quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dedos de prosa sobre futebol

Como todo botafoguense que se preza, entra ano sai ano, escolho o time da minha ojeriza  --  aquele capaz de roubar um pouco o brilho inconfundível da estrela solitária. De uns tempos para cá, é o Flamengo que tem polarizado conosco, uma vez que a força alvinegra, de forma realmente competitiva, tem limitado a sua ação ao Campeonato Carioca. Nos bons tempos, no entanto, que já vão ficando longínquos para além da conta, era o Santos Futebol Clube que disputava conosco as glórias em 'medidas' nacionais. Se tínhamos Garrincha e Nilton Santos, o peixe tinha Pelé e Coutinho. Dessa época, sou capaz de jurar, só me lembro das transmissões radiofônicas, ainda menininho. Pouco depois, porém, já acompanhando pelos videoteipes, o Santos ainda contava com Pelé em seus áureos tempos, e nós, os botafoguenses, com Jairzinho e Gérson, o Canhotinha de Ouro de que jamais vamos esquecer.
 
Lembro que marcávamos com caneta, na tabela que a Revista dos Esportes divulgava, no início do Campeonato Brasileiro, que à época se chamava Roberto Gomes Pedrosa, a data em que os gigantes iam se enfrentar. Roíamos unha meses seguidos, até que chegasse o grande dia. Sem faltar com a verdade, acreditem, saíamos quase sempre em vantagem. Era lá pelo fim dos anos 60 e guardo de memória as duas escalações: O time paulista vinha de Cláudio, Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel e Rildo; Clodoaldo e Lima; Manuel Maria, Toninho Guerreiro, Pelé e Edu (arre!). O Botafogo, de Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jair e Paulo César. Uma máquina, como se dizia então.
 
Saudade à parte, estou escrevendo mesmo por uma razão que passa ao largo de General Severiano, a sede gloriosa do 'meu amor de chuteiras', que me permitam parodiar Nelson Rodrigues, que era Fluminense de quatro costados. Faço-o, que o tempo torna os nossos corações mais gelatinosos, para aplaudir a nova geração de craques do Santos Futebol Clube, que, ontem à noite, desbancou o valente time do Peñarol e conquistou, pela terceira vez, a Taça Libertadores da América. Vamos e venhamos: essa garotada devolveu ao futebol brasileiro a alegria perdida, e, hoje, numa proporção ou outra, nos tornamos todos torcedores do Santos, Neymar e Ganso à frente, esses duplos genais de Pelé e Gérson.
 
Não é de dar gosto ver? O que Neymar vem fazendo com a bola nos pés, é muito mais que jogar futebol. É uma dança espanhola. Ele golpeia o chão como fazem com o tacão de suas botas os dançarinos andaluzes para marcar o ritmo do bailado. O movimento dos corpo e das mãos, a expressão do rosto e a contorsão estilizada dos punhos, a leveza do estilo, lembram muito mais a técnica do sapateado de um sevilhano. Estética pura.
 
E Ganso, o que dizer desse Apolo de chuteiras? A elegância no trato com a bola, o andar de uma garça no cio, a precisão do passe, a visão holística do espaço e do tempo? Ocorre-me recordar, guardadas algumas diferenças sutis do estilo, um Pedro Rocha, um Beckenbauer, um Ademir da Guia. A vitória dos Santos, ontem, numa sucessão de muitas e importantes conquistas, significa, assim, muito mais que ser campeão de um Continente. É a arte do futebol, depois de uma longa noite, que volta a brilhar nos gramados. Amém!
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Recordar é viver"

Ao mergulhar na xícara de chá o tradicional bolinho madeleine, antes de levá-lo à boca, recuperando o cheiro gostoso da iguaria em sua infância, na cidade de Combray, o protagonista de Em busca do tempo perdido inicia a experiência milagrosa de recuperar o passado longínquo, resgatando a sua história feita de amores, ciúmes, alegrias, sofrimentos e do prazeroso encontro com a arte, compondo, assim, a identidade do narrador adulto desse livro-monumento de Marcel Proust.

Acho que todo homem, cedo ou tarde, vive uma experiência semelhante, quase sempre quando a memória de sua vida vai se esgarçando com o passar do tempo, e suas lembranças perdendo-se entre a névoa do envelhecimento que se anuncia. É quando percebe que a vida de todos nós é feita de passado, que o que chamamos de futuro é algo improvável, que sequer sabemos se um dia vai acontecer, tornando-se uma realidade.

"Quem vive de passado é museu!" Quem nunca terá escutado o tolo chavão? E, no entanto, nem se percebe que, concluída a afirmação, isso já é passado, única possibilidade de ordem factual. Está na Fenomenologia do espírito, de Friedrich Hegel: - "O agora já deixou de sê-lo quando é nomeado, já é passado."

Desde cedo, por curioso, seduziram-me as obras que tratam da vida pretérita, biografias, autobiografias, memórias. Fascina-me o desabrochar das lembranças, o trazer à mente aquilo que se viveu, os amores, os lugares em que se esteve, os perfumes e as sonoridades, as emoções que um dia tomaram conta de nós.

Tenho o hábito de ler esses escritos. Lembro-me como foi uma experiência impactante ler o livro de Proust, ora referido. Ou Minha formação, de Joaquim Nabuco; Navegação de cabotagem, de Jorge Amado; Solo de clarineta, de Érico Veríssimo; Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyre; Meu último suspiro, de Luis Buñuel; A soma dos dias, de Isabel Allende; Minha vida na arte, de Constantin Stanislávski; Confesso que vivi, de Pablo Neruda; Minha vida, de Hermann Hesse e, um livro diferente no gênero, Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung, para falar dos que me ocorrem enquanto escrevo estas linhas.

Sou um saudosista assumido. Toca-me a etimologia do verbo recordar, do latim recordari, re = novamente + cord = coração, ou seja, trazer de volta ao coração. Sou um proustiano convicto. Provocam-me sensações incomunicáveis o cheiro inesperado de um perfume, a audição de uma música antiga, o sabor de uma comida há muito tempo experimentada.

A chuva, o céu plúmbeo de um entardecer, o cheiro da terra molhada, os traços de um rosto, um simples gesto de alguém que passa, um movimento de mãos, e eis o passado de volta, fazendo-se presente, este "isto" impossível de que nos falou Jacques Derrida.