Rodin, o filme

                                                                                      Álder Teixeira*

Eis que termina o Festival Varilux do Cinema Francês edição 2017. Como sempre, teve-se a oportunidade de assistir a grandes filmes, mesmo considerando-se que houve um declínio em relação ao ano passado. Se é assertivo dizê-lo, como tem sido recorrente, a exibição de pelo menos três filmes justifica qualquer entusiasmo. Correndo o risco de ser mal compreendido, quem sabe ser taxado de exageradamente subjetivo em termos de avaliação   ---   ou afeito a juízos estéticos demasiado apurados por alguns   ---, arrisco-me a destacar, pela ordem, três filmes: O Filho Uruguaio, Frantz e Rodin.

Sobre o primeiro, escrevi dia desses neste mesmo espaço. Frantz fica para depois, pois é sobre o último, do cineasta Jacques Doillon, que gostaria de tecer hoje algumas considerações.

Não que o avalie como um filme sem defeitos. Antes pelo contrário, posto que o roteiro, por exemplo, pareceu-me mal articulado e alheio a alguns aspectos por que se deve orientar uma narrativa fílmica bem sucedida. Nada, contudo, que comprometa o entendimento ou disperse o espectador em face daquilo que lhe é essencial, ou seja, a motivação de explorar um recorte da vida e arte do escultor Auguste Rodin. Dito isto, vamos às qualidades do filme, o que mais interessa aqui, começando, como é recomendável, pela sinopse.

Já famoso e gozando de prestígio nos meios artísticos da época, anos 80 do século XIX, Auguste Rodin (Vincent Lindon) trabalha na primeira obra encomendada pelo Estado, A Porta do Inferno, plasmada no clássico de Dante Alighieri. Aos 40 anos, vive com a mulher, Rose Beuret (Séverine Caneele), em meio a modelos, peças escultóricas, gesso, argila etc., num ateliê que bem reflete a subjetividade reinante em tudo que faz.

A direção de arte, sob este aspecto, é de uma competência que impressiona desde as primeiras cenas, sobre o que faremos observações mais adiante. É quando o esteio dramático do filme passa a girar em torno do envolvimento de Rodin com sua aluna Camille Claudel (Izia Higelin). Terminada a relação, Rodin passa a explorar na sua arte novas possibilidades processuais, de que resultam obras soberbas, como o Monumento a Balzac, em homenagem ao autor de A Comédia Humana, exemplarmente representadas numa das sequências mais felizes do filme.

Se há nítido descompasso entre o processo criativo de Rodin e a cinebiografia assinada por Doillon, assumidamente estruturada em moldes convencionais, na contramão do que fez o escultor, não me parece este aspecto suficiente para desmerecer o filme, na linha do que se verificou por ocasião de sua apresentação no Festival de Cannes. Longe disso.

Jacques Doillon excedeu em tecnicalidade cinematográfica. Do filme, tenha-se um mínimo de sensibilidade artística, não existissem outras qualidades formais soberbas (escolha de planos, movimentação de câmera, iluminação etc., trabalhadas à perfeição), é justo afirmar que se trata de uma verdadeira aula de iniciação estética. Vejamos.

É unânime a percepção de que a obra de Auguste Rodin sobressai, para além de tudo que a diferencia como obra de um gênio da escultura moderna, pela obsessiva preocupação com a sensualidade do corpo humano, coisa belamente evidenciada pela câmera de Doillon.

Agregue-se a isso um elemento de cunho biográfico: Rodin era um homem concupiscente, libidinoso, razão por que irresistível e sedutor em sua época. Mas o filme, em momento algum, banaliza-se em sua dimensão erótica. As cenas de sexo são conduzidas com um rigor estético notável, o que serve antes para referir dois aspectos grandiosos da própria arte do escultor: a sensorialidade no ato da criação, o golpe gestual, as sensações táteis. Não raro, num tipo de interlocução semiótica, depara-se com uma imagem de forte sugestão tridimensional, a exemplo dos planos em que a angulação da câmera resulta num "escorço", técnica de representação pictórica em que um objeto ou distância espacial parecem mais curtos do que em realidade são.

A luz é suave, o ritmo da narrativa é conforme a densidade dramática do enredo, a textura da imagem condizente com o ambiente cenográfico, ao que se soma a perfeita escolha do fundo musical, notadamente nas sequências em que vemos o artista em plena atividade como escultor.

Mas, pelas limitações de espaço, por último sinto-me condicionado a exaltar aquela que me parece a maior qualidade do filme. Rodin foi antes de tudo um artista atento ao que, no domínio histórico do Impressionismo, chamava-se "vérité intérieure", o sentimento subjetivo, a verdade interior. A forma escultórica assumia as sensações experimentadas pelo contemplador. Não pela visão, diga-se em tempo, mas pelo tato.

Como observou Herbert Read, em estudo brilhante da obra de Auguste Rodin, se ao escultor é negada a experiência tátil, isso vem em seu prejuízo. No filme de Jacques Doillon, essa limitação como que é suplantada. Exagero à parte, "vemos" o filme com o corpo inteiro. Há nele, como na obra do artista homenageado, um realismo visual que extrapola os limites do comum. Tudo é forma, beleza, grandiosidade. Assim como sempre ocorre quando se trata de artistas esplêndidos, a exemplo de um Donatello, um Michelângelo e, claro, um Auguste Rodin. De encher os olhos.

