Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

sábado, 25 de julho de 2026

Delivery Status Notification.

Hi there! I regret to inform you about some sad news for you. Approximately a month or two ago I have succeeded to gain a total access to all your devices utilized for browsing internet. Moving forward, I have started observing your internet activities on continuous basis. Go ahead and take a look at the sequence of events provided below for your reference: Initially I bought an exclusive access from hackers to a long list of email accounts (in today's world, that is really a common thing, which can arranged via internet). Evidently, it wasn't hard for me to proceed with logging in your email account (alderteixeira.publicar@blogger.com). Within the same week, I moved on with installing a Trojan virus in Operating Systems for all devices that you use to login to email. Frankly speaking, it wasn't a challenging task for me at all (since you were kind enough to click some of the links in your inbox emails before). Yeah, geniuses are among us. Because of this Trojan I am able to gain access to entire set of controllers in devices (e.g., your video camera, keyboard, microphone and others). As result, I effortlessly downloaded all data, as well as photos, web browsing history and other types of data to my servers. Moreover, I have access to all social networks accounts that you regularly use, including emails, including chat history, messengers, contacts list etc. My unique virus is incessantly refreshing its signatures (due to control by a driver), and hence remains undetected by any type of antiviruses. Hence, I guess by now you can already see the reason why I always remained undetected until this very letter... During the process of compilation of all the materials associated with you, I also noticed that you are a huge supporter and regular user of websites hosting nasty adult content. Turns out to be, you really love visiting porn websites, as well as watching exciting videos and enduring unforgettable pleasures. As a matter of fact, I was not able to withstand the temptation, but to record certain nasty solo action with you in main role, and later produced a few videos exposing your masturbation and cumming scenes. If until now you don't believe me, all I need is one-two mouse clicks to make all those videos with everyone you know, including your friends, colleagues, relatives and others. Moreover, I am able to upload all that video content online for everyone to see. I sincerely think, you certainly would not wish such incidents to take place, in view of the lustful things demonstrated in your commonly watched videos, (you absolutely know what I mean by that) it will cause a huge adversity for you. There is still a solution to this matter, and here is what you need to do: You make a transaction of $1490 USD to my account (an equivalent in bitcoins, which recorded depending on the exchange rate at the date of funds transfer), hence upon receiving the transfer, I will immediately get rid of all those lustful videos without delay. After that we can make it look like there was nothing happening beforehand. Additionally, I can confirm that all the Trojan software is going to be disabled and erased from all devices that you use. You have nothing to worry about, because I keep my word at all times. That is indeed a beneficial bargain that comes with a relatively reduced price, taking into consideration that your profile and traffic were under close monitoring during a long time frame. If you are still unclear regarding how to buy and perform transactions with bitcoins - everything is available online. Below is my bitcoin wallet for your further reference: bc1qkxswgm5ha4atlndt9aw5cj0ynfzu98cncpd4ax All you have is 48 hours and the countdown begins once this email is opened (in other words 2 days). The following list includes things you should remember and avoid doing: > There's no point to try replying my email (since this email and return address were created inside your inbox). > There's no point in calling police or any other types of security services either. Furthermore, don't you dare sharing this info with any of your friends. If I discover that (taking into consideration my skills, it will be really simple, because I control all your systems and continuously monitor them) - your nasty clip will be shared with public straight away. > There's no point in looking for me too - it won't result in any success. Transactions with cryptocurrency are completely anonymous and untraceable. > There's no point in reinstalling your OS on devices or trying to throw them away. That won't solve the issue, since all clips with you as main character are already uploaded on remote servers. Things that may be concerning you: > That funds transfer won't be delivered to me. Breathe out, I can track down everything right away, so once funds transfer is finished, I will know for sure, since I interminably track down all activities done by you (my Trojan virus controls all processes remotely, just as TeamViewer). > That your videos will be distributed, even though you have completed money transfer to my wallet. Trust me, it is worthless for me to still bother you after money transfer is successful. Moreover, if that was ever part of my plan, I would do make it happen way earlier! We are going to approach and deal with it in a clear manner! In conclusion, I'd like to recommend one more thing... after this you need to make certain you don't get involved in similar kind of unpleasant events anymore! My recommendation - ensure all your passwords are replaced with new ones on a regular basis.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Odisseia: o olhar sensível de Christopher Nolan

“Conte-me como ele errou e se perdeu/depois de destruir a sagrada cidade de Troia/e por onde passou, e quem encontrou,/e a dor que padeceu nas tempestades no mar,/e como penou para salvar a própria vida/e trazer seus homens de volta para casa”. Emily Wilson, em tradução atualizada dos versos de Homero.


As “adaptações” do poema épico Odisseia, atribuído a um improvável Homero, voltam a ser objeto da atenção dos amantes da sétima arte. Tudo por conta do sucesso de bilheteria e da repercussão já alcançada pelo filme homônimo assinado pelo cineasta Christopher Nolan, em poucos dias considerado a grande realização do ano em termos cinematográficos.

Antes de qualquer comentário sobre a película, no entanto, sinto-me na obrigação de justificar o uso das aspas em “adaptações”: do latim adaptare (prefixo ad, ‘em direção’ mais aptus, ‘apto’), o verbo adaptar significa ‘adequar’, ‘ajustar’, dar a algo a forma conveniente ou em conformidade com um tempo, um espaço ou um ambiente determinado.

