Sem utopias

Na contramão do que se professava como justificativa para o golpe, 2016 termina miseravelmente. Para não correr o risco de ser julgado tendencioso, reproduzo aqui algumas das principais manchetes da Folha de S. Paulo, uma das empresas de comunicação responsáveis pela sujeira em que se transformou a política no Brasil. Vejamos: "Rombo nas contas públicas é o maior em 20 anos"; "Utilização da capacidade da indústria cai à mínima histórica"; "Pela primeira vez em 12 anos, shoppings fecham mais lojas do que abrem"; "Varejo tem queda no Natal"; "Mercado reduz projeção do PIB"; "Desemprego deve subir ainda mais em 2017" etc.

Onde a tão alardeada recuperação da economia?

O que se vê, para quem insiste em querer negar os fatos, é que a deposição de Dilma nada mais era do que a decidida investida dos grandes empresários do país contra um governo popular, pondo por terra o projeto de inclusão social e fortalecimento da soberania do país em favor dos interesses perversos do neoliberalismo e da ingerência dos Estados Unidos na vida econômica e política do país.

Como faz lembrar um articulista da própria Folha de S. Paulo, em edição de 27/12, os entusiastas da "falta de confiança", referindo-se a um dos chavões mais simpáticos à turma do pato (empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), alardeavam o exemplo do governo ultraliberal de Maurício Macri, da Argentina, cuja última medida de repercussão foi a demissão do seu ministro da Fazenda. Provas e mais provas de que o modelo é, a um tempo, perverso e suicida. É ter olhos (ou vergonha?) para ver.

2016 termina, pois, como um ano em que o Brasil viu ruir, a golpes de corrupção, o Estado de Direito, os avanços em favor dos menos favorecidos e das chamadas minorias. Não à toa, portanto, é que o governo ilegítimo de Michel Temer extinguiu pastas estratégicas, a exemplo de secretarias como das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos; diminuiu o poder de ação e autogerenciamento de ministérios importantes, tais como o da Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Agrário, sem esquecer o que fez à Educação e à Saúde com a aprovação, comprada, da PEC da maldade, que congela por 20 anos os recursos de ambas.

O pior, sabe-se, está por vir: a reforma da Previdência assalta os trabalhadores no que existe de mais legítimo em suas conquistas. Aumenta para 49 anos o tempo de contribuição e idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, bem como extingue a vinculação dos benefícios ao salário mínimo.

Numa prova incontornável de suas contradições e servilismo ao grande Capital, o governo Temer por pouco não repassou às empresas de telefonia R$ 100 bilhões do patrimônio público nacional, deixando às claras a face desfigurada de um governo que tira dos pobres para dar aos muito ricos.

Como tomei a Folha de S. Paulo para evidenciar a desfaçatez por trás do golpe indisfarçável, é do colunista Alvaro Costa e Silva, em sua coluna na edição de 27/12, que retiro a conhecida declaração de Zózimo Barrozo do Amaral (1941-1997) sobre a elite brasileira: "O empresariado brasileiro é, de modo geral, escrotérrimo (sic). Ele é incapaz de ceder um mínimo que seja nas questões que envolvem seus ganhos. É um conjunto de pessoas que se habituou a receber tudo dando pouco em troca. A relação dele tanto com os empregados quanto com o país é de mão única: só querem receber, e nada mais".

Decididamente, termina o ano da vergonha, da canalhice do Congresso Nacional, da perda das garantias constitucionais, dos maus exemplos do Judiciário, da inescrupulosa articulação contra a democracia, do uso desavergonhado de dois pesos e duas medidas, das falsas promessas, da exploração da ingenuidade dos menos favorecidos em favor de um governo espúrio e indigno até a medula.

Que venha 2017, posto que nada é tão ruim que não possa piorar. 

