Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"O Agente Secreto": o Brasil carnavalesco e sombrio

Com o carnaval, ficou aí... Rivanildo fugiu pra se esconder e pra sair num bloco. Me deixou sozinho. Se eu for embora, perco o emprego. Se eu fico, é essa carniça... Começou a feder ontem de manhã. Eu me acostumei, já. (Frentista, para Marcelo, na abertura do filme).
Economista brilhante, e notável especialista em Adam Smith, George Bezerra, direto do Rio, levanta-me a seguinte questão: "O que faz de 'O Agente Secreto' um grande filme?"
Diante de tanta coisa já publicada na grande imprensa sobre o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, a curiosidade do querido amigo me leva a parafrasear o concretista Décio Pignatari: "Não é porque existem Ismail Xavier e Inácio Araújo que deixarei de escrever sobre cinema". E ouso fazê-lo, portanto, agarrando-me ao entusiasmo com que assisti ao filme e o vejo coroado de láureas importantes mundo afora.
Começo por chamar a atenção para o fato de que Kleber Mendonça Filho, antes de ser o grande cineasta que é, fez-se conhecer e respeitar como crítico de cinema, o que, em última instância, reflete sua sólida formação teórica.
Em que pese ser jornalista profissional, revelou-se um diretor e roteirista de extração clássica, bebendo nas águas da cinematografia de Hollywood, de que se diz admirador. Como um Bergman dos dias atuais, no entanto, Kleber Mendonça Filho faz cinema essencialmente moderno.
Se maneja o instrumental do cinema americano dos anos 70 com absoluto domínio, usando lentes anamórficas, zoons e closes à maneira do que fazem cineastas ditos tradicionais, não é menos impactante a forma como lança mão de recursos típicos do cinema contemporâneo, rompendo com os pressupostos da narrativa linear e a ilusão de realidade.
Até aí, contudo, nenhuma novidade, uma vez que já o fizeram diretores do período que se estende dos anos 1940 a 1970, convencionalmente fixado como fase de implantação de uma estética cinematográfica de ruptura com os padrões clássicos do cinema americano: som ambiente e gravação direta (em oposição ao som pós-sincronizado de estúdio); montagem que ocasiona a ruptura da continuidade de espaço e tempo; "jump cuts" (cortes bruscos que levam à percepção da passagem das horas e do tempo); confusão dos planos de objetividade e subjetivação, procedimento que causa confusão de ponto de vista narrador/personagem; cenas e sequências externas; luz natural, com intensidade não raro "estourada" e uso de planos-sequência (tomadas longas, sem cortes) entre outros procedimentos técnicos contrários ao que estabelecem os manuais de cinema tradicionais.
Em que reside, assim, a assinatura pessoal de um adepto do "cinema de autor" na cinematografia de Kleber Mendonça Filho? Precisamente no original manuseio de procedimentos narrativos em que o clássico e o moderno se misturam com absoluta motivação estilística, sem obediência a padrões estabelecidos numa e noutra perspectiva de construção da narrativa fílmica, de que "O Agente Secreto" é, emblematicamente, um bom exemplo. Falemos do filme.
Ambientado no Recife em fins da década de 1970, em plena ditadura militar (governo de Ernesto Geisel), "O Agente Secreto" (2025) é antes de tudo um filme sobre a memória. Mas não se trata, importante frisar, de memorialismo saudosista, na linha do que se conhece, por exemplo, em cineastas como Ingmar Bergman de "Fanny e Alexander" ou Federico Fellini, de "Amarcord", para citar dois nomes consagrados dessa vertente cinematográfica, em que o passado é resgatado numa perspectiva nostálgica, carregada de poesia e assumido sentimentalismo. Antes pelo contrário, o passado que a película de Kleber Mendonça Filho explora e se dedica a resgatar não constitui nenhuma "recordação" no sentido saudosista, de trazer de volta ao coração, mas um passado que é preciso ser lembrado para que nunca mais se repita. Tempo de horror, de tortura, de assassinatos hediondos, de perseguição, de destroçamento da dignidade humana.
Filme de drama, com perfumes de suspense já sugerido no próprio título, "O Agente Secreto" reconstitui o auge da ditadura militar na capital pernambucana a partir da história de Marcelo/Armando (Wagner Moura), perseguido político que tenta reencontrar suas raízes e se depara com uma realidade de segredos e corrupção. Filme, como disse, sobre a memória e o esquecimento, sobre um Brasil apodrecido pelas práticas inconfessáveis de um regime autoritário, corrupto e cruel.
A sequência de abertura, em que Marcelo/Armando, chegando a um posto de gasolina em pleno sertão pernambucano, depara com um cadáver coberto por papelões, já em estado de putrefação, é bem a metáfora desse Brasil que Kleber Mendonça Filho traz à memória para que ,dele, jamais se possa esquecer.
Trata-se de uma obra com forte vocação literária, o que sobressai na observação rigorosa do texto escrito. Vi o filme e li o roteiro, o que me permite afirmar que são quase indetectáveis as eventuais alterações no plano do conteúdo e da forma, e o que se percebe sob este aspecto é que "O Agente Secreto", ao lado de ser uma obra exemplar do ponto de vista fílmico, é obra em que a palavra (os diálogos) constitui elemento narrativo tão relevante quanto a própria linguagem dita "cinematográfica", dimensão em que sobressai a presença de um realizador irrepreensível --- na composição do quadro, na escolha dos planos, na definição de ângulo e movimento de câmera, no uso de adereços cênicos (direção de arte) que dão a ver o trabalho minucioso de um dos maiores estetas do cinema contemporâneo.
