No livro VII da República, Platão nos ensina a desconfiar de tudo aquilo que vemos. A alegoria, conhecida como O Mito da Caverna, é uma das mais belas da filosofia ocidental: “Eis que vemos seres humanos vivendo em uma caverna subterrânea; aqui estão desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de modo que não podem se mover e só conseguem ver o que está à sua frente, pois as correntes os impedem de virar a cabeça. Acima e atrás deles, uma fogueira arde à distância [...] e você verá, se olhar, um muro baixo construído ao alongo do caminho, semelhante à tela que os marionetistas usam diante de si, por cima da qual exibem bonecos”.
Como a evidenciar a complexidade da bela metáfora, no entanto, quem sabe enriquecendo-a, a própria filosofia se encarregou de relativizar o significado do olhar platônico, a dicotomia por ele estabelecida entre o mundo sensível e o mundo inteligível, entre a aparência e a realidade das coisas.
A fenomenologia, por exemplo, professaria que perceber a existência de algo é, por natureza, um ato de interpretação, um registro impreciso de memória.
Kant, ao reconhecer a distinção entre o que chama da “coisa-em-si” e a “coisa-como-aparência”, chama a atenção para a incompletude do nosso reconhecimento, uma vez que estamos expostos às fronteiras formais entre espaço e tempo, o que delimita a maneira como vemos as coisas e enxergamos o mundo.
Para Sartre, o filósofo existencialista francês, o olhar tem a função de nos mostrar o mundo, determinando a maneira como o compreendemos e ocupamos lugar diante dos seus desafios. Assim, a forma como nos vemos se reflete na forma como vemos o outro, e como somos vistos por ele.
Anos antes, Jean-Jacques Rousseau empregara o termo “Olhar” como uma metáfora que exprime a condição de uma sociedade em processo de degeneração, na qual os indivíduos submergem no domínio das aparências.
Sobre o olhar, é emblemática a frase do filósofo Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também ele um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Está no livro “Além do Bem e do Mal”, e serve para nos advertir que, ao combater o mal ou examinar o vazio e as ideias destrutivas, corremos o risco de ser corrompidos e tragados por aquilo que combatemos.
Dostoiévski, o gênio da literatura russa, toma “O olhar” como espelho da consciência humana, palco onde se travam as lutas morais mais implacáveis. Para ele o olhar não se presta para julgar o mundo exterior, mas para revelar os escaninhos mais escuros e impenetráveis da própria mente.
Em “Crime e Castigo”, para recorrer a uma de suas obras mais consagradas, a punição não decorre da aplicação da lei, mas do peso insuportável da consciência. O sofrimento de Raskólnikov, personagem central da história, é que haverá de levá-lo a desistir de fugir de si mesmo e a olhar de frente para sua culpa e contradição.
Sob a perspectiva da psicanálise, “Olhar” e visão se irmanam na organização do aparelho psíquico, na pulsão escópica (o prazer de olhar e ser visto), manifestando-se, assim como na gênese dos sintomas, na exploração do mundo interior, a que define como “inconsciente”. Na histeria, afirma Freud, o olhar do outro e o desejo de ser visto atuam como elementos da encenação e retorno do material recalcado.
Entre nós, foi Machado de Assis quem produziu a metáfora desconcertante, “Olhos de Ressaca”, para descrever o poder de atração da mais complexa de suas personagens, Capitu, cujos olhos, enigmáticos e sedutores, tinham uma força que puxava para dentro, como fazem as ondas do mar em dia de ressaca.
“Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros [...]”, diz Bentinho, como a querer, também ele, arrastar o leitor para o abismo da dúvida. Seu olhar, atravessado pelo ciúme, a enxergar indícios da traição improvável.
Nas Artes Plásticas, motor da criação e da recepção, “O Olhar” direciona a atenção do espectador, ressignificando motivos e motivações, descobrindo caminhos, desvendando mistérios e segredos, ampliando linhas de força, simbologias e significados ocultos. Foi assim, é assim, será sempre assim, do Barroco aos dias atuais, de Caravaggio a Botticelli, de David a Monet, Van Gogh, Matisse, Picasso, René Magritte: “Ceci n’est pas une pipe”.
Isto não é um cachimbo.
O olhar, como a câmera do cinema, movimenta-se em travellings e panorâmicas, enquadra, escolhe, fecha-se em closes bergmanianos, abre-se em plano geral, alonga-se em profundidade de campo.
O Olhar nunca é neutro ou imparcial; o olhar seleciona, escolhe, monta, acrescenta, subtrai --- o olhar edita.
O olhar decide o que será levado ao ar. O olhar, este ser “humano, demasiado humano”, como está em Nietzsche, “é conversa perfeita”, “um espelho no qual desejamos ver nossos pensamentos refletidos do modo mais belo possível”. Eis o ofício do olhar.