Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A poderosa mensagem de Bad Bunny*

Mesmo quando tudo parece perdido, vem a Arte mostrar sua força e fazer tremer os poderosos. É o que me vem à cabeça quando sento diante do computador para escrever a coluna de hoje. E não que me faltasse pauta, pois o mundo --- o Brasil em particular ---, anda bombando em acontecimentos os mais férteis, complexos e contraditórios. Uns bons, a exemplo dos números da economia, numa incontrastável prova de que o tal "mercado" é porra louca em projeções e insaciável em sua gula; outros, ruins, como as safadezas recorrentes do pior Congresso de que se tem notícia.
Mas vamos lá, que o mote, como dei a ver, diz respeito aos acontecimentos da Arte e suas repercussões no terreno da boa política. Boa política? Sim, que o espetáculo artístico vez e outra dá demonstrações de que nem tudo está perdido, e que a sua "beleza haverá de salvar o mundo". Vamos ao que interessa.
A performance de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, nesse domingo, ainda ecoa mundo afora como exemplo do que pode o artista e sua arte, mesmo quando a mensagem soa demasiado metafórica e carregada de simbolismo que, infelizmente, extrapola o estreito espaço da inteligência extremista, se é que se pode falar de inteligência em face de tanta manifestação de burrice e alucinação com que se deslumbram bolsonaristas, trumpistas e outros "istas" mais.
Que coisa linda. Que demonstração de coragem e senso crítico, a que se soma, porque indispensável, o talento do artista porto-riquenho e sua esplêndida equipe em elementos fundamentais de um grande espetáculo: cenografia, atuação, guarda-roupa, direção de arte, tudo tudo pensado e executado à perfeição.
E nem vou falar das participações de gente da estatura de Ricky Martin e Lady Gaga, que, conscientes da função político-social do evento, souberam assumir papel de coadjuvantes em meio à explosão de luz que emanava de Bad Bunny, em noite mais que inspirada. O artista estava possesso, se se pode dar à palavra o sentido positivo com que a tomo nesta crônica.
Contudo, para contrapor argumento aos que se disseram indiferentes ao show do artista "desconhecido" e "drogado", como é próprio ao discurso da direita fascista, no Brasil, não é muito lembrar: Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify em 2025, para não falar do  "Debí Tirar Más Fotos", com que arrebatou o Grammy de melhor álbum do mesmo ano.
O show, a arte de Bad Bunny e seus camaradas, é o que importa, foi muito além da beleza, muito além de mais uma apresentação esteticamente irretocável, coisa de resto já comum na carreira do artista porto-riquenho.
O espetáculo atingiu em cheio o alvo a que se destinava: o governo Trump e a operação violenta, inominável, do ICI, Serviço de Alfândega e Imigração, no Minnesota e demais estados norte-americanos. Ao lado de ser, por óbvio, uma demonstração do lugar da Arte no contexto de enfrentamento das ameaças (concretas!) do fascismo, no que parece, em que pese estarrecedor, ser uma nova ordem mundial.
Quase por inteiro "narrada" em espanhol, na clara intenção de ressaltar componentes e valores da cultura latina, ou, se preferirem, latino-americana, a apresentação de Bad Bunny há de ter inaugurado uma nova alternativa na luta contra o ideário da extrema-direita hoje. Se, no painel ao fundo do espetáculo, a mensagem "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor" poderá ter soado um tanto piegas (quase falei "patética"), não é sem razão que se poderia afirmar: "A única coisa mais poderosa que o ódio é a Arte".
Bad Bunny, em performance inesquecível, nos deleitou, encantou --- e chamou à luta. Bravo!
*Benito Antonio Martinez Ocasio (10 de março de 1994), conhecido como Bad Bunny, é rapper, cantor, produtor musical e lutador profissional porto-riquenho.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Aberrações do ensino cívico-militar

Para os entusiastas do modelo cívico-militar nas escolas de São Paulo, caiu como uma bomba o vídeo viralizado na internet em que anotações de supostos "professores-instrutores" ferem de morte as regras gramaticais de ortografia em língua portuguesa: as palavras "descansar" e "continência", pasmem, estavam grafadas na lousa assim: "descançar" e "continêcia", entre outras aberrações do estilo.
Na tentativa de relativizar tamanha ignorância gramatical, de resto naturais em ambientes não especializados na formação de adolescentes, nunca em escolas públicas em que se paga aos tais instrutores R$ 310,70 por dia, valores raramente percebidos por professores da área de comunicação e linguagem no país, a secretaria da escola estadual de Caçapava (onde o vídeo foi gravado) ensejou um caso exemplar em que a emenda saiu pior que o soneto: os monitores não atuarão em atividades de sala de aula, mas no reforço da disciplina propriamente dita, ou seja, ensinando os alunos a respeitar os valores cívicos, matéria em que supostamente seriam especializados os 208 militares aposentados aos quais o governador Tarcísio de Freitas confiou a primeira escola cívico-militar.
O fato me fez lembrar algo de que, como educador, jamais vou esquecer. Era por volta do final dos anos 90, na Escola Agrotécnica Federal de Iguatu, cuja área da escola-fazenda fora parcialmente cedida para "aulas práticas" do curso de formação de soldados do Exército brasileiro. As tais aulas práticas, para se ter uma ideia do que isso representa, consistiam em condicionar os alunos a exercícios impensáveis de humilhação: como se fossem répteis peçonhentos, arrastavam-se em charcos de lamas fétidas; impassíveis, mantinham-se como estátuas enquanto sapos eram esfregados em seus rostos; bebiam líquidos amarelados e malcheirosos cuja procedência ignoravam, e coisas do gênero. Tudo, claro, sem esboçar o menor gesto de admoestação --- a tal disciplina a que os alunos das escolas cívico-militares, supostamente, serão submetidos.
Num tempo em que se valoriza tanto a capacidade criativa dos futuros profissionais, seja em que área for, seu potencial para agir livremente na escolha de caminhos alternativos diante das dificuldades, o senso crítico em face da realidade a ser trabalhada, o pensamento e as ideias originais, a excelência individual no desempenho de tarefas e na construção de projetos etc., é lamentável saber que o mais importante e mais rico estado brasileiro, São Paulo, invista pouco menos de R$ 20 milhões/ano com militares despreparados do ponto vista profissional (quase todos desprovidos de diploma de nível superior) para desempenhar funções tão importantes como as da educação formal.
Desaconselhável, inútil, retrógrado, nocivo aos interesses do Estado de Direito e aos valores de uma sociedade verdadeiramente democrática, o ensino cívico-militar é forma inaceitável de formar nossos jovens (nomeadamente de origem pobre), mas inconfessavelmente apropriada a treinar seres "in fieri" para a aceitação acrítica da dominação hierárquica, da sociedade de classes, da submissão às práticas autoritárias mais vis e para a geração de contingentes de mão de obra barata de regimes ditatoriais.
Como destacou o jornalista Thiago Amparo, em edição desta quinta-feira da Folha de S. Paulo, "o que vai libertar as pessoas [em termos educacionais] é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças".
Triste Brasil.