 

  • Doutor em Artes pela UFMG, Professor de Estética do Cinema, História da Arte e Filosofia da Arte. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

BRASIL EM RECORTES

O PT NÃO É ISSO

Assim como manifestei meu repúdio às práticas fascistas levadas a efeito por eleitores de Aécio Neves contra Chico Buarque de Holanda, por exemplo, em restaurante do Leblon, no Rio de Janeiro, faço-o aos supostos militantes do Partido dos Trabalhadores contra a jornalista Miriam Leitão, colunista do jornal O GLOBO, no sábado 10, durante voo entre Brasília e Rio de Janeiro.

É lamentável que o clima de ódio reinante no país   ---   e largamente fomentado pelo jornalismo da emissora, diga-se em tempo   ---   tenha resultado num ataque pessoal à referida profissional, mesmo sabendo-se da forma tendenciosa com que Míriam Leitão tem produzido sua "leitura" da realidade brasileira nos últimos anos, escancaradamente marcada pela incontida intolerância ao PT e aos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff.

Nada justifica fatos dessa natureza, os quais vão de encontro à cartilha do PT e exemplificam metodologias de militância atrasadas e inconsequentes.

No momento em que o PT busca alternativas de superação para as dificuldades que vem enfrentando, com chances reais de renascer das cinzas, como mostram as pesquisas de opinião para 2018, não é saudável para o partido o que houve dentro da aeronave da Avianca contra a colunista da emissora. O PT não é isso, e, confirmada a participação de delegados do partido, deve punir exemplarmente os envolvidos. O ódio de que têm sido vítimas Lula e seus liderados não deve ser combatido com manifestações de ódio. O fascismo que toma conta do país não tem (e nem deverá ter) as cores do PT.

SIMBÓLICO

Nem mesmo Miguel Reale Jr., patrono do golpe contra a presidente Dilma Rousseff, pôde suportar o "murismo" do PSDB, que mais uma vez resolveu adiar a decisão de sair ou permanecer no governo Temer. O renomado jurista, que ocupou o Ministério da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, oficializou seu pedido de desfiliação do partido com argumentos que dispensam comentários: -- "O partido poderia dar o apoio no Congresso a elas [reformas trabalhista e da previdência] mesmo estando fora da gestão. O que existe é um acordo espúrio com Temer em troca de apoio a Aécio [Neves]. Isso é inadmissível"   ---   afirmou. Alguém discorda?

IMÊMORE

Dias depois de negar ter usado avião da JBS em voo São Paulo/Comandatuba/São Paulo, em viagem particular ao lado da mulher e do filho, pelo que foi levado a se corrigir em nota oficial do Planalto, logo em seguida, o presidente Michel Temer dá provas de andar mesmo esquecido.

Além do jato de Joesley Batista, descobriu-se nova ilicitude aeronáutica do golpista. É que Temer utilizou, em 2014, quando ocupava a Vice-Presidência, um helicóptero de empresa privada em viagem de ida e volta entre São Paulo e Tietê (SP), cidade em que nasceu, para receber homenagem de seus conterrâneos. A aeronave é de propriedade de uma empresa de Vanderlei de Natale, que está sendo investigado na Operação Lava-Jato por envolvimento em atos de corrupção. Engraçado, não fosse ridículo, é que Temer afirmou tratar-se de um helicóptero da FAB, mas teve de recuar depois que fotos da aeronave, em que aparece o presidente, foram divulgadas pelo site do jornal Zero Hora.

 

Encantador

 

                                                    Por Álder Teixeira

Je suis enchanté é expressão recorrente entre os franceses para dizer de sua profunda admiração com alguma coisa. É o que me ocorre depois de assistir aos três primeiro filmes do Festival Varilux do Cinema Francês, que teve início nessa quinta-feira 8 e terminará a 21 do corrente. Pela ordem, vi O Filho Uruguaio, Perdidos em Paris e Rodin.

O primeiro, de Olivier Peyon, objeto da presente análise, tem como escopo temático a tentativa de resgate de um filho sequestrado pelo pai há cinco anos.

Nada novo, como se vê, não fosse o filme extremamente bem elaborado em todos os seus aspectos formais, da decupagem ao estilizado manuseio da câmera, um dos procedimentos capazes de envolver o espectador desde as primeiras tomadas do belo filme que é despretensioso O Filho Uruguaio.

Diga-se em tempo, todavia, que não se trata de uma narrativa sofisticada, tomando-se o termo como rebuscado ou excessivamente requintado em sua construção discursiva, ou seja, artificial ou afetado. Antes pelo contrário, o registro é naturalista e os enquadramentos, por exemplo, obedecem ao que a gramática cinematográfica estabelece como convenção. Isso se presta ao que refiro como "estilizado": os traços de linguagem foram aprimorados por Olivier Peyon no sentido de dar ao filme uma elegância formal digna de nota.

A cena final, em que mãe e filho se aproximam num parque infantil  ---   e se abre, com isso, a sugestão de um reencontro definitivo, é sublime. As angulações da câmera e a suavidade de seus movimentos, enquanto mãe e filho se miram como animais desconfiados, paga o ingresso, não sem nos roubar algum ar dos pulmões.

