio de 1818. Na contramão do que desejam seus detratores, via de regra o que existe de mais tacanho do ponto de vista intelectual, a data vem merecendo comemoração no mundo inteiro, no bojo de publicações diversas, biografias, reedições de livros, simpósios, lançamentos de documentários e filmes etc., que vão da simples biografia do homem e do intelectual extraordinário que foi, à revisão criteriosa de sua vasta produção como o mais importante teórico do socialismo.

Em grande parte, claro, tais investidas visam a desconstruir (no mau sentido) a teoria marxista, mesmo quando disso resultam livros importantes sob muitos aspectos, a exemplo do que pretende ser "a biografia definitiva" do filósofo alemão escrita pelo inglês Gareth Stedman Jones, não sem razão apresentada com o subtítulo "Grandeza e Ilusão". Ainda assim, não há como ignorar que se trata de um estudo sério, muito embora contaminado pela doença incurável dos valores de um capitalismo em crise que, pelos menos no cariz vigente, cedo ou tarde tende a desmoronar sob o peso dos muitos males oriundos de sua própria contradição.

Nessa perspectiva, por oportuno, é que me ocorre lembrar aqui as imperdíveis leituras do marxismo materializadas em livro por outro estudioso inglês, David Harvey, cujos trabalhos vêm sendo publicados, em português, em grande escala nos últimos anos. Em meio aos muitos e notáveis títulos do autor de A Condição Pós-Moderna, e alusivos ao tema em pauta, merecem destaque os dois volumes de Para Entender Marx, publicados pelo Boitempo Editorial, com tradução de Rubens Enderle. Como o título sugere, trata-se de um criterioso guia sobre a obra máxima de Karl Marx, O Capital, com a vantagem de ir muito além do que comumente fazem os guias de leitura tradicionais.

Harvey, que, merecidamente, é considerado por muitos o mais competente intérprete vivo do marxismo, realizou com Para Entender Marx I e II uma viagem extremamente sedutora pelos fundamentos econômicos que norteiam esse livro incontornável, mas foi muito além disso. Desfazendo preconceitos, não raramente motivados por interesses estranhos ao inquestionável valor da obra, o britânico apresenta os três volumes de O Capital com a sensibilidade de um leitor atento e por demais honesto.

É possível aqui, portanto, evidenciar que Harvey lança mão das propostas teóricas de Umberto Eco, deslocando os problemas da interpretação para a relação "texto-leitor", em lugar da relação tradicional "autor-leitor", no que destaca o papel participativo deste no entendimento das teses marxistas, de resto uma questão amplamente examinada por semioticistas do naipe de Charles Sanders Peirce, Jacques-Derrida e Roland Barthes. É nisso, pois, que se estabelece o caráter atualizador da leitura realizada pelo autor do guia, de que, claramente, resulta a percepção de que Karl Marx escreveu uma obra para o seu tempo e para o futuro que se projetaria até nós.

Vai além, muito além, para demonstrar a abrangência do marxismo como método de análise, dando a ver a leveza do discurso em que pontuam filósofos, escritores, artistas e a própria sociedade como um todo. Supera, com isso, a ótica endurecida dos muitos discursos já existentes e evidencia o quanto pode ser enriquecedora a leitura de O Capital.

Mas, na hipótese de que o leitor ainda não se considere "preparado" para ler a obra-prima do marxismo, é também de David Harvey uma das publicações mais recomendáveis da safra comemorativa dos 200 anos de Karl Marx: 17 Contradições e o Fim do Capitalismo, também da Boitempo, constitui uma análise consistente das crises do capitalismo. Aqui, Harvey desmistifica o poder da inovação como uma conquista do capital e mostra que, sob o domínio da ótica capitalista, ela (a inovação) vem sendo historicamente explorada a fim de concentrar a riqueza e gerar a desigualdade.

Para o bem ou para o mal, segundo a perspectiva da esquerda e da direita, o certo é que as contribuições de Karl Marx, decorridos duzentos anos desde o seu nascimento, voltam a ocupar posição inigualável na luta em favor de um mundo mais humano e mais justo. Viva Marx!