O amor em Bergman

Em Cenas de um casamento, obra inicialmente produzida para a televisão sueca, Ingmar Bergman discute em profundidade o casamento. Mostra a ascensão e queda do sentimento passional, como se dão os primeiros desentendimentos, como se desenvolve a crise e como a dificuldade de comunicação entre os amantes acaba por levar o relacionamento à falência. Um belo, um belíssimo filme, com Erland Josephson e Liv Ullman interpretando à perfeição as personagens Marianne e Johan. O filme é de 1973, e, consta, constituiu um incentivo para que o número de divórcios aumentasse vertiginosamente na Suécia e noutros países europeus.
 
Num livro de crônicas, escrevi sobre essa obra maravilhosa de Bergman, algo intitulado, se não me engano, O amor não é necessário, que, à época, levaria o deputado Heitor Ferrer a citá-la num pronunciamento e a pedir sua inserção nos anais da Assembleia Legislativa. Fora publicada em primeira mão no jornal O Povo. Acho que a crônica agradou, particularmente, pela citação que faço de uma fala de Marianne refletindo sobre o que é o amor. Diz ela: - "Acho que basta ser gentil àqueles com quem vivemos. Afeto também é bom. Humor, amizade, tolerância. Ter expectativas sensatas. Tendo isso, o amor não é necessário."  
 
Em face da repercussão que a crônica viera a ter, fiquei pensando com os meus botões: "Poxa, como as pessoas estão mesmo carentes do que seria essencial em suas vidas amorosas!" O curioso é que a personagem de Bergman diz isso quando lhe começam a faltar essas coisas e o fim do relacionamento se aproxima. Tenho estudado a filmografia do cineasta sueco e procurado ver alguns dos seus grandes filmes à luz do que disse em muitas de suas entrevistas sobre o amor, quase sempre dando a ver o que terá sido a sua própria vida amorosa, com as atrizes Ingrid Bergman e Liv Ulmman, especialmente. E concluo: Bergman foi um infeliz no amor.
 
Agora por último, revi a continuidade de Cenas de um casamento, um filme ainda mais poético. Intitula-se Saraband, o último realizado por Bergman, "um poderoso e ferino rugido final de um grande homem de cinema", nas palavras de Richard Corliss, prestigiado crítico da revista Time. Roteiro maravilhoso, atuações soberbas, o amor agora analisado sob uma nova dimensão: Trinta anos depois de separados, Marianne decide visitar Johan no seu retiro feito de solidão e velhice. No reencontro, uma das mais comoventes cenas de toda a filmografia bergmaniana, quando Johan, pouco antes de abraçá-la carinhosamente, dirige-se a ex-mulher: - "É assim, na vida dos ex-amantes. No começo, telefonam-se com frequência, como se quisessem sofrer juntos a dor da separação. Com o tempo, deixam de telefonar. Fica só o silêncio." As mesmas palavras com que Bergman comentaria, numa de suas últimas entrevistas, o tema da velhice e da solidão, um dos dos que soube explorar como ninguém na sua arte inconfundível.

É isso aí...

Com o pedido de que escreva um comentário para a aba do livro, chegam-me às mãos os originais do É isso aí..., de Elano de Paula. Trata-se de uma obra antes de tudo deliciosa, que me permitam a licença do adjetivo para falar das propriedades de um livro. É que os textos de Elano de Paula, entre as muitas qualidades que possui (e que são numerosas!) causam, já ao primeiro contato, essa sensação de prazer que já os diferenciam, quer se trate de conto, crônica ou mesmo narrativas mais longas, como o romance, fôrma literária em que se notabiliza por força do estilo elegante e solto.
 
Agora, nesse tão aguardado É isso aí..., uma conversa por escrito, como o próprio título sugere, Elano se mostra ainda mais estilizado, no bom sentido, permitindo-se fundir tipos textuais, transitando entre a crônica e o conto com a habilidade de um especialista, recortando partes de romances inéditos ou já publicados e dando-lhes a fisionomia de histórias curtas, com a clássica linearidade e a estrutura de narrativas independentes. Um belo livro, de uma pessoa humana que admiro há muito tempo, sem que jamais lhe tenha apertado a mão. Sim, Elano e eu tornamo-nos amigos à distância, ele no Rio e eu aqui em Fortaleza. Nas vezes em que vem ao Ceará, os afazeres dele e os meus criam sempre uma dificuldade do encontro. Na última vez, convidara-me para um vinho em sua casa, mas uma viagem minha, imprevista, levou-nos a adiar o sarau literário de que participariam, ainda, alguns outros amigos comuns, entre eles o Ernesto e o "negão", o violão de que quase nunca se separa.
 
Pois bem. Elano foi roteirista de seriados da globo, é um artista nato, embora tenha se tornado, talvez, mais conhecido como o empresário de sucesso. É um homem de uma elegância pessoal que impressiona, já pude ver, mesmo a distância. Seus escritos, leem-se como quem conversa numa roda de amigos. É absolutamente reservado em face de certas coisas que hoje fazem a maioria dos homens feliz, como a visibilidade que evita a qualquer custo. Irmão do cineasta Zelito Viana e do humorista Chico Anísio, detesta ser identificado por isso. E nem precisa, claro, pela identidade própria do grande artista e do grande homem que é.
 
É isso aí... é um livro para ler, reler e reproduzir nas conversas entre amigos. Numa história e noutra, aflora o documental, o memorialístico, em que não raro o leitor se projeta, como num restauro de fotografia que o tempo desgastou. É o caso da crônica Dona Mariquinha, homenagem à primeira professora, na infância em Maraguape, construído com branda e doce emoção, na medida certa, com o savoir-faire que só os grandes cronistas possuem. Em breve.
 
