A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua/Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego/Uma flor ainda desbotada/Ilude a polícia, rompe o asfalto/Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/Garanto que uma flor nasceu./É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
 
Quando Carlos Drummond de Andrade escreveu os versos acima, uma bela porção do que há de mais representativo de uma fase de sua trajetória, por volta dos anos 40,45, quando trouxe a lume os livros mais engajados de sua obra, a exemplo de Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, o fez lançando mão de um princípio aristotélico que orienta a produção artística: "Não é ofício do poeta narrar o que acontece, e, sim, o de representar o que poderia acontecer, o que é possível, pois a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a História, pois esta se refere ao particular e aquela ao universal".
 
O que era apenas uma metáfora genial, pois, nascida da sensibilidade e do poder de criação de um artista atento à dor coletiva, à angústia e à miséria dos tempos modernos, parece ser mesmo uma realidade hoje. Está na edição desta segunda-feira, 28 de janeiro de 2013, da Folha: "[...] Uma árvore rompe o concreto do elevado Costa e Silva, em São Paulo".
 
Segundo a matéria, a árvore, a rigor, são 20 brotos nascidos das rachaduras do viaduto, um dos muitos monstros construídos pelo homem como alternativa para o problema do tráfego na maior e mais importante cidade do país.
 
Nascem do milagre, advindas dos grãos de que se alimentam os pombos da região, dos restos de comida e das sementes carregadas pelo vento, como se a vida, num passe de mágica, insistisse em se dizer possível em meio à irracionalidade, o materialismo e à ausência de humanidade dominantes.
 
Aqui em Belo Horizonte, nas minhas caminhadas de fim de tarde, todos os dias atravesso um elevado bem em frente ao Mineirão, cujas obras, praticamente concluídas, constituem um dos orgulhos das autoridades locais, pelo que ostentam de grandioso e moderno.
 
Mas não é a pujança das construções, nem as curvas desafiadoras do concreto o que mais me impressiona ali, mas a presença de árvores (uma delas frondosa) que sobrevivem, sabe o improvável como, bem debaixo de alguns desses viadutos. Estão lá, maltratadas, sem a luz que lhes dê a vitalidade natural de que carecem, mas resistem, carregadas de simbologia, como num quadro surrealista de Dalí. 
 
           

Arte e violência em Django

Escrever sobre cinema, num blog tão despretensioso quanto o meu, é correr o risco de ser incompreendido e julgado atrevido. Afinal, como lembra um conhecido blogueiro brasileiro, escrever na internet é se expor ao clima de torcida organizada que toma conta de algumas discussões. Mesmo assim, em respeito aos que leem o que se publica neste espaço (ano passado foram quase 15 mil visitas, sem contar os leitores da versão impressa), e pelo amor à arte, não me furto ao desafio. Fui ver Django Livre, o último Tarantino (o Corinthians da tela grande), e vou comentar.
 
Não gostei. O filme, mais do que em toda a obra do cineasta americano, estetiza a violência do começo ao fim. Algumas cenas, visando aos entusiastas do diretor, chegam a ser engraçadas, como na sequência final, em que um tiro certeiro de Django faz desaparecer do quadro, como um foguete, uma mulher. E o público ri mesmo, ri muito. O efeito, recorrente num filme de ação vespertino, não caberia ali, quando se aproxima a "estase" (como está escrito, com S mesmo, o momento dramático em que todas as forças se equilibram e resulta na falta de movimento).
 
Mas os defeitos estruturais do filme são maiores: o roteiro não está à altura de Tarantino, sobretudo o de Bastardos Inglórios, referindo-me, obviamente, a um filme quase perfeito. Não me parece bem escrito, especialmente por se tratar de um filme que discorre sobre uma questão muito grave, como o verdadeiro holocausto a que foram submetidos os negros americanos através dos tempos. Nesse sentido, considero razoável o julgamento de Spike Lee: "A escravidão não foi um spaghetti western de Sergio Leone". Sob este aspecto, o filme de Tarantino reedita a mesma visada dos roteiristas americanos sobre a questão indígena. Fica na superfície.
 
A trama, a organização dos eventos dramáticos do argumento, gira em torno do martírio de Django (Jammie Foxx, numa interpretação que observa a estilização já conhecida de outros filmes do diretor), é libertado pelo Dr. King Shultz (Christoph Waltz, excelente, como sempre), um caçador de recompensas alemão, e decide acompanhá-lo na sua empreitada: chegar até os irmãos assassinos Brittle, no sul dos Estados Unidos. Ali, sem que saiba do paradeiro dela, Django vai deparar com Broomhilda (Karry Washington), sua esposa, escrava de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, sublime no papel). E vem o previsível.
 
