quinta-feira, 20 de abril de 2017

Montenegro, o livro

Li, com redobrada atenção, Montenegro, família-história e medicina, o livro com que José Hilton Lima Verde Montenegro, em mais uma contribuição relevante para o resgate da memória iguatuense, homenageia seu pai, o médico José Holanda Montenegro. Trata-se de obra marcante sob todos os aspectos, notadamente por celebrar uma pessoa que fez de sua vida um exemplo a ser seguido, pela doação desinteressada, pela correção moral, pela elegância de sua conduta social e política.

As qualidades editoriais da publicação, irretocável em sua apresentação e beleza gráfica, por si só, constitui um convite à leitura. Mas, fique isto claro, é o rigor da pesquisa que torna o livro quase obrigatório para quem se mostre minimamente empenhado em conhecer capítulos significativos de nossa História, dando a ver, ao lado da criteriosa curiosidade que movimentou o notável intelectual, a fina sensibilidade do historiador. Eis o que faz a diferença num livro do gênero: saber transitar do fato objetivo, que o credencia, para a subjetivação, que o embeleza. Hilton superou-se nesse sentido, razão por que seu último livro beira à perfeição do ponto de vista estético, tomando o termo no sentido da fenomenologia da experiência histórica propriamente dita. O autor submete tal experiência à descrição, à análise subjetiva e à apreensão do seu significado transcendental. Não se desapega da verdade factual, pois tem presente que o leitor a que se destina sua pesquisa, em tese, pode ser outro que não o familiar do biografado, sem negar, todavia, que é o sentimento do filho o esteio da percepção desse fato.

Como disse o médico Hildernando Bezerra, em apresentação irretocável da obra, "Hilton vai à Fundação Gilberto Freire, em Recife, e lá garimpa, nos escritos de Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, as origens da família Montenegro no Brasil. Mergulha mais a fundo, no passado e, nos longínquos idos do século XVI, descobre seu parentesco com o Papa Adriano VI. Suas pesquisas singram o Atlântico e descobre até seus primeiros ascendentes no Brasil, aqui chegando em companhia do donatário Duarte Coelho".

Mas o livro, sem perder de vista as bases historiográficas que o validam, outrossim, como produção científica (para além do memorialismo desinteressado, de "perfume" kantiano), ganha força à medida em que a narrativa deixa ver a dosada emoção do filho, como no capítulo em que descreve o AVC ocorrido ao pai em 1976: "Gradativamente foi reconhecendo uma pessoa e outra, às vezes trocava Ana Cláudia por Virgínia, às vezes a conversa ou a pergunta era sem nexo, mas aos poucos o quadro clínico ia melhorando e animando todos nós e a equipe médica, que também vibrava com a sua melhora".

Aqui e além, o foco desliza do pessoal para o impessoal, e não raro o "papai" dá lugar ao "doutor Montenegro". Isenção? Ato falho do historiador? Talvez. O que resulta disso, no entanto (e que mais importa), torna o discurso leve, delicado, sutil, que é mesmo uma marca da escrita hiltoniana, se me permite o autor, humilde que é, tal adjetivação: "Tínhamos notícias de que, em Iguatu-CE, existia uma corrente de orações para a melhora do Dr. Montenegro. Centenas de pessoas invocando os seus Santos e fazendo promessas... Por tudo que se fazia de positivo para papai, nós ficávamos gratos e felizes, pois nesse momento de dor e sofrimento conseguimos vislumbrar o quanto ele era querido, o quanto ele fazia falta".

Como bom historiador, Hilton não se limita aos grandes eventos. É assim que traça com detalhes o perfil psicológico de Dr. Montenegro. Mais: traça o perfil profissional, intelectual, humano, desse homem memorável de que todos os iguatuenses devemos nos orgulhar. Conhecemos o seu gosto musical, literário, suas crenças, seus valores, a sua visão de mundo e o amor sem nome que dedicou aos filhos e a Dona Elze Alves Lima Verde Montenegro, a companheira inseparável.

Mais que aplaudir, há que se agradecer a José Hilton Lima Verde Montenegro pela grande obra com que acaba de nos presentear.

