terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sobre o Amor

Do poeta e cantor Cícero Braz vem a crítica pertinente: - "Você está batendo demais no Amor." Como entendesse a crítica desse leitor diferenciado como uma observação de que tenho sido redundante, acenei com a motivação de escrever sobre outros temas, ao que retrucou: - "Não, não é que esteja sendo redundante. É que tem açoitado impiedosamente o Amor." Ah, o Amor..., querido amigo. Acho mesmo que, na linha do que nos falou Cecília, a gente tem fases, como a lua. Você, que escreve, sabe o que estou querendo dizer. O Amor tem muitas faces, muitas fases, e acaba sendo inevitavelmente uma projeção daquilo que vivemos em dado momento de nossa vida. Mas com uma coisa você há de concordar: o final feliz é mesmo uma raridade. Não me ache negativista, que nem o outro poeta, sobre quem escrevi pela fobia que nutre da paixão. E por falar em paixão, uma das faces ou fases do Amor, que tal lembrar a etimologia da palavra para constatar que tenho alguma razão? Vem do latim tardio e significa sofrimento. Eis a razão por que se fala da Paixão de Cristo, ou seja, o martírio de Jesus Cristo, nome que se dá, também, à parte do Evangelho que narra o sofrimento de Cristo. Mas esteja tranquilo, poeta amigo, que vou afinar o cinzel com que serão vazados os novos textos sobre o Amor. O Amor feliz!

Acho mesmo, como disse em crônica recente, que o amor é felicidade, mas não é a felicidade, pelo menos quando se fala do amor Eros. Sei que mais uma vez estou pisando em terreno escorregadio, pois é outro desafio discutir ou tentar conceituar a felicidade. Vêm-me à cabeça a fala inesquecível de uma personagem do filme Desejos Proibidos, que revi outro dia em DVD. Um homem diz a sua mulher: - "A infelicidade é uma invenção." Ele se refere ao que considera uma determinação da mulher, ser infeliz. Existe mesmo quem, como Louise (como se chama a personagem), viva a infelicidade como uma escolha. No amor, contudo, não é raro que a infelicidade seja uma decorrência natural do desgaste que o tempo e as circunstâncias lhe impõem. Aliás, considero o filme de Max Ophuls um clássico sobre esse tema a um tempo tão simples e tão complicado.

O filme está ambientado na cidade de Viena, onde um homem desposa uma mulher extremamente bela e a presenteia com um par de brincos. É Louise, a tal inventora da infelicidade, que, para pagar uma dívida que a desespera, vende os tais brincos. Diz ao marido que os perdera. Mas o joalheiro leva o fato ao conhecimento do marido, que, agora, os adquire para dar de presente à amante. Esta, pelas mesmas dificuldades de Louise, vende-os ao mesmo joalheiro. O novo comprador, Donati, interpretado à perfeição por Vittorio De Sica, apaixona-se por Louise, com quem vem a manter um caso. Dá-lhe de mimo o mesmo par de brincos. A farsa amorosa, obviamente, é desvendada.

Para o bem ou para o mal, leitor amigo, o amor é cantado na literatura, no cinema, no teatro etc., como algo que tanto leva à felicidade quanto à infelicidade. São momentos diferentes da mesma história, que se repete através dos tempos com uma regularidade e uma lógica que me parecem inquestionáveis. No filme a que me refiro, os brincos valem como o lenço de Desdêmona, em Otelo, ou o broche da protagonista de Um corpo que cai. São símbolos dos muitos contratempos a que o amor está condenado. Na arte, como na vida. No amor, a felicidade e a infelicidade são as duas faces de uma mesma moeda. O que não significa que não valha a pena vivê-lo, sempre e intensamente.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Na imensidão do infinito

Quando morrem pessoas queridas, com o passar do tempo costumo ter a impressão de que vão se distanciando lentamente, lentamente, lentamente... até se tornarem um pontinho de luz na imensidão do infinito. E um dia, sem que nem ao menos a gente perceba, desaparecem no azul a que se convencionou chamar de céu. É claro que, por amadas e inesquecíveis, costumam voltar, aqui e além, nas coisas que nos fazem recordá-las com uma saudade que, durante algum tempo, é mesmo um tipo de dor que não se pode definir com palavras. Depois, voltam nas boas recordações que já não incomodam, mas que nos proporcionam uma sensação agradável, que reeditam fragmentos do que vivemos com essas pessoas queridas.

Nos relacionamentos amorosos acho que acontece o mesmo, quando morrem. Durante um tempo que não se pode precisar, porque a experiência repercute diferentemente em cada um, o outro vai se distanciando lentamente, lentamente, lentamente... até se tornar, como no caso da morte verdadeira, um pontinho de luz no sem-fim do que chamamos de horizonte. Se foi um relacionamento feliz ou não, pouco importa, porque de tudo é inevitável que fiquem marcas, leves e belas como o desenho da boca em batom, ou indeléveis e feias como a cicatriz da ferida. Mas permanecem, e por um tempo vão ficar assim, insistindo num tipo de obsessão de que não se pode libertar. Depois, eventuais e imprevistas, vão se transformando em lembranças cada vez mais esparsas, até que desaparecem como que para sempre...

A música que foi a "nossa" música, o perfume que ela usava, o jeito com que ele fala, a mesa do restaurante em que jantamos juntos a primeira vez, o carro igual ao dela, a praia que frenquentávamos, a tomada aérea da cidade em que se viveu a lua de mel na entrecena da telenovela, a voz rouca, o detalhe da boca, do nariz, o corte do cabelo dela, o prato que ele sugeriu e que você amou, tudo... tudo traz a presença da pessoa que foi a razão da felicidade fugaz. E um dia, exatamente como na recordação dos mortos, sem que se perceba, o outro vai ficando longe, longe, longe... até que desaparece, até ficar um sonho perdido no vazio impreenchível do nosso coração.