quinta-feira, 21 de maio de 2026

Museu Iguatuense da Imagem e do Som

Vejo na rede social um vídeo em que o secretário de Cultura da cidade de Iguatu, Honório Barbosa, comenta pelo prisma jornalístico a reabertura do Museu Iguatuense da Imagem e do Som, instituição erigida durante a administração do prefeito Hildernando Bezerra a partir de Lei de minha autoria aprovada pela Câmara Municipal.
Era o meu primeiro mandato como vereador, período em que atuei enfaticamente no campo da arte e da cultura, buscando alternativas de ação contra um dos mais graves problemas da cidade no que diz respeito às coisas da inteligência, da arte e da cultura de um modo geral: a falta de memória, o esquecimento, a indiferença em relação a tudo que não esteja diretamente relacionado ao que, na falta de melhor expressão, pode-se definir como o lado prático das coisas, entendendo-se por isso a forma objetiva de ganhar a vida ou acumular a riqueza material.
Sob esse aspecto, sendo um dos mais importantes municípios do interior do estado, Iguatu esteve sempre muito atrás de outras cidades, a exemplo do triângulo Crato, Juazeiro e Barbalha, onde a produção cultural jamais deixou de ser objeto da atenção da população como um todo, das lideranças políticas, dos artistas e dos intelectuais.
Não por razões estranhas ao que afirmo aqui, é que essas cidades se destacaram como centros de produção de muito do que existiu e existe no estado de mais significativo em termos de cultura popular, literatura, teatro, dança, música e outras expressões artísticas de reconhecido valor para além de suas fronteiras geográficas.
À mesma época, tendo participado da elaboração da Lei Orgânica do Município, avanço inestimável como caminho para se pensar a vida dos municípios nunca perspectiva mais atenta às suas particularidades econômicas, culturais, históricas etc., sem que se perca de vista a necessidade de intercâmbio de vocações e potencialidades regionais, no entanto, é que me debrucei sobre um conjunto de ações que tinham por objetivo a revitalização de nossas tradições culturais e o incentivo à pesquisa de novas possibilidades no terreno da produção cultural, do estímulo à leitura, da educação estética, da formação de uma consciência política capaz de vencer preconceitos e romper barreiras historicamente fortalecidas pelo descaso das autoridades e inexistência de projetos de largo alcance no campo da educação e da arte.
Ao lado desses esforços, muitas vezes incompreendidos ou intencionalmente desprezados pelos poderes constituídos, de que infelizmente fiz parte como uma voz quase isolada e por isso mesmo muitas vezes impotente, é que deixei na "constituição municipal" dispositivos legais quase nunca observados, a exemplo da obrigatoriedade de preservação do patrimônio arquitetônico, logradouros, monumentos e edificações, essas, por exemplo, proibidas de demolição ou reformas estruturais e de fachada que desfigurassem sua aparência física e/ou funcionalidade.
É olhar ao redor, leitor, e ver que essas investidas legais não foram, não são e, não é muito arriscar, jamais serão obedecidas. A cidade e seus "cidadãos", com sua vocação para a chamada dimensão prática das coisas e a acumulação da riqueza, hoje, como ontem e talvez amanhã, vive assim sua vida vidinha, exceto para uns poucos que podem viajar e ter acesso aos bens culturais de real valor e significado.
Nesse contexto e nessa perspectiva, é que aplaudo a reabertura do MIS (Museu Iguatuense da Imagem e do Som), não apenas como seu fundador, muito embora esquecido, coisa de resto irrelevante, mas acima de tudo como filho da cidade em que nasceram Eleazar de Carvalho, Humberto Teixeira, Fran Martins, e, por adoção, o cantor e compositor Evaldo Gouveia.
Ainda que à distância, torço para que se dê importância à Arte e à Cultura, e que, Fênix, renasça das cinzas a Memória do que um dia fez de nossa terra motivo de orgulho.


 


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da Arte e das mulheres

Tirando a mulher, o resto é paisagem. Se não me falha a memória, está na poesia de Dante Milano.
 
A propósito, voltando-me para o universo da Arte, quem ainda não terá ouvido falar, por algum meio e em medida alguma, das belas mulheres do Louvre? Pois bem, são famosas as musas que constituem uma porção especialmente atraente do mais famoso museu de Paris.

