quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A separação

Entre os muitos e-mails da semana, gostaria de registrar três ou quatro de leitores antigos e novos: Hilton Holanda, com a pertinência e lucidez de sempre, alude à coluna sobre cenas de filmes e diz qual aquela de sua predileção. Braz de Almeida, poeta e cantor, critica o fato de vir escrevendo muito sobre cinema em detrimento de outros temas, relacionamentos, por exemplo, do qual diz ter me tornado "um especialista". Marquezam, direto da cidade paulista de Diadema, diz ter encontrado ao acaso o meu blog no google e que se tornou, desde então, 'admirador confesso' (sic) do seu conteúdo. E o talentoso arquiteto e contista Brenand Ferreira pergunta se vi Agonia e Êxtase.

A curiosidade de Brennand prende-se ao fato de, na última crônica, ter este escriba discorrido sobre a biografia de Michelangelo Buonarroti, de Giorgio Vasari. Faz alusão ao filme do cineasta inglês Carol Reed, com Charlton Heston e Rex Harrison (brilhantes!), nos papeis de Michelangelo e Julio II, respectivamente. O filme, como observa o arquiteto iguatuense, é uma obra-prima, com uma fotografia maravilhosa e uma trilha musical de derrubar, literalmente. Revi-o, curiosamente, há poucos dias, durante uma aula de iniciação à estética. Não é muito lembrar, caro Brennand, que o roteiro foi escrito a partir do romance homônimo, de Irving Stone, abertamente fundamentado na biografia de Vasari. Disponível em qualquer boa locadora. Recomendo.

E, por falar em cinema (risos), entre os candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro está o belíssimo A Separação, de Asghar Farhadi. Quem não viu, ainda, que o faça, pois se trata de uma obra sublime sobre o velho tema da separação, como está explícito no próprio título dessa joia rara do cinema iraniano. Vi-o muito antes de chegar aos cinemas da cidade, pelas mãos do 'garimpeiro' Cesar Lincoln, que me presenteou com o DVD.

O enredo, tecido com a maestria já conhecida de outros cineastas orientais, bem na linha de Abbas Kiarostami, explora o drama da separação sem a pieguice com que os americanos, por exemplo, costumam fazer, embora o filme tenha passagens comoventes, dessas em que se torna quase impossível conter o pranto. Simin (Leila Hatami) decide deixar o país com a filha Termeh (Sarina Farhadi), mas, para realizar o projeto, precisa ter a autorização de Nader (Payman Moadi), pai da menina. A situação, que teria desdobramentos já muito conhecidos, tem um elemento agravante: o pai de Nader sofre de Alzheimer avançado e precisa dos seus cuidados. Entra em pauta de discussão um dos problemas emergentes dos tempos atuais: como dividir-se entre as atribuições de marido e as de um filho aos olhos de quem a morte se anuncia de forma tão dramática?

Como no vulgarizado chavão, no entanto, nada é tão ruim que não possa piorar. Nader, assolado pelo trabalho e sem poder contar com a mulher, contrata uma empregada para cuidar do pai. Esta, que aceita o trabalho para ajudar o marido, mergulhado em dívidas, logo dá a ver a sua incapacidade para a árdua tarefa: Nader encontra o pai caído, sozinho. Ao deparar com a empregada, empurra-a, ferindo-a com gravidade. É aí que um novo componente dramático vem à tona: o marido, muçulmano, só então descobre que a mulher estivera trabalhando para um homem separado, o que é inadmissível sob o ponto de vista do machismo oriental. O filme, com se vê, é muito mais que uma obra de arte sobre a separação de um casal. Ele explora com verticalidade o que vem a reboque da simples decisão de recomeçar a vida sem o outro -- e expõe, com clareza, as fraturas que muitas vezes podem resultar disso.









quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A vida de Michelângelo Buonarroti

Amiga, que assina prestigiada coluna de jornal da cidade, telefona-me pedindo o título do livro que estou lendo e um breve comentário sobre o mesmo. Quando lhe digo que se trata de uma biografia de Michelângelo Buonarroti, publicada pela primeira vez em 1550, estranha e pede que lhe repita o nome. O livro, de Giorgio Vasari, só agora foi integralmente traduzido para o português e se trata do mais antigo e mais respeitado estudo sobre vida e obra do genial artista do Renascimento italiano. Está, quentinho, nas livrarias, sob a chancela da Editora Unicamp, com tradução, introdução e comentários de Luiz Marques, curador-chefe do MASP e professor de história da arte do Departamento de História da Universidade de Campinas.
 
Pelo que pude concluir do estranhamento da jornalista (compreensível para a proposta da sua lidíssima coluna) o livro foi considerado muito "especializado" para figurar numa coluna social como indicação de leitura, num espaço onde, não raro, aparecem publicações de auto-ajuda ou romances de escritor da moda que me recuso a indicar para quem quer que seja, sem medo de parecer arrogante ou ferir princípios do politicamente correto. Até porque o livro de Vasari, que é o precursor da História da Arte, pode ser lido por qualquer pessoa e nem por isso vai deixar de ser prazeroso e bastante interessante.
 
Que Michelângelo é um dos expoentes da escultura da Renascença   --  e o pintor do maior e mais importante conjunto pictórico do mundo (estou falando dos afrescos do teto e parede de fundo da Capela Sistina, no Vaticano), acho que é fato já muito conhecido. O que talvez só os amantes da Arte saibam, todavia, é que, ao lado do artista extraordinário, Michelângelo Buonarroti foi também um homem especial, de uma inteligência singular e um temperamento intenso e explosivo, que marcaram dialeticamente a sua passagem pela vida artística de Florença, Bolonha e, sobretudo, Roma, onde fixou residência durante boa parte do pontificado de Júlio II, de quem foi amigo próximo.
 
Repleto de fatos curiosos, que prendem o leitor da primeira à última página, A vida de Michelângelo Buonarroti está dividido em capítulos minúsculos, exceto um e outro em que Vasari dedica-se a discorrer com mais minúcias acerca de ocorrências curiosas, ou quando volta a sua atenção para obras mais expressivas do gênio de Arezzo, como é o caso das pinturas do teto da capela construída pelo papa Sisto IV, tio de Júlio II, para quem Michelângelo, contra a sua vontade pessoal, realizou a obra monumental. Ou a escultura de Moisés, a quem, de tão perfeita, ao concluí-la, num ato falho, o artista ordenara: - "Agora, fala!"
 
Conta em favor da biografia escrita por Giorgio Vasari (um pintor e arquiteto de talento mediano), para além das qualidades de estilo e profundidade, o fato de ter sido ele amigo pessoal de Michelângelo, a quem teria submetido o texto orginal do livro e de quem guardou até a morte as muitas cartas que lhe foram endereçadas pelo fenômeno da escola de Florença. Numa delas, reportando-se à inveja suscitada em outros artistas ligados a Júlio II, faz alusão a Rafael, outro gigante do Renascimento italiano: - "Todas as discórdias que nasceram entre o papa Júlio e mim derivam da inveja de Bramante e Raffaelo da Urbino." Excelente leitura para todos aqueles que gostam da Arte, o livro de Vasari é obrigatório para quem lida intelectualmente com ela. Se a indicação vai ou não ser publicada pela amiga colunista (pessoa que admiro muito!) são outros quinhentos, mas a indicação está feita.