Para os entusiastas do modelo cívico-militar nas escolas de São Paulo, caiu como uma bomba o vídeo viralizado na internet em que anotações de supostos "professores-instrutores" ferem de morte as regras gramaticais de ortografia em língua portuguesa: as palavras "descansar" e "continência", pasmem, estavam grafadas na lousa assim: "descançar" e "continêcia", entre outras aberrações do estilo.
Na tentativa de relativizar tamanha ignorância gramatical, de resto naturais em ambientes não especializados na formação de adolescentes, nunca em escolas públicas em que se paga aos tais instrutores R$ 310,70 por dia, valores raramente percebidos por professores da área de comunicação e linguagem no país, a secretaria da escola estadual de Caçapava (onde o vídeo foi gravado) ensejou um caso exemplar em que a emenda saiu pior que o soneto: os monitores não atuarão em atividades de sala de aula, mas no reforço da disciplina propriamente dita, ou seja, ensinando os alunos a respeitar os valores cívicos, matéria em que supostamente seriam especializados os 208 militares aposentados aos quais o governador Tarcísio de Freitas confiou a primeira escola cívico-militar.
O fato me fez lembrar algo de que, como educador, jamais vou esquecer. Era por volta do final dos anos 90, na Escola Agrotécnica Federal de Iguatu, cuja área da escola-fazenda fora parcialmente cedida para "aulas práticas" do curso de formação de soldados do Exército brasileiro. As tais aulas práticas, para se ter uma ideia do que isso representa, consistiam em condicionar os alunos a exercícios impensáveis de humilhação: como se fossem répteis peçonhentos, arrastavam-se em charcos de lamas fétidas; impassíveis, mantinham-se como estátuas enquanto sapos eram esfregados em seus rostos; bebiam líquidos amarelados e malcheirosos cuja procedência ignoravam, e coisas do gênero. Tudo, claro, sem esboçar o menor gesto de admoestação --- a tal disciplina a que os alunos das escolas cívico-militares, supostamente, serão submetidos.
Num tempo em que se valoriza tanto a capacidade criativa dos futuros profissionais, seja em que área for, seu potencial para agir livremente na escolha de caminhos alternativos diante das dificuldades, o senso crítico em face da realidade a ser trabalhada, o pensamento e as ideias originais, a excelência individual no desempenho de tarefas e na construção de projetos etc., é lamentável saber que o mais importante e mais rico estado brasileiro, São Paulo, invista pouco menos de R$ 20 milhões/ano com militares despreparados do ponto vista profissional (quase todos desprovidos de diploma de nível superior) para desempenhar funções tão importantes como as da educação formal.
Desaconselhável, inútil, retrógrado, nocivo aos interesses do Estado de Direito e aos valores de uma sociedade verdadeiramente democrática, o ensino cívico-militar é forma inaceitável de formar nossos jovens (nomeadamente de origem pobre), mas inconfessavelmente apropriada a treinar seres "in fieri" para a aceitação acrítica da dominação hierárquica, da sociedade de classes, da submissão às práticas autoritárias mais vis e para a geração de contingentes de mão de obra barata de regimes ditatoriais.
Como destacou o jornalista Thiago Amparo, em edição desta quinta-feira da Folha de S. Paulo, "o que vai libertar as pessoas [em termos educacionais] é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças".
Triste Brasil.