sexta-feira, 21 de março de 2014

De volta ao passado

Com relação a 12 anos de escravidão, o ganhador do Oscar 2014, ocorreu-me o contrário do que é comum em termos de adaptação: o filme me levou a ler o livro que lhe deu origem, de Solomon Northup, cuja primeira edição é de 1853 e só agora chega ao Brasil em tradução de Caroline Chang. Para quem não viu o filme, trata-se do relato autobiográfico de um cidadão americano sequestrado em 1841 e resgatado doze anos depois de uma propriedade algodoeira nas proximidades do rio Vermelho, Louisiana.
 
Considerando-se que se trata de duas linguagens estéticas, o que torna uma tolice estabelecer comparações do tipo "gostei mais do livro" ou vice-versa, tomo o cuidado de não incorrer em julgamentos que ponham por terra o meu encanto com as duas obras. Explico-me: o livro de Northup, não bastasse o fato de representar um depoimento de quem sofreu na carne sofrimentos só comparáveis "às agonias flamejantes do inferno", o que já o credencia, quando menos, pela autenticidade de sua narrativa, é vazado numa linguagem elegante e estilizada, capaz de prender o leitor e de mantê-lo sob o domínio de uma emoção entre poética e revoltada.
 
Aí, por sinal, reside o ponto alto de ambos, o filme e o livro que lhe deu origem, pois, na contramão do que é recorrente nas narrativas clássicas, nenhum deles conduz o público pela mão, mantendo-o a uma certa distância do fulcro dramático da obra, o que, nesse caso, acabaria por abrandar um pouco da sua densidade. Não, livro e filme são capazes em igual medida e com quase a mesma qualidade estética (o filme é soberbo sob este aspecto) de nos inserir na tessitura do conflito, de despertar em nós, até onde é cabível afirmá-lo, a mesma surpresa diante de tanta brutalidade, algo que nos horroriza e revolta. Não à toa, pois, é que vi, no cinema, um pouco à minha frente, um homem negro ir à lágrimas, silenciosas, educadas, mas suficientes para traduzir a sua indignação diante da realidade retratada na tela. Indignação que sentimos todos, independentemente da questão racial.
 
No caso de Steve McQueen, o cineasta afro-americano que dirige 12 anos de escravidão com a mão segura e sensível de um cineasta sublime, parece-me se dá o que conhecemos em termos estéticos pelo nome de autofiction, termo com que Serge Doubrovsky classifica um tipo de autoescrita em que ocorre uma equivalência entre autor e narrador a fim de esconder aspectos autorretratados. Não que a história do filme, claro, diga respeito a sua vida pessoal. Mas McQueen, sabe-se, é um artista engajado politicamente, notadamente em tudo que tiver com a questão racial qualquer relação, o que conferiu ao filme um tratamento extremamente expressivo dos seus elementos formais.
 
A paleta de cor, a direção de atores, o tom intencionalmente contrastante de algumas imagens nos planos (há cenas que contrapõem a violência praticada contra os escravos a um fundo de quadro estonteante do ponto de vista plástico), o ritmo da narrativa e a música de fundo, para não falar daquela que, fazendo parte da história, emana do violino de Northup, em meio a um silêncio opressivo, tudo no filme é irretocável esteticamente falando.
 
Steve McQueen, com 12 anos de escravidão, ergueu o seu mais indignado e universal protesto, o mesmo de que se originaram, por certo, as lágrimas do espectador a que me referi há pouco. À feição de um Guevara, no que respeita às questões sociais mais amplas, o filme de McQueen, como o livro que acaba de chegar ao país, parece nos dizer: onde quer que um negro seja objeto de maus-tratos, toda a humanidade estará sendo humilhada no mesmo instante.
 
A grande arte é capaz de ressignificar-se, atualizando-se. Talvez por isso, fugindo ao que é comum nas narrativas do gênero, que retratam o negro da escravidão à liberdade, a história de Northup percorra uma trajetória inversa, e vá da liberdade à escravidão. Qualquer relação com fatos ocorridos ultimamente nos estádios brasileiros, por exemplo, não será, pois, mera coincidência. Estamos de volta ao passado.
 