 

 

 


 

Conto de Natal

Desde que o marido morrera, havia muitos anos, dona Lili vivia na mais absoluta solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer. A rotina de sempre: receber clientes, cada vez mais raros nestes tempos de griffes, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, zíper, tubos de linha, agulha, alfinete - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas - dizia ao dono do armarinho, que a coisa melhora véspera do Natal e do Ano-Novo."
Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado - o dourado da abotoadura esfregado no vestido para conservar o brilho. Com o desvelo das apaixonadas, dobrava cada gravata, cada cueca... E eram vinte e sete anos de viuvez!
No começo, passados os quatro ou cinco primeiros anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de achar um marido novo: - "Quarentona muito da bem-apanhada", brincavam.
Mas o tempo, tão afeito a surpresas, não trouxe surpresas para dona Lili. A vida-vidinha passando sem novidades, e com ela a beleza e o encanto da velha costureira, o verde dos olhos ainda chamando a atenção de todos. Não tivera filhos, e Maria, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili anos a fio, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz.
Contudo, tendo como amiga a eterna solidão, dona Lili não maldizia a vida: - "É assim mesmo, até que Deus me leve outra vez para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.
Com a proliferação das butiques, as dificuldades aumentavam, as freguesas escasseando com o passar dos anos.
Hora existia na solidão de dona Lili, que lhe passava pela cabeça largar a velha Singer e tentar recomeçar a vida, balconista de loja de tecido, manicure, vendedora de produtos de beleza... Depois, recomposta a lucidez e a solenidade da velhice, dona Lili via com clareza que já não era tempo de recomeçar. E voltava, alfinete à boca, a dobrar o corte de fazenda de que surgiria o vestido de término de curso da filha de Zenaide, a mulher do tabelião, "tão exigente!", pensava com seus botões.
Dia após dia, a rotina era de tristeza e solidão na velha casa. Varrer, lavar, passar, fazer a comida e arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado no vestido de organdi, para retomar o brilho.
Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa azul segurando o penteado simples, o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se na pedra da janela para admirar o mundo. Ao longo da Rua do Fogo, que era o nome da rua em que dona Lili morava, as barracas de guloseimas, de bugingangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento de Jesus, dali a poucas horas. E que a vida, no viravoltear das coisas e na repetida utopia dos homens, anunciava-se nova, porque era Natal.
Alforriando o olhar cansado para o além, dona Lili deixou-se transportar para os tempos ao lado de Murilo, a tão esperada missa-do-galo na Matriz, o calçadão da praça - o braço enlaçado à cintura do homem amado - e a sensação há tanto esquecida de que a vida pode ser feliz.
Exausta, que foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu, passo trôpego e tateando o ar, o corredor que levava ao quarto. Ainda uma vez, antes de deitar, dona Lili abriu a gaveta do guarda-roupa, reorganizou as gravatas, as cuecas, o pente, a navalha de barbear, a aliança de Murilo - "Ainda mando o relojoeiro tirar os riscos!" - o dourado da abotoadura contra o vestido, para reconquistar o brilho.
Sob o domínio da insônia, companheira de toda noite, dona Lili ainda pode escutar o pipocar das bombas, o badalar do sino da Matriz. E, antes de soprar a vela, bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia há vinte e sete anos, antes de dormir beijou o retrato de Murilo.
Dessa vez, no entanto, dos olhos verdes de dona Lili, duas lágrimas, grossas e cristalinas, rolaram serenamente pelas maçãs do rosto.
Na manhã seguinte, a muito custo, conseguiu-se entrar na casa de dona Lili, onde a encontraram sem vida, em decúbito dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos, já endurecidas.
Ao enterro, rigorosamente contadas, compareceram dezoito pessoas - onze homens, seis mulheres e um menino.
Dizem que do interior daquela casa enorme e vazia, à meia-noite, por muitos anos, ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

