sábado, 11 de julho de 2026

I own very sensitive information about your web activities

Greetings!<br> <br> First of all, let me tell you, you are one of a kind!<br> It is hard to impress me because I have seen a lot in my career as a professional hacker but now I am really impressed. <br> <br> I will get straight to the point. Listen to me carefully. <br> <br> Several months ago, <br> I was able to hack your operating system and gain full access to all your devices and accounts including messengers, social media profiles, etc. <br> <br> I hope, now you begin to get my message. <br> It goes without saying that I gained access to what you type via keylogger, your internet activity and webcam streaming. <br> All of this was possible due to your frequent visits to adult websites infected with harmful malware. <br> In other words, you were under my microscope for many days like some kind of a little bug.<br> The only difference is that unlike you there is no bug in the world who like to watch pervert porn. <br> <br> Yes, you understand it right: I was able to see everything on your screen and record video and audio streams of your camera and microphone. <br> All of these records are currently securely saved on my storage as well as a backup copy. <br> <br> In addition, I also gained access to your confidential information contained in your emails and chat messages.<br> <br> Probably you are wondering why your antivirus and spyware defender software allowed me to do all of this? <br> I am sorry but it's a very stupid question. All antivirus programs turned into useless shit quite a long time ago. <br> Have you ever heard last years about any "advanced" new technologies in this industry? <br> Exactly. Nowadays, developers do not give a flying fuck about your security. Therefore, hackers like me took advantage of it. <br> <br> The more you know my friend, no need to thank me. <br> Maybe with this fresh knowledge, you will be more serious about your internet security and never take it for granted anymore. <br> <br> With that out of the way, let's cut to the chase. Using your recordings I made a video compilation, <br> which shows on the left side the controversial porn scenes of you happily masturbating to, <br> while on the right side it demonstrates the video you were watching at that moment.. ^.^<br> <br> There are only 48 hours left since the moment you receive this email until I send this video to all your email and messenger contacts. <br> But there is more, guess what? I can also make public all your emails and chat history.<br> <br> You are sick fuck in love with freaky adult content but you are not mentally retarted so I would like to believe, you do not want to let this happen. <br> Right? Only the most stupid man in the world would be happy if his friends, loved ones and colleagues suddenly knew about something like this. <br> <br> In other words, there is no way back. It cannot be fixed. However, there is a way forward that both of us can benefit from. <br> I am a reasonable guy and have no intention to ruin your life for nothing. I'd better like to gain something instead. <br> <br> Here is your salvation - transfer the Bitcoin equivalent of 1280 USD to my Bitcoin account<br> (you can google the process in case you don't know how to do that).<br> <br> Here is my Bitcoin address: 1NJjznNjzyiwJh7XSznZseJCkzMyMHZAyW<br> <br> Once I am notified of receiving it, I will delete all those videos and disappear from your life for good.<br> As I mentioned, you have only 48 hours to make a transaction after you open this email.<br> <br> Believe me, I am always one step ahead so no way in hell you could fool me. <br> If I discover that you shared this message with others, I will send and publish your videos in no time.<br> <br> P.S. It's in your power to make it nice for both of us.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Cinema em Nova Chave

                                                                                                                                                Por Alder Teixeira

Como a produção do cinema contemporâneo tem suas bases estéticas fincadas no uso ilimitado de recursos das mais avançadas tecnologias, dentre as quais sobressai em nível impensável de possibilidades a IA, é natural que surja nos meios cinematográficos propriamente ditos, dos amantes do cinema e da própria crítica especializada, uma indagação que a um só tempo traduz preocupação e algum nível de decepção e revolta: “O cinema está morto?”.
Sem ter a intenção de responder a tal questionamento, o que seria pretensioso de minha parte, uma vez que ainda é cedo para esmiuçar e mensurar a real repercussão dessa realidade sobre o que tradicionalmente se considerou a sétima arte*, ou seja, a forma de expressão artística que traz dentro de si as seis outras (a arquitetura, a escultura, a pintura, a música, a literatura e a dança), mas com a simples motivação de contribuir para o debate, levanto aqui algumas reflexões:
De que cinema estamos falando? Dos primeiros registros realizados pelos irmãos Lumière, e exibidos em 28 de dezembro de 1895, no Salon Indien do Grand Café, em Paris, a partir de um aparelho chamado cinematógrafo? Nessa perspectiva, por que não lembrar o que fizeram, antes, outros inventores, a exemplo de Thomas Edison, com o seu cinetoscópio, ainda que voltado para gravar e exibir imagens individualmente, isto é, para uma só pessoa de cada vez? Ou dos primeiros trabalhos de Georges Méliès, marco do que se pode definir como surgimento da narrativa visual, com seus truques e seus fascinantes efeitos de ilusionismo? Ou do polêmico “O Nascimento de uma Nação”, já na primeira década do século XX?
Estamos falando do cinema incorretamente identificado como “cinema mudo”, na linha do que fizeram Buster Keaton e Charlie Chaplin, ainda hoje capazes de encantar numerosas plateias com sua habilidade física e seu timing cômico, a exemplo do que se pode ver em “A General” (1926) e “Tempos Modernos” (1936)? Do cinema falado, como se convencionou chamar o cinema a partir de 1927, com “O Cantor de Jazz”, estrelado pelo notável Al Jolson. Ou, para ser mais rigoroso, desde “As Luzes de Nova York, em julho de 1928?
Estamos falando do dito “cinema clássico” norte-americano? Do metacinema, estilo de produção que lança mão da metalinguagem e se debruça sobre o próprio fazer cinematográfico, expondo sua natureza fictícia ou intencionalmente dando a ver seu processo de construção, rompendo com a noção teatral da quarta-parede, investindo na quebra da ilusão de realidade e jogando com as convenções da narrativa? Do chamado filme dentro do filme, como fez exemplarmente bem François Truffaut em “A Noite Americana” (1973).
Não será mais recomendável compreender esses diferentes momentos como constitutivos do que se pode estabelecer como a História do Cinema?
A partir do que vem proposto com essas indagações, antecipo o viés pelo qual levanto a presente reflexão, o que me parece mais razoável em termos de compreensão da atual situação do cinema, ou seja, a percepção de que o surgimento da Inteligência Artificial e sua utilização em larga escala no cinema, a partir de agora, deve ser entendido como “pós-cinematográfico”, na perspectiva do que, mal comparando, se verificou no teatro com a noção de pós-dramático: a concepção de uma manifestação cênica em que os elementos da estrutura clássica são rompidos em favor de um teatro performático dissociado do texto. Mantidas as delimitações teóricas, por óbvio, é assim que o teatro dito pós-dramático repensa a utilização dos meios convencionais e lança mão de outras possibilidades técnicas: cria-se um novo espaço, em que estão presentes outros elementos estruturantes da obra teatral e no qual abundam recursos anteriormente estranhos ao fazer teatral. Veem-se em cena equipamentos tradicionalmente ocultados do espectador, telas, câmeras, microfones e impensáveis adereços ou, pelo contrário, o ator e/ou atriz assume a dimensão narrativa em que a realidade se expressa nela e por ela mesma, ainda que revestida de intencional artificialidade.
Nessa direção é que se deve compreender o que, na falta de uma terminologia mais apropriada, ainda, define-se como “pós-cinematográfico” ou pós-cinema: a experiência, produção e consumo de imagens em que os elementos narrativos foram assustadoramente ampliados com os avanços e descobertas da tecnologia: as imagens agora são “pensadas” não mais para o espaço cinematográfico tradicional, mas, além dele, para o streaming (Netflix, Prime Vídeo etc.) e redes sociais, celulares, computadores e outros meios da cultura digital. Nesse cenário de profundas transformações é que o cinema não pode ser definido como historicamente foi.  
Essas e outras questões, por cabível, são a meu ver aspectos indispensáveis para que não se cometam equívocos de natureza conceitual e teórica em relação ao cinema, emprestando ao debate uma referência histórica mais bem fundamentada, sem o que estaremos invadindo o escorregadio terreno das subjetivações. Para tanto, assim, é recomendável que se tracem objetivos, que se delimite o campo de pesquisa, que se levantem hipóteses, sob pena de não se chegar a lugar algum sobre uma matéria a um só tempo tão simples e tão complexa, mas certamente desafiadora em todos os sentidos.
Em face da razão deste paper, e nos limites de uma fala sobre o que se convencionou chamar de sétima arte, mesmo sob a provocativa questão de estar o cinema morto ou não, não me cabe ser minimamente conclusivo. É, ao que me parece, como se me fosse dado o direito de responder ao complexo questionamento com outro questionamento, como a cobrar do questionador esclarecimentos sobre aquilo que questiona. Trocadilho à parte, eis a questão.
Se se pensa o cinema como convencionalmente o conhecemos, ainda que pautando a nossa reflexão em “tipos cinematográficos” diferentes, na perspectiva da forma e da expressão, com limitações e possibilidades condizentes com o tempo cronológico de sua produção, sob as diversas tendências e estilos, gostos e expectativas de consumo, mas assentado em características estéticas tradicionalmente definidas com a produção de filmes: os meios, a técnica, a arte e a indústria de criar, registrar e projetar imagens em sequência rápida em uma tela, ocasionando no cérebro humano a ilusão de movimento contínuo, fenômeno otimizado com combinação de outras linguagens, a música, a literatura e as artes cênicas, entre outras, direi que o cinema não morreu, mas teve concluída mais uma de suas fases de evolução.
Por outra, aceitando-se como ilimitadas as possibilidades de fazer filmes, bem na perspectiva dos avanços observados ao longo da história do cinema, mas em escala infinitamente maior, processo que poderá cedo ou tarde prescindir, em parte ou no todo, dos meios historicamente conhecidos, uso de câmeras cinematográficas, atuação de atores e atrizes, recursos de decupagem e edição etc., em favor dos meios da alta tecnologia, CGI e Inteligência Artificial à frente, deve-se falar do surgimento de um outro cinema, ainda quando pensada essa forma de expressão artística para a recepção coletiva, em sala de projeção tal qual a conhecemos hoje e com o emprego de profissionais do cinema tradicional.
Pode-se falar, portanto, de pós-cinema ou cinema pós-cinematográfico, conceito que descreve novas formas de realização e consumo da imagem em movimento e com intenções estéticas. Essa definição, como se vê, vai além dos avanços advindos da tecnologia digital, mera expansão do que ainda se pode considerar cinema, mesmo pensado, como já foi dito, para outros suportes que não os tradicionais: videogames, videoinstalações, internet e, na falta de melhor expressão, o que se costuma definir como realidade virtual: plataformas como celulares, computadores, displays urbanos e equipamentos outros de recepção interativa.
Sem incorrer em conclusões apressadas, e na intenção de tão-somente contribuir para o debate, ouso dizer: o cinema não morreu, mas, por certo, há muito se abriu, no livro de sua história, um novo e complexo capítulo.
 
