quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A Questão Bishop

A escolha de Elizabeth Bishop como a principal homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no próximo ano, transformou-se na maior e mais tola polêmica intelectual dos últimos dias. O cerne da discussão, até onde sei, prende-se ao fato de que a poeta norte-americana teria se manifestado favoravelmente ao golpe militar de 1964 no Brasil. A questão, desimportante pelo tratamento que lhe tem sido dispensado nos meios de comunicação, envolve, inequivocamente, aspectos políticos, nada, contudo, que passe sequer superficialmente pela figura de Jair Bolsonaro, uma vez que qualquer pessoa medianamente informada sabe que o presidente jamais leu Bishop  ---  quando menos, porque jamais terá lido alguma coisa para além das memórias do torturador Carlos Brilhante Ustra. Ah, mas se trata de uma escritora dos Estados Unidos, Tá Okay?! Bem, sob este aspecto...
O fato é que, embora se trate de uma poeta de inegáveis qualidades, não sem razão considerada um dos grandes nomes da poesia dos Estados Unidos no século 20, a opinião de Elizabeth Bishop sobre a política brasileira é algo tão irrelevante quanto seus comentários sobre o próprio país, que considerava atrasado, povoado por uma gente irritante e mal-educada, condenada a viver na periferia das grandes realizações humanas modernas.
Ao lado disso, o que mais reflete um absoluto preconceito em face da literatura produzida no Brasil, que mal conhecia porque mal conhecia a própria língua portuguesa, merecem destaque suas afirmações sobre a pobreza de nossa poesia. Sob este aspecto, aliás, se de alguma forma podem constituir um gesto de franqueza para com os nossos homens de letras, essas afirmações constituem um exemplo de grosseria desnecessária: nos quase 20 anos morando no Brasil, Bishop conviveu com muitos dos nossos maiores escritores, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz, por exemplo.
Quanto a elogiar "a tranquilidade e beleza" com que o golpe militar se materializou, não se deve desprezar o fato de que Bishop foi amante da arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, por sua vez amiga íntima de gente pouco afeita aos valores da democracia. Entre esses, destaque-se a figura de Carlos Lacerda, de quem Bishop recebeu as maiores lições sobre o Brasil dos anos 60 e 70 do século 20. Esperar o quê?
No que diz respeito à história de Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop, recomendo o belo livro Flores Raras e Banalíssimas (Editora Rocco, 1995), de Carmen L. Oliveira, escrito com prodígios de elegância e estilo. O livro, diga-se ainda, veio a ocupar, com méritos, um lugar de destaque na biografia de Elizabeth Bishop, tendo sido adaptado para o cinema no belíssimo Flores Raras (2013), de Bruno Barreto, sobre o qual publiquei à época, neste espaço, um breve artigo em que destaco sua notável beleza plástica e as interpretações irretocáveis de Glória Pires e Miranda Otto nos papeis de Lota e Bishop, respectivamente.
O certo é que, como escritora, a homenageada na Flip 2020 é nome importante da literatura norte-americana, embora pouco lida no Brasil. Assinando uma poesia que, entre nós, corresponderia mais ou menos à da segunda geração modernista, em que sobressaem poetas como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinicius de Moraes, Elizabeth Bishop merece todo o respeito de quem for capaz de separar vida e obra, pois que esta é detentora de qualidades estéticas inegáveis. Não seria muito, por sinal, aproximá-la, ainda, de João Cabral de Mello Neto, cuja carpintaria poemática, a exemplo de Elizabeth Bishop, é assumidamente assentada numa fina percepção da "coisa circundante", com raríssimos momentos de extração subjetivista. Algo no mínimo curioso para uma artista que viveu dramas pessoais profundos, não raro decorrentes do alcoolismo que a consumiu por inteiro aos 68 anos.
Por último, sem quaisquer pruridos xenofóbicos, fica a indagação: não haveria um nome brasileiro a ser homenageado na Flip 2020?
 

 


 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Matadores de si mesmos

Nas últimas horas, algo em torno de 800 mil pessoas foram às ruas na França contra o projeto de reforma da Previdência. Praças e logradouros ficaram repletos de manifestantes. Intelectuais, artistas, escritores, ocuparam horários nobres de programas de rádio, jornais e tevês, no que se configura como a mais importante manifestação política em muitos anos na capital do país.
Monumentos, árvores, postes, semáforos, em pouco tempo se transformaram em espaços de protesto, estampando faixas, cartazes etc.
"La retraite avant la mort", aposentadoria antes da morte, vocifera a multidão.
Estudantes, filhos de operários, donas de casa enfrentam a repressão policial a custo de colocar em risco a própria vida.
A democracia expressa a mais convincente defesa do estado de Direito e das conquistas dos servidores públicos.
Mais admirada atração turística de Paris, a Torre Eiffel fechou.
Enquanto acompanho isso, através dos jornais franceses, é-me inevitável relembrar a covardia dos brasileiros em face da criminosa reforma levada a efeito há poucos dias no Brasil. Matadora de si mesma, a classe média brasileira quedou em silêncio contra as investidas monstruosas da equipe econômica do governo Bolsonaro. Equivocadamente identificada com a elite que a trucida, não teve olhos para ver o que faziam contra os seus interesses mais legítimos. Movida a ódio, lambeu as botas do patrão, afiou com o suor do rosto a lâmina perversa de sua própria degola, aplaudiu nas praças os seus algozes. Uma vergonha.
Números dos Indicadores Sociais do IBGE, divulgados há pouco, apontam para uma verdadeira tragédia: mais de 13 milhões de brasileiros sobrevivem com menos de R$ 145 por mês.
A dar fisionomia ainda mais revoltante, a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), em números referentes a outubro, destaca que 1% mais aquinhoado dos brasileiros cresceu 8,4% no ano passado, enquanto os 5% mais pobres veem despencar 3,2% de sua capacidade de compra.
É inequívoca a transferência de renda de pobres para ricos, no perfil mais perverso do capitalismo selvagem que toma conta do país desde janeiro de 2019.
O desmonte dos direitos e das conquistas dos trabalhadores se dá a olhos vistos, numa velocidade sem precedentes em toda a História do Brasil.
Alastra-se a informalidade no mercado de trabalho, achata-se a pirâmide social  ---  remediados empobrecem, despossuídos  caem abaixo da linha de pobreza, miseráveis veem-se condenados a uma realidade insuportável.
O que é pior e mais indigna: c​om a conivência de pelo menos 30% dos eleitores do país, e o silêncio obsequioso de segmentos que se dizem esclarecidos, que leem e escrevem, que não se acanham de aplaudir o fascismo que ressurge, indiferentes à desigualdade e à pobreza que põem por terra a dignidade de um país.