Num reino muito distante

Pego em intimidades com o amigo e provável candidato do PSDB à presidência da República (pelo que se desculpou publicamente), o juiz Sérgio Moro não esperou muito para golpear mais uma vez o ex-presidente Lula. É a forma sempre esperada de quem, como ele, não suporta deparar com resultados de pesquisas que apontam, vezes seguidas, o líder do PT disparado à frente de todos os nomes até cogitados para a eleição de 2018, Aécio entre eles. Agora, mais uma vez sem provas, o empavonado juiz denuncia Lula por supostos benefícios na aquisição (não concretizada) de um terreno em que seria construída a sede do Instituto Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo, escancaradamente, é um só: Impedir que Lula possa disputar para Presidente.

Como massa de fazer pão, que quanto mais apanha mais cresce, no dizer irreverente do Macaco Simão, Lula subiu em relação à pesquisa anterior do Datafolha. Agora, em cenário de primeiro turno, aparece na dianteira com 26%, contra 17% para Marina e 8% para Geraldo Alckmin. Os números da pesquisa, que, como dizíamos, é motivo de indisfarçável angústia de Sérgio Moro, mais ainda mexe com a vaidade doentia do juiz em simulação que apresenta seu nome como suposto candidato. Vejamos: Lula 24% e Marina e Sérgio Moro empatados com 11%. A margem de erro, diz o Datafolha, é de dois pontos.

E Aécio?, haverá de perguntar o leitor. Pois bem, num cenário em que o senador mineiro aparece o resultado é esse: Lula 25%, Marina 17%, Aécio 11%. Nesse caso, Bolsonaro tem 9%, Ciro Gomes 5% e Temer 4%. Lula ganha, ainda, no cenário em que aparece Serra e noutro em que se colocam os três nomes do PSDB. Nas duas, Lula tem vantagem de 13 e 12 pontos, respectivamente. Em síntese: Só mesmo a impossibilidade de candidatar-se tira Lula do páreo nas eleições de 2018.

As maquinações de Temer, Aécio, Serra, Moro e companhia, fazem-me lembrar o início da Cena 3 do terceiro Ato do clássico de Shakespeare, em que Claudio e Rosencrantz admitem que Hamlet deva ser afastado a fim de que a vida do rei não seja ameaçada: "A majestade não sucumbe sozinha; mas arrasta/Como um golfo o que a cerca; é como a roda/Posta no cume da montanha altíssima/A cujos raios mil pequenas coisas/São presas e encaixadas; se ela cai,/Cada pequeno objeto, em consequência,/Segue a ruidosa ruína".

A propósito, a peça do bardo inglês tem como tema um reino de podridão, desfaçatez, mentira, traições, corrupção, ardis, desde que chega ao poder um usurpador que foi capaz de matar o irmão, covardemente, para se tornar um rei ilegítimo. O final da peça, todos sabem, é trágico  --  do mesmo modo que parece vir ocorrendo a um país léguas sem-fim do reino da Dinamarca. Já dizia Wilde, outro gênio da literatura inglesa, é a vida, muitas vezes, que imita a Arte.

 

 

 

  

 

 

 


 

Na manhã de domingo

Com a morte de Ferreira Gullar, na manhã de domingo 4, perde a inteligência brasileira um dos seus maiores nomes. Poeta, ensaísta, letrista, tradutor, roteirista e crítico de arte, José Ribamar Ferreira, 86, para orgulho dos nordestinos, era natural do Maranhão.

Foi um dos renovadores da linguagem poética, tendo participado ativamente do neoconcretismo na literatura e nas artes visuais, de que veio a se tornar o maior crítico brasileiro desde a morte de Mário Pedrosa. Como este, Gullar era homem de formação marxista, mas, nos últimos anos, transformou-se num desafeto do governo do Partido dos Trabalhadores, assinando crônicas para a Folha de S. Paulo em que expressava seu desencanto em face dos rumos políticos que vinha tomando o país. Em muitos desses textos, diga-se de passagem, era indisfarçável algum ranço pessoal, o que não raro redimensionava para menor a qualidade de sua crítica, invariavelmente dura e irredutível.

