quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O sonho de um jovem médico

Para auscultar o coração de um povo, não se precisa de um estetoscópio. Basta ter coração!
(Ernesto Che Guevara, médico argentino)
Escrevo a coluna de hoje da cidade de Barbalha. Vim para participar da festa de conclusão de curso do meu filho Saulo, pela Universidade Federal do Ceará.
 
Durante a viagem de deslocamento, sob o efeito da emoção que sente todo pai em momento, assim, particularmente marcante na vida de um filho, passei em revista a história desse "menino" que começa a sua trajetória como médico aos 25 anos e dominado por tantos sonhos, tanta vontade de servir às pessoas com os instrumentos de uma profissão a um tempo tão nobre e tão desafiadora, num país ainda desigual e injusto como o nosso.
 
Guardo de cor, porque tantas vezes lida, a dedicatória com que abre o seu convite para as muitas solenidades de formatura, e da qual reproduzo, aqui, um fragmento particularmente tocante do que diz: - "Minha história até aqui tem sido rica de aprendizado, boas experiências e momentos inesquecíveis. Devo isso a Deus (mais que tudo!), aos (muitos) grandes amigos e à minha família. Mãe, pai, Beto, Carol, Mariana e Juliana, a vocês dedico esse diploma e tudo de melhor que vier por meio dele. Também a vovó Zulene e Igor, que vão estar presentes comigo sempre que eu conseguir fazer mais feliz a vida de quem comigo encontrar".
 
"Fazer feliz a vida de quem comigo encontrar". Nessas poucas palavras, tenho refletido desde o momento que as li pela primeira vez, descubro o segredo do que deveria ser a existência humana, essa vontade interior de contribuir, dentro das possibilidades de cada um, no árduo processo de construção de um mundo mais feliz  --  ou, quando a felicidade não for de todo possível, um mundo em que seja "menos dolorosa" a vida de todas as pessoas!
 
Tenho feito preces a Deus para que Saulo, e, indistintamente, todos aqueles que neste final de ano terminam suas faculdades, possam, como disse ele, "por tudo de melhor que venha pelos meios de seus diplomas", estar mesmo atentos a esse desejo interior, tão simples e tão profundo, carregado de tantos e imponderáveis sentidos e significados.
 
"Fazer mais feliz ou menos dolorosa a vida de quem encontrar comigo". Eis o segredo da existência humana, aquele que deveria se tornar a razão de viver de cada um de nós, o segredo a que se reportou Dostoiévski a uma dada altura de sua vida: - "O segredo da existência humana consiste em se achar uma razão de viver".
 
Que esses novos médicos, assim como os novos advogados, professores, arquitetos, os novos 'formados' que iniciam a partir de agora suas caminhadas, independentemente da profissão escolhida, acrescentem aos seus muitos sonhos, naturais a esta altura de suas vidas, esta  bela razão de viver: "Fazer mais feliz ou menos dolorosa a vida das pessoas"!
 
No final de sua dedicatória, Saulo, que foi escolhido como o orador da turma, arremata com duas ou três palavras o seu desejo: - "Que o fim desse curso seja o início de um caminho longo e frutífero, guiado pela ética, pela gratidão e pela competência!" Que Deus torne possível o seu sonho e dos seus colegas! E que eles jamais esqueçam do juramento feito em clima de festa!
 
 
 
           

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Talento multimídia

Quando certa vez elogiei aqui os poemas de Bruna Lombardi, a bela atriz de tevê e cinema, muita gente boa caiu de pau sobre mim. É que no Brasil, quase sempre, a figura do bom escritor está associada a homens e mulheres feios e taciturnos, como se a literatura demandasse valores incompatíveis com a beleza física e a notoriedade midiática.
 
De novo, e com o prazer de quem acaba de descobrir ouro em meio à aridez do deserto (pelo menos em termos de renovação estilística), deparo com uma literatura, de altíssima qualidade, oriunda de quem conhecia apenas de uns pequenos textos publicados periodicamente na Folha de S. Paulo e de suas aparições nas telas: Fernanda Torres, a muitíssimo conhecida atriz da Globo, cujo romance de estreia, Fim, acabo de ler entre embevecido e encantado.
 
O núcleo dramático do romance está estruturado em torno de cinco personagens, às quais a autora dá voz numa narrativa marcada por originalidade e força poética: Álvaro, com cujo ponto de vista a história tem início, é um homem atormentado pela solidão e velhice; Ciro, um namorador tipicamente carioca e portador de um câncer; Sílvio, um dependente de droga e sexo em idade também avançada; Ribeiro, um rato de praia que apelou à medicina para continuar viril e Neto, o careta do grupo, que não sabe nem mesmo conquistar amigos e namoradas.
 
Ambientado no bairro carioca de Copacabana, e sustentando-se nas experiências de vida de uma  geração frustrada e insatisfeita, Fim é um livro exemplarmente bem construído, enxuto e dotado de uma tensão interior capaz de prender o leitor da primeira à última página.
 
Entre suas muitas qualidades de estilo, uma vez que Fernanda Torres faz sua estreia no gênero com uma maturidade que a um tempo surpreende e conquista, sobressai a narração precisa, atenta a detalhes que dão um colorido particular ao texto. Um exemplo disso é a forma como descreve, pela voz de cada personagem, as dificuldades com que deparam os idosos nas cidades brasileiras, esburacadas, sem calçadas e quase sempre ameaçadoras para quem, como o velhinho Álvaro, tem de enfrentar motoristas mal-educados e insensíveis.
 
Há uma boa dosagem de humor nas páginas de Fim, mas há também um sem-número de situações com as quais, em alguma medida, todo leitor haverá de se identificar. A parte do romance que descreve a difícil experiência da personagem Irene no IML, quando é convocada a identificar o corpo do ex-marido, morto num atropelamento, é tão forte que chega a provocar náusea, não apenas pela forma objetiva com que mostra o fato, mas pelas reflexões que o mesmo provoca a uma mulher diante do corpo frio e inerte de quem amou um dia, e para quem, ali, apenas está um defunto entre os muitos à espera de identificação.
 
Mesclando a narrativa, assim, com descrições e fluxos de consciência que lembram autores de primeira grandeza, Fernanda Torres, no seu romance de estreia, diz a que veio, e entra para o cenário literário brasileiro com uma dignidade artística que não deixa nada a desejar a escritoras consagradas como Lygia Fagundes Telles e Nélida Pigñon. Como afirma Sérgio Rodrigues numa orelha de Fim, está provado que o talento pode ser multimídia. Recomendo.