quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sobre encontros e reencontros

Leitor tece considerações elogiosas ao site e diz que, como cinéfilo, tem aproveitado muitas das crônicas publicadas sobre cinema para ver filmes aqui recomendados. Lamenta o fato de morar "no interior, onde as locadoras não têm a preocupação de comprar filmes cults (sic)." Pede, ainda, que escreva sobre cinema com mais frequência.

Agradecendo pela gentileza do elogio, meu caro A.L., gostaria de começar por um comentário esclarecedor: não tem sido intencional a escolha de filmes que possam, adequadamente, receber o rótulo de cult. Acho mesmo que não é um selo muito preciso, não dizendo, por isso, da qualidade rigorosamente estética do filme. Cult, para a crítica especializada, é qualquer filme que se notabilize, entre outras coisas, pela excentricidade e que, independentemente de suas qualidades artísticas, venha a cair no gosto 'apaixonado' de um grupo de fãs. Nada a ver, portanto, com o que a palavra pode sugerir: trabalho de elevado nível, próprio para um público 'A' (se é que existe isso!). Nesse sentido, pois, para exemplificar, há filmes que conquistam admiradores por suas fragilidades estéticas. É o caso daquela afirmação popular que tantas vezes escutamos: "É tão ruim, que é bom." Brincadeira à parte, prefiro, todavia, dar atenção ao cult que é cultuado por suas qualidades inquestionáveis. Eu, por exemplo, adoro Cinema Paradiso, obra que conquistou, mundo afora, fãs ardorosos, de carteirinha. Atendendo seu pedido, falemos de cinema.

Nas livrarias, ainda quentinha, uma nova e bem cuidada edição do livro Jean Vigo, de Paulo Emílio Sales Gomes. Um box, para ser mais preciso, com dois volumes e dois DVDs com o conjunto da obra do cineasta francês que morreu aos 29 anos. Aqui, leitor, fica um exemplo claro do que sejam os filmes cult: a obra de Vigo (pronuncia-se Vigô) é de altíssima qualidade artística, embora seus filmes sejam 'toscos' esteticamente falando, cheios de imperfeições e limitados enquanto linguagem cinematográfica. Não obstante, belos, carregados de poesia e densos politicamente falando.

Recomendo, até por ser mais acessível em qualquer grande locadora, Atalante (1934). Narra a história de dois jovens recém-casados que passam a morar numa chalana, em razão de o rapaz viver das atividades fluviais. A moça, não tarda, fica ensimesmada em face da monotonia e desconforto de sua vida de casada. Certo dia, tendo o marido atracado às margens do Sena, em Paris, dá uma escapulida e depara com os encantos da grande cidade. Logo conhece um moço que a seduz com duas palavras e que a leva a decidir por romper com o casamento. O marido resolve partir na companhia de seus dois empregados, tomado da típica depressão dos amantes rejeitados.

Mas, para não trair a curiosidade de todo bom cinéfilo, leitor, devo concluir dizendo que o filme é uma obra de arte, um filme cult, para voltar ao tema da coluna de hoje. Fique claro: isto por ter feito uma legião sem medidas de fãs pelo mundo afora. Há, hoje, uma verdadeira unanimidade em torno de L`Atalante. Uma pena saber que, morrendo tão jovem, Jean Vigo não tenha podido produzir outros grandes filmes, a exemplo desse belíssimo cult sobre a perda e a reconquista de um grande amor. Desculpo-me por revelar o final do filme.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Por toda a minha vida

Em Desconstruindo Harry, um dos seus filmes mais interessantes, Woody Allen tem uma fala que acho maravilhosa, para não dizer que me parece profunda. Diz ele: - "As palavras mais belas da língua não são 'eu te amo'. São: 'É benigno'." Lembrei dela por força de uma conversa que tive ontem com o Ernesto, essa mistura de alter ego e anjo protetor que já me acompanha, faz um tempo, nas crônicas que escrevo. Pois bem, o Ernesto, depois de tentar transformar um amor em amizade, chegou a uma conclusão que me soa óbvia: Ao final de uma relação passional é preciso um tempo para se voltar a ser apenas amigo. Isto, Ernesto! Um tempo, de que nem sempre se pode prever a extensão.

E onde cabe a tal "benignidade", essa indulgência para a culpa alheia de que nos falou Allen? Nunca há culpados. No caso do Ernesto, que não teve seu amor correspondido, em pedir, com uma ternura que lhe é típica, que os dois se dessem um tempo em silêncio. Até que a chama do amor apaque.

O caso do meu amigo é antigo e não é a primeira vez que me reporto a ele, a essa dolorosa travessia que já dura, quando menos, uns três anos. Foi objeto de uma crônica em que este escriba se reporta à decisão do Ernesto de nunca mais querer amar alguém -- "Vai pintar paixão, estou fora!", diz ele, sempre que lhe perguntam sobre a possibilidade de um novo amor. Sem mais delongas: Ele me dizia, entre um chope e outro, ter criado coragem para pedir a ex que lhe desse um tempo, que parasse com e-mails e eventuais telefonemas. Agiu com correção, foi benigno, dessa vez muito mais com o amor do que com a coisa amada, o que é, como no filme de Woody Allen, muito mais belo do que dizer, simplesmente, "eu te amo!".

A caminho de casa, passaram-me pela mente alguns dos muitos filmes e romances que tratam do tema, trechos de música, poemas etc., que eternizaram essa experiência tão difícil dos que, a exemplo do amigo, não tendo o amor correspondido, pedem um pouco de paz para curtir a sua dor: "Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor / Se hoje pra você eu sou espinho / Espinho não machuca a flor / Eu só errei quando juntei minh'alma à sua / O sol não pode viver perto da lua". Ah, que belo e clássico e triste samba de amor escreveram Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito sobre o tema!

É isso, meu camarada e meu irmão, não se deve alimentar para sempre "a eterna desventura de viver / à espera de viver ao lado teu / por toda a minha vida", já dizia o poeta que você eu admiramos tanto. Beijo, querido, nesse bom coração!