Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Mordendo a língua

Eis que volto ao assunto do momento: a Copa do Mundo, muito embora sem conhecer resultado e desempenho da seleção no jogo de ontem. Calculo, sem esquecer que inexiste lógica rigorosa no futebol, que haverá de ter sido elástico, o primeiro, e satisfatório, o segundo. Noutras palavras: quem sabe uma goleada frente ao sofrível time do Haiti, e, quanto à atuação do escrete, para lançar mão do saudosismo linguístico, algo que faça esquecer o quase desastre da estreia.
Afinal, a quem terão faltado olhos para ver o óbvio: que a seleção fez uma de suas piores estreias em Copa do Mundo, quer sob o ponto de vista do desempenho propriamente dito, quer no quesito do tal "amor à Pátria". Se o time fraquejou em termos táticos (conjunto), não fez melhor em se tratando de coragem, disposição de luta e mobilização de esforços.
Irreconhecível? Não, que essa turma do Carlo Ancelotti não inspira confiança, e, na sua maioria, sequer merece vestir a camisa de uma seleção 5 vezes campeã do mundo.
Esta a razão por que recomendei com tanto entusiasmo o "docudrama" A Saga do Tri, da Netflix, como antevendo que não se pode perder de vista o passado para se compreender o presente. Onde tínhamos um time empenhado em representar com dignidade o Brasil, mesmo sob a pressão dos horrores da ditadura, temos agora um bando de garotos-propaganda do que existe de pior em termos de produto de consumo: a jogatina que tem levado parte significativa da população brasileira ao endividamento --- e aos males dele decorrentes. Sem falar nos acordos espúrios que resultaram em convocações injustificáveis, a exemplo da de Neymar, como resta óbvio, "bichado" dos pés à cabeça, em que pesem a boçalidade e o maneirismo ao lidar com a bola no aquecimento para os treinos de que não vai participar. Indecência!
A propósito, atente-se para as condições em que se davam os treinamentos da seleção de 70, que o filme, com alguma dose de ficção, é claro, mostra exemplarmente bem: os jogadores eram submetidos a exercício físicos rudimentares, se comparados ao que se faz hoje, com técnica e equipamentos de ponta. Mas havia entrega, voluntariedade, determinação.
Nesse sentido, veja-se o que fez Pelé, driblando seguranças e proibições do alto staff a fim de participar dos treinos e se manter em forma.
Digo isso e sei que haverá protestos entre os (poucos!) leitores da coluna, gente que não teve o privilégio de acompanhar, pela TV e pelo rádio, o que foi torcer por um time que tinha Carlos Alberto, Brito (falecido há pouco), Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Ele.
Para não falar daqueles que, menos dotados de talento, sabiam, pelo sacrifício e amor à causa, compor ao lado desses gênios sem fazer vergonha: Félix, Piazza, Everaldo, limitados (Piazza, menos) tecnicamente falando, e tão importantes na campanha inesquecível.
O mérito desses craques, é preciso evidenciar, não se reduzia ao que, no futebol, era fundamental: o desempenho em campo. Eram verdadeiros cidadãos fora dele. Politizados, amigos da liberdade e da justiça social, arregimentavam-se contra a ditadura, e erguiam voz em defesa de um Brasil melhor.
Ao invés das "arminhas" e das danças de agora, de punhos cerrados, esmurravam o ar, num simbolismo de valentia e confiança no porvir ao comemorar o gol.
Concluo esta crônica, como disse acima, ignorando o que terá sido a partida de ontem. Pouco importa, se há consistência e convicção no que digo: falta à nossa seleção, para muito além da qualidade técnica individual, o espírito de brasilidade legítima. Legítima, reitero, que as limitações de talento, na linha do que fizeram Félix, Brito e Everaldo, nem sempre são o fator decisivo para se jogar com dignidade uma Copa do Mundo.
Quanto aos dirigentes, da CBD da época à CBF de hoje, pouca coisa terá mudado. Mas futebol, em realidade, pode-se jogar fundamentalmente em campo. E nele, tanto quanto, andamos mal das pernas.
Torço para que morda a língua.
 




 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Sonha, e serás livre de espírito