Voltemos ao roteiro, contudo. A mãe, no caso, é Sylvie (Isabelle Carré), que volta à Florida, cidade uruguaia em que Felipe, o filho roubado, mora com a tia, Maria (Maria Dupláa), e a avó (Virginia Méndez), na companhia de um assistente social, Mehdi, personagem que ganha protagonismo na história antes de tudo pelo belo trabalho de ator levado a efeito por Ramzy Bedia. A direção de elenco, por sinal, é algo notável em O Filho Uruguaio, numa rara junção de sensibilidade e apuro técnico do começo ao fim do filme. Isabelle Carré, tal qual Dupláa, está sublime.

Um aspecto, todavia, merece realce como prova de que estamos diante de um grande filme: a trama se desenvolve com um nível de complexidade que tira o filme de Olivier Peyon da vala comum de tantos outros que abordaram o mesmo tema (e que pecam pela obviedade das soluções narrativas), pois os questionamentos em torno do núcleo central não esgotam a força dramática que sustenta O Filho Uruguaio. É que Peyon explora com acuidade e competência os muitos elementos secundários do enredo, bem na linha do que, sutilmente, faz-nos perceber no suposto envolvimento sentimental de Mehdi e Maria. Apenas uma hipótese, claro.

É encantador, portanto, que uma obra tão despojada, tão assumidamente simples, não resulte banal ou inclinada a professar julgamentos. O filme é denso, bem construído e aberto, na perspectiva que imortalizou a classificação o italiano Umberto Eco. Ao sair do cinema, o espectador não leva consigo uma tese, mas se sente provocado a pensar sobre um problema a um só tempo avassalador e simples. Vale conferir.

  • Professor de Estética do Cinema, Mestre em Literatura e Doutor em Artes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cotidiano na arte

Foi tema de obras importantes da MPB, como atestam sucessos de Roberto Carlos e Chico Buarque de Holanda. Do primeiro, lembro algumas passagens de Rotina (O sol ainda não chegou/E o relógio há pouco despertou/Da porta do quarto ainda na penumbra/Eu olho outra vez/Seu corpo adormecido e mal coberto/Quase não me deixa ir/Fecho os olhos, viro as costas/Num esforço eu tenho de sair/A mesma condução, a mesma hora etc.); do segundo, Cotidiano, qualquer amante do cancioneiro popular haverá de lembrar a letra irretocável (Todo dia ela faz tudo sempre igual/Me sacode às seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual/E me beijo com a boca de hortelã/Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar/E essas coisas que diz toda mulher/Diz que está me esperando pro jantar/E me beija com a boca de café.

Está na poesia de Carlos Drummond de Andrade (Casas entre bananeiras/Mulheres entre laranjeiras/Pomar amor cantar//Um homem vai devagar/Um cachorro vai devagar/Um burro vai devagar/Devagar as janelas olham//Êta vida besta meu Deus.) com os versos antológicos de Cidadezinha Qualquer.

Na prosa de ficção, aparece no último livro de Machado de Assis, Memorial de Aires, não sem receber um tratamento de tal modo terno e puro, sem esquecer das qualidades formais do texto, que alguns elegem como a mais tocante despedida da literatura brasileira.

Em Portugal, é tema indireto do romance O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, pois dele decorrem as fantasias de Luísa, a personagem central, que, inconformada com a mesmice de seus dias, envolve-se com o primo que dá nome ao livro, numa história de amor que excede, segundo conhecida crítica de Machado de Assis, os limites do aceitável, empobrecendo o que poderia ser um dos maiores clássicos da literatura mundial. De minha parte, discordo, mas como se contrapor ao Bruxo de Cosme Velho, o nosso maior gênio nas artes?

Quem haverá de esquecer a verdadeira obra-prima que é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, onde se torna estopim das andanças adúlteras da protagonista, a quem está reservado um dos finais mais tristes do naturalismo francês? 

Sem deixar em nuvens brancas, claro, o maior dos livros de Tolstoi (Guerra e Paz é mais que um romance), pois da rotina luxuosa mas sem novidades de Anna Kareninina é que surge a figura do sedutor Vronsky, com o mesmo final de Flaubert.

Movimento para o abismo, como dizem os estruturalistas franceses, está, outrossim, na pintura de Velásquez, maravilhosamente examinada por ninguém menos que Michel Foucault, em As Palavras e as Coisas.

Pois é ele, o cotidiano, que perpassa, direta ou indiretamente, os exemplos acima, que sustenta o último filme de Jim Jarmusch, exaltação poética da rotina de um casal na cidade americana de Paterson, que, não de modo acidental, como tentarei mostrar, é o nome do protagonista, exemplarmente interpretado por Adam Driver.

Essa, logo se pode perceber, é apenas uma das muitas rimas que compõem a tessitura dramática de Paterson, insistentemente evidenciada na obsessão da mulher, Laura (Golshifteh Farahai), pelo preto e branco; no amor do marido pelo poeta estadunidense William Carlos Williams, também conhecido por WCW, autor do livro que plasma o filme de Jim Jarmusch  ---   e na aparição recorrente de gêmeos ao longo do filme como uma simbologia explícita do eterno "duplicar-se" das coisas na vida de cada um.

