Antes de mergulhar

Toda noite eu arrancava meu coração. Mas de manhã ele tornava a crescer. (O Paciente Inglês)


Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna deste sábado. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim. Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Valorize as pequenas coisas, exercite a delicadeza, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2011 está chegando ao fim, foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!



Natal na Rua do Fogo

Dona Lili, desde que o marido morrera, havia muitos anos, vivia na mais desumana solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer, comprada nas casas Pernambucanas em módicas prestações. A rotina de sempre: receber clientes -- cada vez mais raros nesses tempos de butique --, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, fecho éclair, tubo de linha, agulhas, alfinetes: - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas, Fernando", dizia esperançosa ao dono do armarinho.

Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal, e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado, o dourado da abotoadura esfregado ao vestido, para conservar o brilho. O desvelo de uma apaixonada, nem parecia que já se contavam 27 anos de viuvez.

No começo, passados os quatro ou cinco anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de casar de novo, "quarentona muito da bem apanhada!", brincavam. Mas o tempo, amigo das surpresas, não fazia surpresa para dona Lili. A vida vidinha ia passando e, com ela, a juventude da velha costureira, o verde dos olhos ainda capaz de chamar a atenção... Nem filhos tivera, e Raimunda, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili por muitos anos, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz. Mas dona Lili nunca maldizia a vida, "até que Deus me leve para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.

Dia após dia, a rotina era a mesma no velho casarão: varrer, lavar, passar, fazer a comida e, no sem-fim daquela solidão, arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado contra o vestido de organdi para retomar o brilho.

Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa de tartaruga segurando o penteado simplório e o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se sobre o parapeito da janela para admirar o mundo: o movimento da rua, as barracas de guloseimas e bugigangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento do Menino-Deus, dali a poucas horas. E que a vida, no eterno viravoltear das coisas, anunciava-se nova a partir daquela noite, porque era Natal.

Alforriando o olhar para o longe da rua, a boa senhora deixou-se transportar para os velhos tempos ao lado do marido, a missa do galo na Matriz, as voltas incontáveis sobre o calçadão da praça (o braço enlaçando a cintura de Murilo) e aquela sensação gostosa de que a vida era um milagre...

Cansada, que por sorte foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu com cuidado, tateando o ar, o longo corredor e, como uma sombra, adentrou o quarto para dormir, não sem antes reorganizar as gavetas do marido, as gravatas, o pente, a navalha de barbear, a aliança -- "Ainda mando o joalheiro tirar os riscos!" --, o dourado da abotoadura arrastado no vestido para readquirir o brilho.

Lá fora, ainda se podia ouvir o pipocar das bombas, dos fogos de artifício, o badalar dos sinos da Matriz... Antes de assoprar a vela bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia havia 27 anos, beijou o retrato de Murilo, enquanto duas lágrimas, serenamente, rolaram sobre as maçãs do rosto.

Na manhã seguinte, a custo, conseguiu-se entrar no velho casarão, onde acharam dona Lili sem vida, em decúbido dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos. Ao enterro, compareceram dezoito pessoas, onze homens, seis mulheres e um menino.

Dizem que do interior da velha casa, à meia-noite, por muitos anos ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

O amor do futuro

A Revista da Cultura traz, em sua edição de dezembro, um curioso artigo da psicanalista Regina Navarro. Para ela, está com os dias contatos o relacionamento 'fiel', fundamentado no que considera a fantasia de que, para ser feliz, só pode existir 'uma pessoa certa' com quem nos relacionar. A tese, sobre a qual escrevi há algum tempo neste espaço, reedita o que Navarro defende no best seller A cama na varanda. Até aí, nada de novo, não se leve em conta o fato de que, com distribuição gratuita, a revista tende a atingir um público maior e, em princípio, mais susceptível de se deixar influenciar. Ou não, como diria Caetano.

O que chama a atenção agora, é o fato de que, cada vez mais, a psicanalista tem baseado a sua teoria em dados obtidos em seu consultório, uma espécie de muro das lamentações classe A, para o qual se dirige todos os dias um contingente feminino de elevado status social e, supostamente, de maior escolaridade. Nesse sentido é que Navarro cita, já no início do artigo, um caso em que está envolvida uma professora de 33 anos. Sil, como é referida no texto, depois de um tempo curtindo a vida de solteira, descobre-se apaixonada por Mário, com quem passa a dividir uma experiência amorosa absolutamente feliz. Até que um dia, sem que existam motivos aparentes, a admiração e o desejo pelo namorado vão diminuindo e ela passa a achar a relação desinteressante: - "De uns tempos para cá, tenho me decepcionado com o Mário. Chego a achar que ele não é essa maravilha que eu imaginava." A agonia do amor.