 
 
 
 
 
 
 
            
           

quinta-feira, 13 de março de 2014

Jogando conversa fora

De sua relevância como marchand, incentivadora das Artes no Ceará, dama inconfundível do ramo de restaurantes, onde atuou com uma originalidade e um bom-gosto que entraram para a história do que existe de melhor na noite da cidade, e no esmero do bem receber, em seus tempos do La Bohème, ponto de encontro do que houve de mais representativo da vida intelectual e artística do estado, não vou falar, que já o fizeram por esses dias com o talento e a competência que me faltam. Ouso falar, com o meu verbo claudicante, mas determinado, da escritora, com que todos  --  rigorosamente todos  --, fomos pegos de surpresa no dia que se seguiu aos festejos dos seus 90 anos.
 
Isso mesmo, assim, com todas as letras: Escritora. Pois não é que Ignez Fiuza (peço vênia para dispensar o 'dona'), meio sorrateira, como gosta de ser entre aqueles que têm o privilégio de conhecê-la na intimidade da família, brinda-nos com um livro delicioso, escrito com a elegância e a leveza do seu estilo marcante e da sua sensibilidade refinada!? Pois bem, é sobre Jogando conversa fora, como intitulou seu livro de memórias, que gostaria de dizer duas ou três palavras.
 
Vazado em primeira pessoa, como é próprio do memorialismo, o livro seduz o leitor já nas primeiras páginas, quando a autora, entre humilde e ardilosa, simpaticamente ardilosa, justifica-se por trazer a público, ainda que restrito, a sua vontade de "abrir gavetas, não só de móveis, mas também da alma à procura de escondidos".
 
E assim, já de chofre, que me perdoem o deselegante da expressão, faz o leitor deparar com a sua forma gostosa de dizer as coisas, tragando-o, como as ondas do mar de Bentinho, no Dom Casmurro, tragaram Escobar numa certa manhã de domingo, exemplo do que dá a ver com o uso estilizado do vocábulo "escondidos", tão expressivo, como está no livro, na sua forma substantivada.
 
Explico-me: Ignez poderia ter lançado mão da forma adjetivada, como é usual, e teria, que eu sei, inúmeras maneiras de dizê-lo, arrogantes ou banais. E viriam termos já cansados com que se costuma fazer rotular os registros da memória: ábditos, absconsos, abstrusos, confidenciais, disfarçados, ocultos, secretos, sigilosos, velados, e por aí vai (ou iria).
 
Mas não, que Ignez abomina tudo o que capitula frente aos costumes e aos modismos. E sai-nos, já no início de suas conversas, com esse maravilhoso substantivo, "escondidos", na definição do que são algumas intimidades (outras nem tanto), que só nos levam, àqueles que não estavam perto, por esses idos, cada vez mais, a admirar essa grande mulher. E viajamos, assim, maravilhados, como quem saboreia um bordeaux à luz de velas, as viagens de Ignez através do passado e do contemporâneo, num texto que se notabiliza pelo rigor memorialístico e pela emoção estética invulgar.
 
Pouco mais adiante, à guisa do que poderia ter chamado de prefácio, não o tivesse feito com propriedade o professor Miguel Leocádio Araújo, a quem Ignez agradece como "incentivador" por sua primeira incursão no mundo das Letras, lança mão de sua 'fala' pontuada de imagens a um tempo simples e hábeis do ponto de vista criativo, para se dizer surpresa com a evolução do seu texto: "E por aí fui eu pulando as frases de uma para outra, como quem brinca de Tarzan". Que coisa linda, Ignez!
 
Para além do estilo, do processo de produção do texto propriamente dito, com que se vai revelando a mulher incomum, a mãe obstinada, a arte-educadora avant la lêttre a quem o Ceará deve tanto, Jogando conversa fora mais ganha em qualidade pelo senso de justiça e gratidão com que sua autora dá realce a pessoas simples, que, por razões que só ela conhece em sua total extensão (e que comumente são esquecidas em escritos do gênero), avultam das páginas do livro delicadas e afáveis como velhos amigos.
 
É assim, pois, que aparecem no livro, além dos notáveis dos meios artísticos, sociais e políticos, daqui e d'além, nomes como o de André Legeon, misto de galerista (de Arte), cozinheiro de talento e artista francês radicado em Fortaleza, a quem Ignez Fiuza, de maneira notavelmente simpática, como é próprio das mulheres elegantes, apresenta-nos como uma "gaivota inquieta", amante de Edvard Munch e Edgar Degas.
 
Por último, se eram duas ou três as palavras, não titubeio em afirmar: Que belo, que belíssimo livro de estreia este Jogando conversa fora com que Ignez Fiuza nos presenteou.