quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

Até chegar a Milão, fiz de trem uma bela viagem. No meu caso, a forma alongada do território italiano ajudou muito, embora, algumas vezes, tivesse eu de sair da linearidade do roteiro a fim de conhecer uma ou outra cidade mais interessante.

Parti de Berna, na Suíça, chegando, inicialmente, como disse acima, a Milão. Depois, Verona, Veneza, Bolonha, Gênova, Florença, San Remo e Pisa. Iria, ainda, na ordem das recordações deste instante, a Roma e Nápoles, sobre cujas cidades escreverei depois.

Como fosse inevitável ziguezaguear, ora à direita, ora à esquerda do mapa, percorri longos trechos do litoral entre o Tirreno (parte do Mar Mediterrâneo que se estende pela costa Oeste) e o Adriático, ao Norte da Itália, conhecendo, assim, cidades menos importantes, cujos nomes me fogem na distância desses muitos anos.

A Itália, todos sabem, é um país fantástico, de uma beleza natural estonteante, mas foram a riqueza de sua cultura e a prodigalidade de sua arte o que mais me encantou, desde que aqui estive pela primeira vez.

Chegando a Florença — muito jovem ainda, dava eu os primeiros passos no vastíssimo terreno da história da arte —, deparo com o Duomo, a impressionante obra de Brunelleschi. Uma sensação indescritível se apossou de mim ao primeiro olhar. Mas é a visita às igrejas e museus que me deixam definitivamente tragado pela beleza do estilo em que sobressaem, em equilíbrio de massas e medidas, os traços serenos da Renascença.

Artistas geniais, objeto de tantas aulas deste velho professor de Arte, como Michelângelo, Fra Angélico e Donatello, para não falar no inacreditável Leonardo Da Vinci, deixaram aqui um legado que em nenhum outro lugar pode-se ver em tamanha exuberância.

O mapa da cidade, lembrando a forma de um peixe, com um traçado profundamente irregular, embora dificulte um tanto o deslocamento entre um e outro ponto turístico, ocasiona a quem caminha por estas ruas uma sensação de profundo bem-estar, misto de sonho e realidade.

Síndrome de Stendhal*. A beleza extrema a desencadear sintomas físicos reais, palpitações, vertigens, delírios... Ou síndrome de Florença, apenas?

Paroxismos à parte, contemplo algumas das obras da mais elevada significação da arte ocidental. O Duomo de Santa Maria Del Fiore, já referido neste diário, com uma majestade que transita do gótico para o neogótico, suas capelas encantadoras, seu campanário de revestimento sedutor, com mármore toscano em diferentes cores.

Adiante, refeito do primeiro impacto, deparo com a beleza inigualável do "Juízo Final", afresco de Giorgio Vasari, a quem devemos, entre tantas obras, o incontornável "Vidas", biografia dos expoentes do Renascimento italiano.

Em seguida, pelos dias que me restam aqui,  dou-me a uma sucessão de atrações, a exemplo da Galleria dell'Accademia, Pallazo Pitti, Palazzo Vecchio, Igreja de San Marco, Museu Bargello e, supostamente a mais antiga galeria de arte de que se tem notícia, a Galleria degli Uffizi, onde me encanta a "Vênus de Urbino" (1538), de Ticiano, e, mais tomado de enlevo, deparo com "O Nascimento de Vênus" (1485), de Botticelli.

Berço do Renascimento, Florença, assim, transpira arte e magia, sortilégios e fascínios.

Caminhar por suas ruas estreitas, remanescentes da Idade Média, como disse, é uma experiência indescritível, embora, vez e outra, o turista desatento corra o risco de ser atropelado pelas incontáveis motocicletas que circulam pela cidade, num viravoltear enlouquecido que contrasta com o ritmo doce e terno do lugar. 

Mas não é só a arte da Renascença que excede, aqui, em sua presença pujante e sedutora. Ao lado de grandes nomes do Alto Renascimento, como os já citados Rafael, Da Vinci, Michelângelo, Botticelli, Ticiano, e tantos outros, na Galleria degli Uffizi, por exemplo, deparamos com obras de Caravaggio, Rubens, Rembrandt, entre muitos ícones do Barroco. 

Amante das artes e das viagens, voltaria a Florença outras vezes, a exemplo do que faço nesse 29 de março, para festejar, grato a Deus e ao Destino, a chegada do meu heptagésimo aniversário.

Tudo envolve, alicia, deslumbra...

E tinha tanto mais por dizer, mas a mão já reclama, errática e trêmula, delicadamente domada pela emoção.

Oxalá ainda me sejam muitas as viagens — e, abençoados, os anos que virão.

*O escritor francês relatou essas reações ao visitar a Basílica de Santa Croce, em 1817.

