Entre os muitos e-mails da semana, gostaria de registrar três ou quatro de leitores antigos e novos: Hilton Holanda, com a pertinência e lucidez de sempre, alude à coluna sobre cenas de filmes e diz qual aquela de sua predileção. Braz de Almeida, poeta e cantor, critica o fato de vir escrevendo muito sobre cinema em detrimento de outros temas, relacionamentos, por exemplo, do qual diz ter me tornado "um especialista". Marquezam, direto da cidade paulista de Diadema, diz ter encontrado ao acaso o meu blog no google e que se tornou, desde então, 'admirador confesso' (sic) do seu conteúdo. E o talentoso arquiteto e contista Brenand Ferreira pergunta se vi Agonia e Êxtase.
A curiosidade de Brennand prende-se ao fato de, na última crônica, ter este escriba discorrido sobre a biografia de Michelangelo Buonarroti, de Giorgio Vasari. Faz alusão ao filme do cineasta inglês Carol Reed, com Charlton Heston e Rex Harrison (brilhantes!), nos papeis de Michelangelo e Julio II, respectivamente. O filme, como observa o arquiteto iguatuense, é uma obra-prima, com uma fotografia maravilhosa e uma trilha musical de derrubar, literalmente. Revi-o, curiosamente, há poucos dias, durante uma aula de iniciação à estética. Não é muito lembrar, caro Brennand, que o roteiro foi escrito a partir do romance homônimo, de Irving Stone, abertamente fundamentado na biografia de Vasari. Disponível em qualquer boa locadora. Recomendo.
E, por falar em cinema (risos), entre os candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro está o belíssimo A Separação, de Asghar Farhadi. Quem não viu, ainda, que o faça, pois se trata de uma obra sublime sobre o velho tema da separação, como está explícito no próprio título dessa joia rara do cinema iraniano. Vi-o muito antes de chegar aos cinemas da cidade, pelas mãos do 'garimpeiro' Cesar Lincoln, que me presenteou com o DVD.
O enredo, tecido com a maestria já conhecida de outros cineastas orientais, bem na linha de Abbas Kiarostami, explora o drama da separação sem a pieguice com que os americanos, por exemplo, costumam fazer, embora o filme tenha passagens comoventes, dessas em que se torna quase impossível conter o pranto. Simin (Leila Hatami) decide deixar o país com a filha Termeh (Sarina Farhadi), mas, para realizar o projeto, precisa ter a autorização de Nader (Payman Moadi), pai da menina. A situação, que teria desdobramentos já muito conhecidos, tem um elemento agravante: o pai de Nader sofre de Alzheimer avançado e precisa dos seus cuidados. Entra em pauta de discussão um dos problemas emergentes dos tempos atuais: como dividir-se entre as atribuições de marido e as de um filho aos olhos de quem a morte se anuncia de forma tão dramática?
Como no vulgarizado chavão, no entanto, nada é tão ruim que não possa piorar. Nader, assolado pelo trabalho e sem poder contar com a mulher, contrata uma empregada para cuidar do pai. Esta, que aceita o trabalho para ajudar o marido, mergulhado em dívidas, logo dá a ver a sua incapacidade para a árdua tarefa: Nader encontra o pai caído, sozinho. Ao deparar com a empregada, empurra-a, ferindo-a com gravidade. É aí que um novo componente dramático vem à tona: o marido, muçulmano, só então descobre que a mulher estivera trabalhando para um homem separado, o que é inadmissível sob o ponto de vista do machismo oriental. O filme, com se vê, é muito mais que uma obra de arte sobre a separação de um casal. Ele explora com verticalidade o que vem a reboque da simples decisão de recomeçar a vida sem o outro -- e expõe, com clareza, as fraturas que muitas vezes podem resultar disso.
A curiosidade de Brennand prende-se ao fato de, na última crônica, ter este escriba discorrido sobre a biografia de Michelangelo Buonarroti, de Giorgio Vasari. Faz alusão ao filme do cineasta inglês Carol Reed, com Charlton Heston e Rex Harrison (brilhantes!), nos papeis de Michelangelo e Julio II, respectivamente. O filme, como observa o arquiteto iguatuense, é uma obra-prima, com uma fotografia maravilhosa e uma trilha musical de derrubar, literalmente. Revi-o, curiosamente, há poucos dias, durante uma aula de iniciação à estética. Não é muito lembrar, caro Brennand, que o roteiro foi escrito a partir do romance homônimo, de Irving Stone, abertamente fundamentado na biografia de Vasari. Disponível em qualquer boa locadora. Recomendo.
E, por falar em cinema (risos), entre os candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro está o belíssimo A Separação, de Asghar Farhadi. Quem não viu, ainda, que o faça, pois se trata de uma obra sublime sobre o velho tema da separação, como está explícito no próprio título dessa joia rara do cinema iraniano. Vi-o muito antes de chegar aos cinemas da cidade, pelas mãos do 'garimpeiro' Cesar Lincoln, que me presenteou com o DVD.
O enredo, tecido com a maestria já conhecida de outros cineastas orientais, bem na linha de Abbas Kiarostami, explora o drama da separação sem a pieguice com que os americanos, por exemplo, costumam fazer, embora o filme tenha passagens comoventes, dessas em que se torna quase impossível conter o pranto. Simin (Leila Hatami) decide deixar o país com a filha Termeh (Sarina Farhadi), mas, para realizar o projeto, precisa ter a autorização de Nader (Payman Moadi), pai da menina. A situação, que teria desdobramentos já muito conhecidos, tem um elemento agravante: o pai de Nader sofre de Alzheimer avançado e precisa dos seus cuidados. Entra em pauta de discussão um dos problemas emergentes dos tempos atuais: como dividir-se entre as atribuições de marido e as de um filho aos olhos de quem a morte se anuncia de forma tão dramática?
Como no vulgarizado chavão, no entanto, nada é tão ruim que não possa piorar. Nader, assolado pelo trabalho e sem poder contar com a mulher, contrata uma empregada para cuidar do pai. Esta, que aceita o trabalho para ajudar o marido, mergulhado em dívidas, logo dá a ver a sua incapacidade para a árdua tarefa: Nader encontra o pai caído, sozinho. Ao deparar com a empregada, empurra-a, ferindo-a com gravidade. É aí que um novo componente dramático vem à tona: o marido, muçulmano, só então descobre que a mulher estivera trabalhando para um homem separado, o que é inadmissível sob o ponto de vista do machismo oriental. O filme, com se vê, é muito mais que uma obra de arte sobre a separação de um casal. Ele explora com verticalidade o que vem a reboque da simples decisão de recomeçar a vida sem o outro -- e expõe, com clareza, as fraturas que muitas vezes podem resultar disso.