sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Cem anos de João Cabral de Melo Neto

É claro que, em matéria de arte sobretudo, desaconselha-se o uso de rótulos do tipo "maior poeta", "maior pintor", "maior romancista", posto que há, nisso, quase sempre, uma boa dose de subjetivação. Feita esta observação, contudo, contradigo-me intencionalmente para considerar Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, não necessariamente nesta ordem, os três maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos. Mas é sobre este último, por força do centenário de nascimento, comemorado na quinta-feira 9, que gostaria de tecer aqui breves considerações.
Filho de uma família tradicional de Pernambuco, João Cabral de Melo Neto era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, o que evidencia a vocação intelectual e artística do clã. A exemplo desses monstros da inteligência nordestina, cujas obras pontuam com merecido destaque, no Brasil, o que existe de mais significativo em suas áreas, João Cabral de Melo Neto notabilizou-se como um dos expoentes da poesia de língua portuguesa do século 20, ombreando com nomes de peso como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.
Mais que nesses, no entanto, um traço é evidente na poesia de João Cabral de Melo Neto: a ausência de um lirismo que sobressaia como pedra de toque do poema, o que não significa dizer que o poeta se coloque na contramão de todo e qualquer lirismo. Antes pelo contrário, se é notável a forma como trabalha o verso, lembrando um escultor cuja matéria-prima fosse a palavra, não menos notável é a força do sentimento que existe por trás de cada imagem, quase sempre se revelando de modo surpreendente e luminoso, bem na linha do que se pode descobrir no seu antológico O Cão Sem Plumas: "A cidade é passada pelo rio/como uma rua/é passada por um cachorro;/uma fruta por uma espada". O que se vê, aqui, é a claridade do estilista em diálogo estreito com o homem sensível, mas de uma sensibilidade que não se permite piegas ou minimamente derramada. É que João Cabral de Melo Neto, como um Paul Valéry brasileiro, excedeu como artesão da palavra, tendo como poucos a fina compreensão de que poesia é, antes de tudo, forma, linguagem, escolha rigorosa do vocábulo em estado bruto, construção de discurso, sem incorrer no formalismo frio e inconsequente de certos estruturalismos em voga, no país e no mundo, quando produziu o que há de mais expressivo em sua obra.
Essa mesma "tensão" entre conteúdo e forma, sentimento e isenção (nunca impassibilidade!), diga-se em tempo, de que soube obter resultados memoráveis como o estilista extraordinário que foi, pode-se perceber em outras dimensões da poética cabralina: deve-se destacar, nesse sentido, a forma como soube lidar com a questão social sem jamais deslizar para a atitude meramente panfletária. Marxista, atento aos problemas do país, inconformado com a desigualdade social advinda de um modelo econômico perverso, João Cabral de Melo Neto fez da palavra uma arma de luta em favor dos mais pobres e desassistidos, os "Severinos" que povoam seu teatro, por exemplo. Aqui, ressalte-se, está uma outra aparente contradição: confessando-se inimigo da música, que identificava como barulho, produziu poemas extremamente musicais, como atesta o fato de Morte e Vida Severina ter sido irretocavelmente musicada por Chico Buarque de Hollanda. É que melodia e ritmo, sabe-se, na perspectiva da teoria literária, são coisas distintas. Aquela, prende-se à rima, ao uso seletivo de sonoridades, paronomásias, assonâncias e aliterações; este, ao fraseado, acentos e combinações de tônicas e átonas na construção do verso. 
Poeta da forma, antes de tudo, João Cabral de Melo Neto esteve sempre atento a essas questões, por isso a sua poesia é muito maior que qualquer subjetivação, figurando como um nome incontornável da literatura de língua portuguesa do século 20. 
 
