quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O abismo entre autor e obra

Li com entusiasmo o livro O vento do mar, do poeta e prosador Lêdo Ivo. Lançado há dois anos, só agora chega em nova edição às livrarias da cidade. Extremamente bem cuidado do ponto de vista editorial, o livro reúne textos críticos e memorialísticos, constituindo em seu conjunto um tipo de autobiografia bastante envolvente. Assim, entra-se em contato com a história pessoal e intelectual de um dos maiores vultos das letras nacionais -- e principal poeta da chamada Geração de 45, em que figuram personalidades importantes da grande literatura brasileira, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Ferreira Gullar.

Gostoso, pela leveza do texto e pelo tom poético que é mesmo uma marca da escritura de Lêdo Ivo, O vento do mar traz belíssimos ensaios sobre alguns dos principais escritores brasileiros, modernistas todos, com quem o autor privou de amizade estreita e com os quais conviveu em diferentes lugares, de Maceió, onde nasceu, ao Rio de Janeiro e a outras cidades mundo afora. Mas são os textos sobre Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Gracialiano Ramos que constituem o que há de mais interessante no livro. Sobre o autor de Vidas Secas, alagoano como Ivo, passa-se a conhecer um lado pouquíssimo conhecido de sua personalidade: o homem profundamente reacionário, política e esteticamente falando, rancoroso, ácido em suas críticas pessoais e incapaz de perdoar. Além de vaidoso e afeito a bajulações, desde que fosse ele o alvo da atenção.

Leio isso e ponho-me a pensar: não se pode mesmo misturar o autor e sua obra. Tem sido assim desde tempos remotos. Leonardo da Vinci, o maior gênio da Arte em todos os tempos, era um vaidoso doentio, incapaz, por exemplo, de suportar que outros gênios pudessem brilhar. Michelângelo foi alvo de sua perseguição, como está em qualquer bom manual de história da arte; Picasso arrancava os cabelos (que não tinha!) diante do sucesso de alguns pintores contemporâneos, a exemplo do que ocorreu a Modigliani. O mesmo que, por sua vez, levou ao desespero, que culminaria com o suicídio, grávida, a mulher Jeanne Hébuternne. Tal qual faria Picasso com as mulheres com as quais viveu. Tolstói, o incomparável romancista de Anna Karenina e Guerra e Paz, era também um marido autoritário e castrador. E por aí vai.

No livro de Lêdo Ivo, uma declaração atribuída a Gracialiano Ramos, a mim, que sou um admirador confesso de sua literatura de altíssimo nível estético, causou espécie: - "Para que liberdade de imprensa e de pensamento? Para o povo se envenenar com esses livros chinfrins, cheios de imoralidade e de erros de gramática?" Contradições à parte, vindas tais afirmações de um comunista, existem no livro revelações ainda mais graves, como uma em que Ivo insinua a prática de tortura ou coisas piores contra os moradores de rua de Palmeiras dos Índios, à época em que Graciliano Ramos foi prefeito da cidade. Inacreditável, sobremaneira em se tratando de um artista que nos legou uma obra imorredoura e profundamente humana.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Saudade entre aspas

Outro dia, uma amiga me enviou um texto em que aparece uma bela definição de saudade, este sentimento sobre o qual tenho escrito tantas vezes no blog: "Saudade é o amor que fica!" Li-a, e me entreguei a uma divagação gostosa (e um tanto triste, é verdade!) sobre pessoas que passaram em minha vida e que, às vezes na contramão do que seria mais lógico, continuam vivas no coração, apesar do tempo e da distância. Só então pude ver que é mesmo assim: Saudade é o amor que fica!

Uma a uma, foram voltando à mente algumas outras definições, na literatura, na música, no cinema. Proust, o escritor francês de Em busca do tempo perdido, um livro que marcou minha vida, levanta sobre a saudade uma questão desconcertante: "Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?" Para Bob Marley, "Saudade é um sentimento que, quando não cabe mais no coração, escorre pelos olhos." Em Asa Partida, a mais bela, a mais comovente de suas músicas, Raimundo Fagner desabafa: "E continua o teu sorriso no meu peito, esta saudade, o cigarrro, a luz acesa. E esta noite posta sobre a mesa." Diz isto antes de concluir: "Eu não queria a vida desse jeito, meu olho armando o bote sem futuro!"

Que dizer da afirmação certeira de Charles Baudelaire?: "Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno!" Ou uma outra, atribuída a Pablo Neruda: "Saudade é amar um passado que ainda não passou; é recusar um presente que nos machuca; é não ver o futuro que nos convida." O educador Rubem Alves, nos clarifica que "A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar." Ocorre-me lembrar dos versos, não do seu autor: "Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor não foi embora, mas a pessoa amada sim." E Cecília, "Quando penso em você, encho os olhos de saudade." De Martha Medeiros, a adorável cronista gaúcha, vem a sábia reflexão: "Saudade a gente tem é dos pedaços de 'nós' que ficaram pelo caminho."

Há, contudo, sobre a saudade, versos mais 'valentes', como o de Ana Carolina, na letra de uma canção: "Eu não te procurei para que a saudade fortalecesse o nosso amor!" Mais frios, como em Pessoa: "O mundo é dos que não sentem..." Mais ternos, como em Quintana: "Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho." Impassíveis, como em La Fontaine: "A ausência tanto é um remédio contra o ódio, como um veneno contra o amor!"

Na poesia memorialística de Drummond deparamos com o verso antológico: "Itabira é apenas um retrato na parede. Mas como dói!" Nos meus tempos de menino, ouvia minha mãe cantar: "Saudade, torrente de paixão. Emoção diferente, que aniquila a vida da gente... Uma dor que não sei de onde vem." Minha mãe tinha uma veia poética e escrevia cartas lindíssimas. Certa vez, estando eu distante, que quase criança já corria as estradas do mundo, disse-me numa delas: "Filho, toda noite, pelas oito horas, olha para a lua, se lua houver. Através dela, meus olhos haverão de encontrar os teus!" Lembro disso e o peito se abre ao meio. Isto o que a saudade é!