Uma questão polêmica

Como profissional da área, é natural que tenha sido provocado sobre a polêmica em torno da "adaptação" de romances de Machado de Assis, um tipo de facilitação para o leitor cujo vocabulário, por muito limitado, não lhe permite alcançar a linguagem do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas em sua propalada complexidade. Assunto delicado, como se vê.
 
Antes de emitir a minha opinião, contudo, considero indispensável fazer algumas ponderações. Começo por observar que o assunto tem o seu equivalente nas traduções entre línguas distintas, entre linguagens, nas adaptações de textos literários para o cinema, por exemplo, ou mesmo de obras de uma mesma língua, como me parece ser o caso em questão.
 
Nesse sentido, ocorre-me lembrar aqui das palavras do respeitável estudioso italiano Benedeto Crocce, quando diz: "traduttore-traditore", ou seja, toda tradução é uma traição. Calma, não se trata de simplesmente condenar a tradução, desprezando as razões e, principalmente, a qualidade com que essas são feitas. Não sei uma palavra do russo, mas não me furto a dizer que conheço bem a obra de Dostoiévski, mesmo da época em que conheci seus livros através de traduções realizadas para o português a partir do francês (traduções diretas do russo são recentes no País).
 
Em nenhum aspecto, ouso dizer, roubaram-lhe tais traduções a profundidade no trato das questões humanas, a sensibilidade com que soube, à perfeição, construir personagens 'redondos', elaborados com o domínio de uma carpintaria narrativa e uma soberba compreensão das contradições que movimentam a vida de todos os homens, verdadeiros tipos psiquiátricos, que, em alguma medida, ecoam na recepção de suas existências pelo leitor mais atento ao que lhe é essencial enquanto escritor genial que é.
 
Na linha do que afirmou Gadamer, um dos mais extraordinários estudiosos de hermenêutica da obra de arte, "com o passar dos anos vamos nos tornando cada vez mais sensíveis para as semiaproximações e para as aproximações ainda mais precárias da língua realmente viva, que vêm ao nosso encontro sob a forma de traduções".
 
Ademais, ler é, de alguma forma, traduzir. Haverá sempre um detalhe, uma percepção da realidade, um pulsar diante daquilo que emociona o escritor, um tipo de cumplicidade com a natureza dos sentimentos por que se move diante da página em branco, que passará despercebido por quem o lê. Isso, todavia, se por um lado representa uma perda, não raro significativa, que arte é antes de tudo forma, por outro representa um ganho, uma interpretação inusitada, capaz de acrescentar positivamente ao texto que estamos lendo.
 
Se, mesmo no falar, quase nunca somos capazes de expressar com exatidão o que queremos, o que lateja em nossa mente em forma de ideia, de sentimento, de emoção, ainda mais ocorrerá o mesmo em se tratando do texto escrito. Faltará sempre a palavra certa, o discurso preciso e destituído de influências as mais diversas, ambiente, condição subjetiva de existência, estado de espírito etc., o que naturalmente será reelaborado, muitas vezes aumentando a distância entre o que foi dito e aquilo que se entendeu, que resultará num tipo de desvio, num acréscimo, como dissemos, ou numa subtração.
 
O que é necessário, o que é mesmo indispensável, é que se procure, na tradução, na adaptação ou na reescritura do texto original, manter um máximo de fidelidade possível à alma de cada sentença, de cada palavra, a tensão do discurso, a concentração de sentimentos e ideias. Ao lado disso, se possível, e na dependência do que se busca alcançar com tal procedimento, a beleza plástica, o estilo na construção da narrativa, na escolha do vocabulário e no entregar-se ao milagre inerente a todo fazer artístico.
 
No caso de Machado de Assis, pela grandeza do seu talento, pelo gênio que se move por detrás de cada palavra, a exemplo de um Shakespeare, de um Miguel de Cervantes, de um Proust, abandonadas as diferenças que os separam, a responsabilidade do tradutor (do facilitador, como é mais adequado dizer), sabemos de antemão, é imensa.
 
