Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Palavras ligeiras sobre Aderbal

Ficara de nos encontrar tão logo caísse o pano, ao final da peça. Não o fez, e esperamos por algum tempo ainda acomodados às poltronas do teatro. Como não apareceu, descumprindo o trato, decidimos ir embora, César Rossas, seu primo, não conseguindo esconder sua decepção. “Deve ter ocorrido algum imprevisto… Vamos!”, ponderou, o braço repousado no ombro da mulher, a biógrafa Beta Fiuza.
Mal descemos os degraus que nos levava ao saguão do teatro, no entanto, como a querer nos pregar um susto à maneira de um menino travesso, sai ele detrás de uma coluna, o sorriso belo e solto, traço inconfundível do homem simples e exemplarmente generoso que sempre foi. Abraçou-nos com aperto e afeto, como se a reencontrar nesse abraço com toda a gente de sua terra — amava Fortaleza, de que estava ausente, exceto em vindas esporádicas, desde que decidira trocar a capital cearense pelo Rio de Janeiro, para se consagrar um dos maiores nomes da dramaturgia no país.
“Minutinho, que a Marieta foi se trocar!” Balbuciou, referindo-se a sua companheira durante 15 anos, a atriz Marieta Severo, cuja atuação no monólogo “Incêndios”, nos emocionara tanto, havia poucos instantes.
Não demorou, e vem ela ao nosso encontro, elegante e sorridente, ainda que visivelmente cansada depois de quase duas horas em cena.
Entre os muitos assuntos sobre os quais discorremos, falo ao casal sobre o fato de ter eu interpretado, em montagem mais recente, a personagem Osvaldo, na peça "Aquela garota dos olhos grandes", o último trabalho do diretor em Fortaleza, quando ainda era conhecido como Aderbal Jr.
O assunto desliza para nossa permanência no Rio e a agenda que temos para o dia seguinte.
Um dos mais prestigiados homens do teatro brasileiro, diretor de clássicos da dramaturgia mundial, a exemplo de “Hamlet”, de Shakespeare, em montagem histórica tendo Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca, ou nacionais, como “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde, Aderbal Freire-Filho contaria 85 anos no próximo mês, mais precisamente no dia 8.
Consequências de um AVC, contra o qual, em doloroso silêncio, lutou por três anos, em UTI montada em casa pela mulher, na Gávea, Aderbal morreria em 2023, abrindo um buraco enorme no meio teatral em que se notabilizou como o mais original e criativo diretor de sua geração.
Quatro anos antes de completar 80 anos (e dois antes do AVC), sem que nem mesmo Marieta Severo soubesse, Aderbal organizara um inventário de parte significativa de seus escritos, textos sobre teatro, cartas, entrevistas, artigos de conotação política e apresentações de peças que dirigiu ao longo de mais de trinta anos dedicados à arte cênica.
Esse material, para a felicidade da cultura artística brasileira, seria cuidadosamente organizado por Marieta Severo e Patrick Pessoa, amigo íntimo e admirador dedicado de Aderbal Freire-Filho, a quem a atriz confiaria a produção do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor” (Cobogó, 2026), a ser lançado dia 8 do próximo mês no Teatro Poeirinha, em Botafogo, inaugurando uma série de eventos em homenagem ao artista cearense.
Entre os escritos que compõem o livro, pelo menos um deles extrapola os limites do teatro e adentra o universo íntimo do casal: uma carta em que Aderbal, ao lado de recomendar, premonitório, como se deveria dar publicidade ao material inédito, revela seu amor pela mulher: “Em todos os meus sonhos estou com você. Eu te amo muito e nada é melhor que estar perto de você”.
A uma dada altura, com a mesma simplicidade e o mesmo jeito singularmente humano de ser e encarar a vida, o artista expõe algumas de suas inquietações de foro íntimo: “Não fui um bom pai. Não tive netos”.
O gesto, contudo, mais diz de sua imensa sensibilidade e correção pessoal, que da verdade dos fatos. Nesse sentido, é oportuno lembrar, pela irretocável correção de caráter e doçura interior contagiante, é que Aderbal Freire-Filho foi mesmo uma unanimidade entre aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Como pesquisador incansável, debruçou-se sobre as origens do teatro, encontrou caminhos nunca explorados para teorizar sobre as impensáveis possibilidades do ator em cena, bebeu nas fontes do Teatro Épico, de Bertolt Brecht (1898-1956), até criar o que se pode considerar um novo método, um teatro "coletivo", aberto ao diálogo com o público. Renovou a linguagem cênica, venceu preconceitos estéticos, repensou a semiologia teatral, engajando-se na luta pela liberdade do artista, atividades a que se soma a escrita de artigos  de resistência política e cultural que se tornariam uma referência em termos do moderno teatro brasileiro.
Fez história. E se tornou eterno.