O filme acompanha o casal por uma semana, claramente demarcada pela passagem dos dias com que Jarmusch dividiu suas sequências narrativas. Não há suspense, artifício com que os roteiristas costumam retardar a ação a fim de prender o espectador. Antes pelo contrário, o ritmo é lento, arrastado, emblematicamente pautado pelos planos em câmera alta que enquadra o casal, na cama, no início de cada episódio, e nas sequências com que tem início, também, cada uma das oito partes do filme: vemos Paterson comer sucrilhos sob o olhar sonolento de Marvin, o buldogue de Laura; percorrer o mesmo itinerário até o ônibus, escrever poemas à frente do volante e receber, invariavelmente, do fiscal da empresa em que trabalha, o comando para "rodar as ruas". O restante do filme é marcado por ações repetitivas, trabalhar, voltar para casa, passear com Marvin, beber chope no barzinho em que se depara com as mesmas pessoas etc.

Dito assim, natural, pode-se achar que se trata de mais um filme dito cult, em que nada ocorre, nenhum ponto de fuga dramático, nenhum flashback, nenhuma oscilação rítmica que possa poupar o espectador dos bocejos e dos cochilos por certo inevitáveis. Nada disso. O inevitável é que nos deixemos tragar pela genialidade de Jim Jarmusch, seduzidos pela poética da narrativa e a beleza de um roteiro a um tempo delicado e denso.

Amparado na simplicidade estética de Paterson, pois, Jarmusch foi capaz de tirar leite de pedra (que me desculpem o clichê), construindo um filme "que se" contrapõe ao "que se" tem procurado fazer em termos cinematográficos nesses muitos anos. Dá com isso provas cabais de que cinema, se não é uma arte para intelectuais, como quis Clint Eastwood, é, inegavelmente, uma arte para pessoas sensíveis, atentas à beleza das coisas mais despojadas, da banalidade do cotidiano e dos sentimentos mais comuns.


 

 

 

 

 

 

Desde os primórdios

Costuma-se identificar como marco de fundação da literatura brasileira A Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500. O documento, se não tinha a pretensão de ser arte literária, rigorosamente falando, é um texto bem produzido e entraria para a história não apenas como registro de achamento de uma terra desconhecida do Novo Mundo, mas, ao lado disso, como obra curiosa e pontuada de percepções dignas de nota. 

Não bastassem essas percepções, todavia, um detalhe pode ser tomado como indicação dos valores por que viriam a se orientar os descobridores, e, por extensão e em grande escala, os descendentes que viriam a formar o que se convencionou chamar "povo brasileiro". Tomo a liberdade de citar o fragmento em que isso aparece: 

É pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro   ---   o que d'Ela receberei em muita mercê. 

Esclarecendo: ao redigir a famosa carta, uma espécie de relatório sobre o descobrimento, destinado a D. Manuel, Caminha aproveita a oportunidade para formalizar um pedido nada ético em favor do genro. Se o simples fato de utilizar-se de um documento oficial para obter dividendos pessoais já depõe contra o escrivão, a situação tem o seguinte agravante: Jorge Osório cumpria pena na ilha de São Tomé por prática de roubos contra uma igreja e por ter ferido mortalmente um sacerdote em 1496. Tratava-se, portanto, de um criminoso para quem Pero Vaz de Caminha, valendo-se de sua 'proximidade' com a Corte, formaliza um desses pedidos escusos que, para nossa vergonha, será insignificante se comparado aos do Brasil de 517 anos depois. 

O fato, que não raramente é objeto de tentativas de entendimento da formação do caráter nacional brasileiro, a que se soma a irrecusável acusação de que temos parentesco remoto com o que havia de pior entre os portugueses aqui aportados (criminosos, bandidos de toda ordem etc.), volta e meia ressurge como tentativa de explicação para o que, desde sempre, ocorre no Brasil envolvendo, em grande parte, notáveis da nossa elite social, econômica e política. 

É claro que a tese se ressente de fragilidades mil, mesmo aos olhos daqueles que, como eu, não são especialistas na matéria. Deixemos a discussão para os grandes intérpretes do país, intelectuais a quem ainda se deve o que existe de mais significativo na ensaística sociológica empenhada em identificar "quem somos": Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro, Antônio Cândido, para citar alguns nomes que me ocorrem. 

Quanto a Jorge Osório, o que lhe terá ocorrido?, haverá de indagar o leitor. Pois bem. El-Rei, em princípio, fez vistas grossas ao pedido de Caminha. Este, por sua vez, prosseguiu viagem para Calicute, onde chegaria a 13 de setembro de 1500. Por infelicidade, ladeado por meia centena de conterrâneos, seria assassinado em cruel combate contra pelo menos trezentos árabes e indianos. Uma pena. 

Ah, quase ia esquecendo: comovido com o triste desfecho do seu "honrado" escrivão, D. Manuel resolveu perdoar Jorge Osório e nomeá-lo para um cargo de confiança. Era uma pessoa de "boa índole". Como alguns brasileiros de quinhentos e poucos anos depois.

 

 

 

 

 


 

Uma obra ímpar

Faço parte de uma geração de professores de literatura fortemente influenciada por Antônio Cândido. Foi o mais denso e mais original de nossos críticos, e um dos maiores intérpretes do Brasil. Não conheço, rigorosamente, quem, dentre os que se dedicaram às lides literárias nos últimos quarenta anos, em sala de aula ou fora dela, tenha podido contornar Formação da Literatura Brasileira, o clássico em que o renomado estudioso carioca se debruça sobre as produções árcades e românticas em busca de entender (e explicar com rara competência) as origens de uma literatura a que se possa classificar como brasileira.

