Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Exaltemos Jorge Amado

Com Paulo Elpídio, em conversa rápida por telefone, sou assertivo: "A crítica literária brasileira, com a exceção de Antonio Candido e uns poucos, de tão obtusa, jamais deu a Jorge Amado o valor que fez por merecer como ficcionista. Paulo Elpídio acabara de me enviar um fragmento de seus belíssimos diários em que o escritor baiano aparece como figura central.
De fato, passados tantos anos desde a sua morte, o Brasil ainda está em dívida com o nosso mais importante romancista, em que pese, por óbvio, o prestígio de que, mesmo em vida, Amado gozou no país e no mundo.
A exemplo do que se fez a Érico Verissimo (por um outro viés), e talvez em medida menor, Jorge Amado terá incomodado a certos críticos, e aos meios intelectuais como um todo, não apenas por suas posições políticas, mesmo quando, com certa demora, veio a repudiar as atrocidades do stalinismo, de que fora entusiasta por um longo tempo.
O elitismo entreguista de alguns dos nossos mais renomados críticos de direita, sempre fiéis aos valores da burguesia --- e aos romancistas que edulcoravam as contradições do modelo econômico vigente ---, nunca suportou o fato de que Jorge Amado povoasse seus romances com negros, mulatos, soldados, putas, malandros e outras tantas figuras do submundo baiano, dando a essas personagens protagonismo e voz, coisas impensáveis senão pela vocação documental da prosa de ficção naturalista.
Na ocasião em que Jorge Amado, aos 26 anos, apareceu em coleção importante da Gallimard, com "Bahia de tous les saints" (Bahia de todos os santos), como foi intitulado em francês o romance "Jubiabá", compondo ao lado de gente como Ernest Hemingway, John dos Passos e Jean-Paul Sartre uma lista de novos escritores notáveis, a crítica brasileira ignorou as qualidades estéticas da obra a fim de buscar "justificativas" para tamanho prestígio. Sobre isso, aliás, é oportuno ressaltar a ironia com que Graciliano Ramos anteviu o complexo de vira-lata dos brasileiros em face do sucesso do livro na Europa: "Que dirão em Paris vendo os pretos e esfarrapados que há nos livros do sr. Jorge Amado? Naturalmente dirão que vivemos numa terra de percevejos e moleques" (Joselia Aguiar, "Uma biografia, Jorge Amado", Todavia, 2018).
Jubiabá, lançado no Brasil três anos antes, constitui um verdadeiro romance de formação e explora um dos temas que viriam a ser recorrentes no conjunto da obra de Jorge Amado: a força da cultura afro-baiana contra as injustiças sociais decorrentes de um tipo de sociedade perversamente desigual.
A crítica tradicional brasileira, toda ela burguesa ou em vias de aburguesamento, obviamente não haveria de ver com bons olhos tal literatura. Nesse sentido, poucas análises dedicar-se-iam a tentar compreender as qualidades estéticas do livro, a função social que teria a cumprir num país marcado por tantas contradições e assentado em bases econômicas tão injustas.
Mesmo a dimensão artística do romance ficaria à mercê de juízos rasteiros ou, quem sabe intencionalmente, alheios à força de sua narrativa e à sua extraordinária beleza poética.
Como destacaria Antonio Candido, na contramão dos julgamentos então dominantes, Jorge Amado, se não se propôs realizar o mergulho na alma humana, acusado por isso mesmo de superficial, soube "construir personagens tão ricos e tão vivos quanto os mestres da análise". Sob esse aspecto, com a segurança e a verticalidade que são mesmo uma marca indelével do seu caráter como crítico literário, Antonio Candido pontua o que lhe parece uma evidência entre os críticos brasileiros: o fato de que ignoram que "a análise psicológica não é a única via de conhecimento do homem" (Brigada Ligeira, Todavia, 2025).
Nessa perspectiva, por sinal, é que o escritor argelino Albert Camus, expoente do existencialismo, exaltou em artigo memorável "Jubiabá" , "um livro prodigioso", em que o documento e a poesia se entrelaçam como esteio de uma grande obra. Elogios igualmente exaltados lhe dedicaram André Malraux, na França, e Adolfo Casais Monteiro, em Portugal.
Mas é reducionista centrar elogios num único livro de Jorge Amado. "Jubiabá", na humilde opinião deste escriba, sendo de fato um grande romance, anda longe de ser o melhor da vastíssima obra do escritor baiano. Há que se ressaltar o lirismo e a poesia de "Mar Morto", a grandiosidade histórica de "Terras do Sem-Fim", a sensibilidade estética e a denúncia desconcertante de "Capitães da Areia", o ecologismo pioneiro de "Tieta do Agreste", a presença incontornável do intelectual orgânico em "Tenda dos Milagres", a lufada de amor de "Gabriela, Cravo e Canela", livros em que a força telúrica, o amor, a luta, a miséria, a aventura e a humanidade de um povo constituem a matéria de que se valeu Jorge Amado para realizar uma das maiores obras literárias da língua portuguesa. Ontem, hoje e sempre.
E o quanto terá incomodado ao puritanismo hipócrita da crítica dominante, a linguagem desabrida e o léxico chocante com que Jorge Amado sobrepujou preconceitos e tabus. A esse propósito, me desculpando para com os mais conservadores, tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Jorge Amado, ao responder, em passagem de "Tieta do Agreste", a um gramático soteropolitano que o aconselhava a medir palavras para narrar cenas de sexo e descrever a nudez das mulatas de Salvador, citando-o de cor: "Meu querido [...], querem abolir da literatura brasileira as palavras que exprimem com exatidão, vigor e poesia; o cheiro, o sabor, a  beleza, a perfeição, a eternidade: xoxota, xibiu e boceta, por exemplo!".
Exaltemos Jorge Amado.

