sexta-feira, 13 de abril de 2012

A bela utopia

Ainda lembro: o Cine Alvorada, localizado no quadrilátero que hoje compõe o grande centro da cidade, ficou lotado. Em algumas sessões, as filas arrodeavam o quarteirão. Eles já eram um fenômeno mundial e, quase meninos, sabíamos de cor as letras em inglês de alguns dos seus principais sucessos. As meninas, então, pareciam enlouquecidas diante da possibilidade de ver (a tevê não chegara à cidade) a imagem daqueles quatro rapazes que, da noite para o dia, haviam conquistado o mundo com seus instrumentos mágicos e suas cabeleiras esvoaçantes. Os reis do iê-iê-iê, era como se chamava o filme. O ano, não lembro com precisão, algo em torno de 1967, 68... The Beatles, os garotos de Liverpool, já eram amados mesmo na provinciana e pequenina Iguatu de tempos que já vão longe.

Esta semana, 'meio' que garimpando preciosidades do cinema, consegui em DVD o filme inesquecível de Richard Lester. Revi-o, em princípio, com os olhos do saudosista, que traz no peito as recordações de uma adolescência como não se vive mais. Em seguida, agora com os olhos do estudioso de cinema, pude reparar na importância da obra em termos de transgressões estéticas levadas a efeito por um cineasta criativo e enormemente talentoso. Há em Os reis do iê-iê-iê experimentos de linguagem que viriam tomar conta do cinema e da tevê: os jump cut à maneira de Godard, a câmera nervosa, com que o diretor do filme consegue obedecer o ritmo excitado e histérico dos fãs, tudo, tudo no filme permanece atual, dando-nos, aos que éramos pouco mais que crianças à época do seu lançamento, uma emoção sem nome. Milagres da sétima arte.

O filme começa com uma sequência magistral, os rapazes de Liverpool em meio a uma multidão delirante numa estação de trem. A música-tema, A Hard Day's Night, explodindo aqui e ali, entra pelos ouvidos do espectador para rapidamente chegar à alma. A sensação é que voltamos no tempo, e outra vez sinto-me o adolescente de 12, 13 anos do velho Cine Alvorada. Naquela que é, talvez, a mais bela cena do filme, a câmera baixa acompanha a descida enfurecida dos quatro jovens por uma escada de incêndio. Pura arte de filmar.

Os acordes atrevidos de George Harrison, com sua guitarra de doze cordas, a uma dada altura do filme parecem tomar conta de nós. O tempo pára e, em passe de mágica, voltamos mesmo a um mundo em que ainda se podia sonhar: "Can`t Buy Me Love", "I Should Have Known Better", "All My Loving", "She Loves You", "I Wanna Be Your Man"... Canções que ressurgem em nossos corações como se ainda tivéssemos a mesma energia e a mesma coragem de peitar o desconhecido, num tempo em que as palavras de ordem eram amor e paz. Os beatles vestiam-se iguais, em algumas passagens quase não se podem distinguir seus rostos. Pouco importa, ali estão todos os John, George, Paul e Ringo que existem em cada coração que ama.


Numa sequência antológica, os quatro jovens correm pelas ruas de Londres, livres e soltos, como garotos inocentes e puros. A uma dada altura, a afirmação: - "Sou um enganador!", diz Ringo a um repórter que lhe perguntara se são rapazes revoltados ou roqueiros. Enganadores, sim, porque nos faziam acreditar que "o dinheiro não pode comprar amor" (Money can't buy love!), como está numa das mais belas canções do filme.

















quinta-feira, 5 de abril de 2012

É o conceito de envelhecer que envelhece

Como estivesse aniversariando, amiga telefona para me cumprimentar e termina o contato com a afirmação curiosa: - "Outro dia, o vi atravessando uma rua e pude reparar no quanto você está envelhecendo bem!" Desligo o celular e fico matutando sobre a afirmação ambígua. Envelhecer bem, a uma dada altura de nossas vidas, pode significar que estamos envelhecendo muito -- e celeremente. Uma outra chama a atenção para o fato de que Chico Buarque está amando uma moça quarenta e alguns anos a menos que ele. Nada mal, como se pode ver, quando se é Chico Buarque de Holanda (risos), o que não é um status fácil de se conquistar, convenhamos. Brincadeira à parte, vamos ao que interessa.

O fato é que a paixão do gênio pela cantora Thaís Gulin rendeu para os amantes de sua música um belo blues, Essa Pequena, com que expressa o enlevo de entregar-se outra vez à melhor das emoções: "Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza o dela é cor de abóbora / Temo que não dure muito a nossa novela, mas / Eu sou tão feliz com ela". Se não estamos, de fato, diante do melhor Chico Buarque, a letra não desmerece o seu criador. Antes pelo contrário, na medida em que a poesia é doce e simples quanto o coração do 'menino' apaixonado.

Por sinal, segundo e-mail enviado pela amiga, o affair do artista com a pequena ruiva ainda rendeu uma crônica excepcional de Rosiska Darcy de Oliveira, em que a socióloga levanta reflexões bastante interessantes sobre o que significa envelhecer. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos, por imperdíveis: - "Chico Buarque vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue o seu caminho e tomara que ele continue cantando "eu sou tão feliz com ela" sem encontrar resposta ao "que será que dá dentro da gente que não devia".

Acho que aí está o segredo para envelhecer bem, agora sem a ambiguidade dos cumprimentos de minha amiga. Sob este aspecto, aliás, é que vem da cronista a frase lapidar: - "O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas". Envelhecer, que a tantos parece apavorar, já na fronteira dos 40, nas mulheres, dos 50, nos homens, não passa de uma tolice, posto que é coisa inevitável na vida de todos nós. O segredo, se segredo existe, está em lidar com tranquilidade com as mudanças do corpo, impedindo-as, a todo custo, que possam atingir a mente, nicho em que repousam as eternas novidades da vida. Não fosse a imagem no espelho, como diz Rosiska, os netos que nascem e os amigos que morrem, não fosse o tempo "um senhor tão bonito como a cara do meu filho", nas palavras de Caetano (outro a quem o envelhecimento só embelezou), quem por si mesmo se perceberia envelhecer?

Para o bem ou para o mal, assim, é que preferi tomar por elogio a constatação de minha amiga. Fecho com Rosiska: "É o conceito de velhice que envelhece" e "são cada vez menores as fronteiras que separam as fases da vida". Que bom!