Notável no filme, embora sem atingir o mesmo nível de genialidade de Cães de Aluguel, por exemplo, a forma fílmica, como a composição de alguns planos, plasticamente maravilhosos, e o manuseio inconfundível da câmera, que fazem lembrar, num e noutro momento do filme, a sequência de abertura de Bastardos Inglórios, um marco do cinema contemporâneo.
 
Mas é a estetização da violência, uma característica incontornável de Quentin Tarantino, capaz de levantar a torcida, que sobressai em Django Livre (com D mudo, diz Jammie Foxx). A cena de luta entre escravos, diversão e negócio de Candie, é um dos destaques do filme. Para não falar numa anterior, em que cães devoram um escravo sob o olhar revoltado e silencioso de Django. Mas a câmera, não seria Tarantino se não o fizesse, deixa ver. 
 
 

"Amor"

Não falta ao filme densidade dramática nem clareza narrativa, e as interpretações dos três atores, Jean-Louis Trintignant, Emamanuelle Riva e Isabelle Huppert, irrepreensíveis. Mas o roteiro é repetitivo e a história se torna muito monótona, o ritmo é demasiado lento e não há novidade do começo ao fim do filme, mesmo quando o autor cria uma forçada ambiguidade na última sequência, que, do ponto de vista estritamente estético, é bem sucedida. Mesmo assim, previsível. 
 
Mas não se deve deixar de ver, embora esta 'cerimônia do adeus', na contramão do que tem afirmado a grande imprensa, não seja o ponto alto da carreira do cineasta austríaco Michael Haneke, que, para mim, continua sendo A Fita Branca (2009). O argumento é simples: Anne (Riva) e Georges (Trintignant), são músicos aposentados e vivem as limitações próprias da velhice, sobretudo do segundo terço do filme até o final, quando Anne percorre a dolorosa trajetória de uma portadora de doença degenerativa.
 
O filme se arrasta, é o termo, na mesma cadência do mal que acomete a pobre mulher, e o espectador é forçado a acompanhar reiteradas sequências de sofrimento do casal, que vão da perda momentânea da lucidez, quando Georges descobre o problema de saúde da mulher, até as cenas em que Anne, inteiramente dependente, é assistida pelo marido mesmo para realizar as ações mais banais, como recompor a roupa depois de ir ao banheiro. Numa delas, quando é banhada por uma enfermeira, a composição do quadro é realmente criativa e Haneke obtém da imagem, por si só, uma força expressiva e uma dignidade que a um tempo comove e fascina por sua plasticidade. Sobremaneira quando a câmera, insistente, corta para um close de Trintignant absolutamente lancinado pelo que vê.
 
O filme convence, todavia, pelo que é capaz de dizer, com um realismo duro e racional, acerca de um problema de saúde tão devastador e tão recorrente entre as pessoas da terceira idade, nomeadamente por colocar, frente a frente, diferentes visões sobre as alternativas de ação diante do sofrimento progressivo e inelutável que acaba por afligir todos os membros da família.
 
Enquanto George, o marido, submete-se a acompanhar a via sacra de Anne, Eva, a filha, tenta convencê-lo a internar a mãe num hospital. A cena em que pai e filha discutem o assunto é um dos momentos mais felizes do filme, quando Isabelle Huppert eleva a qualidade de sua atuação aos níveis absolutamente grandiosos dos atores principais. Mesmo em se tratando de um bom filme, com chances de Melhor Filme Estrangeiro, a meu ver, Amor dificilmente arrebatará mais de um Oscar, com justiça reservado a Emmanuelle Riva.
 