*O termo foi cunhado pelo crítico Ricciotto Canuto no Manifesto das Sete Artes, publicado em 1911. Hoje, por óbvio, há de se observar que outras linguagens foram acrescidas a essa relação, a exemplo dos quadrinhos e da chamada Arte Urbana.
 Autor do livro "Ingmar Bergman, Estratégias Narrativas", Alder Teixeira é Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro da Academia Cearense de Cinema (ACC).
 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Mordendo a língua

Eis que volto ao assunto do momento: a Copa do Mundo, muito embora sem conhecer resultado e desempenho da seleção no jogo de ontem. Calculo, sem esquecer que inexiste lógica rigorosa no futebol, que haverá de ter sido elástico, o primeiro, e satisfatório, o segundo. Noutras palavras: quem sabe uma goleada frente ao sofrível time do Haiti, e, quanto à atuação do escrete, para lançar mão do saudosismo linguístico, algo que faça esquecer o quase desastre da estreia.
Afinal, a quem terão faltado olhos para ver o óbvio: que a seleção fez uma de suas piores estreias em Copa do Mundo, quer sob o ponto de vista do desempenho propriamente dito, quer no quesito do tal "amor à Pátria". Se o time fraquejou em termos táticos (conjunto), não fez melhor em se tratando de coragem, disposição de luta e mobilização de esforços.
Irreconhecível? Não, que essa turma do Carlo Ancelotti não inspira confiança, e, na sua maioria, sequer merece vestir a camisa de uma seleção 5 vezes campeã do mundo.
Esta a razão por que recomendei com tanto entusiasmo o "docudrama" A Saga do Tri, da Netflix, como antevendo que não se pode perder de vista o passado para se compreender o presente. Onde tínhamos um time empenhado em representar com dignidade o Brasil, mesmo sob a pressão dos horrores da ditadura, temos agora um bando de garotos-propaganda do que existe de pior em termos de produto de consumo: a jogatina que tem levado parte significativa da população brasileira ao endividamento --- e aos males dele decorrentes. Sem falar nos acordos espúrios que resultaram em convocações injustificáveis, a exemplo da de Neymar, como resta óbvio, "bichado" dos pés à cabeça, em que pesem a boçalidade e o maneirismo ao lidar com a bola no aquecimento para os treinos de que não vai participar. Indecência!
A propósito, atente-se para as condições em que se davam os treinamentos da seleção de 70, que o filme, com alguma dose de ficção, é claro, mostra exemplarmente bem: os jogadores eram submetidos a exercício físicos rudimentares, se comparados ao que se faz hoje, com técnica e equipamentos de ponta. Mas havia entrega, voluntariedade, determinação.
Nesse sentido, veja-se o que fez Pelé, driblando seguranças e proibições do alto staff a fim de participar dos treinos e se manter em forma.
Digo isso e sei que haverá protestos entre os (poucos!) leitores da coluna, gente que não teve o privilégio de acompanhar, pela TV e pelo rádio, o que foi torcer por um time que tinha Carlos Alberto, Brito (falecido há pouco), Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Ele.
Para não falar daqueles que, menos dotados de talento, sabiam, pelo sacrifício e amor à causa, compor ao lado desses gênios sem fazer vergonha: Félix, Piazza, Everaldo, limitados (Piazza, menos) tecnicamente falando, e tão importantes na campanha inesquecível.
O mérito desses craques, é preciso evidenciar, não se reduzia ao que, no futebol, era fundamental: o desempenho em campo. Eram verdadeiros cidadãos fora dele. Politizados, amigos da liberdade e da justiça social, arregimentavam-se contra a ditadura, e erguiam voz em defesa de um Brasil melhor.
Ao invés das "arminhas" e das danças de agora, de punhos cerrados, esmurravam o ar, num simbolismo de valentia e confiança no porvir ao comemorar o gol.
Concluo esta crônica, como disse acima, ignorando o que terá sido a partida de ontem. Pouco importa, se há consistência e convicção no que digo: falta à nossa seleção, para muito além da qualidade técnica individual, o espírito de brasilidade legítima. Legítima, reitero, que as limitações de talento, na linha do que fizeram Félix, Brito e Everaldo, nem sempre são o fator decisivo para se jogar com dignidade uma Copa do Mundo.
Quanto aos dirigentes, da CBD da época à CBF de hoje, pouca coisa terá mudado. Mas futebol, em realidade, pode-se jogar fundamentalmente em campo. E nele, tanto quanto, andamos mal das pernas.
Torço para que morda a língua.
 