Historicamente o termo ‘adaptação’, originário do verbo ‘adaptar’, é utilizado nos meios cinematográficos para definir realizações fílmicas inspiradas em clássicos da literatura, a exemplo do que se vê com relação à grandiosa produção em cartaz nos cinemas do Brasil e do mundo.

Na perspectiva das teorias mais modernas, contudo, o termo ‘adaptação’ não me parece o mais adequado, leve-se em consideração que texto literário e texto cinematográfico são coisas diferentes, linguagens distintas, dotados um e outro de elementos formais específicos.

Assim, o uso da palavra ‘adaptação’ para definir o texto fílmico que teve como inspiração um texto literário, seja este um conto, um romance ou mesmo um poema, no caso o clássico poema épico Odisseia, explica a razão por que são superficiais, quando não preconceituosos e discriminatórios, os comentários sobre as tais “adaptações”, mesmo em se tratando de realizações levadas a efeito com recursos cinematográficos de altíssima qualidade estética, a exemplo do filme a que me refiro.

Há pouco mais de uma semana desde a sua estreia, em que pese a extraordinária receptividade ao filme de Christopher Nolan, objeto de exaltados e merecidíssimos elogios, não são raros os que o apontam como um desserviço à literatura, uma “traição”, uma “deformação”, uma “adulteração”, uma “profanação”, uma “vulgarização”, palavras e expressões que mal definem tais juízos e em que se sustentam as pretensas críticas. E não me refiro ao público não especializado, aos que se prestam a emitir opinião sobre aquilo que desconhecem com rigor analítico ou mínima fundamentação teórica. Mesmo entre críticos renomados, gente que escreve para grandes jornais, ocorre-me lembrar aqui de um conceituado articulista da Folha de S. Paulo, Martim Vasques da Cunha, no caderno Ilustríssima, em edição recente do jornal, para quem o filme de Nolan é um verdadeiro “naufrágio artístico”. O aludido crítico vai além, afirmando que o cineasta “não compreendeu o texto original ao substituir a Grécia Antiga pela sensibilidade moderna, transfigurando o épico em um reflexo da guerra cultural contemporânea”.

Na mesma direção, sem medir palavras, para citar outro exemplo, afirmou sobre o filme Ivan Finotti, alegando ser a atual versão do clássico atribuído a Homero uma deformação da história, “substituindo valores como honra e lealdade por uma visão focada no remorso e na reparação”, num tipo de condenação do herói do poema grego.

E aqui saio em defesa do filme de Christopher Nolan, iniciando o comentário a que me propus no início desta coluna. Odisseia, 2026, é uma outra obra, “inspirada” no que a teoria da “intertextualidade”, de Julia Kristeva, ancorando-se no “dialogismo”, de Bakhtin, defende como “permutação de traços textuais”, ou seja, o interminável processo de reescritura de um texto original (hipotexto) em textos posteriores (hipertextos), guardadas sua dimensão estética e, na perspectiva do novo autor, as possibilidades legítimas de novas leituras e interpretações. É nessa perspectiva que Umberto Eco professa ser “a adaptação cinematográfica um ato de tradução intersemiótica e uma tomada de posição crítica, onde o diretor transfigura os signos literários em uma nova linguagem visual sem buscar ‘matar’ a literatura”.

Não se trata, pois, de uma mera transcrição ou cópia fiel do hipotexto homérico em linguagem cinematográfica (o que, aliás, seria impensável em se tratando de uma obra monumental como A Odisseia), mas uma reescritura “plasmada” no poema clássico.

Sob esse aspecto, o filme conseguiu trabalhar com competência os elementos dramáticos do texto original, sua força e sua beleza estética, sem jamais abrir mão dos recursos de linguagem --- os mais modernos ---, que permitem ao realizador “ler” o leitmotiv (o fio condutor) da narrativa em nova chave: o conflito de Odisseu projeta-se aos olhos do espectador com a mesma intensidade e força poética que, ao leitor do poema, a profundidade das imagens e o retorcido estilizado da expressão poemática se impõem, carregados de sugestões e simbolismos. A escolha de Matt Damon para interpretar o herói, diga-se a tempo, foi extremamente feliz. Realçando a dimensão humana de Odisseu, dividido entre o arrependimento e a determinação irrefreável de retornar a sua casa, o ator confere à personagem o perfil de um homem comum, sem perder a dignidade do mito e a grandeza do herói.

Não sendo a fidelidade um item de maior relevância em obras do gênero, Odisseia, de Christopher Nolan, preserva à perfeição aquilo que é em essência o esteio temático da obra monumental de Homero: “Um homem encontra-se no estrangeiro há muitos anos; está sozinho e o deus Posêidon o mantém sob vigilância hostil. Em casa os pretendentes de sua mulher estão esgotando os recursos da família e conspirando para matar seu filho. Então, após enfrentar tempestades e sofrer um naufrágio, ele volta para casa, dá-se a conhecer e ataca os pretendentes: ele sobrevive e os pretendentes são exterminados” (Aristóteles, século IV a.C., em Poética).

A tola discussão em torno da fidelidade do filme ao poema clássico de Homero, até onde pude ver, nada diz sobre os méritos estéticos, narrativos ou dramáticos da película. Num tempo em que a arte de fazer filmes se encontra ameaçada pelos recursos da Inteligência Artificial e outras “inteligências”, Odisseia, de Christopher Nolan, extrapola expectativas, traz de volta a película e a moviola para mostrar que, daqui em diante, nem tudo estará perdido em termos cinematográficos.