quinta-feira, 9 de junho de 2011

Chove sobre o nosso amor

Aos namorados
Vejo na tevê mesa redonda sobre os motivos da separação entre casais, hoje. As razões, as de sempre. Imaturidade, o abismo entre o sonho e a realidade em seus muitos aspectos, infidelidade, ciúme etc. Um dos motivos apontados pelos debatedores aparece de forma evidenciada: as dificuldades financeiras. Este aspecto, que não raro é mesmo uma causa das crises que levam ao fim do relacionamento, contudo, a meu ver, ocorre via de regra como consequência do desgaste de outros sentimentos, a paixão à frente, que tudo passa.

Mas, indagará o leitor, o que estou mesmo querendo dizer com isso? Como se diz num modismo de linguagem irritante, "então!?": Quando existe maturidade, quando existem os bons valores por que deve se orientar uma relação saudável, companheirismo, bom humor e equilíbrio para enfrentar as adversidades, que fazem parte da vida de todo casal, a falta de dinheiro não é, em si, uma razão para fazer desmoronar o sonho da felicidade a dois. Ela, a falta de dinheiro, apenas faz aflorar com mais contundência outras dificuldades, que são aquelas já muito conhecidas e que levam, sim, à separação.

Não faz muito, pelo vidro do carro, enquanto o sinal abria, presenciei uma cena que me tocou fundo: um casal, que mora sob um viaduto aqui próximo, beijava-se à plena lua cheia, mal caía a noite de sexta-feira. A vida imitando a arte. A propósito, revendo a filmografia de Bergman, o gênio do cinema sueco, para quem o amor é invariavelmente o grande tema, dia desses assisti ao comovente Chove sobre o nosso amor, o segundo de sua vastíssima produção. Que coisa linda! A película é de uma simplicidade desconcertante, contudo profunda, intensa, um filme desses para se ver e rever através dos tempos. Narra a história de David, um ex-presidiário, e Maggi, uma interiorana entregue a sua própria sorte, num mundo de insensibilidade e egocentrismo.

David e Maggi encontram-se numa estação de trem numa tarde chuvosa. Apaixonam-se e decidem caminhar juntos, partilhar aquilo que possuem: a miséria e a solidão. Da experiência nasce um amor puro e doce, começa uma vida de dificuldades -- e de umas poucas conquistas. David consegue emprego, economiza parte do salário e compra uma pequena casa em que vivem felizes. Até que a especulação imobiliária, a ganância e a falta de escrúpulos, roubem dos dois o pouco que haviam construído juntos. O filme, é claro, termina com o casal perdido sob a força de um temporal, tal qual a cena de abertura em que se conheceram. A sequência final, com o casal caminhando de mãos dadas, sob a proteção de um guarda-chuva humilde, em direção ao desconhecido, é de uma força poética insuperável. Aos dois, apenas resta o amor, o que explica a beleza do título.




quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sob o Céu de Iguatu

Vira e mexe encontro com Evaldo Gouveia no restaurante do Paulinho. Na companhia do amigo Cícero Braz, que, além de poeta e trovador, é um grande conhecedor de música popular brasileira, ficamos horas jogando conversa fora, que é uma das coisas de que o genial compositor nunca abre mão. Evaldo é um conversador raro, desses que a gente fica ouvindo uma tarde inteira sem cansar e de cujos 'causos' tiram-se belas lições.
 
Vez e outra, que ninguém tem cérebro de computador, mesmo em se tratando de um talento da estatura de Evaldo Gouveia, Braz nos prega uma peça: marcando o compasso e nomeando notas, cantarola uma canção não muito conhecida, mas invariavelmente bela. Ficamos, Evaldo e eu, curiosos: de quem é a composição? "É tua Evaldo!", responde o Braz jocosamente. Nada que cause estranhamento, quando se está diante do mais prolífico compositor brasileiro vivo. Evaldo Gouveia tem um repertório de mais de mil músicas, razão por que, entre um guaraná e outro, se surpreende com a tessitura musical e poética de uma canção que, sem lembrar, compôs em tempos que já vão longe. Os gênios são assim.
 
Comenta-se que Chico Buarque, certa vez, voltou para casa de táxi por uma simples razão: esquecera onde estacionara seu carro numa rua do Rio.Tom Jobim, dizem os biógrafos, acendia um novo cigarro mal dera o primeiro trago noutro. Cabeça de artista tem muito mais com o que ficar atento. É o caso de Evaldo, de longe o maior compositor brasileiro no gênero samba-canção. "Conheço bem / tuas promessas / outras ouvi iguais a esta / este teu jeito de enganar / conheço bem."
 
Vendo-o ali, à minha frente, recordando as circunstâncias em que compôs uma e outra canção, revivendo emoções que, por certo, terão marcado sua vida, fico pasmo ao pensar no quanto não se põe cuidado na memória da música popular brasileira. Nenhum registro mais atento, nenhum interesse em documentar o que se fez de bom no cancioneiro popular, salvos uns gatos pingados nascidos em berços esplêndidos. Uma pena.
 
Nesse sábado, para brindar os namorados de sua terrinha, sob o céu estrelado mais bonito que conheço, e que viu nascer outros dois gigantes da música, Humberto Teixeira e Eleazar de Carvalho, Evaldo Gouveia estará em Iguatu. Na bagagem, já soube, vai levando alguns dos maiores clássicos de sua lavra, gravados na voz de muitos e muitos dos nossos maiores intérpretes, como Altemar Dutra, Gal Costa, Jair Rodrigues, Alaíde Costa, Ângela Maria, para ficar nuns poucos   --  e não lembrar o disco por inteiro que lhe dedicou Cauby Peixoto. Que, lá pelas tantas, os amigos me façam um brinde, no momento em que a voz inconfundível de Evaldo declinar, límpida e com o infalível afinamento, a sua canção de que mais gosto: "Tu passas pela rua / e a vida continua / e, em mim também, / esta saudade sempre tua."