 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Sonha, e serás livre de espírito

Para os brasileiros a Copa do Mundo começa hoje. É verdade que não temos um time capaz de suscitar a nossa confiança na possibilidade do hexacampeonato. Longe disso. Mas é o Brasil, celeiro de grandes craques. Em 1970, assim como hoje, saímos daqui desacreditados. Não fomos além de 1 a 0 contra a Áustria, no Maracanã, com um sofrido gol de Pelé. Pior: pouco antes havíamos empatado com a inexpressiva equipe do Bangu, em Moça Bonita, depois de iniciarmos perdendo com um gol de Paulo Mata. Jairzinho empatou para o escrete canarinho.
O resultado precipitou o que todos já esperavam: a exoneração de João Saldanha, resistente a ceder às pressões do governo Militar, nomeadamente do então presidente Médici, que cobrava do técnico brasileiro a convocação do centroavante Dario, do Clube Atlético Mineiro.
O que ocorreria em seguida, com o então botafoguense Zagallo à frente da seleção, todos sabem: o Brasil faria a mais brilhante campanha em copas do mundo e sagrar-se-ia tricampeão mundial.
Aos mais jovens, que não tiveram a oportunidade de ver atuar a melhor de nossas seleções, é mais que oportuno assistir à série "A Saga do Tri", disponível na Netflix.
Não se trata de um documentário, na linha do que se vê vez e outra na TV sobre a Copa de 70.
É ficção realizada a partir de fatos reais vistos à luz da imaginação dos diretores Paulo Morelli e seu filho Pedro Morelli. Uma espécie de "docudrama" em que os realizadores buscam reconstituir os memoráveis lances que marcaram a trajetória irrepreensível da seleção na conquista do tricampeonato.
Sob este aspecto, o que parecia improvável, acontece: as jogadas-chave de cada partida, os dribles e gols são reconstituídos quase à perfeição. A famigerada cotovelada de Pelé no queixo do zagueiro uruguaio, bem à altura de sua genialidade, é perfeita.
Se isso se tornou possível em grande parte pelos recursos tecnológicos disponíveis na atualidade, não é sem razão que se deve aplaudir os procedimentos da cinematografia propriamente ditos: escolha de planos, movimentação de câmeras, enquadramentos e perspectiva de tomadas são irretocáveis, o que resulta num trabalho cinematográfico mais que bem sucedido.
A beleza das imagens, dando ao espectador uma percepção privilegiada do que terão sido esses acontecimentos inesquecíveis da conquista do Tri, vale por si só, mesmo quando a imaginação acrescenta elementos estéticos que tornam os fatos em que está plasmada a série muito mais sedutores do que, muito embora fascinantes, tem sido proporcionado ao telespectador em registros jornalísticos da referida Copa.
Ao lado disso, a completar o conjunto de procedimentos que fazem parte de qualquer realização fílmica, a direção de elenco, a atuação dos atores centrais da série e, principalmente, o roteiro, são de altíssimo nível, resultando num trabalho que pôs por terra toda a desconfiança do projeto inicial.
Não é muito dizer que nunca antes se fez no audiovisual brasileiro uma reconstituição tão bem-sucedida de competições esportivas: pode-se falar de poetização de fatos, de verdade explorada artisticamente, e não de ficção em sentido puro.
Sob este aspecto, ainda que não se possa afirmar a exatidão do que terá acontecido nos bastidores, no fora de campo literalmente falando, é notável a versão apresentada pela série acerca do que, por exemplo, terá pontuado a posição dos jogadores, da comissão técnica e do presidente da CBD (era como se denominava a atual CBF) perante o governo Militar.
Aqui, ressalte-se, ganha visibilidade o que em grande parte se sabia sobre as razões que levaram à demissão do técnico João Saldanha, comunista de carteirinha e figadal inimigo do regime autoritário implantado no país com o golpe de 1964.
Mas o roteiro vai mais longe: é comovente a situação que envolve a figura de Pelé, não raramente apresentado como cúmplice indireto do que se verificava no Brasil durante a ditadura. A uma dada altura da narrativa, já bem perto da estreia da seleção na Copa do Mundo, talvez precipitadamente, tem-se a impressão de que o Rei cedera aos apelos do presidente Médici no sentido de "vender positivamente" o regime. Médici telefona para Pelé e exige dele cumplicidade.
Essa impressão, felizmente, em favor do craque brasileiro, vai se desfazendo com o desenrolar da história, e o espectador é levado a concluir que Pelé, aos 29 anos, tão-somente se mostrara temeroso de que algo de ruim lhe pudesse ocorrer e à sua família. As tomadas em que Rose, sua mulher, aparece grávida, em sua casa, no Brasil, servem para desconstruir a ideia de cumplicidade do jogador com os horrores praticados pelos militares no país. É oportuno que se evidencie a indignação de alguns dos nossos craques contra o regime e a prática recorrente da tortura, do assassinato e indizíveis coisas mais.
É fato, sob esse aspecto, que a minissérie poderia ter explorado com maior nitidez a ditadura e os horrores levados a efeito em nome de um nacionalismo fascistóide, a exemplo do que se vê hoje no Brasil. É de se concluir, no entanto, que, aos olhos dos diretores, a ditadura deveria ser explorada apenas como pano-de-fundo, um quadro intencionalmente borrado dos fatos políticos que jamais se deverá esquecer.
Além disso, deve-se destacar a presença de João Saldanha no desenrolar de toda a produção. Exemplarmente interpretado por Rodrigo Santoro, numa atuação de encher os olhos, a personagem ocupa a melhor dimensão dramática da minissérie: sua firmeza de caráter, o seu amor pelo Brasil, a sua coragem para enfrentar os poderosos de plantão, compõem o que existe de mais relevante do ponto de vista dramático.
A sequência em que o jornalista se encontra, noite alta, com o técnico Zagallo (Bruno Mazzeo, em atuação excepcional), é provavelmente a mais bela da minissérie, pelo brilhantismo do trabalho dos atores e densidade da curva dramática das personagens, a que se somam o irretocável trabalho de câmera e qualidade do diálogo: "... Luta e serás livre de espírito, Não baixes a cabeça, jamais!"., diz Saldanha a um Zagallo atormentado e vacilante. A iluminação, parcialamente encoberta pela fumaça do inseparável cigarro de Saldanha, como a lembrar um "sfumato"* de Da Vinci, é sublime --- uma imagem que sentimos vontade de recortar para e expor num quadro de parede.
"A Saga do Tri", no todo, para muito além do que se julgava possível, é trabalho cinematográfico que condiz com a histórica conquista da Seleção Brasileira em gramados mexicanos, e se coloca, com mérito, entre as boas homenagens ao melhor escrete brasileiro de todos os tempos.
No mais, sonhar é preciso, como professa em cena memorável da série um grande brasileiro chamado João Saldanha!
 
 *Técnica pictórica clássica que consiste em criar transições suaves e graduais de cores e tons, desfazendo os contornos nítidos da imagem.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Museu Iguatuense da Imagem e do Som