P.S. O texto, como é comum no gênero, joga intencionalmente com tempos verbais, descumprindo orientações de gramática e estilo, num tipo de subjetivação que obedece mais às oscilações do sentimento que ao rigor da forma. 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Democracia e pensamento crítico

Morreu nesta semana, aos 96 anos, Jürgen Habermas. Nome de proa da Escola de Frankfurt, que reuniu além dele nomes de peso da filosofia e ciências humanas, a exemplo de Walter Benjamin, Max Horkheimer e Theodor Adorno.
O filósofo alemão é autor de uma obra que permanecerá por muito tempo entre o que de melhor se produziu sobre temas como democracia, comunicabilidade e tolerância. Esta, a razão por que seu nome ocupou espaço de destaque nos órgãos de imprensa durante os últimos dias, ensejando, no entanto, por ignorância intelectual ou oportunismo, leituras não raro equivocadas sobre o seu pensamento.
Amparando-se em interpretações distorcidas do pensamento habermasiano, houve, por exemplo, quem tentasse professar a necessidade de que sejam respeitadas ideias estapafúrdias do ponto de vista científico ou moralmente inaceitáveis, como faz uma certa parcela da população ao discutir o conceito de liberdade para golpistas ou a representatividade política de Erika Hilton à frente da Comissão dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados.
De fato, no conjunto de uma obra monumental, que produziu por mais de meio século, Habermas defendeu sempre a possibilidade do debate construtivo em torno das questões fundamentais da sociedade moderna, mesmo quando as "convicções" se mostram parcial ou completamente contraditórias. Mas isso não significa dizer que tudo pode ou deve ser aceito, por descabidas que sejam as ideias e desprovida de substância intelectual o confronto (uso a palavra intencionalmente, para evidenciar o que vem ocorrendo nos meios políticos brasileiros nos últimos anos).
Radicalizo: é desprezível como objeto de discussão, por exemplo, afirmar que a terra é plana, ou exaltar a figura de uma liderança política autoritária em discurso de defesa da liberdade democrática. Assim como é desprezível, por outro lado, o argumento de que, não sendo biologicamente feminina, a deputada do PSOL não possa representar com propriedade os direitos da mulher numa comissão da Câmara dos Deputados.
Para haver o debate construtivo, tal qual defendido por Habermas no seu incontornável "Teoria da Ação Comunicativa"*, é necessário que o discurso discordante reúna um mínimo de sustentação do ponto de vista racional, que seja ele baseado em elementos defensáveis na perspectiva intelectual, moral, científica e ideológica, ainda que pautado em visão de mundo diferente.
Voltando, pois, aos exemplos do parágrafo acima, não se pode discutir o indiscutível, pois a terra é comprovadamente redonda; um golpista não pode ser tomado como adepto da liberdade democrática, assim como a representatividade política exige do representante (no caso, da representante) atributos como correção moral, capacidade de liderar, coerência na defesa dos interesses daqueles ou daquelas que representa, preparo intelectual e compreensão dos desafios da época em que atua ou atuará como agente político, coisas que fizeram de Erika Hilton uma deputada brilhante, não as suas características biológicas, como querem os que se recusam a aceitar que uma mulher trans seja eleita para presidir uma comissão de defesa da mulher.
No que é natural, homens escolhem homens e mulheres para representá-los; mulheres, idem, como é próprio das democracias dignas de receber este nome.
Leituras desatentas ou equivocadas não podem ser tomadas como argumento num debate democrático. A filosofia política de Habermas não se presta a exortar o consenso pelo consenso, a aceitação acrítica do que é inaceitável, a convergência e o acordo tácito do que é insustentável na perspectiva científica, intelectual e ética.
A ação comunicativa que professa pressupõe seriedade, respeito, tolerância, mas jamais fecha os olhos para as condições em que se dá o debate, o conflito de interesses, as ideias, os objetivos e vontades que estão por trás da divergência, sob pena de ser, na linha do que advertiu Marx, um mero artifício de falseamento da realidade com propósitos de assegurar vantagens e poder.
Habermas dedicou sua vida a explicar como é possível a convivência educada entre os diferentes, as trocas argumentativas públicas que não resultem no conflito violento e na recusa do outro.
A democracia não é um regime de pensamento único, que nega ou impede o conflito, mas um modelo de sociedade em que as diferenças constituem a matéria essencial da liberdade como valor indispensável para o bem comum. Nunca a perda da lucidez e do discernimento. A aceitação do que é absurdo.
Num tempo em que proliferam seitas, tribos e facções, de que resultam o ódio, a intolerância, a insanidade e o fundamentalismo delirante, a morte de Jürgen Habermas abre um vazio imenso.
 
