Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cultivando lembranças como a uma flor

Nos últimos dias, na internet, o cantor Roberto Carlos tem sido perversamente atacado, num tipo de "velhofobia" que beira o ridículo, já não fosse, por si só, uma demonstração de insensibilidade para com um dos grandes nomes da música brasileira.
 Se é verdade que o artista já devesse ter encerrado sua carreira, pelo menos em termos de apresentações públicas, em palco, restringindo-a às gravações em estúdio, onde nem mesmo a idade avançada terá sido bastante para roubar o brilhantismo do intérprete, não é menos verdade que suas reações de intolerância, que tanto animam a maldade dessa gente, são coisas naturais a uma dada altura da vida de qualquer um.
Já não fosse suficiente o que representou para gerações e gerações de brasileiros e brasileiras, Roberto Carlos é, ainda, uma referência entre os maiores nomes da nossa música --- quando menos, pelo que fez em termos artísticos ao longo de quase 70 anos de carreira.
Os que me conhecem sabem como sempre fui seu fã. E é por admirá-lo muito, deixo à parte o que pensa ele politicamente, que me ocorre lembrar de um tempo que já vai distante, e que ressignifico em recordações na coluna de hoje.
Roberto Carlos vencera o Festival della canzone italiana, o famoso Festival de San Remo, em 1968, com Canzone Per Te, de S. Bardotti e Sérgio Endrigo. Se não me engano, foi a partir daí que, por uma iniciativa de Chacrinha, passou a ser chamado de "Rei". Mas não é sobre isso que quero falar. Minto: é por isso que escrevo aqui essas memórias.
A música, todos sabem, tem uma letra maravilhosa: discorre sobre a transitoriedade do amor e fala do sentimento que resta no coração do amante ao final de uma relação. Diz, mais ou menos, assim: "A festa apenas começada já acabou./O céu não está mais conosco./O nosso amor era a inveja de quem está sozinho, /A minha riqueza, a tua alegria.//Por que jurar que será a última vez/O coração não te crerá./Alguém te dará a mão e com um beijo/Uma outra história nascerá.//E tu, tu me dirás/ Que és feliz como não foste nunca,/A uma outra eu direi/As coisas que dizia a ti./Mas hoje devo dizer que te quero bem,/Por isso canto e canto a ti./A solidão que tu me deixaste/Eu a cultivo como uma flor."
Mas era a força da língua italiana, numa interpretação extraordinária de Roberto Carlos, o que mais me encantou desde que ouvi a música pela primeira vez: "La festa appena cominciata è giá finita./Il cielo non è piu con noi./Il nostro amore era l'invida chi é solo,/La mia ricchezza, La tua allegria.//Perché giurare che sará l'ultima volta/E cuore non ti crederá./Qualcuno ti darà la mano/E com um bacio un'altra storia nascerà.//E tu, tu mi dirai/Que sei felice come non sei stata mai,/E un'altra io dirò/Le cose che dicevo a te./Ma oggi devo dire che ti voglio bene./Per questo canto e canto te. / A solitudine che tu mi hai regalato/Lo la coltivo  come um fiore."
Desde que escutei a música, tinha eu por volta dos 12 anos, senti dentro da alma algo muito forte, uma emoção indizível. Lembro que punha na 'radiola' de casa o compacto em vinil e ouvia, ouvia, ouvia. De tanto ouvir, mesmo sem ter qualquer conhecimento do italiano, aprendi a cantar a música à perfeição, com o ritmo e a pronúncia absolutamente corretos. Pelo menos em Canzone Per Te, tornei-me um intérprete "admirável". rsrs
Como já fosse um admirador aficionado do Rei, passei a nutrir, entre os muitos sonhos da adolescência, o desejo de ir a San Remo, de conhecer essa pequena e agradável cidade ao Norte da Itália, em que, saberia disso ao visitá-la alguns anos depois, esteve, em temporadas, Tchaikóvski, um dos compositores clássicos de minha predileção.
San Remo era, à época, uma cidade pequena, com algo, suponho, em torno dos 100.000 habitantes. Lembro de sua orla belíssima, e da avenida Corso Imperatrice, à beira do mar, tomada de palmeiras multidecenárias, perpassada de hotéis, restaurantes e, claro, os famosos cassinos de San Remo. O principal deles, o Casino Sanremo, sobressai entre as belas edificações ali existentes, quer pelo arrojo do seu estilo, quer pela imponência de sua arquitetura, que dão bem uma ideia dos altos valores apostados ali pelos turistas ricos que visitam a cidade.
Trago esses dias para o presente. Mal chego a San Remo, ainda na estação de trem, informo-me sobre a localização do Teatro Ariston, onde acontece anualmente o Festival da Canção Italiana. Como é comum nesses casos, quando nos enchemos de expectativa diante de algo que desejamos conhecer, é grande a minha decepção.
Trata-se de um cinema antigo, malcuidado, com paredes revestidas de um veludo azul de acentuado mau gosto e, como a penetrar-me ainda as narinas, um cheiro de mofo quase insuportável. Mas nada disso é capaz de tirar, do jovem que volto a ser por instante, a alegria por visitar o cenário em que Roberto Carlos ganhara o principal prêmio do famigerado festival.
A exemplo do que está na letra de "Canzone per te", são lembranças que cultivo como a uma flor. 



quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Oscar: Brasil em festa

O Cinema Brasileiro está em festa. Depois de vencer o Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura, "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, recebeu, nesta quinta-feira 22, quatro indicações para o Oscar 2026: melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e --- novidade nas categorias da premiação ---, melhor direção de elenco.
Em linhas gerais, muito já se falou das qualidades estéticas da obra, mas há muito mais a se falar, pois o filme de Kleber Mendonça Filho, quer na perspectiva do conteúdo, quer na perspectiva da forma, é mesmo merecedor do rótulo de obra-prima do cinema contemporâneo.
Esta a razão por que, a exemplo do que fazem e farão críticos de cinema do Brasil e do mundo, sobre o filme, ouso tecer aqui mais algumas considerações.
Começo por retomar um aspecto do que ressaltei em coluna da semana passada sobre o fato de ser o diretor pernambucano um realizador de "extração clássica", muito embora sua filmografia, desde a estreia em longas-metragens, com "O Som ao Redor" (2013), assente-se, no plano da expressão, em elementos característicos do que se convencionou chamar de cinema moderno. Houve, a propósito, quem me pedisse descer a detalhes sobre minha afirmação: "Pode-se dizer de extração clássica quem, como ele [Kleber Mendonça Filho] faz um filme tão moderno?"
A pergunta, curiosa e plenamente aceitável, veio, como se vê, de alguém com bom nível de conhecimento da arte cinematográfica, o que, mais ainda, justifica que faça este articulista, aqui e agora, algumas ponderações. Vamos a elas.
Como disse, Kleber Mendonça Filho, muito antes de realizar filmes, dedicou-se a escrever sobre cinema, no Recife e em São Paulo, notabilizando-se pela "pegada" analítica fundamentada em pressupostos da melhor abordagem acadêmica.
E não me refiro, unicamente, por óbvio, ao fato de apoiar a sua crítica em linguagem adequada, precisa, lançando mão de um léxico específico do cinema com notável rigor técnico, distanciando-se do que, sem qualquer preconceito, poder-se-ia definir como uma crítica de cunho "impressionista": vazada em "achismos" e subjetivações estranhas ao "texto" cinematográfico propriamente dito, entendendo-se por texto, ressalte-se, o que diz a semiótica do cinema: a linguagem fílmica organizada capaz de transmitir sentidos.
Soma-se a isso, agora me voltando para o filme, o rigor técnico na construção da narrativa: os planos (chama-se de plano a unidade básica de filmagem entre um corte e outro) articulam-se sem rupturas de continuidade; as cenas e sequências obedecem a uma lógica de conflito, espaço e tempo, exceto, como no cinema clássico, nos flashbacks, em que Marcelo/Armando narra situações vividas à época da universidade (professor perseguido pelos militares), esteio temático que vai fornecendo para o espectador o plot fílmico: a história de um homem que foge da perseguição militar em fins da década de 1970 e volta a Recife em busca do filho.
O roteiro, provavelmente o elemento mais clássico da estrutura narrativa de "O Agente Secreto", e não me refiro ao que é possível ao espectador acompanhar durante a exibição do filme, mas ao texto escrito que dá suporte à narrativa fílmica, foi produzido sobre bases teóricas tradicionais: cabeçalho da cena (EXT. POSTO DE GASOLINA - DIA); Ação: descrição física do que ocorrerá na tela; Nomes dos personagens em maiúsculas acima do diálogo; Diálogo: falas centralizadas acima do diálogo como indicação de quem está falando; Rubricas: indicações de como o ator ou atriz deve dizer as falas (rindo, sussurrando, olhando para o lado etc.); Transição: CORTE PARA, com informações alinhadas à direita da página, e uso recorrente de "storyboard" do enquadramento e ângulo da câmera etc.
Do ponto de vista do conteúdo, o roteiro apoia-se na estrutura clássica: Atos, conflito e arco de personagem: mudanças emocionais ou psicológica do protagonista e coadjuvantes estão explicitados no roteiro de "O Agente Secreto".
Contudo, o resultado final do filme de Kleber Mendonça Filho "não conduz o espectador pela mão". Antes pelo contrário, em que pese a adoção de procedimentos tradicionais, o filme tem uma concepção cinematográfica geral moderna, e as escolhas narrativas não se submetem a didatismos convencionais: as transições, por exemplo, prescindem de expedientes recorrentes no cinema clássico, e duas ou três vezes, apenas, legendas são usadas para definir as partes estruturais da história.
A direção de elenco, neste sentido, é leve, solta, muito embora exigente do ponto de vista técnico, mas sem rebuscamentos de interpretação, o que dá ao trabalho de ator de Wagner Moura (e ao casting como um todo) uma leveza e uma naturalidade que surpreendem em se tratando de um filme cujo estofo dramático poderia resultar afetado e piegas.
Eis o maior mérito do ator ( característica já conhecida em sua trajetória brilhante), como a revelar uma sólida formação no "Method Acting", bem ao gosto de um "certo" Stanislavski que lhe serviu de base no teatro desde sua iniciação em Salvador.
Wagner Moura, por isso mesmo, traz realismo intenso e profundidade psicológica para a personagem, o que ecoa em igual medida e força dramática no desfecho do filme, quando interpreta o jovem médico --- seu próprio filho.
Sublime.
Clássico? Moderno? Romântico? Realista? Tudo isso e muito mais. "O Agente Secreto" atravessa estilos e tendências à maneira de um Bergman, um Tarantino, um Elia Kazan (o esteta, não o dedo-duro), equilibrando-se emblematicamente bem entre diferentes registros estéticos, explorando as trevas para anunciar a luz.
Com força dramática, exatidão, vigor e poesia em níveis poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, Kleber Mendonça Filho faz história e haverá de trazer, quando menos, uma segunda estatueta para o país.
Escrevam.