Vejo na rede social um vídeo em que o secretário de Cultura da cidade de Iguatu, Honório Barbosa, comenta pelo prisma jornalístico a reabertura do Museu Iguatuense da Imagem e do Som, instituição erigida durante a administração do prefeito Hildernando Bezerra a partir de Lei de minha autoria aprovada pela Câmara Municipal.
Era o meu primeiro mandato como vereador, período em que atuei enfaticamente no campo da arte e da cultura, buscando alternativas de ação contra um dos mais graves problemas da cidade no que diz respeito às coisas da inteligência, da arte e da cultura de um modo geral: a falta de memória, o esquecimento, a indiferença em relação a tudo que não esteja diretamente relacionado ao que, na falta de melhor expressão, pode-se definir como o lado prático das coisas, entendendo-se por isso a forma objetiva de ganhar a vida ou acumular a riqueza material.
Sob esse aspecto, sendo um dos mais importantes municípios do interior do estado, Iguatu esteve sempre muito atrás de outras cidades, a exemplo do triângulo Crato, Juazeiro e Barbalha, onde a produção cultural jamais deixou de ser objeto da atenção da população como um todo, das lideranças políticas, dos artistas e dos intelectuais.
Não por razões estranhas ao que afirmo aqui, é que essas cidades se destacaram como centros de produção de muito do que existiu e existe no estado de mais significativo em termos de cultura popular, literatura, teatro, dança, música e outras expressões artísticas de reconhecido valor para além de suas fronteiras geográficas.
À mesma época, tendo participado da elaboração da Lei Orgânica do Município, avanço inestimável como caminho para se pensar a vida dos municípios nunca perspectiva mais atenta às suas particularidades econômicas, culturais, históricas etc., sem que se perca de vista a necessidade de intercâmbio de vocações e potencialidades regionais, no entanto, é que me debrucei sobre um conjunto de ações que tinham por objetivo a revitalização de nossas tradições culturais e o incentivo à pesquisa de novas possibilidades no terreno da produção cultural, do estímulo à leitura, da educação estética, da formação de uma consciência política capaz de vencer preconceitos e romper barreiras historicamente fortalecidas pelo descaso das autoridades e inexistência de projetos de largo alcance no campo da educação e da arte.
Ao lado desses esforços, muitas vezes incompreendidos ou intencionalmente desprezados pelos poderes constituídos, de que infelizmente fiz parte como uma voz quase isolada e por isso mesmo muitas vezes impotente, é que deixei na "constituição municipal" dispositivos legais quase nunca observados, a exemplo da obrigatoriedade de preservação do patrimônio arquitetônico, logradouros, monumentos e edificações, essas, por exemplo, proibidas de demolição ou reformas estruturais e de fachada que desfigurassem sua aparência física e/ou funcionalidade.
É olhar ao redor, leitor, e ver que essas investidas legais não foram, não são e, não é muito arriscar, jamais serão obedecidas. A cidade e seus "cidadãos", com sua vocação para a chamada dimensão prática das coisas e a acumulação da riqueza, hoje, como ontem e talvez amanhã, vive assim sua vida vidinha, exceto para uns poucos que podem viajar e ter acesso aos bens culturais de real valor e significado.
Nesse contexto e nessa perspectiva, é que aplaudo a reabertura do MIS (Museu Iguatuense da Imagem e do Som), não apenas como seu fundador, muito embora esquecido, coisa de resto irrelevante, mas acima de tudo como filho da cidade em que nasceram Eleazar de Carvalho, Humberto Teixeira, Fran Martins, e, por adoção, o cantor e compositor Evaldo Gouveia.
Ainda que à distância, torço para que se dê importância à Arte e à Cultura, e que, Fênix, renasça das cinzas a Memória do que um dia fez de nossa terra motivo de orgulho.


 


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da Arte e das mulheres

Tirando a mulher, o resto é paisagem. Se não me falha a memória, está na poesia de Dante Milano.
 
A propósito, voltando-me para o universo da Arte, quem ainda não terá ouvido falar, por algum meio e em medida alguma, das belas mulheres do Louvre? Pois bem, são famosas as musas que constituem uma porção especialmente atraente do mais famoso museu de Paris.

Começo por me reportar à escultura "A Vitória de Samotrácia", de autoria desconhecida, a ocupar um lugar especial no topo de uma escadaria do suntuoso edifício. A sua realização remonta, supostamente, a 190 ou 200 anos a.C. Como atestam alguns historiadores, seria provavelmente a ponta esculpida de uma proa de navio, ou, como querem alguns outros estudiosos da história da Arte, um ex-voto dedicado a uma conquista ou a uma batalha vencida.
Pouco vale saber. O mais importante é estar aqui, cheia de mistérios e deslumbrante beleza, ao alcance dos meus olhos, súditos e derramados de prazer, numa experiência estética para a qual não encontro um nome ou definição possível: o milagre da Arte.
Para além disso, o que parece consensual é que a peça constitui um símbolo da vitória humana sobre o desconhecido. Sem cabeça e braços, a escultura avulta, solene e sedutora, entre as muitas mulheres do Louvre, como se a Arte seja mesmo capaz de salvar o mundo.
Havia pouco topara eu com a "Vênus de Milo", com o sortilégio de sua nudez, despertando em mim, como a gregos e troianos, um tipo de "iconologia" ante a sensualidade clássica, que, como se por força de alguma magia, parece surgir do mármore, inexplicável e prodigiosa.
Representa, como se sabe, Afrodite, a deusa grega do amor e da beleza, chamada de Vênus entre os romanos. Diante da estátua, curvo-me sobre o ombro da namorada para comentar a nudez ambiguamente contida e provocadora da deusa. Lembro-lhe, na oportunidade, vezo de professor, que Heine, Henri Heine, o famigerado poeta alemão, chamava-a de "Nossa Senhora da Beleza". Eu, e meus poetas...
Pouco depois, outra das mulheres encantadoras do museu, a jovem ‘Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Délacroix, obra-prima do Romantismo francês, antecipando-se no tempo, para exaltar a capacidade revolucionária da figura feminina em meio a um mundo, desde então, dominado por homens. Até quando?
Assim, aqui e além, cada uma com sua magia e seu encantamento, carregadas de simbologias e sugestões, veem-se no Louvre essas maravilhosas mulheres, musas inspiradoras dos grandes nomes da Arte Ocidental.
Que dizer, então, a dois passos de mim, do olhar indecifrável da pintura de Lisa Gherardini, a poderosa mulher do florentino Francesco di Bartolomeo di Zanoli del Giocondo (arre!). Ou, simplesmente, a Gioconda, mais conhecida como Mona Lisa, incomparável representação do Alto Renascimento e do gênio de Leonardo di Piero Da Vinci.
Tomado de espanto, no sentido com que a define o poeta Ferreira Gullar, deparo, assim, com uma quase multidão de turistas diante da tela de proporções tão pequenas, e importância gigantesca, de Leonardo Da Vinci.
Agora veem-se pessoas tomadas de uma emoção intensa, não raro mal disfarçando as lágrimas incontidas, como não acreditando estarem aqui, tão próximo (e tão distante) da mais aurática e mais esplendorosa obra do cânone artístico ocidental.
Com o seu sorriso desafiador e profundamente enigmático, expressão de um ato paradoxalmente imponente e simples, contemplo a figura intraduzível, e penetrante, e sedutoramente serena da mais conhecida mulher da Arte Ocidental, a Mona Lisa, sobre quem, num tipo inusitado de sortilégio, ocorre-me lembrar, em leitura poética memorável, dirá o poeta Carlos Drummond de Andrade em "Farewell", seu derradeiro livro: “O ardiloso sorriso/alonga-se em silêncio/para contemporâneos e pósteros,/ansiosos, em vão, por decifrá-lo./Não há decifração. Há o sorriso.”
Assim, enigmáticas, intangíveis, sedutoras, como querem alguns; obscuras, inexplicáveis, cheias de mistério e encanto, sob a avaliação de outros; fortes e sensuais, quem sabe firmes e decididas, como as figuras reais que lhes serviram de modelo, as mulheres do Louvre são um espetáculo à parte. Vou adiante.
Inspiradoras ou veladamente soberbas, por certo, sublimes, como me é dado percebê-las neste instante, tal qual estas mulheres do Louvre, são também, sem distinção de cor ou de raça, todas as mulheres, em todos os lugares, através dos tempos e das culturas, despertando-nos, do alto de sua grandeza e significado real, a consciência de nossa pequenez --- e, o que mais importa, a necessidade de admirá-las e respeitá-las sempre, num mundo de misóginos e intolerantes.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Exaltemos Jorge Amado