Não importa, agora, no entanto, falar de seu engajamento e de suas desilusões com o rumo que tomou a esquerda nos últimos anos. De resto, são posições próprias de quem, como ele, foi sempre um defensor intransigente das liberdades. Nesse sentido, é a voz de sua arte que confirma com maior exatidão a presença do homem coerente e firme, reverberando com uma força lírica incomum as lembranças de um tempo que queremos esquecer, mas diante do qual o silêncio nunca é a melhor saída. Por isso, seu lirismo tem algo de trágico e, por vezes, subversivo no sentido mais exato da palavra. Por isso, ninguém melhor que Ferreira Gullar para exemplificar o que existiu de mais digno e significativo em termos intelectuais e artísticos, no Brasil, desde a redemocratização. Nenhum outro foi capaz de exprimir as inquietações do homem moderno com tão grande sensibilidade e capacidade de análise, mesmo quando se viu forçado a negar tendências estéticas antes acolhidas com entusiasmo e convicção. Não à toa, pois, é que rompeu com a poesia concreta, tornou-se um desafeto dos irmão Campos (Haroldo e Augusto) e apontou sem meias-palavras a banalização da arte dita conceitual.

Mas é do poeta, insisto, que gostaria de falar um pouco. Para dizer o quanto marcou os de minha geração, não apenas por força do entusiasmo natural advindo da descoberta do Poema Sujo, que tão exemplarmente serviu de farol em meio à escuridão dos anos de chumbo; para dizer da sintonia com a sua visão de mundo e a sua notável compreensão do amor e da paixão, bem como de todos os muitos desafios que tivemos pela frente ainda tão jovens e tão despreparados para o enfrentamento da vida.

É dessa época, por exemplo, que me vêm à mente, espontâneos e incontidos, os versos em que nos adverte sobre o trabalho, árduo e anônimo, dos cortadores de cana: "Este açúcar era cana/e veio dos canaviais extensos/que não nascem por acaso/no regaço do vale.//Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sete anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar//Em usinas escuras,/homens de vida amarga/e dura/produziram este açúcar/branco e puro/com que adoço meu café esta manhã em Ipanema".

É dela que me retornam, vindos mais do coração que da mente, outros, assim tão doces, tão puros: "Você é mais bonita que uma bola prateada/de papel de cigarro/Você é mais bonita que uma poça dágua/límpida/num lugar escondido/Você é mais bonita que uma zebra/que um filhote de onça/que um Boeing 707 em pleno ar/Você é mais bonita que um jardim florido/em frente ao mar em Ipanema/Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás/de noite/mais bonita que Úrsula Andress/que o Palácio da Alvorada/mais bonita que a alvorada/que o mar azul-safira da República Dominicana//Olha você é tão bela quanto o Rio de Janeiro/em maio/e quase tão bonita/quanto a Revolução Cubana".

Sim, é desse tempo que já vai longe, que me retornam, de cor, sem errância, sem lapsos de memória, as estrofes apaixonantes de Ferreira Gullar em Dentro da noite veloz: "Meu povo e meu poema crescem juntos/como cresce no fruto/a árvore nova//No povo meu poema vai nascendo/como no canavial/nasce verde o açúcar//No povo meu poema está maduro/como o sol/na garganta do futuro//Meu povo e meu poema/se refletem//como a espiga se funde em terra fértil//Ao povo seu poema aqui devolvo/menos como quem canta/do que planta".

Ou do suave e terno erotismo de Coito: "Todos os movimentos/do amor/são noturnos/mesmo quando praticados/à luz do dia//Vem de ti o sinal/no cheiro ou no tato/que faz acordar o bicho/em seu fosso:/na treva, lento,/se desenrola/e desliza em direção a teu sorriso".