 
 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Duas palavras sobre Affonso Romano de Sant'Anna (1937-2025)

Estudante de Letras, pelos idos de 80, acomodo-me a uma poltrona da primeira fila do auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC. Bem à minha frente, compondo a mesa de conferência, está Affonso Romano de Sant'Anna, poeta, ensaísta, cronista, crítico de arte, que profere palestra sobre literatura luso-brasileira com o tino e a densidade acadêmica que marcam sua trajetória intelectual e artística de altíssimo nível.
Ao final, depois de responder a mil perguntas que lhe são dirigidas sobretudo por alunos da universidade, vestindo um blazer marrom sobre uma camisa escura de gola rolê de gosto duvidoso (o que lhe acentua a palidez da pele), Romano desce do palco e, bastante assediado, a custo tenta ser receptivo com todos.
Vendo-me a pouca distância, aguardando com educação a oportunidade de me dirigir a ele, o escritor faz um sinal com a cabeça, como a dizer que o acompanhasse até a área externa do auditório.
Caminhando pelo jardim até a sombra acolhedora de uma mangueira frondosa, posso finalmente abordá-lo amiúde. Amante da obra de Carlos Drummond de Andrade, da qual Affonso Romano de Sant'Anna era reconhecidamente o maior especialista, encareço dele apontar uma perspectiva de exame que possa acrescentar à fortuna crítica do nosso maior poeta. Embora gentil, em que pese a postura ligeiramente arrogante, que soube depois tratar-se de uma de suas marcas pessoais, Romano observa ser desaconselhável indicar caminhos em trabalhos do gênero, e conclui, evasivo, antes de retirar-se: "Explorar o filão memorialístico, quem sabe...". É como desfecha nossa conversa, ainda escrevendo uma dedicatória do seu "O enigma vazio", livro que tantas vezes, como professor, viria ter eu nas mãos durante aulas sobre arte conceitual e outras expressões estéticas ditas pós-modernas.
Ao lado de tantos outros intelectuais (Robert Hughes, Tom Wolfe, George Steiner, Ferreira Gullar etc.) a quem a irreverência, chacotas e expedientes estéticos de qualidade duvidosa da arte "contemporânea" causavam imenso desconforto, na linha do urinol de Duchamp e das latinhas de Piero Manzoni, contendo "merda d'artista" (conforme intitulou sua obra de 1968), Affonso Romano de Sant'Anna produziu um livro fundamental para o debate no Brasil acerca da validade de tais experiências estéticas. Mas o faz tomando por base textos de gente grande, verdadeiros ícones da crítica de arte que se dedicaram a defender esses artistas transgressores em verdadeiros exercícios de subjetivação, "delírios interpretativos" e abusos lógicos.
Anos depois, através de um amigo de Belo Horizonte, consigo o que parecia improvável: o contato de Affonso Romano de Sant'Anna, morando no Rio, à época. Agora pesquisava eu a poesia de Drummond em outra dimensão, no que viria a ser a minha dissertação de metrado sobre "componentes dramáticos" da poética do itabirano. Trata-me com delicadeza, sem a empáfia de antes, mas é taxativo, equilibrando-se entre a indiferença e a fria generosidade: "O que tinha a dizer sobre Drummond está no meu livro", referindo-se ao clássico "O gauche no tempo".
Sabendo que homem e artista não são exatamente a mesma coisa, continuaria eu a ser um leitor compulsivo de sua obra monumental --- do ensaísta profundo, do cronista inconfundível, do crítico de arte notável, mas, sobretudo, do poeta extraordinário, cuja visada política exercera sobre mim e os de minha geração tanta influência, desde que a leitura de "Que país é este?"*, em plena ditadura, despertara em nós o sentimento de revolta contra aquele estado de coisas, sem que, no entanto, jamais perdêssemos a confiança no futuro ao encontro do qual caminhávamos, muito embora atônitos.
Quando em abril de 1981, em evento dedicado à festa do Dia do Trabalho, um capitão e um sargento armavam uma bomba no Riocentro, e o artefato explodiu dentro do carro em que estavam, no cumprimento de um expediente sórdido arquitetado pelo Exército, o governo golpista tenta livrar-se da responsabilidade montando uma farsa ridícula. Affonso Romano de Sant'Anna veio a público com "A implosão da mentira", um poema desconcertante: "Mentiram-me. Mentiram-me ontem/e hoje mentem novamente./Mentem/de corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão pungente/que acho que mentem sinceramente. [...] E de tanto mentir tão brava/mente/constroem um país de mentira/diária/mente".
Pouco antes de sentar-me diante do computador para escrever esta coluna, virei a última página de "Quase diário", um dos últimos livros de Affonso Romano de Sant'Anna. Leitura absolutamente prazerosa, dessas em que as funções cognitiva e lúdica do texto se nivelam, numa experiência horaciana que ao mesmo tempo ensina e diverte, revelando o homem comum com suas contradições, sua vaidade, suas atitudes talvez questionáveis, mas, acima de tudo, o tamanho imenso de sua presença na vida intelectual e artística do país nos 40 últimos anos.

*"Uma coisa é um país,/outra um ajuntamento.//Uma coisa é um país,/outra um regimento.//Uma coisa é um país,/outra o confinamento.//Mas já soube datas, guerras, estátuas,/usei caderno "Avante"/--- e desfilei de tênis/para o ditador.//Vinha de um "berço esplêndido"/para um "futuro radioso"/e éramos maiores em tudo/--- discursando rios e pretensão.//Uma coisa é um país,/outra um fingimento.//Uma coisa é um país,/outra um monumento.//Uma coisa é país,/outra o aviltamento." (fragmento).