Com Paulo Elpídio, em conversa rápida por telefone, sou assertivo: "A crítica literária brasileira, com a exceção de Antonio Candido e uns poucos, de tão obtusa, jamais deu a Jorge Amado o valor que fez por merecer como ficcionista. Paulo Elpídio acabara de me enviar um fragmento de seus belíssimos diários em que o escritor baiano aparece como figura central.
De fato, passados tantos anos desde a sua morte, o Brasil ainda está em dívida com o nosso mais importante romancista, em que pese, por óbvio, o prestígio de que, mesmo em vida, Amado gozou no país e no mundo.
A exemplo do que se fez a Érico Verissimo (por um outro viés), e talvez em medida menor, Jorge Amado terá incomodado a certos críticos, e aos meios intelectuais como um todo, não apenas por suas posições políticas, mesmo quando, com certa demora, veio a repudiar as atrocidades do stalinismo, de que fora entusiasta por um longo tempo.
O elitismo entreguista de alguns dos nossos mais renomados críticos de direita, sempre fiéis aos valores da burguesia --- e aos romancistas que edulcoravam as contradições do modelo econômico vigente ---, nunca suportou o fato de que Jorge Amado povoasse seus romances com negros, mulatos, soldados, putas, malandros e outras tantas figuras do submundo baiano, dando a essas personagens protagonismo e voz, coisas impensáveis senão pela vocação documental da prosa de ficção naturalista.
Na ocasião em que Jorge Amado, aos 26 anos, apareceu em coleção importante da Gallimard, com "Bahia de tous les saints" (Bahia de todos os santos), como foi intitulado em francês o romance "Jubiabá", compondo ao lado de gente como Ernest Hemingway, John dos Passos e Jean-Paul Sartre uma lista de novos escritores notáveis, a crítica brasileira ignorou as qualidades estéticas da obra a fim de buscar "justificativas" para tamanho prestígio. Sobre isso, aliás, é oportuno ressaltar a ironia com que Graciliano Ramos anteviu o complexo de vira-lata dos brasileiros em face do sucesso do livro na Europa: "Que dirão em Paris vendo os pretos e esfarrapados que há nos livros do sr. Jorge Amado? Naturalmente dirão que vivemos numa terra de percevejos e moleques" (Joselia Aguiar, "Uma biografia, Jorge Amado", Todavia, 2018).
Jubiabá, lançado no Brasil três anos antes, constitui um verdadeiro romance de formação e explora um dos temas que viriam a ser recorrentes no conjunto da obra de Jorge Amado: a força da cultura afro-baiana contra as injustiças sociais decorrentes de um tipo de sociedade perversamente desigual.
A crítica tradicional brasileira, toda ela burguesa ou em vias de aburguesamento, obviamente não haveria de ver com bons olhos tal literatura. Nesse sentido, poucas análises dedicar-se-iam a tentar compreender as qualidades estéticas do livro, a função social que teria a cumprir num país marcado por tantas contradições e assentado em bases econômicas tão injustas.
Mesmo a dimensão artística do romance ficaria à mercê de juízos rasteiros ou, quem sabe intencionalmente, alheios à força de sua narrativa e à sua extraordinária beleza poética.
Como destacaria Antonio Candido, na contramão dos julgamentos então dominantes, Jorge Amado, se não se propôs realizar o mergulho na alma humana, acusado por isso mesmo de superficial, soube "construir personagens tão ricos e tão vivos quanto os mestres da análise". Sob esse aspecto, com a segurança e a verticalidade que são mesmo uma marca indelével do seu caráter como crítico literário, Antonio Candido pontua o que lhe parece uma evidência entre os críticos brasileiros: o fato de que ignoram que "a análise psicológica não é a única via de conhecimento do homem" (Brigada Ligeira, Todavia, 2025).
Nessa perspectiva, por sinal, é que o escritor argelino Albert Camus, expoente do existencialismo, exaltou em artigo memorável "Jubiabá" , "um livro prodigioso", em que o documento e a poesia se entrelaçam como esteio de uma grande obra. Elogios igualmente exaltados lhe dedicaram André Malraux, na França, e Adolfo Casais Monteiro, em Portugal.
Mas é reducionista centrar elogios num único livro de Jorge Amado. "Jubiabá", na humilde opinião deste escriba, sendo de fato um grande romance, anda longe de ser o melhor da vastíssima obra do escritor baiano. Há que se ressaltar o lirismo e a poesia de "Mar Morto", a grandiosidade histórica de "Terras do Sem-Fim", a sensibilidade estética e a denúncia desconcertante de "Capitães da Areia", o ecologismo pioneiro de "Tieta do Agreste", a presença incontornável do intelectual orgânico em "Tenda dos Milagres", a lufada de amor de "Gabriela, Cravo e Canela", livros em que a força telúrica, o amor, a luta, a miséria, a aventura e a humanidade de um povo constituem a matéria de que se valeu Jorge Amado para realizar uma das maiores obras literárias da língua portuguesa. Ontem, hoje e sempre.
E o quanto terá incomodado ao puritanismo hipócrita da crítica dominante, a linguagem desabrida e o léxico chocante com que Jorge Amado sobrepujou preconceitos e tabus. A esse propósito, me desculpando para com os mais conservadores, tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Jorge Amado, ao responder, em passagem de "Tieta do Agreste", a um gramático soteropolitano que o aconselhava a medir palavras para narrar cenas de sexo e descrever a nudez das mulatas de Salvador, citando-o de cor: "Meu querido [...], querem abolir da literatura brasileira as palavras que exprimem com exatidão, vigor e poesia; o cheiro, o sabor, a  beleza, a perfeição, a eternidade: xoxota, xibiu e boceta, por exemplo!".
Exaltemos Jorge Amado.

 
 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Duas palavras sobre Affonso Romano de Sant'Anna (1937-2025)

Estudante de Letras, pelos idos de 80, acomodo-me a uma poltrona da primeira fila do auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC. Bem à minha frente, compondo a mesa de conferência, está Affonso Romano de Sant'Anna, poeta, ensaísta, cronista, crítico de arte, que profere palestra sobre literatura luso-brasileira com o tino e a densidade acadêmica que marcam sua trajetória intelectual e artística de altíssimo nível.
Ao final, depois de responder a mil perguntas que lhe são dirigidas sobretudo por alunos da universidade, vestindo um blazer marrom sobre uma camisa escura de gola rolê de gosto duvidoso (o que lhe acentua a palidez da pele), Romano desce do palco e, bastante assediado, a custo tenta ser receptivo com todos.
Vendo-me a pouca distância, aguardando com educação a oportunidade de me dirigir a ele, o escritor faz um sinal com a cabeça, como a dizer que o acompanhasse até a área externa do auditório.
Caminhando pelo jardim até a sombra acolhedora de uma mangueira frondosa, posso finalmente abordá-lo amiúde. Amante da obra de Carlos Drummond de Andrade, da qual Affonso Romano de Sant'Anna era reconhecidamente o maior especialista, encareço dele apontar uma perspectiva de exame que possa acrescentar à fortuna crítica do nosso maior poeta. Embora gentil, em que pese a postura ligeiramente arrogante, que soube depois tratar-se de uma de suas marcas pessoais, Romano observa ser desaconselhável indicar caminhos em trabalhos do gênero, e conclui, evasivo, antes de retirar-se: "Explorar o filão memorialístico, quem sabe...". É como desfecha nossa conversa, ainda escrevendo uma dedicatória do seu "O enigma vazio", livro que tantas vezes, como professor, viria ter eu nas mãos durante aulas sobre arte conceitual e outras expressões estéticas ditas pós-modernas.
Ao lado de tantos outros intelectuais (Robert Hughes, Tom Wolfe, George Steiner, Ferreira Gullar etc.) a quem a irreverência, chacotas e expedientes estéticos de qualidade duvidosa da arte "contemporânea" causavam imenso desconforto, na linha do urinol de Duchamp e das latinhas de Piero Manzoni, contendo "merda d'artista" (conforme intitulou sua obra de 1968), Affonso Romano de Sant'Anna produziu um livro fundamental para o debate no Brasil acerca da validade de tais experiências estéticas. Mas o faz tomando por base textos de gente grande, verdadeiros ícones da crítica de arte que se dedicaram a defender esses artistas transgressores em verdadeiros exercícios de subjetivação, "delírios interpretativos" e abusos lógicos.
Anos depois, através de um amigo de Belo Horizonte, consigo o que parecia improvável: o contato de Affonso Romano de Sant'Anna, morando no Rio, à época. Agora pesquisava eu a poesia de Drummond em outra dimensão, no que viria a ser a minha dissertação de metrado sobre "componentes dramáticos" da poética do itabirano. Trata-me com delicadeza, sem a empáfia de antes, mas é taxativo, equilibrando-se entre a indiferença e a fria generosidade: "O que tinha a dizer sobre Drummond está no meu livro", referindo-se ao clássico "O gauche no tempo".
Sabendo que homem e artista não são exatamente a mesma coisa, continuaria eu a ser um leitor compulsivo de sua obra monumental --- do ensaísta profundo, do cronista inconfundível, do crítico de arte notável, mas, sobretudo, do poeta extraordinário, cuja visada política exercera sobre mim e os de minha geração tanta influência, desde que a leitura de "Que país é este?"*, em plena ditadura, despertara em nós o sentimento de revolta contra aquele estado de coisas, sem que, no entanto, jamais perdêssemos a confiança no futuro ao encontro do qual caminhávamos, muito embora atônitos.
Quando em abril de 1981, em evento dedicado à festa do Dia do Trabalho, um capitão e um sargento armavam uma bomba no Riocentro, e o artefato explodiu dentro do carro em que estavam, no cumprimento de um expediente sórdido arquitetado pelo Exército, o governo golpista tenta livrar-se da responsabilidade montando uma farsa ridícula. Affonso Romano de Sant'Anna veio a público com "A implosão da mentira", um poema desconcertante: "Mentiram-me. Mentiram-me ontem/e hoje mentem novamente./Mentem/de corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão pungente/que acho que mentem sinceramente. [...] E de tanto mentir tão brava/mente/constroem um país de mentira/diária/mente".
Pouco antes de sentar-me diante do computador para escrever esta coluna, virei a última página de "Quase diário", um dos últimos livros de Affonso Romano de Sant'Anna. Leitura absolutamente prazerosa, dessas em que as funções cognitiva e lúdica do texto se nivelam, numa experiência horaciana que ao mesmo tempo ensina e diverte, revelando o homem comum com suas contradições, sua vaidade, suas atitudes talvez questionáveis, mas, acima de tudo, o tamanho imenso de sua presença na vida intelectual e artística do país nos 40 últimos anos.

