sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Iago Brasileiro

Que pena um intelectual da estatura de Fernando Henrique Cardoso deixar que lhe chegue com a velhice a desfaçatez. Deplorável o que vem declarando à grande imprensa o autor de Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro de 1967 em que professa a necessidade de uma militância anti-imperialista no continente. De lá para cá, o que se viu, despudoradamente, foi o intelectual de esquerda dar lugar ao político da pior estirpe, este que considera lícito o golpe de 2016 e dá a ver, com indisfarçável cinismo, a sua satisfação com a retirada de Lula da eleição para presidente em 2018.

Diante da morte anunciada do candidato do PSDB nas urnas, FHC, agora, como um lagarto peçonhento, cospe para um lado e outro na tentativa de abocanhar o seu quinhão no processo de sucessão presidencial: --- "O estilo dele [Luciano Huck] é peessedebista. É um bom cara", afirmou, para, em seguida, telefonar a Alckmin minimizando o seu flerte com o candidato da Globo. É próprio dele afagar com as duas mãos, bater e assoprar, construir discursos ambivalentes, que carregam em si dois valores, numa tentativa desavergonhada de sair bem na foto. Até quando a tendência a atrair sobre si as atenções definirá as posições de FHC, não se sabe, mas que o ex-guevarista estará nas mídias por um bom tempo ainda, isto é certo.

Como lembra o articulista de direita Reinaldo Azevedo, em sua coluna desta sexta-feira na Folha de S. Paulo, é do feitio de FHC negociar a mãe com o diabo a fim de alcançar seus objetivos pessoais ou grupistas. Como candidato do Plano Real à Presidência, quem há de não lembrar, "buscou o apoio da 'velha política', encarnada pelo PFL, para fazer as reformas modernizadoras que a esquerda e a centro-esquerda se recusavam a apoiar". Agora é dele "a mão que balança o berço em que Huck balbucia infantilismos sobre política".

Se, há coisa de oito meses, FHC professava a necessidade de antecipação das eleições para presidente, lembra Azevedo, não faz muito considerava uma "loucura, loucura, loucura" (sic) o "Fora Temer", reeditando a dubiedade de suas propostas e, acima de tudo, de suas intenções quase sempre inconfessáveis. Age, mais uma vez, como o Iago da política brasileira, aquele personagem de Shakespeare que se imortalizou como o maior vilão da literatura mundial, cujo nome tem origem no demônio mitológico que pode significar Maldade ou Vingança.

 

 

 

 

 

 

  

 

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Enquanto arte, é imortal

Com o basta dado por Hollywood a celebridades do porte de James Toback, Harvey Weinstein e Kevin Spacey, velhas questões voltam a ser debatidas nos meios artísticos do mundo inteiro: Vida e obra são coisas distintas? É possível separar por completo a obra de um autor da sua vida? Se esta revela práticas condenáveis, aquela deve ser também condenada? Qual a importância de sua [do autor] índole política, afetiva ou erótica em face do que nos legou intelectual ou artisticamente?

Agora, por último, vem a público outra vez o drama de Woody Allen por supostas práticas de pedofilia contra a filha adotiva Dylan Farrow, em 1992, quando ela era criança.

Acusado, pois, de ter molestado a própria filha, um dos maiores gênios do cinema contemporâneo vê-se diante da ameaça de ter contratos rescindidos e da recusa de prestigiados atores e atrizes de participar de suas próximas realizações. Além disso, alguns desses astros têm publicamente pedido desculpas a seus fãs e, em particular, a Mia Farrow, mãe de Dylan, por terem participado de filmes de Woody Allen. Foi o que fez Mila Sorvino, revelada pelo diretor em Poderosa Afrodite, por cujo papel foi premiada com o Oscar de melhor atriz. Também o prestigiado ator Colin Firth divulgou se ter distanciado do realizador do impagável Neblinas e Sombras.