A razão (ou razões) por que isso ocorre, sabemos: quando nos apaixonamos, invariavelmente construimos uma relação idealizada, e o objeto do nosso desejo é fruto de uma utopia, de uma cegueira momentânea em face das limitações e imperfeições do outro, fenômeno absolutamente natural, soubéssemos, ao contrário do que quase sempre ocorre, lidar com esse sentimento fugaz -- que é a paixão -- com o equilíbrio necessário quando do nosso retorno à realidade. Se nos falta esse tino, essa aceitação da realidade humana, com suas imperfeições e suas contradições mais íntimas, o insucesso da relação é inevitável.

Segundo Navarro, no que considero o ponto alto de sua teoria, "o amor é uma construção social e em cada período da história se apresentou de uma forma." Se é procedente a sua afirmação, e é, num tempo em que a individualidade é cultuada como um bem inalienável, a tendência lógica é que homens e mulheres se atirem em busca de novas descobertas. E não foi sempre assim?, haverá de questionar o leitor. Sim, essa busca é inerente ao homem de todos os tempos. A diferença, diz a pesquisadora, é que, desta vez, ela se dá para dentro de si mesmo. Ou seja, no caso, já não precisamos do outro para ser feliz.

A morte do amor romântico, como está anunciada no artigo de Regina Navarro, abre espaço para o amor do futuro, "com a possibilidade de amar e de nos relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo." Em certa medida consistente, a teoria de Navarro peca, no entanto, por não considerar que, sendo uma construção social, como afirma, o amor traz dentro dele todas as contradições de qualquer construção social. Inclusive a fantasia de querer amar e ser amado com exclusividade.

A separação em números

É fato: casa-se mais, separa-se mais, recasa-se mais. Nunca tive pruridos em relação a certas coisas que comumente ruborizam a maioria das pessoas. O fato de ter casado muitas vezes, por exemplo. No meu caso foram três, com três mulheres que um dia foram os meus amores e com as quais dividi casa, vivi momentos importantes, viajei muito, fiz projetos e realizei sonhos. E, claro, com as quais dividi a dor de toda separação. Foram relacionamentos felizes. Acabaram, o que não é o mesmo que dizer que não deram certo. Foram 10, 10 e 11 anos. Tempo bom, como se pode ver. É verdade que, nesse aspecto, estive sempre à frente do meu tempo e o primeiro deles, tinha eu 20 anos, não precisou de papeis passados para acontecer. Que diferença fez? Nunca fui freelancer em matéria de amor. Sexo é outra coisa. Mas amar exige proximidade, convivência, roçar de pele na madrugada.

Escrevo sobre isso quando tenho em mãos alguns resultados do último censo do IBGE. 243.224 casais brasileiros se divorciaram no ano passado. Nada preocupante: são quase 500 mil brasileiros que tentaram ser felizes juntos, até que a convivência por algum motivo tenha se tornado insuportável. E, o que mais importa, que viram na separação legal a alternativa para tentarem reconstruir suas vidas e buscar de novo a felicidade.

Tenho dois filhos que me amam e que amam sua mãe e o seu atual marido, com quem mantenho uma relação de respeito, cordialidade e admiração recíprocos. Não raro, sentamos à mesa para pôr em dia o que é de interesse comum de nossas vidas: os filhos à frente. Casar não é renunciar à vida em favor de ninguém, o que muitas vezes constitui o segredo dos casamentos longevos. Nem a separação, por dolorosa que seja, é algo com que mesmo os filhos não possam lidar com naturalidade. É bastante que os pais saibam administrar esse momento difícil com serenidade e equilíbrio, o que muitas vezes significa saber chorar juntos. Há sempre mais que adeuses nas despedidas.

Não há separação sem dor. É natural que haja sofrimento, notadamente quando existem filhos pequenos. Assim como é natural que uma das partes saia machucada, que nem sempre é possível, nesse aspecto, que a separação se dê por vontade subjetiva dos dois. Quando isso acontece, tudo se torna mais fácil, desde a partilha dos bens até a educação dos filhos. No meu caso, isso jamais foi um problema. Nunca foi necessário marcar dia e hora para ver os pequenos ou território neutro para apanhá-los. Por isso, estou certo, nossos filhos puderam crescer bem, saudáveis e felizes.

Vejo que há entre os jovens um potencial romântico enorme, e que, por mais levianas que pareçam ser as relações, no tempo do "ficar", compram-se mais livros sobre relacionamentos e sobre o amor; veem-se mais filmes sobre casais, encontros, reencontros, perdas e recomeços. Sinto que ainda é possível alimentar o sonho de que o casamento seja para sempre. É preciso, no entanto, pensar mais sobre as renúncias e as concessões que esta decisão exige. Acho mesmo que existe no casamento alguma coisa sagrada, que deve ser alimentada no coração dos nossos filhos, mas que ele nunca seja visto como um tipo de condenação, uma morte em vida. Separar pode ser um ato de amor.