 *Publicado em 1981, "Teoria da Ação Comunicativa", em dois volumes, reúne as ideias centrais da filosofia harbemasiana sobre o que se pode definir como uma teoria crítica das sociedades modernas capitalistas. Dele, recomenda-se, ainda, "Mudança Estrutural da Esfera Pública" e "Direito e Democracia", publicados no Brasil pela Editora UNESP.
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Música bela, debate tolo

Há alguns anos, neste espaço, escrevi crônica em que expresso a minha admiração pelo produtor, compositor e escritor Nelson Mota. Falava, na referida crônica, que me ocorre (e creio eu a muitas pessoas) de nutrir admiração e carinho "pessoal" por figuras públicas com as quais sequer estivemos pessoalmente algum dia.
Lembro que o texto suscitou, à época, comentários curiosos, e inúmeros leitores diziam se passar com eles o mesmo.
Alguém, de cujo nome não me lembro agora, ressaltou, concordando comigo, que esse é um dos papeis mais relevantes do escritor: "Dizer, em lugar do leitor, aquilo que, sentindo ou pensando ele, não soube materializar em palavras."
Essa semana, depois de tanto tempo desde a sua publicação, a crônica voltou a repercutir na forma de uma pergunta que enseja a coluna de hoje: "Leio seus textos com grande prazer. Uma vez você escreveu sobre sua admiração por Nelson Mota. Li que a música dele, "Como uma onda", é um plagio e que ele teria se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes... Verdade, isso?" (sic).
Não, não é verdade que Nelson Mota tenha se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes. O que se passou, de fato, é que o autor de "Como uma onda" usou de um expediente recorrente na história da música popular brasileira, diria mesmo da arte em suas diferentes linguagens, cinema, literatura e por aí vai: citar fragmentos de obras já conhecidas, o mais das vezes como um tipo de homenagem que, em termos teóricos, chamamos de "intertextualidade" e que, se bem utilizado, nada contraria os fundamentos da ética autoral. Grandes nomes da melhor arte fizeram isso de maneira elegante, nunca como um meio de se beneficiar do trabalho de outrem.
Mas vamos ao caso do sucesso de Nelson Mota, não sem antes evidenciar que o letrista o compôs em parceria com Lulu Santos: "Nada do que foi será/De novo do jeito que já foi um dia/Tudo passa, tudo sempre passará/A vida vem em ondas, como o mar/Num indo e vindo infinito//Tudo o que se vê não é/Igual ao que a gente viu há um segundo/Tudo muda o tempo todo no mundo//Não adianta fugir/Nem mentir pra si mesmo agora/Há tanta vida lá fora/Aqui dentro, sempre/Como uma onda no mar".
A letra, no rigor da análise, não plagia nenhuma música de Vinicius de Moraes. É verdade que o quarto verso da primeira estrofe, "A vida vem em ondas como o mar", ecoa literalmente um verso do poema "Dia da Criação", do conhecido poeta carioca. Mas isso não é o mesmo que dizer que houve plágio, que Nelson Mota e Lulu Santos tenham se apropriado indebitamente do belíssimo poema do autor de "Poemas, sonetos e baladas", publicado originalmente em 1946, no qual se encontra "Dia da Criação".
Trata-se, como se vê, de uma citação, de um caso de intertextualidade, que mais constitui uma reverência ao grande poeta brasileiro que um plágio tal qual o sabemos em termos teóricos. A contar em favor da dupla de compositores da música "Como uma onda", façamos valer o bom senso --- Nelson Mota e Lulu Santos, em que pese a diferença de gerações na MPB, conviveram com Vinicius de Moraes, frequentaram o mesmo meio artístico, já não bastasse ser  "Dia da Criação", inspirado no Gênesis, um dos poemas mais populares do autor, cujo refrão é largamente conhecido: "Porque hoje é sábado...".
Em seu livro "101 canções que tocaram o Brasil", entre as quais aparece "Como uma onda", Nelson Mota assume ter se inspirado no poema de Vinicius de Moraes.
Mas isso ainda não pôs fim à discussão, muito embora a dupla de compositores tenha sido severamente criticada. A alimentar acusações, há que se ressaltar o fato de que, no disco em vinil, assim como no encarte do CD, lançado nos anos 80, não há sobre a polêmica qualquer alusão a Vinicius de Moraes, o que, aos olhos de muitos, mais ainda caracteriza um desrespeito para com o autor de "Poemas, sonetos e baladas".
Se "Dia da Criação" explora o surgimento do homem e da mulher por um viés finamente irônico, como a evidenciar a grande confusão que se estabelece a partir de então, com bebedeiras e noitadas extravagantes, orgia, vícios, contradições e desencontros (Deus deveria ter descansado no sexto dia!), a letra de "Como uma onda" incorre em filosofia barata sobre a inevitável transformação, fugacidade e o eterno ir e vir das coisas, de que o movimento das ondas do mar, reconheçamos, se presta à perfeição como feliz metáfora.
A música é belíssima, o debate, tolo.