 
 
 
           

Uma aula de cinema

Vi ontem, finalmente, o premiadíssimo O Som ao Redor, segundo longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Se para a literatura as primeiras páginas são decisivas para pegar o leitor, que dizer do cinema em relação ao espectador? É o que acontece com o filme de Kleber: a primeira sequência é arrebatadora, e não se consegue mais, sequer, mexer na cadeira. Não há, mesmo, melhor adjetivo. É uma experiência arrebatadora.
Numa sucessão de planos fixos feitos a partir de fotografias em preto e branco, que aos bergmanianos pode lembrar o início de Sarabanda, depara-se com o passado da família num engenho de Pernambuco. Há um corte seco, à maneira de Godard, e tem início um plano-sequência em que o espectador é bruscamente 'apresentado' aos descendentes dessa família, num condomínio de classe média em Recife: um casal de adolescentes, ele de skate, ela de bicicleta, percorre o exíguo espaço entre colunas de um edifício, num travelling para a frente que deságua num playground que mais sugere o pátio de um presídio superlotado. Há grades de proteção por todos os lados. É a primeira sugestão prodigiosa de O Som ao Redor.
Estamos num outro tempo e a correlação de forças não é mais a do ciclo da cana-de-açúcar. Guardadas as diferenças de linguagem, lembra-se de uma fase do romance de José Lins do Rego: o tema, como em Fogo Morto, vai se apoiar na lenta e progressiva agonia da família patriarcal.
A partir daí, é impossível não se deixar dominar pelo canto de sereia de O Som ao Redor. E, aos poucos, vamos conhecendo as novas gerações da família de Seu Francisco (Waldemar José Solha), também ele curvado ao implacável destino que a modernidade do capitalismo lhes impõe. Do antigo patriarca dos canaviais de Pernambuco, vemos, agora, apenas um equivocado dono de imóveis submetido à sufocante realidade do grande centro. Em meio ao som que o rodeia, ruídos do cotidiano, buzinas, batidas de carro, latidos de cão, o burburinho da conversa dos subalternos que cruzam, insistentemente, os espaços da casa (a rigor um apartamento), Kleber Mendonça Filho vai nos fazendo ver a intimidade de cada membro da elite decadente: Tio Anco (Lula Terra), João (Gustavo Jahn), Dinho (Yuri Holanda), este último um delinquente que atormenta os vizinhos e arromba carros para roubar aparelhos de CD. A personificação do declínio financeiro e moral da família.
Numa sucessão de sequências e cenas tiradas da câmera sensível e atenta de Kleber, passamos a ler a poesia com imagens como não se via há muito no cinema brasileiro. Numa delas, digna de figurar nos manuais do que existe de melhor na sétima arte, (ângulo alto) vemos Seu Francisco caminhar pela rua  -- acompanhado apenas pelo acender das luzes de segurança dos prédios  --, até a praia, para se entregar, no silêncio da noite, às águas de um mar revolto, bela metáfora de sua submersão na insignificância do tempo presente e na inconformada solidão. Por extensão, o drama de todos nós.
Mas, se é possível recorrer aos equacionamentos intertextuais, não é muito intuir-se uma certa influência de Bergman em dois planos antológicos do filme: no primeiro,  quando João e Sofia (Irma Brown) são enquadrados, deitados na cama, num close dos rostos contrapostos horizontalmente. Um plano sublime da película de Kleber Mendonça Filho. O segundo, quando, exausta, depois das recorrentes andanças nas noites insones, dos desejos sexuais frustrados, das agressões da vizinha, das baforadas no cigarro de maconha, com que tenta espantar o tédio, Bia (Maeve Jinkings), deitada num sofá, é massageada pelos filhos. A cena se encerra com um sugestivo plano fechado do seu rosto, como os de Liv Ullmann em Bergman.  
Em O Som ao Redor, depara-se com uma aula de cinema. Do roteiro, construído com o rigor estrutural digno de nota, à escala de planos, o ritmo imposto pela montagem 'intelectual' com que se desenvolve a narrativa, a trilha como um elemento indispensável na escritura dos sentidos, até às interpretações naturalistas do elenco (sublimes em sua totalidade), que dão ao filme, intencionalmente, um certo ar de documentário, tudo é feito com a competência de um mestre. Sem esquecer o final que surpreende e arrepia, na maior de todas as extraordinárias metáforas do filme. A câmera não mostra, mas é possível ver.  
 
 
 
 
            
            
            
            
            
            
           

O amor em Garbo

Aproveito o feriado para rever três filmes com a atriz sueca Greta Garbo: Mata Hari, A Dama das Camélias e Rainha Cristina. Este último é um dos meus filmes preferidos, que não titubearia em inserir entre os 20 de que mais gosto. Belíssimo do começo ao fim, é um dos precursores da cinematografia moderna, sobremaneira pelos movimentos de câmera, travellings e panorâmicas, incomuns à época, que lhe dão um dinâmica e um ritmo narrativo que nos envolve e seduz. Rouben Mamoulian é quem dirige.
 