Mais relevante, ainda, é o fato de que Kate Winslet, segundo rumores, tenha sido excluída da lista de indicados ao Oscar 2018 pela simples razão de ter atuado em Roda Gigante, o mais recente filme escrito e dirigido por Allen.

Timothée Chalamet e Rebeca Hall, criticados por Dylan Farrow por atuarem no novo filme do diretor nova-iorquino, ainda por ser lançado, doaram seus cachês a organizações assistenciais contra o assédio e a agressão sexual e para a Time's Up, movimento levado a efeito por Hollywood pelas mesmas razões.

Vira e mexe, tenho sido abordado por amigos e leitores sobre a matéria polêmica. Faço aqui breves considerações, que, numa perspectiva foucaultiana, tenho a consciência de ser uma mera opinião, como toda opinião, sujeita a contestações em face das quais torno evidenciado o meu irrestrito respeito.

A interpretação de uma obra, a exemplo de um romance, uma peça de teatro, uma tela, uma composição musical ou um filme, como um produto autoral, se dá, em alguma medida, a partir de sua relação com a biografia de quem lhe deu forma, tornando possível a sua fruição individual ou coletiva. Mas isso, é importante frisar, é apenas um caminho dos muitos de que se deve lançar mão a fim de compreender a verdadeira essência do objeto estético, sem esquecer que, para ser obra de arte efetivamente falando, o objeto há que ser contemplado esteticamente. E isso pressupõe, pois, penetrar seu interior, abrir portas que a revelem como uma realidade independente.

Como nos adverte Luigi Pareyson, em Os Problemas da Estética, toda arte visa à impessoalidade, porque todo artista nutre, ainda que inconscientemente, algo como uma ânsia de imortalidade, ou seja, "quer fazer alguma coisa que dure mais que ele." A obra de arte é a um só tempo pessoal e suprapessoal, "porque na individualidade vive a universalidade do espírito."

Um filme, para trazer a discussão até à figura do cineasta Wood Allen, como qualquer atividade humana, obedece a uma iniciativa pessoal, traz mesmo, consigo, a energia íntima de quem a realiza, o ser individual que busca encontrar nela a afirmação de si. Mas há um limite a ser observado, sob pena de a obra perder a sua dignidade artística para se tornar um mero espelho através do qual a imagem do artista, como homem, se fará perceber.

Entre a obra e o autor, a exemplo do que assevera Octavio Paz a propósito de Juana Inés de la Cruz, se interpõe um elemento que os separa. No caso que vimos abordando, o espectador, posto que um filme, uma vez exibido publicamente, passa a ter uma vida independente da vida do seu realizador. Nesse momento, desvinculado das mãos que lhe deram forma significante, um filme se abre, assim, para o espectador, enquanto se fecha, cada vez mais, para o seu autor.

Além disso, toda obra de arte é um produto social e histórico. Assim como é impossível separar de todo a relação entre a vida de um autor e sua obra, é um despropósito ignorar a relação que esta mantém com a sociedade, refletindo seus conflitos, suas inquietações, suas dores e suas esperanças. Mas isso não quer dizer que um filme, um poema, uma peça teatral ou um romance não tenham vida própria, e que não sejam capazes de romper com as amarras que os prendem ao mundo individual do artista e aos limites do tempo histórico dentro do qual se dão a ver como realização humana.

Até onde sei, a filmografia de Wood Allen em momento algum se deixou contaminar pelos distúrbios pessoais que se lhe vêm atribuindo, mesmo quando, como um Bergman redivivo, faz um cinema de sondagem psicológica, de discussão dos conflitos existenciais do homem, da mulher e de seus relacionamentos, bem na linha do que fez, soberbamente, em filmes menos conhecidos como Crimes e Pecados e Interiores.

Se o homem errou e deve pagar por isso, se confirmadas as graves acusações que lhe têm sido feitas (e que o tornam, nesse caso, moralmente indefensável), a obra até aqui realizada me parece digna de figurar entre as maiores do cinema de todos os tempos. E essa, por isso mesmo, haverá de se tornar imortal.