Reconhecendo o abismo de diferença que separa a literatura brasileira de outras literaturas mais prestigiadas (ele cita com destaque as literaturas francesa, inglesa, italiana e, mesmo, a espanhola), entendendo-se essas diferenças como uma oitava a menos em termos de real importância como construto artístico, Antônio Cândido esmiúça o substrato do que se fez aqui em termos literários até fins do romantismo, por volta de 1880, quando surge entre os escritores brasileiros o nome do Machado de Assis realista, o primeiro dentre os nossos autores digno de figurar entre as maiores expressões mundiais. Mas o faz, embora com coragem para dar à nossa produção o seu verdadeiro tamanho, sem demonstrar o complexo de vira lata de que nos falou Nelson Rodrigues, a propósito da nova falta de coragem e sentimento de inferioridade diante de tudo aquilo que vem de fora.

Ressalte-se aqui o que me parece mais notável no livro em termos de metodologia e senso de análise, o fato de que se trata de uma abordagem criteriosamente apoiada nos textos, sem desprezar, contudo, as contribuições realmente significativas em termos de fortuna crítica e de informação. É, este, pois, o viés que dá a Formação da Literatura Brasileira um sentido jamais ultrapassado por qualquer outro livro do gênero, e que o torna a primeira tentativa exemplarmente bem sucedida de interpretação do caráter nacional brasileiro do ponto de vista cultural e artístico.

Na contramão do que era dominante até sua publicação, em 1975 (e mesmo considerando o que se fez depois), Cândido pensa a nossa formação como um fenômeno consolidado a partir de 1750, antes, pois, dos fatos a que a maioria dos estudiosos atribui o surgimento da nossa identidade cultural, ou seja, a superação do domínio colonial e da dependência econômica. Razão de sobra, portanto, para que tenha sido esta a obra que mais decisivamente norteou a nossa práxis como professores de literatura, a quem devemos a essência de uma percepção menos pessimista da literatura brasileira como expressão da nacionalidade.

Há, nessa postura, quero crer, o anúncio do que viria da pena e da ação de Antônio Cândido nas décadas seguintes à publicação de Formação da Literatura Brasileira, e que gostaria de ressaltar nessa ligeira consideração sobre a obra de um dos maiores brasileiros, cuja morte, na madrugada de sexta-feira 12, abre uma lacuna imensa no cenário da inteligência brasileira: refiro-me à vocação pública e política dos seus escritos, mas, acima de tudo, refiro-me a sua militância como intelectual orgânico (Gramsci), o intelectual que não se permite a indiferença entre o pensamento e a ação. Se seus textos são "textos de intervenção", como aliás se denominou uma das mais felizes coletâneas de seus artigos, organizada por Vinicius Dantas, em dois volumes, sua prática foi decisiva para o amadurecimento das forças ditas de esquerda no país, de que constitui prova a fundação, em 1980, do Partido dos Trabalhadores, por ele e um expressivo número de intelectuais brasileiros.

A morte de Antônio Cândido deixa órfã uma geração de professores, escritores, artistas, militantes políticos que beberam na fonte de suas reservas intelectuais inesgotáveis, felizmente materializadas em obras que constituem o que de melhor se fez no Brasil em crítica literária, para não falar de sua produção no campo da sociologia e do pensamento político, igualmente marcados pela lucidez, sobriedade e elegância estética.

Num país sem memória política como o nosso, em que o passado tenebroso constitui o esteio de uma esperança cega de tantos e tantos cidadãos, entre jovens e velhos, resta-nos lamentar a morte de Antônio Cândido  ---   e aplaudir, de pé, o ensaísmo histórico-social que nos deixou em livros memoráveis.

 


 

Tomando o jogo, como é comum no futebol

Aos poucos, na medida em que se revela incapaz de esconder suas motivações subjetivas, o juiz Sergio Moro vai deixando cair sua máscara de justiceiro e dando a ver sua verdadeira face.

Quem acompanhou a cobertura do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (mesmo pelas reportagens em que o trabalho de edição mostrou-se levianamente tendencioso contra o depoente), basta ter um mínimo de consciência para constatar a forma pouco isenta com que Moro conduziu a audiência. Repetiu perguntas estranhas ao processo em pauta, manipulou informações, criou-as a fim de embaraçar o "réu" etc. No momento em que alegou ter em mãos um documento comprometendo Lula, o tiro saiu pela culatra e, desavergonhadamente, teve de tornar público que se tratava de uma proposta de compra do tríplex não assinada, a exemplo do que ocorre invariavelmente em intenções de compra e venda de imóveis.

Na edição de hoje da Folha de S. Paulo, evidenciando sua contrariedade com o que resultou de uma iniciativa de reportagem a fim de analisar o depoimento do ex-presidente em Curitiba, o matutino publicou uma matéria, sob o título "Lula errou pouco, avaliam advogados", que materializa a quase absoluta decepção da turma da direita, mesmo aqueles que há muito venderam sua alma ao diabo e para os quais "consciência" é ferramenta de defender interesses e assegurar vantagens, a assustadora maioria dos empresários à frente. Vejamos.