 


A Porta

As mãos espremendo os cabelos ainda molhados.
- Foi a última vez.
- Como?
Não entendia como fora capaz. Vergonha. O que não diriam as amigas, se soubessem... Do ombro, os filetes d'água percorrem o corpo, há pouco tão disponível, matéria do desvairado prazer.
- Por favor, não me procure mais.
- Não estou entendendo, estava tudo tão bem.
Nada. Apenas recobrara o juízo. A família constituída, os filhos exemplares. Como fora capaz de fazer algo assim. Abominável! Uma vez condenara uma amiga íntima pelo mesmo motivo. Inaceitável! E ela...
Bate o cigarro contra o cinzeiro, pensativa.
- Ele não merece.
- E só agora resolveu pensar nisso, depois de tantos meses?
Nunca era tarde para corrigir um erro grave, imperdoável, dizia. Para recomeçar a vida ao lado dele, a quem julgara fidelidade eterna.
- Por favor, me entenda. Não é certo o que venho fazendo. Uma loucura!
- Sei, sei.
Recompõe os cabelos, agora enxutos. Os lábios, dos beijos frenéticos de há pouco, pressionados para fixar melhor o batom. Os olhos negros repuxados pelo lápis de contormo, fixos no espelho.
- Não me procure mais, por favor.
- E a viagem que havíamos combinado para julho?
Os dedos de unhas polidas de novo girando os cubos de gelo no copo de uísque.
- Esqueça, já disse. Acabou!
- ...
Lentamente, vai repondo na bolsa os objetos de uso pessoal. A expressão ligeiramente tensa. Os olhos no esmalte das unhas. A voz trêmula, como da primeira vez. Lá fora, o aracati começa a soprar. Longínquo, ouve-se o relógio da matriz bater nove horas.
- Ele não merece!
- Entendo.
Seis meses. O que fora apenas uma atração, parecia agora algo doentio, como se não houvesse vida sem ele, sem os encontros semanais naquele apartamento. Uma loucura, sabia. Uma loucura de que não se julgava mais capaz de se desvencilhar.
- Tchau! - enxuga os olhos com a ponta do lenço.
- Tchau!
Ato contínuo, num movimento brusco, abraça-o em prantos, as unhas cravadas nas costas peludas, objeto da indômita paixão. Ajeita a blusa, contém com a curva dos dedos a lágrima que rola pela maçã do rosto. Ainda mais tensa, confere o aperto do cinto, a chave do carro na mão. E, rápido, caminha em direção à porta.
A mesma porta, é certo, pela qual, entre nervosa e provocante, entrará na semana que vem.

Dia das mães

Quem é essa mulher / Que canta sempre este estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar / Quem é essa mulher / Que canta sempre esse lamento / Só queria lembrar o tormento / Que fez o meu filho suspirar / Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo / Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar / Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar.
 
O texto acima é a letra da belíssima canção Angélica, composta por Chico Buarque de Holanda em homenagem à estilista carioca Zuleika Angel Jones, ou simplesmente Zuzu Angel, como se tornou mundialmente conhecida por sua luta pela recuperação do corpo do filho Stuart Angel Jones, morto nas dependência do DOI-CODI nos anos 70. A luta de Zuzu, como disse, teve repercussão internacional, tendo envolvido até os Estados Unidos, conforme mostra bem o filme de Sérgio Rezende plasmado em sua história, com Patrícia Pilar e Daniel de Oliveira interpretando mãe e filho.
 
O caso, a que se somaria, no Brasil, o movimento das mães da Candelária, é semelhante ao das mães da Praça de Maio, na Argentina, um verdadeiro marco na história das lutas femininas em todo o mundo. Quem nunca terá visto a inconfundível imagem daquelas mulheres com fraldas na cabeça como se fossem simples lenços, numa simbologia que emociona? Estando lá, há tempos, acompanhei uma dessas manifestações, algo de que jamais vou me esquecer, tão tocante, terna e ao mesmo tempo guerreira é a forma com que essas mães expressam a sua dor e a sua revolta contra a Ditadura Militar que lhes roubou os filhos e seus corpos, supostamente atirados ao mar.
 
Por outras razões, que não as razões políticas que dilaceraram os corações de Zuzu e das mães argentinas, acompanhei de perto a dor de uma irmã, quando morreu Igor, seu filho, num acidente de carro há cinco anos. É indescritível, não existem palavras que possam traduzir com exatidão o que isso representa. Não há conforto, não há alívio possível para essa dor que só o tempo é capaz de fazer acalmar no mais profundo escaninho do coração partido.
 
Venho pensando nisso nesses últimos dias, quando parece se tornar recorrente o ato de mães abandonarem seus filhos, a exemplo do caso do interior de São Paulo que repercutiu Brasil afora. É claro que a realidade dessas mães, em sua gigantesca maioria, é desumana de tão difícil, que a falta de condições materiais e de perspectiva de uma vida digna é um fato para muitas delas. Daí a compreender que uma mãe seja capaz de abandonar um filho num depósito de lixo, vai um abismo de diferença. 

Desde o primeiro caso, mais recente, aquele em que a atitude de um catador comoveu o Brasil inteiro, pela percepção clara do que o abandono de uma criança ao lixo representa, mesmo estando ele nas condições miseráveis em que estava, infelizmente a coisa parece querer se tornar rotina e outras mães agem da mesma maneira país afora. No mês das mães, e na véspera do dia que lhes é dedicado, a música de Chico ecoa nos meus ouvidos, numa espécie de espanto que mistura carinho e revolta. Quem são essas mulheres que, mesmo no desespero de um instante, não portam dentro do peito o amor de uma mãe? É a pergunta que não quer calar.