Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quinta-feira, 12 de março de 2026

Música bela, debate tolo

Há alguns anos, neste espaço, escrevi crônica em que expresso a minha admiração pelo produtor, compositor e escritor Nelson Mota. Falava, na referida crônica, que me ocorre (e creio eu a muitas pessoas) de nutrir admiração e carinho "pessoal" por figuras públicas com as quais sequer estivemos pessoalmente algum dia.
Lembro que o texto suscitou, à época, comentários curiosos, e inúmeros leitores diziam se passar com eles o mesmo.
Alguém, de cujo nome não me lembro agora, ressaltou, concordando comigo, que esse é um dos papeis mais relevantes do escritor: "Dizer, em lugar do leitor, aquilo que, sentindo ou pensando ele, não soube materializar em palavras."
Essa semana, depois de tanto tempo desde a sua publicação, a crônica voltou a repercutir na forma de uma pergunta que enseja a coluna de hoje: "Leio seus textos com grande prazer. Uma vez você escreveu sobre sua admiração por Nelson Mota. Li que a música dele, "Como uma onda", é um plagio e que ele teria se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes... Verdade, isso?" (sic).
Não, não é verdade que Nelson Mota tenha se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes. O que se passou, de fato, é que o autor de "Como uma onda" usou de um expediente recorrente na história da música popular brasileira, diria mesmo da arte em suas diferentes linguagens, cinema, literatura e por aí vai: citar fragmentos de obras já conhecidas, o mais das vezes como um tipo de homenagem que, em termos teóricos, chamamos de "intertextualidade" e que, se bem utilizado, nada contraria os fundamentos da ética autoral. Grandes nomes da melhor arte fizeram isso de maneira elegante, nunca como um meio de se beneficiar do trabalho de outrem.
Mas vamos ao caso do sucesso de Nelson Mota, não sem antes evidenciar que o letrista o compôs em parceria com Lulu Santos: "Nada do que foi será/De novo do jeito que já foi um dia/Tudo passa, tudo sempre passará/A vida vem em ondas, como o mar/Num indo e vindo infinito//Tudo o que se vê não é/Igual ao que a gente viu há um segundo/Tudo muda o tempo todo no mundo//Não adianta fugir/Nem mentir pra si mesmo agora/Há tanta vida lá fora/Aqui dentro, sempre/Como uma onda no mar".
A letra, no rigor da análise, não plagia nenhuma música de Vinicius de Moraes. É verdade que o quarto verso da primeira estrofe, "A vida vem em ondas como o mar", ecoa literalmente um verso do poema "Dia da Criação", do conhecido poeta carioca. Mas isso não é o mesmo que dizer que houve plágio, que Nelson Mota e Lulu Santos tenham se apropriado indebitamente do belíssimo poema do autor de "Poemas, sonetos e baladas", publicado originalmente em 1946, no qual se encontra "Dia da Criação".
Trata-se, como se vê, de uma citação, de um caso de intertextualidade, que mais constitui uma reverência ao grande poeta brasileiro que um plágio tal qual o sabemos em termos teóricos. A contar em favor da dupla de compositores da música "Como uma onda", façamos valer o bom senso --- Nelson Mota e Lulu Santos, em que pese a diferença de gerações na MPB, conviveram com Vinicius de Moraes, frequentaram o mesmo meio artístico, já não bastasse ser  "Dia da Criação", inspirado no Gênesis, um dos poemas mais populares do autor, cujo refrão é largamente conhecido: "Porque hoje é sábado...".
Em seu livro "101 canções que tocaram o Brasil", entre as quais aparece "Como uma onda", Nelson Mota assume ter se inspirado no poema de Vinicius de Moraes.
Mas isso ainda não pôs fim à discussão, muito embora a dupla de compositores tenha sido severamente criticada. A alimentar acusações, há que se ressaltar o fato de que, no disco em vinil, assim como no encarte do CD, lançado nos anos 80, não há sobre a polêmica qualquer alusão a Vinicius de Moraes, o que, aos olhos de muitos, mais ainda caracteriza um desrespeito para com o autor de "Poemas, sonetos e baladas".
Se "Dia da Criação" explora o surgimento do homem e da mulher por um viés finamente irônico, como a evidenciar a grande confusão que se estabelece a partir de então, com bebedeiras e noitadas extravagantes, orgia, vícios, contradições e desencontros (Deus deveria ter descansado no sexto dia!), a letra de "Como uma onda" incorre em filosofia barata sobre a inevitável transformação, fugacidade e o eterno ir e vir das coisas, de que o movimento das ondas do mar, reconheçamos, se presta à perfeição como feliz metáfora.
A música é belíssima, o debate, tolo. 
 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A poderosa mensagem de Bad Bunny*