 

 

 

 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O que faz de um filme um grande filme, por Álder Teixeira*

Nas aulas de Estética do Cinema, não raro ouço a seguinte indagação: "O que faz de um filme um grande filme?" A pergunta, que a princípio pode parecer ingênua, é de uma complexidade imensa. Vejamos: Existem filmes interessantes, filmes belos, empolgantes, transgressores, provocativos e que, por curioso que pareça, não se sustentam diante de uma análise criteriosa do ponto de vista cinematográfico. E, no entanto, existem filmes que sequer comportam essa adjetivação e são soberbos como arte cinematográfica. Como se vê, nada é de fato tão simples quando se pretende analisar um filme. O mesmo acontece às outras linguagens estéticas, à pintura, à fotografia, à música etc.

Por que isso acontece? O que faz com que certos filmes arrebatam plateias, fiquem no imaginário das pessoas como obras perfeitas, mesmo quando suas deficiências formais ou conteudísticas (e não raro formais e conteudísticas) são óbvias aos olhos do crítico de cinema? Talvez por que, grosso modo, a maior parte das pessoas não tenha sido preparada para "ver um filme" como obra de arte, mas, tão-somente, como entretenimento, como fuga do indesejável, como uma circunstância em que se aceita a irrealidade como se a realidade fosse  ---  numa palavra, como passatempo. Se isso é válido, porque a arte não existe para especialistas, claro, não é menos válido afirmar que um especialista, um estudioso de cinema, um crítico honesto, podem tornar a experiência de assistir a um filme muito mais rica, mais completa em suas forças de sentido e, mesmo, em sua beleza estética.

Assim como uma tela se faz notar por sua composição, como na obra de um Giotto di Bondone; por sua força dramática, como em Caravaggio ou Géricault; pelo senso simbólico de sua imagem, como em Botticelli; pela luz, em Turner; pela exploração do espaço, como em Da Vinci ou pela originalidade da pincelada, em Van Gogh, ou, ainda, pelo poder da comunicação, como em Pablo Picasso, Tintoretto, Rubens, Cézanne etc., um filme notabiliza-se pelo domínio da linguagem, pelo equilíbrio de massas, no quadro, pelo ritmo da narrativa, pela beleza da fotografia, pela movimentação e angulação da câmera, pela poética autoral que faz de um Bergman, por exemplo, um artista inconfundível.

Some-se a isso um bom roteiro, uma direção de arte rigorosa, um figurino coerente com o tempo histórico do filme, um desempenho eficiente do elenco, uma música que se some à imagem para enriquecê-la de forma especial e convincente, uma montagem meticulosa e expressiva e, sobremaneira, uma direção geral que torne a obra fílmica menos teatral e mais narrativa, na linha do que professava François Truffaut, pois que ao diretor cabe o impagável papel de concentrar numa as muitas linguagens do cinema. Eis os elementos estéticos para os quais deve o espectador direcionar sua atenção, atirando-se ao encontro do que existe de verdadeiramente artístico num filme e o faz, em meio a uma produção inumerável de outros títulos, um grande filme.

Saber ver um filme, pois, é muito mais que compreendê-lo, simplificando o seu julgamento numa questão de gosto. A tendência da nossa crítica de cinema, através dos tempos, tem-se caracterizado pelas abordagens conteudísticas, desprezando a estilística cinematográfica, a "mise-en-scène" propriamente dita. Para o contentamento dos que amam o cinema, felizmente, cada vez mais ganha espaço nos cineclubes, nas academias, nas salas de aula das escolas e universidades, uma motivação para o corpo a corpo com a estilística cinematográfica, no viés em que se destacam autores incontornáveis como David Bordwell e Jacques-Aumont. Um filme é um grande filme, pois, pelas escolhas narrativas, pelo manuseio competente dos meios de expressão próprios do cinema (o estilo), sem perder de vista a dramaturgia e os componentes culturais e ideológicos, claro. 

 

*Álder Teixeira, Professor de Estética do Cinema, é Mestre em Literatura e Doutor em Artes pela UFMG.