O irmão dos amantes

 Amo-te tanto, meu amor... não cante /  O humano coração com mais verdade... /  Amo-te como amigo e como amante /  Numa sempre diversa realidade. // Amo-te afim, de um calmo amor prestante /  E te amo além, presente na saudade /  Amo-te, enfim, com grande liberdade /  Dentro da eternidade e a cada instante. // Amo-te como um bicho, simplesmente /  De um amor sem mistério e sem virtude /  Com um desejo maciço e permanente. // E de te amar assim, muito e amiúde /  É que um dia em teu corpo de repente /  Hei de morrer de amar mais do que pude.
 
O poema acima, todos sabem, é de Vinicius de Moraes, que sábado, 19, faria 100 anos. Problemas da computação, e o texto que escrevera sobre a efeméride não foi publicado neste espaço, pelo que me desculpo. Dizia, pouco mais pouco menos, o que repito agora: - Trata-se do mais injustiçado dos grandes poetas brasileiros, uma vez que a crítica literária, como toda crítica, com raríssimas exceções, mora a meio caminho entre a obtusidade e o preconceito sem nome. Para não falar dos interesses inconfessáveis, claro.
 
Explico-me: parte expressiva dos críticos de literatura do país jamais aceitou, mesmo a muito esforço, que Vinicius de Moraes tenha rompido as fronteiras conservadoras da chamada grande literatura para conquistar as ruas. E, o que talvez pese mais às mentes empedernidas de alguns dos nossos mais renomados estetas, o fato de ter subido aos palcos dos principais teatros e casas de show do Brasil e do mundo, copo de uísque à mão, para "cantar", literalmente, uma das porções mais felizes do cancioneiro brasileiro.
 
Agora, decorrido tanto tempo desde a morte do "poetinha", como era carinhosamente tratado pelos que lhe usufruíram a intimidade, Vinicius de Moraes volta a ter a sua obra examinada por críticos de diferentes extrações, muitos deles, finalmente e de modo pouco sincero, curvados à importância de sua produção como poeta, cronista, teatrólogo e, pasmem, originalíssimo crítico de cinema só conhecido de uma meia dúzia de gatos pintados da cinefilia brasileira. Pena não haver espaço para deitar comentários sobre algumas das mais iluminadas páginas de análise fílmica já produzidas entre nós. Farei isso depois.
 
Pois bem, dizia eu da assinatura autoral de Soneto do amor total, um dos mais perfeitos da lavra desse carioca fenomenal, cujo significado no conjunto da literatura modernista brasileira ainda está por ser estudado com o devido esmero.
 
Muito já se terá escrito sobre as excentricidades do aedo, nada ou muito pouco, no entanto, sobre a qualidade estilística de sua vasta obra, algo que resulte, de fato, da atenção e do rigor analíticos que está a pedir desde a segunda fase de sua produção, quando as inquietações da juventude e o senso incontido do seu erotismo, aliados à dúvida religiosa, levaram-no a escrever poemas pouco exigentes do ponto de vista formal. Daí então, o que se viu foi uma literatura elevada à grandeza de uns poucos em língua portuguesa, em que sobressaem o olhar arguto, a sensibilidade refinada e o trato competente dos mecanismos internos do fazer poético.
 
Enquanto isso, num país em que proliferam os versejadores de botequim, os pretensos transgressores dos meios de expressão acusados de "clássicos", no sentido depreciativo da criação artística, voltemos a ler Vinicius de Moraes, este sedutor de tantos e tantos corações de que se têm valido conquistadores do Brasil  --  e do mundo. Saravá, Vina, irmão de todos os amantes! 
 
 

Enamorando-se

Acometido de um tipo de onipotência maniforme, já observada em situações as mais diversas desde o início do seu governo, e não se contentando com as superproduções até aqui levadas a efeito, já concluídas, como é o caso do Centro de Eventos, ou em andamento, a exemplo do famigerado aquário, o governador do Ceará entrega-se, agora, a um novo devaneio: a construção de um mirante nas imediações do Cocó.
 
Frescuras à parte, seria apenas ridículo não fosse criminosa tanta vaidade, o devaneio vem à tona na mesma semana em que, não se contentando com os assaltos pontuais, que de resto fazem parte da nossa rotina, os bandidos promovem uma verdadeira varredura em inúmeras ruas de Fortaleza, bairros Varjota e Papicu à frente.
 
O tal mirante, de cujo topo se poderá ver a cidade sitiada a partir de um luxuoso restaurante, em que, por certo, será servido o mais fino escargot, terá a seus pés o pink predominante da iluminação já projetada para o viaduto da Washington Soares, conforme divulgou o próprio governador. Que coisa brega!
 
No que tange ao aquário, não à toa, pois, é que se comenta aos quatro cantos o incontido entusiasmo do governador ao ouvir, ao vivo e em cores, o cantor Fagner dirigir-lhe um mimo enquanto interpretava, em show recente, a conhecida canção: - "Quem me dera ser um peixe, para mergulhar no teu aquário, fazer loucuras de amor à luz da lua, passar a noite em claro."
 