Mesmo quando tudo parece perdido, vem a Arte mostrar sua força e fazer tremer os poderosos. É o que me vem à cabeça quando sento diante do computador para escrever a coluna de hoje. E não que me faltasse pauta, pois o mundo --- o Brasil em particular ---, anda bombando em acontecimentos os mais férteis, complexos e contraditórios. Uns bons, a exemplo dos números da economia, numa incontrastável prova de que o tal "mercado" é porra louca em projeções e insaciável em sua gula; outros, ruins, como as safadezas recorrentes do pior Congresso de que se tem notícia.
Mas vamos lá, que o mote, como dei a ver, diz respeito aos acontecimentos da Arte e suas repercussões no terreno da boa política. Boa política? Sim, que o espetáculo artístico vez e outra dá demonstrações de que nem tudo está perdido, e que a sua "beleza haverá de salvar o mundo". Vamos ao que interessa.
A performance de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, nesse domingo, ainda ecoa mundo afora como exemplo do que pode o artista e sua arte, mesmo quando a mensagem soa demasiado metafórica e carregada de simbolismo que, infelizmente, extrapola o estreito espaço da inteligência extremista, se é que se pode falar de inteligência em face de tanta manifestação de burrice e alucinação com que se deslumbram bolsonaristas, trumpistas e outros "istas" mais.
Que coisa linda. Que demonstração de coragem e senso crítico, a que se soma, porque indispensável, o talento do artista porto-riquenho e sua esplêndida equipe em elementos fundamentais de um grande espetáculo: cenografia, atuação, guarda-roupa, direção de arte, tudo tudo pensado e executado à perfeição.
E nem vou falar das participações de gente da estatura de Ricky Martin e Lady Gaga, que, conscientes da função político-social do evento, souberam assumir papel de coadjuvantes em meio à explosão de luz que emanava de Bad Bunny, em noite mais que inspirada. O artista estava possesso, se se pode dar à palavra o sentido positivo com que a tomo nesta crônica.
Contudo, para contrapor argumento aos que se disseram indiferentes ao show do artista "desconhecido" e "drogado", como é próprio ao discurso da direita fascista, no Brasil, não é muito lembrar: Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify em 2025, para não falar do  "Debí Tirar Más Fotos", com que arrebatou o Grammy de melhor álbum do mesmo ano.
O show, a arte de Bad Bunny e seus camaradas, é o que importa, foi muito além da beleza, muito além de mais uma apresentação esteticamente irretocável, coisa de resto já comum na carreira do artista porto-riquenho.
O espetáculo atingiu em cheio o alvo a que se destinava: o governo Trump e a operação violenta, inominável, do ICI, Serviço de Alfândega e Imigração, no Minnesota e demais estados norte-americanos. Ao lado de ser, por óbvio, uma demonstração do lugar da Arte no contexto de enfrentamento das ameaças (concretas!) do fascismo, no que parece, em que pese estarrecedor, ser uma nova ordem mundial.
Quase por inteiro "narrada" em espanhol, na clara intenção de ressaltar componentes e valores da cultura latina, ou, se preferirem, latino-americana, a apresentação de Bad Bunny há de ter inaugurado uma nova alternativa na luta contra o ideário da extrema-direita hoje. Se, no painel ao fundo do espetáculo, a mensagem "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor" poderá ter soado um tanto piegas (quase falei "patética"), não é sem razão que se poderia afirmar: "A única coisa mais poderosa que o ódio é a Arte".
Bad Bunny, em performance inesquecível, nos deleitou, encantou --- e chamou à luta. Bravo!
*Benito Antonio Martinez Ocasio (10 de março de 1994), conhecido como Bad Bunny, é rapper, cantor, produtor musical e lutador profissional porto-riquenho.