A película tem dois momentos formalmente soberbos: o close-up de Garbo, na amurada do navio, o olhar perdido no horizonte, na cena final, sobre o qual escrevi neste espaço há algum tempo, e uma cena pela metade do filme absolutamente desconcertante: depois de fazer amor com o amante espanhol, numa estalagem, Garbo olha atentamente em redor e acaricia os móveis. Quando ele lhe pergunta o que está fazendo, ela responde que está se preparando para guardar o quarto na lembrança. De arrepiar. Uma das cenas de amor mais bonitas do cinema.
 
Todos nós, homens e mulheres, cedo ou tarde, guardamos na lembrança os detalhes do espaço que nos viu amantes e realizados, quando, por força do destino, é impossível levar o amor adiante.  Como no poema de Drummond, fica sempre um pouco, o quadro da parede, o bom gosto do lustre, o cabide ao lado da cama, a ambientação do quarto, enfim... Mas sobretudo, fica a expressão do outro, o tom da voz, o dedilhar do carinho, o cheiro da pele... Fica sempre um pouco, quando o amor acaba.
 
O filme de Mamoulian, um armeno-americano que deixara a ópera pelo cinema, além de sua beleza enquanto obra de arte, pontua algumas curiosidades interessantes: a atriz sueca, à época, em termos contratuais, escolhia do diretor ao figurinista dos filmes de que participava. Para o papel do amante, por exemplo, preteriu ninguém menos que Laurence Olivier, em favor de John Gilbert, que se entregara ao álcool em função do seu fracasso no cinema falado. Durante uma cena de beijo, Garbo manda que cortem a filmagem, determinando menos envolvimento do ator. A atriz, como Marlene Dietrich, outra deusa do cinema, era lésbica, embora capaz de enlouquecer os homens com a sua sensualidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
            
            
           

Que democracia?

O comportamento da grande imprensa brasileira em face do apoio da presidente Dilma Rousseff ao governo (legítimo!) de Hugo Chávez só tem paralelo na política de 'caça às bruxas' do senador Joseph MacCarthy, nos anos 50, nos Estados Unidos. A mesma imprensa que deu loas à posse de José Sarney como presidente do Brasil em condições absolutamente equivalentes ao caso da Venezuela. Como Chávez, quem não lembra?, Tancredo Neves se encontrava hospitalizado e não pode assumir. O desfecho todos conhecem.
 
Não é muito lembrar, ainda, que esta mesma imprensa mantivera-se calada diante dos horrores autoritários e das práticas de corrupção que marcaram os governos de direita anteriores a Hugo Chávez na Venezuela. À Globo (jornal e TV), à Folha e à Veja, era como se nada acontecesse no país vizinho em termos de opressão contra o povo, perseguição institucionalizada, tortura diuturna, controle da imprensa e da liberdade de pensamento. Onde quedavam, em silêncio conivente, os senhores Roberto Marinho, Frias Filho e Victor Civita à época, cujos grupos posam agora de defensores da democracia?
 
Tomo a liberdade de reproduzir aqui, por felizes e contundentes, as palavras de Jânio de Freitas acerca do que se passa no país vizinho: - "O que se passa na Venezuela não é uma divergência entre as condições jurídicas e temporais de uma posse, incerta além do mais, na Presidência. Posse de um eleito, também é bom lembrar, em eleições de lisura aprovada por comissões internacionais de fiscalização, entre as quais a respeitadíssima Fundação Carter, com a presença destemida de Jimmy Carter".
 
Que democracia é esta que grande imprensa nacional pretende para o país?
 
 
 
 
 
 
           

Cidades são como gente

Viajei mundo afora e já morei em diferentes cidades, mas foi esta temporada em Belo Horizonte que me serviu para confirmar o que, até então, era apenas uma presunção: existem cidades leves e cidades pesadas, cidades solares e cidades lunares, não representando esses adjetivos qualquer juízo de valor. Antes pelo contrário, são perfis "psicológicos", tal como é possível ver em se tratando de pessoas. Algumas são mais introvertidas, aparentemente antipáticas, vai ver de perto, que nada! Outras mais "dadas", mais comunicativas etc. Cidades são como gente.

BH, em que pese ser uma cidade muito interessante, sob tantos aspectos, intelectuais e artísticos, sobretudo, é uma cidade pesada e lunar. Você acorda, de manhã, e já depara com o peso de uma cidade que carrega em seu bojo um arquivo histórico incompatível com a leveza do que se supõe ser, digamos, a modernidade.