P.S. A análise completa do filme, no plano do conteúdo e da expressão, sairá em livro da Academia Cearense de Cinema até o mês de junho.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Vezo do professor, e o coração ingênuo

Como professor de literatura , estive condicionado a trabalhar com as teorias mais importantes sobre a matéria, desde as clássicas até as contribuições mais atuais no campo da estética, da filosofia da arte, dos conceitos recentes deste ou daquele teórico etc.
Mas jamais perdi de vista aquilo que deve ser o grande objetivo do ensino de literatura: proporcionar ao estudante essa experiência de saudável cumplicidade com os escritores e suas obras. Sem pruridos, sem juízos prévios, sem preconceito de qualquer ordem. Eis a razão por que escrevo o mais das vezes sobre livros, filmes, sobre a Arte, enfim, matéria a que dediquei (e dedicarei sempre!) minha atenção, o meu tempo, e a parte mais preciosa de minha vida no plano intelectual e acadêmico. 
Acho, contudo, que o sentido fundamental do estudo da arte e da literatura, em especial, está em levar o aluno a desfrutar do incomparável prazer da contemplação, da fruição estética, da leitura, e, através dela, a crescer enquanto pessoa, a compreender melhor o homem, a si próprio e ao outro, sua relação com o mundo, a dolorosa provocação da alteridade. "Outrar-se", no dizer de um grande linguista, a cuja tarefa, como nenhum outro, Fernando Pessoa entregou-se, legando-nos a obra imorredoura que, ao mesmo tempo, deleita e ensina, pois que, se "o poeta é um fingidor", no seu fingimento, em alguma porção, está "a dor que deveras sente".
Sentimos. 
Por isso, suponho, tenho sabido lidar tão bem com as diferentes grandezas do talento, quer na perspectiva da música, das artes visuais, do cinema, do teatro, quer na perspectiva da literatura.
Dizia eu, em outra crônica, se o leitor recorda, que leio de Shakespeare a Nelson Rodrigues, de Paul Celan a Martha Medeiros, com igual encantamento, sabendo-os diferentes, em dimensão criativa e qualidade estética, bebendo, todavia, em cada palavra, do mesmo néctar, tirando de cada um o melhor proveito.
Na poesia, assim como gosto, por exemplo, de Paul Éluard, de T. S. Eliot,  de Walt Whitman, vou bem de J. G. de Araújo Jorge, ainda que menor, e Baudelaire, e Mallarmé, tão maravilhosos e tão malditos.
É a poesia que amo. Apesar de conhecer, por dever de ofício, as investigações estruturalistas, o que é absolutamente importante para o bom exercício de minha profissão, considero que mais relevante é o prazer do texto, o que ele é capaz de revelar da condição humana, de suas paixões e de suas angústias.
Desse modo, quando a uma dada altura, neste espaço, arrolei alguns dos meus poetas favoritos, cometi o imperdoável lapso de não mencionar Pablo Neruda, o memorialista e o poeta extraordinário que foi  --- e será sempre. Tenho o hábito de ler Neruda. Sei de memória alguns dos seus poemas maravilhosos sobre o amor, que é mesmo, o Canto Geral que fique à margem, a sua mais deliciosa porção.
Antes de amar-te, amor, nada era meu: / cambaleei pelas ruas e coisas: nada possuía nem tinha nome: / o mundo era do ar que respirava.
De Neruda, é um dos poemas que mais amo (Puedo escribir los versos más tristes esta noche), mais dolorosos, mais profundos, sobre o amor e sua fugacidade. Permita-me, leitor, que o diga, pois que você me pede.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. // Escrever, por exemplo: a noite está estrelada, / e brilham, azuis, os astros, lá ao longe. // O vento da noite gira no céu e canta. // Posso escrever os versos mais tristes esta noite. / Eu a amei, e, por vezes ela também me amou. // Em noites como esta a tive em meus braços. / A beijei tantas vezes sob o céu infinito. // Ela me amou, por vezes eu também a amava. / Como não ter amado seus grandes olhos fixos. // Posso escrever os versos mais tristes esta noite. / Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi, já. // Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. / E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. // O que importa é que meu amor não pôde guardá-la. /A noite está estrelada e ela não está comigo. // Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. // Minha alma não se contenta com tê-la perdido. // Como para trazê-la a mim meu olhar a procura. // Meu coração a procura, e ela não está comigo. // A mesma noite que faz embranquecer as mesmas árvores. // Nós, os de então, já não somos os mesmos. // Já não a amo, é verdade, mas como a amei. Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido. // De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. // Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos. // Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. // É tão curto o amor e tão longo o esquecimento. // Porque em noites como esta a tive em meus braços, / minha alma não se contenta com tê-la perdido. // Ainda que seja a última dor que ela me causa, / e estes sejam os últimos versos que lhe escreva.*
Mas é curto, também, o espaço do jornal, e enorme a data que se avizinha, como a desafiar os homens a cada dezembro.
À maneira de Drummond, vejo "nascer um Deus", e o meu coração vibra, tolo e profundamente ingênuo, como a renascer das cinzas para de novo acreditar na possibilidade de um mundo melhor, mais livre, mais justo, mais humano.
Feliz Natal!
* Um leitor pediu-me, na íntegra, o poema. Atendo-lhe inserindo-o no corpo da crônica de hoje.