Quanto ao mirante, a propósito, é do jovem colunista Henrique Araújo, de O Povo, nesta quinta 10, a mais sublime página até aqui escrita, por cujos méritos sinto-me induzido a reproduzir neste espaço trechos imperdíveis. Vejamos:
 
"Para que serve um mirante? Para alçar a vista e alcançar lonjuras? Ver a cidade à horizontal, espinhela derreada? Um tapete que alguém estendeu sem se preocupar com as dobras? Patamar sobrelevado donde se enxergam as dunas, mares, verdes, um mirante serve mais ao deleite ou ao orgulho? [...] Um mirante como hipnose social? Um mirante como cinema das moléstias urbanas?  Um mirante como projetor ad nauseam de macaquices?"
 
"[...] Como enamorar-se de prédios que copiam o desenho de caravelas, símbolo de perigo e aventura, quando tudo em derredor aponta para o inverso: segurança, medo e fortaleza? Como enamorar-se de uma ponte que pisca a intervalos mecânicos, definidos segundo uma lógica para qual o deslocamento de veículos importa mais que o bem-estar dos nativos?
 
Mire e veja: quem realmente precisa alterar-se para enxergar o que parece claro? A cidade necessita de gente ao rés do chão. Nem acima, nem abaixo. No mesmo patamar. Sem se mirar, que ninguém é alvo. Enamorando-se."
 
 
 
 
 
 

O adeus de um ícone

Morreu na terça-feira, 1 de outubro, Giuliano Gemma, aos 75 anos. Não figurava entre os atores de maior prestígio, embora tenha atuado, de forma convincente, em mais de 100 filmes, não raro contracenando com nomes respeitados do melhor cinema, Burt Lancaster, Kirk Douglas, Henry Fonda, Catherine Deneuve e a extraordinária Liv Ullman, por exemplo. Sem esquecer, claro, musas adoradas, como Rita Hayworth. Por último, além das séries para a tevê italiana, fez uma ponta em Para Roma com amor, de Woody Allen.
 
Foi, num tempo que já vai longe, o meu ídolo no western, ou mais precisamente no primo pobre das grandes produções americanas conhecido como western spaghetti, em cujo gênero fez sua primeira aparição em meados dos anos 60. Antes, compusera o elenco de clássicos, na linha de produções monumentalistas, como Ben-Hur (1959), de William Wyler, e esteticamente irrepreensíveis, como O Leopardo (1962), de Luchino Visconti.
 
Confesso que senti a sua morte com o coração de um menino, numa experiência de temporalidade que me levou, tão logo li a notícia, à década de 70, quando, na companhia de papai ou do meu irmão Emídio, muitas vezes de ambos, vivi as primeiras grandes emoções advindas do sortilégio do cinema, na minha Iguatu querida. Como que num passe de mágica, ocorreu-me lembrar de alguns desses filmes inesquecíveis, realizados à base de convenções estéticas a um tempo simples e sedutoras. Filmes marcantes do spaghetti italiano, a exemplo de Uma pistola para Ringo ou O dólar furado, os dois de 1965.
 
Ato contínuo, foi inevitável dirigir-me à estante para ter nas mãos, e revê-lo tantos anos depois, o DVD de uma dessas produções dialeticamente infantis e irresistíveis, marcadas pelo exagero dos artifícios e pela singeleza das soluções formais, O dia da ira, não conhecido quanto os da série "Ringo...", mas um daqueles de que mais gosto, desde a nostálgica tarde de domingo em que o assisti pela primeira vez, numa sessão vesperal do velho Cine Alvorada. 
 
O roteiro, como é próprio do gênero, é simples, linear, sem complicações dramáticas, bem ao gosto do imaginário popular: Scott (Gemma) é um desafortunado rapaz a quem cabe limpar as ruas da cidade de Clifton, no Arizona. A pobreza material de Scott, a inexistência de raízes familiares minimamente capazes de lhe dar um sobrenome, condiciona-o a submeter-se à humilhação e aos maus-tratos de todos na pequena cidade. Até que conhece o temido Frank Talby (Lee van Cleef), de quem recebe as sete lições da pistolagem, uma delas, mais tarde usada contra seu preceptor, numa sequência marcante do filme: "Quando atirar num homem, mate-o. Do contrário ele um dia vai matá-lo!"
 
O final foge à lógica do estilo, posto que Scott joga fora a arma com que enfrentara o perigoso Talby e, de mãos dadas com o cego Bill, cruza a rua deserta de Clifton, numa sugestão de que, também no subgênero do verdadeiro western americano, é possível ter um bom coração. Giuliano Gemma, que vencera a tantos e imponderáveis duelos, no cinema, não sobreviveu ao desastre de automóvel que o levou de nós nesse início de semana, em Roma. Ficam, para seus admiradores, as recordações de um estilo inconfundível, do sorriso de dentes perfeitos  --  e do seu incomparável glamour.