Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite alta em Florença


    Para Carolina, minha filha linda, que, estando em Fortaleza, "estava" comigo em Florença.

Estávamos, minha mulher, meu filho e minha nora num restaurante, em Florença, comemorando os meus 70 anos. Entre uma taça de vinho e outra, tomados de poesia e afeto, vem a pergunta: "O que é fazer setenta anos?".
A curiosidade de Juliana, minha nora, provocou-me a princípio um ligeiro engasgo, a que tentei disfarçar bem ao meu jeito, lançando o olhar para o que, não estivéssemos entre paredes, poderíamos chamar de infinito.
Ocorreu-me lembrar de uma crônica de Távola sobre o que é ser pai: "... é aprender, errando, a hora de falar e de calar. É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois". (...) É ocultar-se na obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante". E fui adiante, na difícil tarefa de definir o indefinível.
Ter setenta anos, falei, é quando cai a ficha e finalmente compreendemos que deixamos de ser um ídolo para os nossos filhos. E saber-nos, assim, humanos, demasiado humanos, é um sentimento que, se fere a vaidade do pai, acaricia a alma do homem, aliviado do peso das ingênuas ilusões --- é colher, com mãos humildes, o resultado do que plantou, aceitando com serenidade o que, por inevitável, chamamos realidade do Mundo.
Meu filho, olhar terno e doce, me ouvia com tal atenção e tamanho carinho, que, por iniciativa sua, punhos cerrados, esmurramos com delicadeza a mão um do outro, como o simpático emoji a dizer, sobre a beleza da amizade, mais que todas as palavras.
Naquele murro de mentirinha, havia todas as brincadeiras que brincamos juntos, todos os sorvetes que tomamos, todas as viagens que fizemos, todos os SIM e NÃO que lhe dei, todos os sonhos que se tornaram realidade, todos os abraços que trocamos, todas as fantasias que se desmancharam com o passar dos anos, todos os seus gritos de alegria a cada volta minha, ao final do dia.
Estavam, naquele murro de mentirinha, todas as dores que dividimos nos momentos difíceis de nossas vidas, mas, acima de tudo, estava a alegria e a gratidão de sabê-las superadas.
Fazer setenta anos, voz embargada pela emoção, disse eu, é deixar de ser o ídolo para os nossos filhos, sem perder o status de ser uma referência.
E não me refiro, deixei claro o que já era óbvio, ao prestígio que se busca conseguir a qualquer custo, vezo de nossa época, nem ao patrimônio material ou fortuna que por ventura tenha o homem construído, nem aos cargos importantes que ocupou. Suas honrarias, seus prêmios e títulos. Não, não é isso que torna um homem uma referência.
Falo do exemplo, da correção moral, da firmeza do caráter, da sabedoria de reequilibrar o passo a cada inevitável tropeço, de "fazer da queda um passo de dança", como a personagem de Sabino, o escritor mineiro de que gosto tanto.
Num contexto de tantas injustiças e desigualdades, ser referência é tornar-se solidário ao outro, e buscar, nos limites de suas possibilidades, contribuir para a construção de um mundo mais justo e mais humano. É não abrir mão de seus princípios, é compreender a dor alheia, e lhe estender a mão quando fraqueja a esperança.
Se morre o ídolo, à qualquer altura da vida de um homem, há de ficar o exemplo, essa herança maior que todas as demais heranças, sem a qual sua vida terá sido em vão.
Fazer setenta anos, dei voz ao cronista, "... é ter coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte". De cabeça erguida e com o espírito em paz. É ter, diante dos olhos, enxergando com o coração, este Ser de grandeza incalculável a que dizemos Deus.
Era noite alta em Florença.

 
 

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Como um lagarto peçonhento

Incrível como a grande imprensa brasileira (Globo, Folha e Estadão à frente) tem pautado sua agenda pelo que existe de mais abominável em termos jornalísticos. Num misto de cabotinismo e desfaçatez que beira o inimaginável, esses órgãos saíram do armário para vestir a camisa da extrema direita, e o fizeram sem medir meios e artifícios, bem na linha do que se pôde ver no caso despudorado do powerpoint da Globo News há uns poucos dias.
Não bastasse o que se configurou como um crime contra a correção jornalística e o respeito à veracidade dos fatos, num exemplo clássico da emenda sair pior que o soneto, a Globo News confiou à jornalista Andréia Sadi o pedido de desculpas mais vexaminoso de que se tem notícia nos últimos anos. Sadi, em cujo horário lançou-se mão do recurso a um só tempo leviano e criminoso, mal vestindo o papel de porta-voz da emissora, tremia lábios e embargava a voz, sabe-se lá se por nervosismo ou medo antecipado do que lhe poderá ocorrer do ponto de vista legal. No mínimo, por certo, sua imagem não apareceu bem na fotografia. 
O que se viu foi um triste e despudorado espetáculo, desses de dar pena. Se se tratava de um erro técnico (argumento desprovido de qualquer senso de responsabilidade), por que a Globo News não publicou o tal powerpoint com as devidas correções, mostrando os reais envolvidos no caso Master, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente Bolsonaro e sua quadrilha à frente, até agora não foi explicado --- e não será.
A Globo sendo a Globo, isto é, arregaçando as mangas e indo à luta contra a democracia, a exemplo do que fez (pediria desculpas algum tempo depois) quando do golpe de 1964.
Situação semelhante, lembremos, viveram os jornais citados acima. Oportuno lembrar que A Folha, por exemplo, fez o mesmo que a Globo: apoiou desavergonhadamente a ditadura, a cujo fato veio se referir com enfático pedido de desculpas que constou com destaque da programação do seu centenário, recentemente festejado.
Com o Estadão, também, ocorreria o mesmo. E é de causar asco o que vem fazendo em termos de cobertura e análise da conjuntura política e do processo sucessório de 2026.
Vira e mexe, sabe-se, essa imprensa veste a carapuça, assume aberta ou subliminarmente candidaturas de direita ou extrema direita, golpeia de morte a ética jornalística e fomenta o golpismo para depois vir a público com revelações e pedidos de desculpa que mais dão a medida de sua cretinice que reparam os graves erros cometidos. Quer vender a imagem da correção jornalística e escorrega feio na gosma do seu próprio vômito, assim como um lagarto peçonhento que cospe para um lado e outro à procura da vereda a seguir. Vergonha.