sexta-feira, 14 de junho de 2019

Fwd: Sem meias-palavras

Neste mesmo espaço, para a irritação de muitos com o que consideravam tendencioso de minha parte, escrevi e reescrevi sobre os muitos e muitos indícios de que o então juiz Sérgio Moro, na Lava Jato, agia de forma aética e persecutória contra Lula e o PT. Por vezes, antevi os objetivos que perseguia a fim de limpar o terreno para o então candidato a presidente Jair Bolsonaro, tirando Lula do processo e atrapalhando, às escancaras, Fernando Haddad como segunda opção do Partido dos Trabalhadores. Ainda assim, mesmo quando, despudoradamente, Moro tornou pública a delação imoral de Antônio Palloci, a seis dias do primeiro turno, sabia-se com que intenção, não faltaram críticas ao blog. Vida que segue, dizia eu para com os botões.

Hoje, até onde posso ver, excluindo-se os "olavistas" de plantão, gente cega e burra, e uma elite que lambe os beiços com seu próprio veneno diante das circunstâncias, o prestígio do agora ministro Sérgio Moro parece ir mesmo de ladeira abaixo. A repercussão internacional é de enrubescer, com o Brasil se tornando objeto de piadas que vão do rasteiro ao sofisticado. Deste último, um bom exemplo é a forma como o embaixador sueco Per-Arne Hielmborn despediu-se na Câmara do Comércio referindo à terrinha: "O Brasil não é um país monótono". A frase, está óbvio, ecoa aquela atribuída a Charles de Gaulle em visita ao país: "O Brasil não é um país sério!".

Mesmo leigos na matéria, como este escriba, sabem que o Código de Processo Penal é claro em considerar "suspeito" o juiz que se revele parcial, isto é, que se manifeste minimamente ligado por aconselhamento à acusação ou à defesa do processo em tramitação (artigo 254, IV). Nesse caso, não há uma segunda orientação a seguir: Anulam-se as decisões tomadas pelo juiz (artigo 564,I).

Ora bolas! Quem, com um mínimo de vergonha na cara, haverá de negar que as gravações levadas a efeito pelo site The Intercept Brasil mostram evidências de que o juiz Sérgio Moro aconselhava o procurador Deltan Dallagnol a fim de enrolar o ex-presidente Lula? Quem, com vergonha na cara, insisto, negará o que é uma obviedade: Moro e Dallagnol agiam como "parças", como está no léxico do jogador Neymar, para "criar" provas que incriminassem Lula, impossibilitassem a sua candidatura e, injustamente, o levassem à prisão?

Na sequência, numa demonstração de que é indefensável, mais uma vez, divulgadas as conversas impróprias, Moro veio a público para evidenciar o seu despreparo e a sua desfaçatez: "Basta ler o que tem lá e verificar que o fato grave é a invasão criminosa do celular dos procuradores". Como se não fosse grave um juiz indicar testemunhas a um procurador, recomendar cuidados, indicar estratégias, e festejar com cinismo a sua popularidade e de seus cúmplices até então. 

A direita brasileira, os golpistas de 2016, uma certa imprensa (Globo à frente) e parte significativa da elite que tira proveito direto dessa canalhice, mais uma vez e de forma agora incontrastável, conduzem o país a uma crise moral que põe em risco a imagem do Brasil lá fora e fere de morte a nossa combalida democracia. Triste realidade a nossa!


 

 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

O inimigo da Arte

Em linhas gerais, considera-se a Estética o campo da Filosofia que se ocupa de uma teoria da sensibilidade. É com este sentido que a palavra aparece na Crítica da Razão Pura (1787), de Immanuel Kant. Mas é com a publicação da obra Aesthetica, em 1750, de outro alemão, Alexander Baumgarten (1714-1762), que se convencionou fixar o termo estética no campo de exame do belo subjetivo. Mesmo assim, a questão não é tão simples o quanto parece, e muitas páginas foram e continuam a ser escritas sobre o tema, sem que se chegue a uma definição absolutamente aceita ou considerada irretocável. O que não é de todo mau, diga-se de passagem. Afinal, a Estética, qualquer que seja a teoria que tomemos como base, define-se, em parte, pela própria etimologia da palavra: originada do grego, significa "sensação".          Não é sem razão, contudo, que se deve lembrar o que afirma o próprio Kant sobre a tentativa, segundo ele malograda, levada a efeito por Baumgarten, "de submeter a avaliação crítica do belo a princípios racionais e assim elevar suas regras à categoria de ciência".
Para Baumgarten, o objeto do conhecimento lógico é a Verdade, enquanto o objeto do conhecimento estético é a Beleza. Aquele é o "perfeito" aos olhos da razão; esta, o perfeito aos olhos dos sentidos. Mas sua teoria vai de encontro ao que professaria Kant, pois, para Baumgarten, a beleza existe na proporção das partes do objeto e nas suas relações com o todo. Há, como se vê, uma tentativa de tornar a avaliação crítica da beleza uma ciência.
Polêmica à parte, deve-se observar que  nenhum dos dois pensadores alemães aqui citados deve ser considerado o pai da matéria, uma vez que, desde a Antiguidade, muitos filósofos manifestaram-se sobre a natureza do Belo e, até mesmo, sobre sua presença no rol do que se considera hoje as belas-artes: as artes visuais (pintura, escultura etc.), a música, a arquitetura e a literatura. Mas, no que, grosso modo, chamava-se de Filosofia do Belo, além da arte tinha lugar o belo da Natureza. Aliás, nessa perspectiva tradicional, este era considerado superior àquele.
Se a alguém interessa saber, contudo, quando terá nascido a Estética moderna, parece um consenso tomar-se o início do século 18 como referência, notadamente os primeiros vinte ou trinta anos. É a partir daí, com a contribuição dos idealistas alemães, Hegel à frente, que o Belo da Arte passa a ser considerado superior ao Belo da Natureza. Aqui deparamos com uma obra incontornável, base consistente para qualquer incursão pelo território da arte e de sua essência do ponto de vista filosófico. Nenhum tratado de estética, nenhuma outra obra pode se igualar a essa em termos de profundidade e rigor analítico. É aqui onde se pode encontrar aquela que é, quando menos, a mais completa averiguação da arte e do belo artístico: "[...] o belo artístico, diz ele, é superior ao belo natural por ser um produto do espírito, que, superior à natureza, comunica esta superioridade aos seus produtos e, por conseguinte, à arte, por isso é o belo artístico superior ao belo natural".
Aos governantes, portanto, cabe o papel de proteger a Arte e os artistas, seus realizadores; incentivar a sua produção e a sua veiculação; criar mecanismos que tornem possível a todos o acesso à arte e condições para que, no âmbito da escola, a arte constitua matéria de exame e veículo de expressão do pensamento, da criatividade dos jovens, tornando-se objeto do gosto, da admiração e da paixão de todos.          Quando age em contrário, perseguindo os artistas e tomando-os por seus inimigos, o governante comete um tipo de crime que deve ser denunciado, combatido e abominado em todos os seus sentidos. Por trás disso está, quase sempre, um fascista.
O Brasil de Bolsonaro exemplifica, despudoradamente, o que estamos falando.  


[i] No que respeita à estética, é fundamental ir à Crítica da faculdade do juízo (1790), na qual o filósofo de Königsberg debruça-se, decisivamente, sobre a Arte e o Belo. Nessa obra, depara-se com o que em linhas gerais pode-se chamar de teoria estética kantiana.