Fortaleza, por sua vez, para falar de uma cidade que se contrapõe às cidades pesadas, como Belo Horizonte, é uma cidade leve, de uma leveza que a diferencia no conjunto das cidades turísticas brasileiras. E solar. Acima de tudo, é uma cidade solar. Nada a ver com o fato de ser uma cidade em que faz sol o ano inteiro.  O adjetivo solar, aqui, serve para definir um traço de caráter, uma cidade em que as pessoas têm o espírito aberto, o sorriso solto. Em Fortaleza, em que pesem os problemas de uma cidade poucas vezes bem assistida administrativamente (para não falar de suas contradições sociais alarmantes), as pessoas se mostram descontraídas, otimistas, confiantes... Felizes, é isto! Há uma certa voluptuosidade contida, um desejo de se dar e de receber, uma ternura inata, um  senso de alteridade aguçado. O prazer de viver, de se comunicar com o outro. Se o leitor (ou leitora) desconfia do que estou falando  --  e não conhece Fortaleza  --, que tal dar um pulinho na capital cearense e curtir um pouco as nossas praias?

Não à toa, Fortaleza é o celeiro de humoristas que é. O povo da cidade é afeito à gargalhada, tem a alma e os braços abertos para o que está por vir. Tira sarro de tudo, de todos. Depois de 30 anos de estrada, de romper os céus do Brasil e do mundo, em viagens sem conta, não tenho dúvidas em afirmar: Fortaleza é a cidade mais acolhedora deste país, talvez a cidade mais acolhedora do mundo.

É claro que há incontáveis outras cidades como Fortaleza, leves e solares, simpáticas, acolhedoras... Mesmo no Nordeste. Salvador, por exemplo, é leve e extremamente solar. Tem uma malandragem que é própria da leveza da cidade, uma malemolência que é a marca do seu perfil solar. Recife, não. Recife é pesada, e lunar, mesmo com o sol e o frevo. Maceió é leve, solar. Aracajú, pesada, lunar. O Rio de Janeiro é a cidade mais leve do Brasil, mais solar, ainda quando castigada por enchentes e tempestades, como a cada início de ano. São Paulo fica a meio termo, mas não consegue esconder o peso do que se mexe em suas entranhas, o acervo indisfarçável de suas imensas contradições. Mas, se se faz esclarecedor o uso de uma metáfora, vá lá, São Paulo é o gordo elegante, endinheirado, às vezes arrogante, mas charmoso, com uma irresistível capacidade de sedução. Sampa, a obra-prima de Caetano que o diga, como diz com perfeição.

O lado mais leve e solar, no entanto, espalha-se pelo interior do Estado, Piracicaba à frente. Pira, como dizem os que lhe são íntimos, é uma cidade leve, levíssima, solar, mesmo quando faz frio, mesmo quando o céu se fecha e as nuvens de chuva se fazem perceber, ameaçadoras. Por isso o timbre vibrante, a dicção um tanto caipira, de sua gente, alguma coisa gostosamente inconfessável. Por isso a mansidão que lembra a dos homens da roça. Por isso o espírito acolhedor, a alegria de viver, o gosto pelas coisas da terra, como o pintado frito, por exemplo, e o chope gelado à beira-rio, dos mais saborosos que já pude provar.
           
           
           
           
           
           
           

A humanidade do olhar

Li na Folha, edição de domingo 6, uma declaração do cineasta belga Luc Dardenne que me chamou a atenção: - "O cinema pode ter sido no passado uma terrível ferramenta de propaganda, de disseminação de preconceitos assassinos. Mas ele pode também mostrar seres humanos complexos, singulares e, ao mesmo tempo, universais, que escapam a todos os preconceitos e que são capazes de sofrer pelas pessoas que também sofrem, que são capazes de ser felizes pelas pessoas que manifestam sua alegria de viver. O cinema se interessa pelo ser humano, qualquer que seja ele. Essa é a humanidade do seu olhar".
 
Como tivesse acabado de chegar do cinema, onde fui assistir ao O impossível, o comovente drama do catalão Juan Antônio Bayona, a afirmação de Dardenne caiu como uma luva para o que o filme repercutira em mim.
 
Baseado em fatos reais, o tsunami que devastou a costa asiática em 2002 e fez algo em torno de 230 mil vítimas fatais, o filme não impressiona apenas pela violência das imagens do desastre, de resto já abusivamente mostradas pela tevê. Vai muito além disso, uma vez que o roteiro sustenta-se no que existe de humano, demasiadamente humano em meio aos horrores da tragédia: a capacidade de sofrer com o outro e, mesmo sendo também vítima direta da dor, física e emocional, encontrar forças para solidarizar-se e buscar formas de diminuir o sofrimento alheio. 
 