Foram ouvidos três dos profissionais que o jornal considera os maiores especialistas em direito penal, Gustavo Badaró, professor da USP, Alberto Toron, criminalista e professor da Faap, e Thiago Bottini, professor do curso de direito da FGV, do Rio de Janeiro. Para o primeiro, "Lula não se saiu mal no interrogatório". Segundo afirma, o ex-presidente foi transparente ao confirmar encontros e situações que os investigadores conheciam, "mas negou atos ilícitos". Para o segundo, a forma como o juiz Sérgio Moro conduziu o interrogatório revela a intenção de "dobrar" o réu, como se fazia na ditadura militar (1964-1985)". Já, para Bottini, "o juiz tem revelado um comportamento parcial não só no caso do ex-presidente".

Para ele, "Moro faz muito mais perguntas do que o Ministério Público, o que o torna um sujeito não ideal para julgar". E conclui: "Ele [o juiz Sergio Moro] não cumpriu inteiramente o papel de juiz imparcial no interrogatório de Lula". Sem comentários.

Em que pese tratar-se de um jornal assumidamente contrário ao PT e a Lula, a que se deve creditar muito do massacre a que foi condenado o ex-presidente nesses últimos anos, de forma explícita e descaradamente tendenciosa, necessário frisar, a matéria reconhece que Lula "não deu o show que gostaria, mas conseguiu evitar que o interrogatório conduzido pelo juiz Sergio Moro gerasse contradições que pudessem incriminá-lo no caso do apartamento tríplex".

Por último, o que surpreende até mesmo o menos radical dos golpistas, a mesma edição do principal jornal do país traz um artigo do ultradireitista Reinaldo Azevedo, ressaltando a parcialidade de Sergio Moro, que me parece digno de nota: "O que se deu em Curitiba não é nem pode ser um exemplo a ser seguido. A menos que se venha a fazer a escolha pelo terror jurídico". E, prossegue o mais reacionário jornalista brasileiro, com a seguinte afirmação: "O juiz [Sergio Moro] resolveu fazer a versão PowerPoint de Dalton Dallagnol . Todo o esforço consistiu em arrancar contradições de Lula que revelassem o chefe de uma organização criminosa".

Surpresos? Pois tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Reinaldo Azevedo: "O MPF não conseguiu produzir a prova de que Lula é dono oculto do apartamento. Documentos de fé publica atestam que ele pertence à OAS". Pasmem. 

Na Parede da Memória

Foi num dos últimos aniversários de mamãe. Eu passava uma temporada na França, para estudos na ENFA, prestigiada escola da cidade de Toulouse, razão por que não pude estar presente. Dias depois, por telefone, contaram-me um fato inusitado ocorrido na festinha em homenagem a Dona Aldé (assim, como a tratávamos na intimidade). 

A uma dada, entre comes e bebes em casa de um filho, alguém toma nas mãos um violão e diz, dirigindo-se à aniversariante: "Vou tocar uma música para Dona Alderila!" Ao final do derradeiro acorde, tocada pela beleza da canção, a boa velha curva-se para alguém ao lado e quer saber: "Quem é esse moço, tão delicado?" 

Já acometida dos males do envelhecimento adiantado, mamãe não fora capaz de identificar que ali estava Antônio Carlos Gomes Fontenelle Fernandes, ou simplesmente Belchior, uma das mais altas expressões da música popular brasileira, que visitava Iguatu a convite do amigo e contemporâneo da faculdade de medicina, Hildernando Bezerra, genro e primo da aniversariante, então prefeito da cidade. 

Ao saber da morte de Belchior, domingo 30, aos 70 anos, recluso numa cidadezinha do extremo Sul do Brasil, foi desse acontecimento, tão simples e tão grandioso, que, ato contínuo, me ocorreu recordar. 

Com o passar das horas, na medida em que me chegavam pelo celular dezenas e dezenas de mensagens, textos, filmes com fragmentos de shows memoráveis, fui me entregando a essa sensação de vazio imenso que passou a tomar conta do povo cearense desde as primeiras horas do dia, vazio que se torna gigantesco no momento em que sento diante do computador para escrever a coluna de hoje, às 9:30, quando, segundo li nos jornais, à beira da cova, familiares e amigos íntimos se despedem de Belchior. 

Belchior era dos três grandes nomes do Ceará, do chamado Pessoal do Ceará, inequivocamente, o mais denso e mais profundo como letrista, o mais original no trato da linguagem poética, mas não apenas isso. 

Nascido de uma 'fornada' incomumente exigente do ponto de vista artístico, Belchior tinha algo da poesia desconcertante de Bob Dylan e da musicalidade elaborada dos Beatles, da telúrica apreensão da realidade regional de Catulo da Paixão Cearense e da universalidade lírica de Luiz Vaz de Camões. Era, pois, um artista completo, cuja perda cobre de sombras uma música popular que vem perdendo, há pelo menos 20 anos, sua identidade e sua força estética.

