Carta de amor

Chega à cidade, enfim, a última edição de Carta a D., de André Gorz. Havia anunciado o fato em crônica recente, salvo engano intitulada Eis que o amor pode ser eterno. Li esse pequeno-grande livro há muitos anos, razão por que fiz questão de adquiri-lo na elogiada tradução de Celso Azzan Jr. Devorei-o de uma sentada, não menos encantado do que havia feito antes. A rigor, é uma carta escrita pelo filósofo a sua mulher pouco antes de cometer com ela, em pacto serenamente firmado, o suicídio, que é mesmo um dos mais comoventes atos de amor de que se tem notícia.

Groz e Dorine conheceram-se, na Suiça, através de amigos comuns. Amor à primeira vista, sem que os dois sequer tocassem a mão um do outro, o que ocorreria na terceira vez que se viram. Assim o missivista descreve o encontro: - "[...] cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947."

Os dois, desde esse momento, passam a viver juntos por quase sessenta anos, até 22 de setembro de 2007, quando foram encontrados mortos, abraçados, no quarto da casa deles, na França. Dorine padecia de um câncer do endométrio, estava esquálida e sofria as dores lancinantes da fase terminal da doença. Gorz toma a decisão de morrer com Dorine, pois não saberia viver sem ela. Dedica-se a escrever, entre 21 de março e 6 de junho de 2006, o seu último livro, uma declaração de amor que emociona do começo ao fim: - "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centimetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher."

Num tempo de amores efêmeros, ler Carta a D., de André Gorz, para além de prazeroso, pelas qualidades literárias que a obra possui, é acima de tudo enriquecedor. Faz-nos pensar sobre esse sentimento a um tempo realizador e doloroso com que se busca preencher a parte incompleta de cada um. Groz, com sua decisão, deu mesmo uma demonstração de que o amor existe: - "Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos." Na contramão do que afirmou Pessoa, nem todas as cartas de amor são ridículas.

Coluna do médico e cronista Hildernando Bezerra sobre "Dor amor e outras crônicas"

Entre meu natalício, em novembro, e o Ano Novo, fui agraciado com muitos presentes, todos vindos de amigos e parentes adoráveis, e carregados de profunda simbologia. Há dois tipos de coisas que adoro receber: canetas e livros. Por mais simples que sejam. As primeiras me dão a impressão de que vou gravar em vários lugares a certeza de que passei pela Terra, deixando marcas do meu trabalho e da minha alma. Os segundos me enriquecem a alma. Eis que recebi vários. Entre eles, um me chamou a atenção, pela origem e pelo conteúdo. De Lia, minha sobrinha adolescente, recebi Do amor e outras crônicas, de autoria de Álder Teixeira. Pouco volumoso, o que já foi um convite para se ler de uma sentada, num domingo de folga, suas duzentas e seis páginas são surpreendentes e fascinantes.

Álder é a pessoa talhada para falar de amor (e escrever). A Natureza presenteou-o com belo porte físico, sua afinidade pelas letras o fez um intelectual, professor de Literatura, além de um papo agradável, principalmente, diga-se de passagem, para as mulheres. Ao longo da vida teve grandes amores, "com mulheres maravilhosas", como ele mesmo diz. Um casal de belos filhos é um exemplo da amplitude e profundidade com que viveu o amor em toda sua plenitude. E Álder não se fez diferente dos demais mortais, ao vivenciar o amor, prova que esse sentimento cantado e decantado em todas as línguas, não respeita blindagens sociais, financeiras ou intelectuais. Sofreu, fez sofrer, perdoou e foi perdoado. Avançou, recuou, às vezes venceu, às vezes foi derrotado. Mas, pelo brilho do seu conteúdo pessoal, tem mais bagagem para falar do assunto. Mesmo que não tenha razão em tudo, mas seu relato tem mais brilho.

Álder Teixeira não exprime apenas sua visão do amor. Mas busca raízes históricas, que vão de Platão a Nelson Rodrigues. Respeita o pensamento e avaliação de homens e mulheres de todos os idiomas e matizes. Em suas páginas desfilam romances liberais como o de Sartre e Simone de Beauvoir ou a paixão desenfreada de Romeu e Julieta, ligações que desafiam o tempo como Tarcísio Meira e Glória Menezes. Não falta Shakespeare, em Hamlet, nem Rosa Montero, em Paixão e desamor. Da literatura parte para a música. Explora Vinicius, Elano de Paula, levita na dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues. É manifesta sua admiração pelo "Rei" Roberto Carlos. Expõe ideias e manifestações de alunas suas e de leitoras. Enfim, trabalha como um apresentador de TV, lidando com o universo inteiro de seres humanos, agindo muito mais como moderador, para deleite de seu público, enriquecendo o debate.