É o que Bayona soube explorar com a competência de um mestre ao narrar o pesadelo de uma família espanhola que sobreviveu ao maremoto. Assim, o que poderia ser apenas um filme sobre uma tragédia de grandes proporções, vai se tornando aos poucos uma narrativa sobre o amor à condição humana.
 
A cena em que Maria (Naomi Watts), gravemente ferida, decide ajudar um garoto sobrevivente, expondo ainda mais a risco sua vida e a do filho Lucas (Tom Holland), é inesquecível, o que terá um belo contraponto quando mais tarde, no hospital, Lucas vê à distância Daniel, o garoto a quem salvaram, brincar nos braços do pai: em plano próximo, embora devastado pela dor, quando pensava ter perdido o pai, a câmera apenas registra o brilho nos olhos de Lucas. Um plano a um tempo triste e profundamente feliz.
 
No final, todos reunidos outra vez, o impossível que intitula o filme, Lucas conta para a sua mãe: "Eu vi Daniel. Ele estava feliz nos braços de um homem que me pareceu ser seu pai". Sublime.
 
Sem esquecer a cena em que um homem, com a carga da bateria do celular exaurindo-se, empresta o aparelho para que Henry (McGregor) possa se comunicar com um familiar. Na aparente desimportância do gesto, que só se pode dimensionar no contexto de suas circunstâncias, está toda a humanidade do olhar do cinema a que se referiu Luc Dardenne.
 
Por essas e outras razões, que vão da segura direção de elenco à competente escolha de suas estratégias narrativas, O impossível convence, e Bayona volta à cena em seu segundo longa com um brilho próprio que o coloca de vez  entre os melhores realizadores da atualidade.
            
           

De volta ao aconchego

Como nos lembra Fernando Brant, em clássico do Clube da Esquina, aqui de Belo Horizonte, "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração, mesmo que o tempo e a distância digam não!" Foi esta a sensação que me ocorreu quando, depois de muitos anos, reencontrei por esses dias, em Iguatu, tantos e tão queridos amigos de priscas eras, alguns, de tempos mais próximos, outros, mas não menos queridos: o patriarca Raimundo, Júnior, Miguel e Tadeu Felipe, Luiz Aquino, Artur Oswaldo, Luis Carlos Santos, Nilson Araújo, Renato Jr., Delano Passos, Ricarte, Dejacir Couras e o meu incomparável Emídio Neto!
 
Foram momentos de alegria, em que pese estar, eu, pesaroso com a morte de pessoa muitíssimo querida, Zulene Medeiros, que servir sempre e fazer o bem fez da sua vida  --  e nos deixara pouco antes de completar 50 anos ao lado do meu ex-sogro e pessoa muito cara, Iracildo Araújo. Coisas da vida!
 
Deparei com a cidade admiravelmente bem cuidada, até onde os olhos podem ver, que não foram unânimes as opiniões que ouvi sobre setores fundamentais, como saneamento e saúde.
 
Feitas as contas, contudo, o saldo dos dois mandatos do ex-prefeito Agenor Neto é expressivamente favorável, o que, como bom iguatuense (embora ausente), sinto-me na obrigação ética de aplaudir (e aplaudir com entusiasmo!), reconhecendo-os como um momento particularmente notável da nossa história recente.
 
A propósito, estando com os meus filhos Saulo e Carolina no centro da cidade, pouco antes de deixar Iguatu de volta a BH, eis que surge como do nada o prefeito Aderilo Filho, já acompanhado dos "admiradores" de ocasião. Com o sorriso que é mesmo uma de suas marcas, Aderilo me dá e recebe de mim um abraço afetuoso, ex-companheiros de lutas que fomos durante os meus dois mandatos como vereador.
 
À saída, antes de nos despedirmos, observo ao amigo os desafios que tem pela frente. Não os de dar continuidade ao brilhante trabalho de Agenor Neto, mas de aperfeiçoar o projeto dedicando-se a desenvolver ações que elevem a infraestrutura urbana no que toca aos esgotos a céu aberto, incompatíveis com o arrojado projeto de urbanismo levado a efeito, e o Natal de Luz. E à saúde, à educação, à cultura, digo-lhe, já quase aos gritos, quando já vai distante.