A atualidade de suas letras é algo impressionante, quando se volta para o conflito de gerações, Como Nossos Pais, ou para a fugacidade do tempo, Velha Roupa Colorida, para os desafios do mundo, Apenas Um Rapaz Latino-Americano, ou atenta para a desestruturação da família, Na Hora do Almoço, ou, ainda, quando fala da frugalidade da paixão, Coração Selvagem, ou mesmo da busca de um tempo perdido, Galos Noites e Quintais, uma obra-prima do cancioneiro popular de que é impossível não citar a segunda estrofe: "Eu era alegre como um rio,/um bicho, um bando de pardais;/Como um galo quando havia.../quando havia galos noites e quintais./Mas veio o tempo e fez comigo/o mal que à força sempre faz./Não sou feliz, mas não sou mudo:/hoje eu canto muito mais". Que dizer de Paralelas? "Em cada luz de mercúrio/vejo a luz do teu olhar? Passas praças, viadutos/nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar".

Parece consensual, convenhamos, que já vai longe o tempo da plena produtividade. Corrijo-me: já vai longe o tempo que viu nascer de sua pena e do seu violão o que existe de mais elaborado em termos poéticos e musicais no conjunto do que produziu ao longo de, pelo menos, 40 anos. Parece consensual, insisto, que não se pode comparar, sem perceber o descompasso, o que fez entre inícios e fins dos anos 70, com Mote e Glosa, Alucinação, Na Hora do Almoço e Coração Selvagem, para dar nome aos bois, e Bahiuno, Um Concerto Bárbaro e Autorretrato, nos anos 90, este último uma releitura de seus grandes sucessos, com arranjos e improvisações de tirar o fôlego. 

Que pena o sumiço voluntário que se impôs; que pena a vida errática a que se atirou nesses muitos anos, privando-nos de sua voz inconfundível, de sua sabedoria quase filosófica ao lidar com as palavras e construir imagens..., enfim, que pena que tenha se distanciado de nós, seus admiradores incondicionais e fãs confessos   ---   dessa figura ao mesmo tempo tão excêntrica e tão fascinante!Que pena!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

Guernica, 80 anos atrás

Escrevo esta coluna em 26 de abril de 2017. Ocorre-me lembrar que são decorridos 80 anos desde o massacre levado a efeito contra uma cidadezinha espanhola que se tornaria mundialmente conhecida por força da arte de Pablo Picasso. Refiro-me à Guernica, a pintura com que o pintor catalão denunciou ao mundo os horrores da Guerra Civil Espanhola.

O bombardeio covarde, que vitimaria unicamente civis (uma população inteira), deveu-se a uma decisão de Adolf Hitler, como ato de apoio ao golpe militar liderado no país basco por Francisco Franco.

Como lembra Marcelo Coelho, articulista do jornal Folha de S. Paulo, o bombardeio sistemático da cidade espanhola materializou o que se convencionou chamar teoria da "guerra total", uma prática que tinha por objetivo não apenas render o adversário, mas humilhá-lo, a ponto de minar toda e qualquer disposição de permanecer no combate: "Arrasar a moral do adversário, causando pânico e morticínio na população indefesa de uma cidade, tornava-se recurso legítimo a partir dessa visão  --- que, no limite, apaga as diferenças entre guerra e terrorismo".

Mutatis mutandis, não existe quase diferença entre o que aconteceu aos civis da cidade de Guernica, em 1937, e o que se anuncia a passos largos nas ações de Donald Trump, em relação à Síria, por exemplo. A cidade basca de Guernica era um centro de práticas espirituais e políticas, a que não raro se dirigiam os reis da Espanha apenas para refirmar o compromisso de nunca descumprir leis e costumes locais. O bombardeio dessa pequena e desimportante cidade, pois, só teria uma razão de ser: o simbolismo do poder nazista e, por extensão, do generalíssimo Franco, cuja arrogância e destempero são características marcantes, também, do louco que está à frente da maior potência mundial 80 anos depois. A quem interessar o fatídico acontecimento, chega às livrarias o clássico A Árvore de Guernica, livro com que o jornalista G.L. Steer registrou, um ano depois, o horror fascista e a resistência basca ao martírio imposto à região pelo ditador Franco, bem como a descrição comovida do massacre em si. De minha parte, é da obra de Picasso que gostaria de falar.

Sobre o imenso painel (óleo sobre tela, 349 x 776,5 cm), que está hoje no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, Madri, é conhecido o curioso diálogo entre Pablo Picasso e um oficial alemão que lhe indaga se fora ele o autor da obra: "Não, foram vocês que a fizeram!"

A tela tornar-se-ia um verdadeiro ícone da arte moderna, não apenas pelas qualidades plásticas que são, nela, inquestionáveis. Não, muito mais que isso. Num caso sui generis, em meio ao que há de mais representativo da técnica e do estilo ditos modernistas, ressalte-se, o que dá à obra de Picasso uma importância para além do rigor formal, que se lhe não podemos negar, como disse, é a narrativa intencionalmente dramática da barbárie, o grito de revolta contra a crueldade humana elevada a dimensões impensáveis. No que existe de aparentemente desarticulado, representado à perfeição na imagem do cavalo contorcendo-se sob a insuportável dor, ou na figura de um touro, símbolos da brutalidade dos homens, pode-se perceber do que é capaz a arte em sua função social.