Começo por me reportar à escultura "A Vitória de Samotrácia", de autoria desconhecida, a ocupar um lugar especial no topo de uma escadaria do suntuoso edifício. A sua realização remonta, supostamente, a 190 ou 200 anos a.C. Como atestam alguns historiadores, seria provavelmente a ponta esculpida de uma proa de navio, ou, como querem alguns outros estudiosos da história da Arte, um ex-voto dedicado a uma conquista ou a uma batalha vencida.
Pouco vale saber. O mais importante é estar aqui, cheia de mistérios e deslumbrante beleza, ao alcance dos meus olhos, súditos e derramados de prazer, numa experiência estética para a qual não encontro um nome ou definição possível: o milagre da Arte.
Para além disso, o que parece consensual é que a peça constitui um símbolo da vitória humana sobre o desconhecido. Sem cabeça e braços, a escultura avulta, solene e sedutora, entre as muitas mulheres do Louvre, como se a Arte seja mesmo capaz de salvar o mundo.
Havia pouco topara eu com a "Vênus de Milo", com o sortilégio de sua nudez, despertando em mim, como a gregos e troianos, um tipo de "iconologia" ante a sensualidade clássica, que, como se por força de alguma magia, parece surgir do mármore, inexplicável e prodigiosa.
Representa, como se sabe, Afrodite, a deusa grega do amor e da beleza, chamada de Vênus entre os romanos. Diante da estátua, curvo-me sobre o ombro da namorada para comentar a nudez ambiguamente contida e provocadora da deusa. Lembro-lhe, na oportunidade, vezo de professor, que Heine, Henri Heine, o famigerado poeta alemão, chamava-a de "Nossa Senhora da Beleza". Eu, e meus poetas...
Pouco depois, outra das mulheres encantadoras do museu, a jovem ‘Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Délacroix, obra-prima do Romantismo francês, antecipando-se no tempo, para exaltar a capacidade revolucionária da figura feminina em meio a um mundo, desde então, dominado por homens. Até quando?
Assim, aqui e além, cada uma com sua magia e seu encantamento, carregadas de simbologias e sugestões, veem-se no Louvre essas maravilhosas mulheres, musas inspiradoras dos grandes nomes da Arte Ocidental.
Que dizer, então, a dois passos de mim, do olhar indecifrável da pintura de Lisa Gherardini, a poderosa mulher do florentino Francesco di Bartolomeo di Zanoli del Giocondo (arre!). Ou, simplesmente, a Gioconda, mais conhecida como Mona Lisa, incomparável representação do Alto Renascimento e do gênio de Leonardo di Piero Da Vinci.
Tomado de espanto, no sentido com que a define o poeta Ferreira Gullar, deparo, assim, com uma quase multidão de turistas diante da tela de proporções tão pequenas, e importância gigantesca, de Leonardo Da Vinci.
Agora veem-se pessoas tomadas de uma emoção intensa, não raro mal disfarçando as lágrimas incontidas, como não acreditando estarem aqui, tão próximo (e tão distante) da mais aurática e mais esplendorosa obra do cânone artístico ocidental.
Com o seu sorriso desafiador e profundamente enigmático, expressão de um ato paradoxalmente imponente e simples, contemplo a figura intraduzível, e penetrante, e sedutoramente serena da mais conhecida mulher da Arte Ocidental, a Mona Lisa, sobre quem, num tipo inusitado de sortilégio, ocorre-me lembrar, em leitura poética memorável, dirá o poeta Carlos Drummond de Andrade em "Farewell", seu derradeiro livro: “O ardiloso sorriso/alonga-se em silêncio/para contemporâneos e pósteros,/ansiosos, em vão, por decifrá-lo./Não há decifração. Há o sorriso.”
Assim, enigmáticas, intangíveis, sedutoras, como querem alguns; obscuras, inexplicáveis, cheias de mistério e encanto, sob a avaliação de outros; fortes e sensuais, quem sabe firmes e decididas, como as figuras reais que lhes serviram de modelo, as mulheres do Louvre são um espetáculo à parte. Vou adiante.
Inspiradoras ou veladamente soberbas, por certo, sublimes, como me é dado percebê-las neste instante, tal qual estas mulheres do Louvre, são também, sem distinção de cor ou de raça, todas as mulheres, em todos os lugares, através dos tempos e das culturas, despertando-nos, do alto de sua grandeza e significado real, a consciência de nossa pequenez --- e, o que mais importa, a necessidade de admirá-las e respeitá-las sempre, num mundo de misóginos e intolerantes.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Exaltemos Jorge Amado