Com a morte de Ferreira Gullar, eu dizia, morre mais que um poeta, posto que é um pouco da poesia que desaparece na manhã de domingo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Ex-amor

Dia após dia, vai se confirmando nos bastidores da política brasileira o que todos já sabiam: foi golpe, e tinha por maior objetivo impedir que a operação Lava Jato investigasse quadros importantes da dupla PMDB/PSDB. Para não falar, óbvio, do jogo de interesses espúrios na linha daquele que levou Geddel Vieira Lima à lona. Lixo sobre lixo, numa sequência que a um tempo enoja e revolta, o (des)governo de Michel Temer parece apontar para seu desfecho antes mesmo de começar. Mesmo quando, visando a safar-se da repercussão negativa e coerente com sua vocação de traidor, o presidente anuncia que vetará alterações no projeto anticorrupção aprovado, noite alta, pelos senadores, e que, sabe-se, faziam parte das manobras arquitetadas na intimidade de almoços e jantares promovidos pelo próprio Michel Temer. Uma vergonha.

Sobre isso, por oportuno, merece destaque a entrevista concedida à Folha de S. Paulo, edição desta quinta 01/12/2016, pelo ex-amor da corja golpista, Joaquim Barbosa. Para os que não leram, aqui vão alguns trechos notáveis do que falou Barbosa.

Impeachment: "... uma encenação que fez o país retroceder a um passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. [...] Todos os passos já estavam planejados desde 2015. Aqueles ritos ali [no Congresso] foram cumpridos apenas formalmente".

Interesses por trás da manobra: "Era um grupo de líderes em manobras parlamentares que têm um modo de agir sorrateiro. Agem às sombras. E num determinado momento decidiram derrubar [Dilma Rousseff]".

Fim da Lava Jato: "Há [riscos] sim, porque a sociedade brasileira ainda não acordou para a fragilidade institucional que se criou quando se mexeu num pilar fundamental do nosso sistema de governo, que é a Presidência. Uma das consequências mais graves de todo esse processo foi o seu enfraquecimento".

Apoio popular ao golpe: "Aquelas lideranças da sociedade que apoiaram com vigor, muitas vezes com ódio, um ato grave como o impeachment não tinham clareza da desestabilização estrutural que [isso] provoca".

Envolvimento do Capital: "A partir de determinado momento, sob o pretexto de se trazer estabilidade, a elite econômica passou a apoiar, aderiu. Mas a motivação inicial é muito clara".

Consequências do golpe: "No momento em que você mina esse pilar central, todo o resto passa a sofrer desequilíbrio estrutural. Todas as teorias dos últimos anos 30 anos, de hipertrofia da Presidência, de seu poder quase imperial, foram por água abaixo. A facilidade com que se destituiu um presidente desmentiu todas essas teses. No momento em que o Congresso entra em conluio com o vice para derrubar um presidente da República, com toda a sua estrutura de poder que se une, não para exercer controles constitucionais, mas sim para reunir em suas mãos o poder, nasce o que eu chamo de desequilíbrio estrutural".

Ilegitimidade de Temer: "Essa desestabilização empoderou essa gente numa Presidência sem legitimidade unida a um Congresso com motivações espúrias. E esse grupo se sente legitimado a praticar as maiores barbáries institucionais contra o país".

Risco de Temer cair: "Corre risco. É tão artificial essa situação criada pelo impeachment que eu acho, sinceramente, que esse governo não resistiria a uma série de manifestações".

Retrocesso político: "O Brasil deu um passo para trás gigantesco em 2016. As instituições democráticas vinham se fortalecendo de maneira consistente nos últimos 30 anos. [...] E houve uma interrupção brutal desse processo de 'rebananização' [voltar a ser uma país de bananas]. É como se tivéssemos voltando ao passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. Isso é muito claro. Basta ver o olhar que o mundo lança sobre o Brasil hoje.

Com a palavra, os coxinhas, seus ex-amantes.