Mesmo quando tudo parece perdido, vem a Arte mostrar sua força e fazer tremer os poderosos. É o que me vem à cabeça quando sento diante do computador para escrever a coluna de hoje. E não que me faltasse pauta, pois o mundo --- o Brasil em particular ---, anda bombando em acontecimentos os mais férteis, complexos e contraditórios. Uns bons, a exemplo dos números da economia, numa incontrastável prova de que o tal "mercado" é porra louca em projeções e insaciável em sua gula; outros, ruins, como as safadezas recorrentes do pior Congresso de que se tem notícia.
Mas vamos lá, que o mote, como dei a ver, diz respeito aos acontecimentos da Arte e suas repercussões no terreno da boa política. Boa política? Sim, que o espetáculo artístico vez e outra dá demonstrações de que nem tudo está perdido, e que a sua "beleza haverá de salvar o mundo". Vamos ao que interessa.
A performance de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, nesse domingo, ainda ecoa mundo afora como exemplo do que pode o artista e sua arte, mesmo quando a mensagem soa demasiado metafórica e carregada de simbolismo que, infelizmente, extrapola o estreito espaço da inteligência extremista, se é que se pode falar de inteligência em face de tanta manifestação de burrice e alucinação com que se deslumbram bolsonaristas, trumpistas e outros "istas" mais.
Que coisa linda. Que demonstração de coragem e senso crítico, a que se soma, porque indispensável, o talento do artista porto-riquenho e sua esplêndida equipe em elementos fundamentais de um grande espetáculo: cenografia, atuação, guarda-roupa, direção de arte, tudo tudo pensado e executado à perfeição.
E nem vou falar das participações de gente da estatura de Ricky Martin e Lady Gaga, que, conscientes da função político-social do evento, souberam assumir papel de coadjuvantes em meio à explosão de luz que emanava de Bad Bunny, em noite mais que inspirada. O artista estava possesso, se se pode dar à palavra o sentido positivo com que a tomo nesta crônica.
Contudo, para contrapor argumento aos que se disseram indiferentes ao show do artista "desconhecido" e "drogado", como é próprio ao discurso da direita fascista, no Brasil, não é muito lembrar: Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify em 2025, para não falar do "Debí Tirar Más Fotos", com que arrebatou o Grammy de melhor álbum do mesmo ano.
O show, a arte de Bad Bunny e seus camaradas, é o que importa, foi muito além da beleza, muito além de mais uma apresentação esteticamente irretocável, coisa de resto já comum na carreira do artista porto-riquenho.
O espetáculo atingiu em cheio o alvo a que se destinava: o governo Trump e a operação violenta, inominável, do ICI, Serviço de Alfândega e Imigração, no Minnesota e demais estados norte-americanos. Ao lado de ser, por óbvio, uma demonstração do lugar da Arte no contexto de enfrentamento das ameaças (concretas!) do fascismo, no que parece, em que pese estarrecedor, ser uma nova ordem mundial.
Quase por inteiro "narrada" em espanhol, na clara intenção de ressaltar componentes e valores da cultura latina, ou, se preferirem, latino-americana, a apresentação de Bad Bunny há de ter inaugurado uma nova alternativa na luta contra o ideário da extrema-direita hoje. Se, no painel ao fundo do espetáculo, a mensagem "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor" poderá ter soado um tanto piegas (quase falei "patética"), não é sem razão que se poderia afirmar: "A única coisa mais poderosa que o ódio é a Arte".
Bad Bunny, em performance inesquecível, nos deleitou, encantou --- e chamou à luta. Bravo!
*Benito Antonio Martinez Ocasio (10 de março de 1994), conhecido como Bad Bunny, é rapper, cantor, produtor musical e lutador profissional porto-riquenho.
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