Com Paulo Elpídio, em conversa rápida por telefone, sou assertivo: "A crítica literária brasileira, com a exceção de Antonio Candido e uns poucos, de tão obtusa, jamais deu a Jorge Amado o valor que fez por merecer como ficcionista. Paulo Elpídio acabara de me enviar um fragmento de seus belíssimos diários em que o escritor baiano aparece como figura central.
De fato, passados tantos anos desde a sua morte, o Brasil ainda está em dívida com o nosso mais importante romancista, em que pese, por óbvio, o prestígio de que, mesmo em vida, Amado gozou no país e no mundo.
A exemplo do que se fez a Érico Verissimo (por um outro viés), e talvez em medida menor, Jorge Amado terá incomodado a certos críticos, e aos meios intelectuais como um todo, não apenas por suas posições políticas, mesmo quando, com certa demora, veio a repudiar as atrocidades do stalinismo, de que fora entusiasta por um longo tempo.
O elitismo entreguista de alguns dos nossos mais renomados críticos de direita, sempre fiéis aos valores da burguesia --- e aos romancistas que edulcoravam as contradições do modelo econômico vigente ---, nunca suportou o fato de que Jorge Amado povoasse seus romances com negros, mulatos, soldados, putas, malandros e outras tantas figuras do submundo baiano, dando a essas personagens protagonismo e voz, coisas impensáveis senão pela vocação documental da prosa de ficção naturalista.
Na ocasião em que Jorge Amado, aos 26 anos, apareceu em coleção importante da Gallimard, com "Bahia de tous les saints" (Bahia de todos os santos), como foi intitulado em francês o romance "Jubiabá", compondo ao lado de gente como Ernest Hemingway, John dos Passos e Jean-Paul Sartre uma lista de novos escritores notáveis, a crítica brasileira ignorou as qualidades estéticas da obra a fim de buscar "justificativas" para tamanho prestígio. Sobre isso, aliás, é oportuno ressaltar a ironia com que Graciliano Ramos anteviu o complexo de vira-lata dos brasileiros em face do sucesso do livro na Europa: "Que dirão em Paris vendo os pretos e esfarrapados que há nos livros do sr. Jorge Amado? Naturalmente dirão que vivemos numa terra de percevejos e moleques" (Joselia Aguiar, "Uma biografia, Jorge Amado", Todavia, 2018).
Jubiabá, lançado no Brasil três anos antes, constitui um verdadeiro romance de formação e explora um dos temas que viriam a ser recorrentes no conjunto da obra de Jorge Amado: a força da cultura afro-baiana contra as injustiças sociais decorrentes de um tipo de sociedade perversamente desigual.
A crítica tradicional brasileira, toda ela burguesa ou em vias de aburguesamento, obviamente não haveria de ver com bons olhos tal literatura. Nesse sentido, poucas análises dedicar-se-iam a tentar compreender as qualidades estéticas do livro, a função social que teria a cumprir num país marcado por tantas contradições e assentado em bases econômicas tão injustas.
Mesmo a dimensão artística do romance ficaria à mercê de juízos rasteiros ou, quem sabe intencionalmente, alheios à força de sua narrativa e à sua extraordinária beleza poética.
Como destacaria Antonio Candido, na contramão dos julgamentos então dominantes, Jorge Amado, se não se propôs realizar o mergulho na alma humana, acusado por isso mesmo de superficial, soube "construir personagens tão ricos e tão vivos quanto os mestres da análise". Sob esse aspecto, com a segurança e a verticalidade que são mesmo uma marca indelével do seu caráter como crítico literário, Antonio Candido pontua o que lhe parece uma evidência entre os críticos brasileiros: o fato de que ignoram que "a análise psicológica não é a única via de conhecimento do homem" (Brigada Ligeira, Todavia, 2025).
Nessa perspectiva, por sinal, é que o escritor argelino Albert Camus, expoente do existencialismo, exaltou em artigo memorável "Jubiabá" , "um livro prodigioso", em que o documento e a poesia se entrelaçam como esteio de uma grande obra. Elogios igualmente exaltados lhe dedicaram André Malraux, na França, e Adolfo Casais Monteiro, em Portugal.
Mas é reducionista centrar elogios num único livro de Jorge Amado. "Jubiabá", na humilde opinião deste escriba, sendo de fato um grande romance, anda longe de ser o melhor da vastíssima obra do escritor baiano. Há que se ressaltar o lirismo e a poesia de "Mar Morto", a grandiosidade histórica de "Terras do Sem-Fim", a sensibilidade estética e a denúncia desconcertante de "Capitães da Areia", o ecologismo pioneiro de "Tieta do Agreste", a presença incontornável do intelectual orgânico em "Tenda dos Milagres", a lufada de amor de "Gabriela, Cravo e Canela", livros em que a força telúrica, o amor, a luta, a miséria, a aventura e a humanidade de um povo constituem a matéria de que se valeu Jorge Amado para realizar uma das maiores obras literárias da língua portuguesa. Ontem, hoje e sempre.
E o quanto terá incomodado ao puritanismo hipócrita da crítica dominante, a linguagem desabrida e o léxico chocante com que Jorge Amado sobrepujou preconceitos e tabus. A esse propósito, me desculpando para com os mais conservadores, tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Jorge Amado, ao responder, em passagem de "Tieta do Agreste", a um gramático soteropolitano que o aconselhava a medir palavras para narrar cenas de sexo e descrever a nudez das mulatas de Salvador, citando-o de cor: "Meu querido [...], querem abolir da literatura brasileira as palavras que exprimem com exatidão, vigor e poesia; o cheiro, o sabor, a  beleza, a perfeição, a eternidade: xoxota, xibiu e boceta, por exemplo!".
Exaltemos Jorge Amado.