*"Uma coisa é um país,/outra um ajuntamento.//Uma coisa é um país,/outra um regimento.//Uma coisa é um país,/outra o confinamento.//Mas já soube datas, guerras, estátuas,/usei caderno "Avante"/--- e desfilei de tênis/para o ditador.//Vinha de um "berço esplêndido"/para um "futuro radioso"/e éramos maiores em tudo/--- discursando rios e pretensão.//Uma coisa é um país,/outra um fingimento.//Uma coisa é um país,/outra um monumento.//Uma coisa é país,/outra o aviltamento." (fragmento).
 

  
 


 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Palavras ligeiras sobre Aderbal

Ficara de nos encontrar tão logo caísse o pano, ao final da peça. Não o fez, e esperamos por algum tempo ainda acomodados às poltronas do teatro. Como não apareceu, descumprindo o trato, decidimos ir embora, César Rossas, seu primo, não conseguindo esconder sua decepção. “Deve ter ocorrido algum imprevisto… Vamos!”, ponderou, o braço repousado no ombro da mulher, a biógrafa Beta Fiuza.
Mal descemos os degraus que nos levava ao saguão do teatro, no entanto, como a querer nos pregar um susto à maneira de um menino travesso, sai ele detrás de uma coluna, o sorriso belo e solto, traço inconfundível do homem simples e exemplarmente generoso que sempre foi. Abraçou-nos com aperto e afeto, como se a reencontrar nesse abraço com toda a gente de sua terra — amava Fortaleza, de que estava ausente, exceto em vindas esporádicas, desde que decidira trocar a capital cearense pelo Rio de Janeiro, para se consagrar um dos maiores nomes da dramaturgia no país.
“Minutinho, que a Marieta foi se trocar!” Balbuciou, referindo-se a sua companheira durante 15 anos, a atriz Marieta Severo, cuja atuação no monólogo “Incêndios”, nos emocionara tanto, havia poucos instantes.
Não demorou, e vem ela ao nosso encontro, elegante e sorridente, ainda que visivelmente cansada depois de quase duas horas em cena.
Entre os muitos assuntos sobre os quais discorremos, falo ao casal sobre o fato de ter eu interpretado, em montagem mais recente, a personagem Osvaldo, na peça "Aquela garota dos olhos grandes", o último trabalho do diretor em Fortaleza, quando ainda era conhecido como Aderbal Jr.
O assunto desliza para nossa permanência no Rio e a agenda que temos para o dia seguinte.
Um dos mais prestigiados homens do teatro brasileiro, diretor de clássicos da dramaturgia mundial, a exemplo de “Hamlet”, de Shakespeare, em montagem histórica tendo Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca, ou nacionais, como “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde, Aderbal Freire-Filho contaria 85 anos no próximo mês, mais precisamente no dia 8.
Consequências de um AVC, contra o qual, em doloroso silêncio, lutou por três anos, em UTI montada em casa pela mulher, na Gávea, Aderbal morreria em 2023, abrindo um buraco enorme no meio teatral em que se notabilizou como o mais original e criativo diretor de sua geração.
Quatro anos antes de completar 80 anos (e dois antes do AVC), sem que nem mesmo Marieta Severo soubesse, Aderbal organizara um inventário de parte significativa de seus escritos, textos sobre teatro, cartas, entrevistas, artigos de conotação política e apresentações de peças que dirigiu ao longo de mais de trinta anos dedicados à arte cênica.
Esse material, para a felicidade da cultura artística brasileira, seria cuidadosamente organizado por Marieta Severo e Patrick Pessoa, amigo íntimo e admirador dedicado de Aderbal Freire-Filho, a quem a atriz confiaria a produção do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor” (Cobogó, 2026), a ser lançado dia 8 do próximo mês no Teatro Poeirinha, em Botafogo, inaugurando uma série de eventos em homenagem ao artista cearense.
Entre os escritos que compõem o livro, pelo menos um deles extrapola os limites do teatro e adentra o universo íntimo do casal: uma carta em que Aderbal, ao lado de recomendar, premonitório, como se deveria dar publicidade ao material inédito, revela seu amor pela mulher: “Em todos os meus sonhos estou com você. Eu te amo muito e nada é melhor que estar perto de você”.
A uma dada altura, com a mesma simplicidade e o mesmo jeito singularmente humano de ser e encarar a vida, o artista expõe algumas de suas inquietações de foro íntimo: “Não fui um bom pai. Não tive netos”.
O gesto, contudo, mais diz de sua imensa sensibilidade e correção pessoal, que da verdade dos fatos. Nesse sentido, é oportuno lembrar, pela irretocável correção de caráter e doçura interior contagiante, é que Aderbal Freire-Filho foi mesmo uma unanimidade entre aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Como pesquisador incansável, debruçou-se sobre as origens do teatro, encontrou caminhos nunca explorados para teorizar sobre as impensáveis possibilidades do ator em cena, bebeu nas fontes do Teatro Épico, de Bertolt Brecht (1898-1956), até criar o que se pode considerar um novo método, um teatro "coletivo", aberto ao diálogo com o público. Renovou a linguagem cênica, venceu preconceitos estéticos, repensou a semiologia teatral, engajando-se na luta pela liberdade do artista, atividades a que se soma a escrita de artigos  de resistência política e cultural que se tornariam uma referência em termos do moderno teatro brasileiro.
Fez história. E se tornou eterno.

Algum tempo depois do encontro no Rio, a que me reporto no início desta coluna, estaria com ele em pelo menos duas ocasiões. A última delas, em companhia da escritora Ângela Gutierrez, sua prima, no Theatro José de Alencar, onde o diretor proferiu uma de suas notáveis palestras. Ao nos despedirmos, à beira do palco, com a ternura e simplicidade que lhe eram típicas, Aderbal diria: “Até breve, no Rio!” E nos sorriu um sorriso largo e doce.
César Rossas, seu primo, e irmão de Ângela Gutierrez, que me aproximara de Aderbal Freire-Filho, morreria pouco depois, quem sabe à falta da vacina que lhe salvasse a vida. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite alta em Florença


    Para Carolina, minha filha linda, que, estando em Fortaleza, "estava" comigo em Florença.