Por fim, o livro é uma delícia. Álder discorre, ora com suavidade, ora com apreensão, ora com rispidez sobre o amor. Não nos deixa certos de ter uma rígida posição sobre o amor, mas muito mais uma flexibilidade tão grande quanto a do próprio sentimento. Afinal, amor é como democracia: cada um tem seu jeito, vive com ela, dorme e acorda com ela, ora adora-a, ora odeia, mas sempre acha que ela é a melhor, e sabe que tem de respeitar o sentimento do outro. Se você já amou, se acha que não ama mais, ou se não amou ainda, vale a pena ler Do amor e outras crônicas. Você vai terminar melhor do que quando começou a lê-lo.

O milagre do amor e da paixão

Revista Isto é, em edição recente, publicou interessante matéria sobre o Amor. Tomando por base pesquisa levada a efeito pela Universidade de Northwestern's, de Weinberg, nos Estados Unidos, editores de comportamento mostram que algumas crenças consagradas sobre o relacionamento entre homens e mulheres são equivocadas ou sofreram mudanças significativas. A revista aponta nove mitos sobre um dos sentimentos mais estudados da humanidade. Um deles, particularmente, é o de que o homem tende a ser mais atraído pela beleza física enquanto a mulher valoriza em princípio o status social do homem. Segundo os resultados obtidos pela conceituada universidade americana, a beleza física ainda é "a caracteríscia mais desejada tanto para os homens quanto para as mulheres."

Coisas das pesquisas, posto que a matéria não leva em consideração que a beleza é em si um dos temas mais complexos de todos os tempos, objeto de exame num dos campos mais ricos da Filosofia, a Estética. Etimologicamente, sabe-se, a palavra vem do grego e significa "sensação", o que justifica o fato de ser essa uma parte da Filosofia que trata de uma teoria geral da sensibilidade. Em Crítica da Razão Pura, por exemplo, Kant toma como seu objetivo de estudo a sensilidade e as formas puras do sentimento. Assim, é ela a ciência do Belo. Mas, o que seria o Belo? A Verdade, como quis Platão? E o que seria a Verdade? O Belo é o que agrada, como em Santo Tomás de Aquino, para quem "belas são as coisas que vistas, agradam"? Ou, como está em Aristóteles, "o Belo consiste na ordem e na grandeza"? Ou, ainda, "a expressão sensível do infinito", segundo Kant?

Quem nunca ouviu a expressão?: - "Para quem ama, o feio bonito lhe parece!" Bingo. Acho que a sabedoria popular, como não tem sido raro, traz uma percepção mais satisfatória sobre o assunto. Relativiza o conceito do Belo, vai nas entranhas do que, no milagre de um encontro, faz correr pela espinha o friozinho inconfundível da atração. A química, para usar de uma palavra mais contemporânea. Um dia, na praia, ela abaixou os óculos de sol e ele deparou com o sortilégio do desejo, vindo dos olhos que jamais vira iguais. Ele era gordo, meio careca, mas tinha um jeito de falar, de usar as mãos... Ela, um nariz ligeiramente adunco, mas o sorriso era estonteante. E tinha um viço no olhar. Ele era baixinho, mas tinha um jeito terno que a enlouqueceu. Se magra, demasiado magra, que pernas torneadas, que textura de pele. Ele era manco, mas possuidor de uma sensibilidade... e suas palavras tinham poesia. E assim, você se sentiu dominada pela força da paixão, enamorou-se na rapidez de um instante. E a vida lhe pareceu impossível sem ele ou ela, a partir de 'agora'.

A beleza física, pois, é algo que se diferencia para um e outro, que se escalona em ordens variadas, o sublime, o belo, o bonito, o formoso. A inteligência, a capacidade de sedução, o charme, a correção do caráter, a elegância e outros tantos atributos, até onde posso ver, podem pesar muito mais desde o primeiro lance do olhar - e fazer desmoronar o coração. Eis que muitas vezes o inexplicável se explica, "ele é belo e ela tão feia", "ela é lindíssima, o cara um bagulho." Como pode?, você se pergunta. E o coração dele ou dela tem para o fato a mais convincente explicação. A relatividade da Beleza, o milagre do amor e da paixão.

A natureza do ciúme

"Quem ama tem ciúme". A frase é da psiquiatra italiana Donatella Marazziti, autora do livro ... E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, publicado no Brasil pela Lumiara. Se não traz novidades muito significativas para a interpretação desse sentimento que atormenta a vida de tantos casais, a obra estabelece a existência de tipos de ciúme que podem ser 'trabalhados' a fim de que, mesmo nos casos ditos anormais, os amantes possam levar uma relação saudável. A exemplo do que teoriza Freud em um dos estudos mais respeitados sobre o tema, objeto de uma crônica publicada no meu livro Do Amor e Outras Crônicas, para Donatella existem diferentes tipos de ciúme: o depressivo, o obsessivo, o paranoide, o hipersensível e o ansioso.