Nada que desqualifique a motivação de torná-lo mais "legível", menos marcado pelo bolor do tempo e das idiossincrasias que estabelecem distâncias entre autor e leitor. Parafraseando Otávio Paz, todo texto é uma leitura da realidade, esta leitura é uma tradução que transforma o texto do autor no texto do leitor. Mesmo quando este autor, a propósito de cuja adaptação fui chamado a emitir opinião, escreveu o romance Dom Casmurro, dos maiores já escritos em qualquer língua. 
 
  
 
 
 
 
 
 
           

Bestialidade em Guarujá

Há muito não me sentia tão agredido com uma notícia de jornal. Refiro-me à bestialidade levada a efeito por moradores de Morrinhos, periferia de Guarujá-SP, contra a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33, mãe de dois filhos, morta sob maus-tratos impiedosos, que foram de chutes a pauladas, e um exótico 'tiro de misericórdia' de um ciclista que passava no local  --  o pneu da bicicleta sobre o pescoço, como a selar a conquista de uma vitória.
 
Vi a notícia e cruzei os braços, tomado de um torpor para o qual não encontro palavras com que possa descrever. Aos poucos, recobrando a plena consciência do que acabara de acompanhar pelo noticiário, com direito a imagens registradas pelo celular de um transeunte, entreguei-me a uma atitude impotente de reflexão sobre o fato. Pavoroso, hediondo, bárbaro, no sentido mais negativo da expressão.
 
O linchamento, que haverá de ter comovido toda uma Nação, deveu-se ao fato de que a vítima fora confundida com uma mulher a quem são atribuídas tentativas de sequestro de menores para práticas de magia negra. A mesma polícia informaria: no Guarujá, não há registros de desaparecimento de crianças e as histórias de sequestro são improcedentes. Meu Deus.
 
O pior: fosse mesmo Fabiane a mulher contra quem se veiculavam tais desconfianças, pela internet, como se ficou sabendo, nem mesmo isso torna aceitável o que se fez. É inumano, lembra ocorrências da Idade Média, a exemplo do que ficou documentado na peça As bruxas de Salem, de Artur Miller, levada no cinema pelo diretor Nicholas Hytner, em 1996.
 
Ambos, peça e filme, infelizmente, foram inspiradas em fatos reais. No estado do Massachusetts, Estados Unidos, em fins do século XVII, uma escrava, Tituba, narrou para amigas histórias vodus, próprias do imaginário da África Ocidental. Como as moças tivessem pesadelos na mesma madrugada, Tituba foi considerada praticante de magias negras capazes de "embruxar" suas ouvintes.
 
Presa, com outras mulheres, também julgadas "culpadas", Tituba foi torturada e finalmente executada. Mais tarde, ficou-se sabendo, os próprios acusadores reconheceram ter cometido uma injustiça. Mas já era tarde.
 
O caso de Guarujá, para além do que guarda de bestial, reedita o que parece vir se tornando uma prática comum, aceita como natural por parte significativa do que representa a chamada opinião pública. Dessa feita, que esse tipo de "justiça" ocorre quase sempre a pessoas pobres, cujas verdades mais íntimas são desprezadas e suas identidades ignoradas, a vítima traz no nome a simbologia de sua vida pessoal e familiar, Fabiane Maria de Jesus, mais uma Maria, como tantas outras.
 
Amanhã, cuidemos, tal história de crueldade, que logo cairá no esquecimento, poderá ocorrer a todos aqueles contra quem forem assacadas acusações do gênero. É bastante que alguém use a internet como um insano fez na rede "Guarujá Alerta". É da natureza humana, curvo-me diante da triste possibilidade. Mas o que está em xeque, não tenho dúvidas, é a figura do Estado.
 
Segundo ouvi de uma entrevistada, Fabiane tingira os cabelos de louro havia poucas horas, e saíra de casa para, vaidosa, visitar uma amiga. Um exemplar da Bíblia sob o braço.