Estávamos, minha mulher, meu filho e minha nora num restaurante, em Florença, comemorando os meus 70 anos. Entre uma taça de vinho e outra, tomados de poesia e afeto, vem a pergunta: "O que é fazer setenta anos?".
A curiosidade de Juliana, minha nora, provocou-me a princípio um ligeiro engasgo, a que tentei disfarçar bem ao meu jeito, lançando o olhar para o que, não estivéssemos entre paredes, poderíamos chamar de infinito.
Ocorreu-me lembrar de uma crônica de Távola sobre o que é ser pai: "... é aprender, errando, a hora de falar e de calar. É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois". (...) É ocultar-se na obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante". E fui adiante, na difícil tarefa de definir o indefinível.
Ter setenta anos, falei, é quando cai a ficha e finalmente compreendemos que deixamos de ser um ídolo para os nossos filhos. E saber-nos, assim, humanos, demasiado humanos, é um sentimento que, se fere a vaidade do pai, acaricia a alma do homem, aliviado do peso das ingênuas ilusões --- é colher, com mãos humildes, o resultado do que plantou, aceitando com serenidade o que, por inevitável, chamamos realidade do Mundo.
Meu filho, olhar terno e doce, me ouvia com tal atenção e tamanho carinho, que, por iniciativa sua, punhos cerrados, esmurramos com delicadeza a mão um do outro, como o simpático emoji a dizer, sobre a beleza da amizade, mais que todas as palavras.
Naquele murro de mentirinha, havia todas as brincadeiras que brincamos juntos, todos os sorvetes que tomamos, todas as viagens que fizemos, todos os SIM e NÃO que lhe dei, todos os sonhos que se tornaram realidade, todos os abraços que trocamos, todas as fantasias que se desmancharam com o passar dos anos, todos os seus gritos de alegria a cada volta minha, ao final do dia.
Estavam, naquele murro de mentirinha, todas as dores que dividimos nos momentos difíceis de nossas vidas, mas, acima de tudo, estava a alegria e a gratidão de sabê-las superadas.
Fazer setenta anos, voz embargada pela emoção, disse eu, é deixar de ser o ídolo para os nossos filhos, sem perder o status de ser uma referência.
E não me refiro, deixei claro o que já era óbvio, ao prestígio que se busca conseguir a qualquer custo, vezo de nossa época, nem ao patrimônio material ou fortuna que por ventura tenha o homem construído, nem aos cargos importantes que ocupou. Suas honrarias, seus prêmios e títulos. Não, não é isso que torna um homem uma referência.
Falo do exemplo, da correção moral, da firmeza do caráter, da sabedoria de reequilibrar o passo a cada inevitável tropeço, de "fazer da queda um passo de dança", como a personagem de Sabino, o escritor mineiro de que gosto tanto.
Num contexto de tantas injustiças e desigualdades, ser referência é tornar-se solidário ao outro, e buscar, nos limites de suas possibilidades, contribuir para a construção de um mundo mais justo e mais humano. É não abrir mão de seus princípios, é compreender a dor alheia, e lhe estender a mão quando fraqueja a esperança.
Se morre o ídolo, à qualquer altura da vida de um homem, há de ficar o exemplo, essa herança maior que todas as demais heranças, sem a qual sua vida terá sido em vão.
Fazer setenta anos, dei voz ao cronista, "... é ter coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte". De cabeça erguida e com o espírito em paz. É ter, diante dos olhos, enxergando com o coração, este Ser de grandeza incalculável a que dizemos Deus.
Era noite alta em Florença.

 
 

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Como um lagarto peçonhento

Incrível como a grande imprensa brasileira (Globo, Folha e Estadão à frente) tem pautado sua agenda pelo que existe de mais abominável em termos jornalísticos. Num misto de cabotinismo e desfaçatez que beira o inimaginável, esses órgãos saíram do armário para vestir a camisa da extrema direita, e o fizeram sem medir meios e artifícios, bem na linha do que se pôde ver no caso despudorado do powerpoint da Globo News há uns poucos dias.
Não bastasse o que se configurou como um crime contra a correção jornalística e o respeito à veracidade dos fatos, num exemplo clássico da emenda sair pior que o soneto, a Globo News confiou à jornalista Andréia Sadi o pedido de desculpas mais vexaminoso de que se tem notícia nos últimos anos. Sadi, em cujo horário lançou-se mão do recurso a um só tempo leviano e criminoso, mal vestindo o papel de porta-voz da emissora, tremia lábios e embargava a voz, sabe-se lá se por nervosismo ou medo antecipado do que lhe poderá ocorrer do ponto de vista legal. No mínimo, por certo, sua imagem não apareceu bem na fotografia. 
O que se viu foi um triste e despudorado espetáculo, desses de dar pena. Se se tratava de um erro técnico (argumento desprovido de qualquer senso de responsabilidade), por que a Globo News não publicou o tal powerpoint com as devidas correções, mostrando os reais envolvidos no caso Master, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente Bolsonaro e sua quadrilha à frente, até agora não foi explicado --- e não será.
A Globo sendo a Globo, isto é, arregaçando as mangas e indo à luta contra a democracia, a exemplo do que fez (pediria desculpas algum tempo depois) quando do golpe de 1964.
Situação semelhante, lembremos, viveram os jornais citados acima. Oportuno lembrar que A Folha, por exemplo, fez o mesmo que a Globo: apoiou desavergonhadamente a ditadura, a cujo fato veio se referir com enfático pedido de desculpas que constou com destaque da programação do seu centenário, recentemente festejado.
Com o Estadão, também, ocorreria o mesmo. E é de causar asco o que vem fazendo em termos de cobertura e análise da conjuntura política e do processo sucessório de 2026.
Vira e mexe, sabe-se, essa imprensa veste a carapuça, assume aberta ou subliminarmente candidaturas de direita ou extrema direita, golpeia de morte a ética jornalística e fomenta o golpismo para depois vir a público com revelações e pedidos de desculpa que mais dão a medida de sua cretinice que reparam os graves erros cometidos. Quer vender a imagem da correção jornalística e escorrega feio na gosma do seu próprio vômito, assim como um lagarto peçonhento que cospe para um lado e outro à procura da vereda a seguir. Vergonha.
   

quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

Até chegar a Milão, fiz de trem uma bela viagem. No meu caso, a forma alongada do território italiano ajudou muito, embora, algumas vezes, tivesse eu de sair da linearidade do roteiro a fim de conhecer uma ou outra cidade mais interessante.

Parti de Berna, na Suíça, chegando, inicialmente, como disse acima, a Milão. Depois, Verona, Veneza, Bolonha, Gênova, Florença, San Remo e Pisa. Iria, ainda, na ordem das recordações deste instante, a Roma e Nápoles, sobre cujas cidades escreverei depois.

Como fosse inevitável ziguezaguear, ora à direita, ora à esquerda do mapa, percorri longos trechos do litoral entre o Tirreno (parte do Mar Mediterrâneo que se estende pela costa Oeste) e o Adriático, ao Norte da Itália, conhecendo, assim, cidades menos importantes, cujos nomes me fogem na distância desses muitos anos.

A Itália, todos sabem, é um país fantástico, de uma beleza natural estonteante, mas foram a riqueza de sua cultura e a prodigalidade de sua arte o que mais me encantou, desde que aqui estive pela primeira vez.

Chegando a Florença — muito jovem ainda, dava eu os primeiros passos no vastíssimo terreno da história da arte —, deparo com o Duomo, a impressionante obra de Brunelleschi. Uma sensação indescritível se apossou de mim ao primeiro olhar. Mas é a visita às igrejas e museus que me deixam definitivamente tragado pela beleza do estilo em que sobressaem, em equilíbrio de massas e medidas, os traços serenos da Renascença.

Artistas geniais, objeto de tantas aulas deste velho professor de Arte, como Michelângelo, Fra Angélico e Donatello, para não falar no inacreditável Leonardo Da Vinci, deixaram aqui um legado que em nenhum outro lugar pode-se ver em tamanha exuberância.