O primeiro, segundo a psiquiatra italiana, é comum nos casos em que um dos parceiros sente-se inferior ao outro. O curioso é que neste caso o ciumento não manifesta seu sentimento e tende a sofrer em silêncio, na expectativa de que, cedo ou tarde, será traído. O segundo, a que chama de obsessivo, é recorrente e marcado por desentendimentos. O ciumento obsessivo é levado a procurar 'provas' em tudo, como a agenda do celular do parceiro e as mensagens realizadas ou recebidas. Normalmente tem a necessidade de se sentir amado e cobra do outro declarações do tipo "eu te amo!". No terceiro tipo, o ciúme paranoide, o ciumento tem a quase convicção de que é traído. Exige do parceiro comportamentos e renúncias iguais aos seus, como deixar de sair com amigos em favor da companhia um do outro. É um caso anormal, posto que o ciumento vê indícios muitas vezes extraídos da sua capacidade de fantasiar. No ciúme hipersensível, comum nas pessoas muito afirmativas e melindrosas, o ciumento sofre em silêncio, mas torna a relação pesada e sufocante. E, por último, o tipo ansioso, que leva a pessoa a viver em alerta, sob o efeito de uma ansiedade incontrolável.

Donatella levanta afirmações curiosas, inclusive, quando se refere aos casos em que o amor já faliu e a pessoa nutre pela outra um sentimento de posse. É o mais grave, doentio e a superação do problema requer tratamento, que nem sempre apresenta resultados totalmente positivos. O que é realmente significativo em ... E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, por certo, é que a autora reconhece a existência do ciúme como algo inerente à vida de todo amante, um sentimento natural e importante, quando bem trabalhado, para a manutenção de relações amorosas bem sucedidas e duradouras. A estudiosa aponta alternativas de ação contra esse sentimento muitas vezes insuportável e destruidor. Donatella é autora, também, do clássico A Natureza do Amor, à venda no Brasil desde 2007. Recomendo.

A arte do (re)encontro

Na caminhada da praia, reencontro amigo que havia tempos não via. O homem estava exultante. Vai casar novamente com a primeira mulher. Separaram-se por dez anos, durante cujo tempo cada um reconstruiu a sua vida. Tiveram novos filhos e foram felizes, ao que me consta. Constava, uma vez que me diz nunca ter sido feliz na nova relação. Não esquecera a primeira mulher. Por coincidência, romperam seus relacionamentos há coisa de uns seis, sete meses. Mês e pouco atrás, reencontraram-se na sala de espera de um consultório médico. Enquanto aguardavam seus horários, aproximaram-se para uma conversa como há muito não tinham. Daí a um jantar juntos, um flashback sem compromisso, foi um passo. Agora, decidiram morar juntos de novo.

Diz-me que sofrera bastante com a primeira separação. Havia sido decidida pela mulher e o homem entregara-se a um sofrimento sem nome. Emagreceu, desorganizou-se financeiramente, passou a beber muito e fez análise com diferentes especialistas, até tentar reconstruir sua vida de forma mais equilibrada. Mas nunca mais fora feliz de verdade, afirma. Como tivesse umas manchas brancas mas discretas no rosto e nas mãos, novidade para quem não o via há muito, dou a ver minha curiosidade, ao que satisfaz: - "Vitiligo, amigo. Desilusão amorosa leva da reprovação no colégio ao vitiligo." Disfarço a minha surpresa e seguimos a nossa caminhada, entre uma e outra amenidades.

Fiquei contente com a alegria estampada nos olhos do M., o tal amigo. Tirando as marcas da doença, no fundo irrelevantes, o homem está bem. Delineou o corpo, perdeu a barriga e caminha com uma disposição de fazer inveja, dando-se o direito de uns piques de velocista a cada duzentos metros. Vai bem nos negócios e é hoje um exportador de sucesso num campo de que não me recordo neste instante.

Foi o meu melhor amigo dos tempos de faculdade, mas a vida corrida levou-nos, um e outro, a anos e anos de ausência. Mora em São Paulo e só de vez em quando visita o Ceará. Como sabe que escrevo, brinca: - "Como gostava de fazer, escreva uma crônica sobre o nosso reencontro." Fico sem saber se se refere ao reencontro com a ex-mulher, com quem vai juntar escovas decorridos dez anos da separação, ou se ao nosso, amigos de amizade estreita. Na dúvida, sento-me diante do computador para traçar uma linhas em sua homenagem. Ocorre-me Vinícius: - "A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida." Incompleto, poeta. A vida é a arte do (re)encontro.