Algum tempo depois do encontro no Rio, a que me reporto no início desta coluna, estaria com ele em pelo menos duas ocasiões. A última delas, em companhia da escritora Ângela Gutierrez, sua prima, no Theatro José de Alencar, onde o diretor proferiu uma de suas notáveis palestras. Ao nos despedirmos, à beira do palco, com a ternura e simplicidade que lhe eram típicas, Aderbal diria: “Até breve, no Rio!” E nos sorriu um sorriso largo e doce.
César Rossas, seu primo, e irmão de Ângela Gutierrez, que me aproximara de Aderbal Freire-Filho, morreria pouco depois, quem sabe à falta da vacina que lhe salvasse a vida. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite alta em Florença


    Para Carolina, minha filha linda, que, estando em Fortaleza, "estava" comigo em Florença.

Estávamos, minha mulher, meu filho e minha nora num restaurante, em Florença, comemorando os meus 70 anos. Entre uma taça de vinho e outra, tomados de poesia e afeto, vem a pergunta: "O que é fazer setenta anos?".
A curiosidade de Juliana, minha nora, provocou-me a princípio um ligeiro engasgo, a que tentei disfarçar bem ao meu jeito, lançando o olhar para o que, não estivéssemos entre paredes, poderíamos chamar de infinito.
Ocorreu-me lembrar de uma crônica de Távola sobre o que é ser pai: "... é aprender, errando, a hora de falar e de calar. É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois". (...) É ocultar-se na obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante". E fui adiante, na difícil tarefa de definir o indefinível.
Ter setenta anos, falei, é quando cai a ficha e finalmente compreendemos que deixamos de ser um ídolo para os nossos filhos. E saber-nos, assim, humanos, demasiado humanos, é um sentimento que, se fere a vaidade do pai, acaricia a alma do homem, aliviado do peso das ingênuas ilusões --- é colher, com mãos humildes, o resultado do que plantou, aceitando com serenidade o que, por inevitável, chamamos realidade do Mundo.
Meu filho, olhar terno e doce, me ouvia com tal atenção e tamanho carinho, que, por iniciativa sua, punhos cerrados, esmurramos com delicadeza a mão um do outro, como o simpático emoji a dizer, sobre a beleza da amizade, mais que todas as palavras.
Naquele murro de mentirinha, havia todas as brincadeiras que brincamos juntos, todos os sorvetes que tomamos, todas as viagens que fizemos, todos os SIM e NÃO que lhe dei, todos os sonhos que se tornaram realidade, todos os abraços que trocamos, todas as fantasias que se desmancharam com o passar dos anos, todos os seus gritos de alegria a cada volta minha, ao final do dia.
Estavam, naquele murro de mentirinha, todas as dores que dividimos nos momentos difíceis de nossas vidas, mas, acima de tudo, estava a alegria e a gratidão de sabê-las superadas.
Fazer setenta anos, voz embargada pela emoção, disse eu, é deixar de ser o ídolo para os nossos filhos, sem perder o status de ser uma referência.
E não me refiro, deixei claro o que já era óbvio, ao prestígio que se busca conseguir a qualquer custo, vezo de nossa época, nem ao patrimônio material ou fortuna que por ventura tenha o homem construído, nem aos cargos importantes que ocupou. Suas honrarias, seus prêmios e títulos. Não, não é isso que torna um homem uma referência.
Falo do exemplo, da correção moral, da firmeza do caráter, da sabedoria de reequilibrar o passo a cada inevitável tropeço, de "fazer da queda um passo de dança", como a personagem de Sabino, o escritor mineiro de que gosto tanto.
Num contexto de tantas injustiças e desigualdades, ser referência é tornar-se solidário ao outro, e buscar, nos limites de suas possibilidades, contribuir para a construção de um mundo mais justo e mais humano. É não abrir mão de seus princípios, é compreender a dor alheia, e lhe estender a mão quando fraqueja a esperança.
Se morre o ídolo, à qualquer altura da vida de um homem, há de ficar o exemplo, essa herança maior que todas as demais heranças, sem a qual sua vida terá sido em vão.
Fazer setenta anos, dei voz ao cronista, "... é ter coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte". De cabeça erguida e com o espírito em paz. É ter, diante dos olhos, enxergando com o coração, este Ser de grandeza incalculável a que dizemos Deus.
Era noite alta em Florença.