Eis que volto ao assunto do momento: a Copa do Mundo, muito embora sem conhecer resultado e desempenho da seleção no jogo de ontem. Calculo, sem esquecer que inexiste lógica rigorosa no futebol, que haverá de ter sido elástico, o primeiro, e satisfatório, o segundo. Noutras palavras: quem sabe uma goleada frente ao sofrível time do Haiti, e, quanto à atuação do escrete, para lançar mão do saudosismo linguístico, algo que faça esquecer o quase desastre da estreia.
Afinal, a quem terão faltado olhos para ver o óbvio: que a seleção fez uma de suas piores estreias em Copa do Mundo, quer sob o ponto de vista do desempenho propriamente dito, quer no quesito do tal "amor à Pátria". Se o time fraquejou em termos táticos (conjunto), não fez melhor em se tratando de coragem, disposição de luta e mobilização de esforços.
Irreconhecível? Não, que essa turma do Carlo Ancelotti não inspira confiança, e, na sua maioria, sequer merece vestir a camisa de uma seleção 5 vezes campeã do mundo.
Esta a razão por que recomendei com tanto entusiasmo o "docudrama" A Saga do Tri, da Netflix, como antevendo que não se pode perder de vista o passado para se compreender o presente. Onde tínhamos um time empenhado em representar com dignidade o Brasil, mesmo sob a pressão dos horrores da ditadura, temos agora um bando de garotos-propaganda do que existe de pior em termos de produto de consumo: a jogatina que tem levado parte significativa da população brasileira ao endividamento --- e aos males dele decorrentes. Sem falar nos acordos espúrios que resultaram em convocações injustificáveis, a exemplo da de Neymar, como resta óbvio, "bichado" dos pés à cabeça, em que pesem a boçalidade e o maneirismo ao lidar com a bola no aquecimento para os treinos de que não vai participar. Indecência!
A propósito, atente-se para as condições em que se davam os treinamentos da seleção de 70, que o filme, com alguma dose de ficção, é claro, mostra exemplarmente bem: os jogadores eram submetidos a exercício físicos rudimentares, se comparados ao que se faz hoje, com técnica e equipamentos de ponta. Mas havia entrega, voluntariedade, determinação.
Nesse sentido, veja-se o que fez Pelé, driblando seguranças e proibições do alto staff a fim de participar dos treinos e se manter em forma.
Digo isso e sei que haverá protestos entre os (poucos!) leitores da coluna, gente que não teve o privilégio de acompanhar, pela TV e pelo rádio, o que foi torcer por um time que tinha Carlos Alberto, Brito (falecido há pouco), Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Ele.
Para não falar daqueles que, menos dotados de talento, sabiam, pelo sacrifício e amor à causa, compor ao lado desses gênios sem fazer vergonha: Félix, Piazza, Everaldo, limitados (Piazza, menos) tecnicamente falando, e tão importantes na campanha inesquecível.
O mérito desses craques, é preciso evidenciar, não se reduzia ao que, no futebol, era fundamental: o desempenho em campo. Eram verdadeiros cidadãos fora dele. Politizados, amigos da liberdade e da justiça social, arregimentavam-se contra a ditadura, e erguiam voz em defesa de um Brasil melhor.
Ao invés das "arminhas" e das danças de agora, de punhos cerrados, esmurravam o ar, num simbolismo de valentia e confiança no porvir ao comemorar o gol.
Concluo esta crônica, como disse acima, ignorando o que terá sido a partida de ontem. Pouco importa, se há consistência e convicção no que digo: falta à nossa seleção, para muito além da qualidade técnica individual, o espírito de brasilidade legítima. Legítima, reitero, que as limitações de talento, na linha do que fizeram Félix, Brito e Everaldo, nem sempre são o fator decisivo para se jogar com dignidade uma Copa do Mundo.
Quanto aos dirigentes, da CBD da época à CBF de hoje, pouca coisa terá mudado. Mas futebol, em realidade, pode-se jogar fundamentalmente em campo. E nele, tanto quanto, andamos mal das pernas.
Torço para que morda a língua.
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