O mapa da cidade, lembrando a forma de um peixe, com um traçado profundamente irregular, embora dificulte um tanto o deslocamento entre um e outro ponto turístico, ocasiona a quem caminha por estas ruas uma sensação de profundo bem-estar, misto de sonho e realidade.

Síndrome de Stendhal*. A beleza extrema a desencadear sintomas físicos reais, palpitações, vertigens, delírios... Ou síndrome de Florença, apenas?

Paroxismos à parte, contemplo algumas das obras da mais elevada significação da arte ocidental. O Duomo de Santa Maria Del Fiore, já referido neste diário, com uma majestade que transita do gótico para o neogótico, suas capelas encantadoras, seu campanário de revestimento sedutor, com mármore toscano em diferentes cores.

Adiante, refeito do primeiro impacto, deparo com a beleza inigualável do "Juízo Final", afresco de Giorgio Vasari, a quem devemos, entre tantas obras, o incontornável "Vidas", biografia dos expoentes do Renascimento italiano.

Em seguida, pelos dias que me restam aqui,  dou-me a uma sucessão de atrações, a exemplo da Galleria dell'Accademia, Pallazo Pitti, Palazzo Vecchio, Igreja de San Marco, Museu Bargello e, supostamente a mais antiga galeria de arte de que se tem notícia, a Galleria degli Uffizi, onde me encanta a "Vênus de Urbino" (1538), de Ticiano, e, mais tomado de enlevo, deparo com "O Nascimento de Vênus" (1485), de Botticelli.

Berço do Renascimento, Florença, assim, transpira arte e magia, sortilégios e fascínios.

Caminhar por suas ruas estreitas, remanescentes da Idade Média, como disse, é uma experiência indescritível, embora, vez e outra, o turista desatento corra o risco de ser atropelado pelas incontáveis motocicletas que circulam pela cidade, num viravoltear enlouquecido que contrasta com o ritmo doce e terno do lugar. 

Mas não é só a arte da Renascença que excede, aqui, em sua presença pujante e sedutora. Ao lado de grandes nomes do Alto Renascimento, como os já citados Rafael, Da Vinci, Michelângelo, Botticelli, Ticiano, e tantos outros, na Galleria degli Uffizi, por exemplo, deparamos com obras de Caravaggio, Rubens, Rembrandt, entre muitos ícones do Barroco. 

Amante das artes e das viagens, voltaria a Florença outras vezes, a exemplo do que faço nesse 29 de março, para festejar, grato a Deus e ao Destino, a chegada do meu heptagésimo aniversário.

Tudo envolve, alicia, deslumbra...

E tinha tanto mais por dizer, mas a mão já reclama, errática e trêmula, delicadamente domada pela emoção.

Oxalá ainda me sejam muitas as viagens — e, abençoados, os anos que virão.

*O escritor francês relatou essas reações ao visitar a Basílica de Santa Croce, em 1817.

P.S. O texto, como é comum no gênero, joga intencionalmente com tempos verbais, descumprindo orientações de gramática e estilo, num tipo de subjetivação que obedece mais às oscilações do sentimento que ao rigor da forma. 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Democracia e pensamento crítico

Morreu nesta semana, aos 96 anos, Jürgen Habermas. Nome de proa da Escola de Frankfurt, que reuniu além dele nomes de peso da filosofia e ciências humanas, a exemplo de Walter Benjamin, Max Horkheimer e Theodor Adorno.
O filósofo alemão é autor de uma obra que permanecerá por muito tempo entre o que de melhor se produziu sobre temas como democracia, comunicabilidade e tolerância. Esta, a razão por que seu nome ocupou espaço de destaque nos órgãos de imprensa durante os últimos dias, ensejando, no entanto, por ignorância intelectual ou oportunismo, leituras não raro equivocadas sobre o seu pensamento.
Amparando-se em interpretações distorcidas do pensamento habermasiano, houve, por exemplo, quem tentasse professar a necessidade de que sejam respeitadas ideias estapafúrdias do ponto de vista científico ou moralmente inaceitáveis, como faz uma certa parcela da população ao discutir o conceito de liberdade para golpistas ou a representatividade política de Erika Hilton à frente da Comissão dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados.
De fato, no conjunto de uma obra monumental, que produziu por mais de meio século, Habermas defendeu sempre a possibilidade do debate construtivo em torno das questões fundamentais da sociedade moderna, mesmo quando as "convicções" se mostram parcial ou completamente contraditórias. Mas isso não significa dizer que tudo pode ou deve ser aceito, por descabidas que sejam as ideias e desprovida de substância intelectual o confronto (uso a palavra intencionalmente, para evidenciar o que vem ocorrendo nos meios políticos brasileiros nos últimos anos).
Radicalizo: é desprezível como objeto de discussão, por exemplo, afirmar que a terra é plana, ou exaltar a figura de uma liderança política autoritária em discurso de defesa da liberdade democrática. Assim como é desprezível, por outro lado, o argumento de que, não sendo biologicamente feminina, a deputada do PSOL não possa representar com propriedade os direitos da mulher numa comissão da Câmara dos Deputados.
Para haver o debate construtivo, tal qual defendido por Habermas no seu incontornável "Teoria da Ação Comunicativa"*, é necessário que o discurso discordante reúna um mínimo de sustentação do ponto de vista racional, que seja ele baseado em elementos defensáveis na perspectiva intelectual, moral, científica e ideológica, ainda que pautado em visão de mundo diferente.
Voltando, pois, aos exemplos do parágrafo acima, não se pode discutir o indiscutível, pois a terra é comprovadamente redonda; um golpista não pode ser tomado como adepto da liberdade democrática, assim como a representatividade política exige do representante (no caso, da representante) atributos como correção moral, capacidade de liderar, coerência na defesa dos interesses daqueles ou daquelas que representa, preparo intelectual e compreensão dos desafios da época em que atua ou atuará como agente político, coisas que fizeram de Erika Hilton uma deputada brilhante, não as suas características biológicas, como querem os que se recusam a aceitar que uma mulher trans seja eleita para presidir uma comissão de defesa da mulher.
No que é natural, homens escolhem homens e mulheres para representá-los; mulheres, idem, como é próprio das democracias dignas de receber este nome.
Leituras desatentas ou equivocadas não podem ser tomadas como argumento num debate democrático. A filosofia política de Habermas não se presta a exortar o consenso pelo consenso, a aceitação acrítica do que é inaceitável, a convergência e o acordo tácito do que é insustentável na perspectiva científica, intelectual e ética.
A ação comunicativa que professa pressupõe seriedade, respeito, tolerância, mas jamais fecha os olhos para as condições em que se dá o debate, o conflito de interesses, as ideias, os objetivos e vontades que estão por trás da divergência, sob pena de ser, na linha do que advertiu Marx, um mero artifício de falseamento da realidade com propósitos de assegurar vantagens e poder.
Habermas dedicou sua vida a explicar como é possível a convivência educada entre os diferentes, as trocas argumentativas públicas que não resultem no conflito violento e na recusa do outro.
A democracia não é um regime de pensamento único, que nega ou impede o conflito, mas um modelo de sociedade em que as diferenças constituem a matéria essencial da liberdade como valor indispensável para o bem comum. Nunca a perda da lucidez e do discernimento. A aceitação do que é absurdo.
Num tempo em que proliferam seitas, tribos e facções, de que resultam o ódio, a intolerância, a insanidade e o fundamentalismo delirante, a morte de Jürgen Habermas abre um vazio imenso.
 
 *Publicado em 1981, "Teoria da Ação Comunicativa", em dois volumes, reúne as ideias centrais da filosofia harbemasiana sobre o que se pode definir como uma teoria crítica das sociedades modernas capitalistas. Dele, recomenda-se, ainda, "Mudança Estrutural da Esfera Pública" e "Direito e Democracia", publicados no Brasil pela Editora UNESP.