Para os brasileiros a Copa do Mundo começa hoje. É verdade que não temos um time capaz de suscitar a nossa confiança na possibilidade do hexacampeonato. Longe disso. Mas é o Brasil, celeiro de grandes craques. Em 1970, assim como hoje, saímos daqui desacreditados. Não fomos além de 1 a 0 contra a Áustria, no Maracanã, com um sofrido gol de Pelé. Pior: pouco antes havíamos empatado com a inexpressiva equipe do Bangu, em Moça Bonita, depois de iniciarmos perdendo com um gol de Paulo Mata. Jairzinho empatou para o escrete canarinho.
O resultado precipitou o que todos já esperavam: a exoneração de João Saldanha, resistente a ceder às pressões do governo Militar, nomeadamente do então presidente Médici, que cobrava do técnico brasileiro a convocação do centroavante Dario, do Clube Atlético Mineiro.
O que ocorreria em seguida, com o então botafoguense Zagallo à frente da seleção, todos sabem: o Brasil faria a mais brilhante campanha em copas do mundo e sagrar-se-ia tricampeão mundial.
Aos mais jovens, que não tiveram a oportunidade de ver atuar a melhor de nossas seleções, é mais que oportuno assistir à série "A Saga do Tri", disponível na Netflix.
Não se trata de um documentário, na linha do que se vê vez e outra na TV sobre a Copa de 70.
É ficção realizada a partir de fatos reais vistos à luz da imaginação dos diretores Paulo Morelli e seu filho Pedro Morelli. Uma espécie de "docudrama" em que os realizadores buscam reconstituir os memoráveis lances que marcaram a trajetória irrepreensível da seleção na conquista do tricampeonato.
Sob este aspecto, o que parecia improvável, acontece: as jogadas-chave de cada partida, os dribles e gols são reconstituídos quase à perfeição. A famigerada cotovelada de Pelé no queixo do zagueiro uruguaio, bem à altura de sua genialidade, é perfeita.
Se isso se tornou possível em grande parte pelos recursos tecnológicos disponíveis na atualidade, não é sem razão que se deve aplaudir os procedimentos da cinematografia propriamente ditos: escolha de planos, movimentação de câmeras, enquadramentos e perspectiva de tomadas são irretocáveis, o que resulta num trabalho cinematográfico mais que bem sucedido.
A beleza das imagens, dando ao espectador uma percepção privilegiada do que terão sido esses acontecimentos inesquecíveis da conquista do Tri, vale por si só, mesmo quando a imaginação acrescenta elementos estéticos que tornam os fatos em que está plasmada a série muito mais sedutores do que, muito embora fascinantes, tem sido proporcionado ao telespectador em registros jornalísticos da referida Copa.
Ao lado disso, a completar o conjunto de procedimentos que fazem parte de qualquer realização fílmica, a direção de elenco, a atuação dos atores centrais da série e, principalmente, o roteiro, são de altíssimo nível, resultando num trabalho que pôs por terra toda a desconfiança do projeto inicial.
Não é muito dizer que nunca antes se fez no audiovisual brasileiro uma reconstituição tão bem-sucedida de competições esportivas: pode-se falar de poetização de fatos, de verdade explorada artisticamente, e não de ficção em sentido puro.
Sob este aspecto, ainda que não se possa afirmar a exatidão do que terá acontecido nos bastidores, no fora de campo literalmente falando, é notável a versão apresentada pela série acerca do que, por exemplo, terá pontuado a posição dos jogadores, da comissão técnica e do presidente da CBD (era como se denominava a atual CBF) perante o governo Militar.
Aqui, ressalte-se, ganha visibilidade o que em grande parte se sabia sobre as razões que levaram à demissão do técnico João Saldanha, comunista de carteirinha e figadal inimigo do regime autoritário implantado no país com o golpe de 1964.
Mas o roteiro vai mais longe: é comovente a situação que envolve a figura de Pelé, não raramente apresentado como cúmplice indireto do que se verificava no Brasil durante a ditadura. A uma dada altura da narrativa, já bem perto da estreia da seleção na Copa do Mundo, talvez precipitadamente, tem-se a impressão de que o Rei cedera aos apelos do presidente Médici no sentido de "vender positivamente" o regime. Médici telefona para Pelé e exige dele cumplicidade.
Essa impressão, felizmente, em favor do craque brasileiro, vai se desfazendo com o desenrolar da história, e o espectador é levado a concluir que Pelé, aos 29 anos, tão-somente se mostrara temeroso de que algo de ruim lhe pudesse ocorrer e à sua família. As tomadas em que Rose, sua mulher, aparece grávida, em sua casa, no Brasil, servem para desconstruir a ideia de cumplicidade do jogador com os horrores praticados pelos militares no país. É oportuno que se evidencie a indignação de alguns dos nossos craques contra o regime e a prática recorrente da tortura, do assassinato e indizíveis coisas mais.
É fato, sob esse aspecto, que a minissérie poderia ter explorado com maior nitidez a ditadura e os horrores levados a efeito em nome de um nacionalismo fascistóide, a exemplo do que se vê hoje no Brasil. É de se concluir, no entanto, que, aos olhos dos diretores, a ditadura deveria ser explorada apenas como pano-de-fundo, um quadro intencionalmente borrado dos fatos políticos que jamais se deverá esquecer.
Além disso, deve-se destacar a presença de João Saldanha no desenrolar de toda a produção. Exemplarmente interpretado por Rodrigo Santoro, numa atuação de encher os olhos, a personagem ocupa a melhor dimensão dramática da minissérie: sua firmeza de caráter, o seu amor pelo Brasil, a sua coragem para enfrentar os poderosos de plantão, compõem o que existe de mais relevante do ponto de vista dramático.
A sequência em que o jornalista se encontra, noite alta, com o técnico Zagallo (Bruno Mazzeo, em atuação excepcional), é provavelmente a mais bela da minissérie, pelo brilhantismo do trabalho dos atores e densidade da curva dramática das personagens, a que se somam o irretocável trabalho de câmera e qualidade do diálogo: "... Luta e serás livre de espírito, Não baixes a cabeça, jamais!"., diz Saldanha a um Zagallo atormentado e vacilante. A iluminação, parcialamente encoberta pela fumaça do inseparável cigarro de Saldanha, como a lembrar um "sfumato"* de Da Vinci, é sublime --- uma imagem que sentimos vontade de recortar para e expor num quadro de parede.
"A Saga do Tri", no todo, para muito além do que se julgava possível, é trabalho cinematográfico que condiz com a histórica conquista da Seleção Brasileira em gramados mexicanos, e se coloca, com mérito, entre as boas homenagens ao melhor escrete brasileiro de todos os tempos.
No mais, sonhar é preciso, como professa em cena memorável da série um grande brasileiro chamado João Saldanha!
 
 *Técnica pictórica clássica que consiste em criar transições suaves e graduais de cores e tons, desfazendo os contornos nítidos da imagem.