A composição do quadro é inquietante. Pessoas e animais (oito, ao todo) são os atores da cena de sofrimento e dor. Vê-se, a partir da esquerda, uma mulher protegendo nas mãos uma criança sem vida; um touro, um soldado de pedra, abatido de costas com uma espada quebrada (e uma flor) na mão, sobre cujo corpo relincha, em desespero, a figura do cavalo; de uma janela projeta-se uma mulher com uma lamparina, outra mulher, mais ao centro do quadro  ---  e mais uma, que grita com os braços erguidos.

Não aparecem os inimigos, os aviadores que acionam os mecanismos do bombardeio aéreo. Nem Hitler, nem Franco. Do preto e branco da tela, mais que as imagens visualizadas, vêm os gritos, o estrondo ensurdecedor das explosões que dilaceram corpos e almas. Ao centro, no que se pode identificar como um triângulo isóceles, cujo vértice atira-se para a lâmpada do alto do quadro, absorve o nosso olhar a luminosidade distorcida, a exemplo da lanterna de Goya, no Fuzilamento de Moncloa, que parece indicar simbolicamente a paz do porvir.

Como disse sobre a obra o conhecido crítico de arte Herbert Read, um dos seus mais rigorosos intérpretes, Guernica é um "monumento à desilusão, ao desespero e à destruição". 80 anos depois, quem, na linha do que fez Pablo Picasso, haverá de registrar o martírio infernal que se anuncia pela voz rouca de um louco americano?   

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Montenegro, o livro

Li, com redobrada atenção, Montenegro, família-história e medicina, o livro com que José Hilton Lima Verde Montenegro, em mais uma contribuição relevante para o resgate da memória iguatuense, homenageia seu pai, o médico José Holanda Montenegro. Trata-se de obra marcante sob todos os aspectos, notadamente por celebrar uma pessoa que fez de sua vida um exemplo a ser seguido, pela doação desinteressada, pela correção moral, pela elegância de sua conduta social e política.

As qualidades editoriais da publicação, irretocável em sua apresentação e beleza gráfica, por si só, constitui um convite à leitura. Mas, fique isto claro, é o rigor da pesquisa que torna o livro quase obrigatório para quem se mostre minimamente empenhado em conhecer capítulos significativos de nossa História, dando a ver, ao lado da criteriosa curiosidade que movimentou o notável intelectual, a fina sensibilidade do historiador. Eis o que faz a diferença num livro do gênero: saber transitar do fato objetivo, que o credencia, para a subjetivação, que o embeleza. Hilton superou-se nesse sentido, razão por que seu último livro beira à perfeição do ponto de vista estético, tomando o termo no sentido da fenomenologia da experiência histórica propriamente dita. O autor submete tal experiência à descrição, à análise subjetiva e à apreensão do seu significado transcendental. Não se desapega da verdade factual, pois tem presente que o leitor a que se destina sua pesquisa, em tese, pode ser outro que não o familiar do biografado, sem negar, todavia, que é o sentimento do filho o esteio da percepção desse fato.

Como disse o médico Hildernando Bezerra, em apresentação irretocável da obra, "Hilton vai à Fundação Gilberto Freire, em Recife, e lá garimpa, nos escritos de Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, as origens da família Montenegro no Brasil. Mergulha mais a fundo, no passado e, nos longínquos idos do século XVI, descobre seu parentesco com o Papa Adriano VI. Suas pesquisas singram o Atlântico e descobre até seus primeiros ascendentes no Brasil, aqui chegando em companhia do donatário Duarte Coelho".

Mas o livro, sem perder de vista as bases historiográficas que o validam, outrossim, como produção científica (para além do memorialismo desinteressado, de "perfume" kantiano), ganha força à medida em que a narrativa deixa ver a dosada emoção do filho, como no capítulo em que descreve o AVC ocorrido ao pai em 1976: "Gradativamente foi reconhecendo uma pessoa e outra, às vezes trocava Ana Cláudia por Virgínia, às vezes a conversa ou a pergunta era sem nexo, mas aos poucos o quadro clínico ia melhorando e animando todos nós e a equipe médica, que também vibrava com a sua melhora".

Aqui e além, o foco desliza do pessoal para o impessoal, e não raro o "papai" dá lugar ao "doutor Montenegro". Isenção? Ato falho do historiador? Talvez. O que resulta disso, no entanto (e que mais importa), torna o discurso leve, delicado, sutil, que é mesmo uma marca da escrita hiltoniana, se me permite o autor, humilde que é, tal adjetivação: "Tínhamos notícias de que, em Iguatu-CE, existia uma corrente de orações para a melhora do Dr. Montenegro. Centenas de pessoas invocando os seus Santos e fazendo promessas... Por tudo que se fazia de positivo para papai, nós ficávamos gratos e felizes, pois nesse momento de dor e sofrimento conseguimos vislumbrar o quanto ele era querido, o quanto ele fazia falta".

Como bom historiador, Hilton não se limita aos grandes eventos. É assim que traça com detalhes o perfil psicológico de Dr. Montenegro. Mais: traça o perfil profissional, intelectual, humano, desse homem memorável de que todos os iguatuenses devemos nos orgulhar. Conhecemos o seu gosto musical, literário, suas crenças, seus valores, a sua visão de mundo e o amor sem nome que dedicou aos filhos e a Dona Elze Alves Lima Verde Montenegro, a companheira inseparável.

Mais que aplaudir, há que se agradecer a José Hilton Lima Verde Montenegro pela grande obra com que acaba de nos presentear.