 
  
 
 
  


 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Um filme sublime

O papa Francisco desculpou-se nessa quarta-feira 1, pouco antes da oração do Ângelus, por sua reação ao entusiasmo de uma fiel que quase o fez cair enquanto beijava crianças em frente ao presépio de Natal, em Roma. Visto por centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo, o fato ganhou visibilidade no vídeo que mostra o papa estapeando uma mulher que o agarrava pela mão no que parece ser uma atitude de incontida admiração pela figura do pontífice. Depois de desvencilhar-se da mulher, o papa Francisco mostra-se visivelmente aborrecido, mas segue sua trajetória um pouco mais afastado do público. 
As imagens, que suscitaram opiniões divergentes, servem, todavia, para nos lembrar que o papa é, antes de tudo, um homem, sujeito a emoções e conflitos nem sempre condizentes com a idealização que se faz do Santo Padre. 
Esta realidade, por sinal, é um dos aspectos que dão a Dois Papas, a comédia dramática dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, explorando os bastidores das diferenças entre Bento XVI e Francisco, a densidade estética que a coloca entre as grandes produções da Netflix em 2019. É sobre o filme, aliás, que gostaria de falar na coluna de hoje.
Com atuações soberbas de Jonathan Pryce e Anthony Hopkins como os cardeais Jorge Bergoglio e Joseph Ratzinger, respectivamente, logo que este fora eleito papa Bento XVI, o filme sustenta-se num roteiro, irretocável do ponto de vista dramático, assinado por Anthony McCarten, de cuja obra já se conhecia Darkest Hour, sobre o estadista inglês Winston Churchill. 
Estes dois elementos cinematográficos, sabe-se, constituem o que se deve considerar fundamental num grande filme. Mas Dois Papas vai muito além disso: --- A direção de arte, o figurino, a sensibilidade com que Meirelles explora os procedimentos cinematográficos propriamente ditos, a exemplo da movimentação de câmera e escolha de escala na construção do quadro, com closes que lembram o melhor Bergman, resultaram numa beleza plástica de encher os olhos mesmo dos cinéfilos mais exigentes.
A sequência de abertura, sob este aspecto, é emblemática: as páginas de um exemplar da Bíblia 'voam' ao sabor da brisa, enquanto se veem bispos e cardeais circunspectos ante a passagem do caixão em que está o corpo do papa João Paulo II, em 2005. O colorido do guarda-roupa, com predomínio para o roxo e o vermelho de suas vestes, está carregado de simbolismo dramático, até que a câmera enquadre num plano alto, que excede em estilo e rigor estético, a colunata da praça de São Pedro que aos poucos vai se distanciando numa sugestão poética a um tempo emocionante e bela. Está criado o clima para o desenrolar da história. Dá-se a ver o talento de um grande diretor.
Da eleição de Bento XVI como sucessor de João Paulo II à sua conturbada renúncia, o filme desliza para o eixo central do enredo: --- o embate envolvendo duas linhas de pensamento, duas convicções. De um lado, Ratzinger, com seu conservadorismo e o obscurantismo de seu passado como cardeal, o conflito pessoal sobre o homossexualismo na Igreja, sua visão extremamente autoritária como condutor de fieis, sua impotência diante dos escândalos financeiros no seio do Vaticano. Do outro, Bergoglio, decidido a renunciar ao posto de arcebispo de Buenos Aires, curvado ao peso de consciência por ter negociado com a ditadura argentina nos anos de chumbo e a inequívoca inclinação para a defesa dos humilhados e ofendidos por que viria a orientar seu pontificado até hoje. Em flashback, o filme desvenda alguns mistérios em torno da vida pregressa de Francisco.
Com diálogos criados a partir de diferentes fontes, como entrevistas (raras), sermões, discursos e textos por eles assinados, o filme gira em significativa proporção em torno das divergências que separam Ratzinger e Bergoglio. Sob este aspecto, é marcante a passagem em que o primeiro repreende o segundo por suas declarações sobre algumas das questões mais desconfortáveis para o catolicismo, como o celibato e a punição contra a homossexualidade. A essa altura, é impagável a fala de Bergoglio sobre contradições e a necessidade de mudanças na Igreja Católica: --- "O tempo todo, o verdadeiro perigo estava dentro, conosco".
Esclarecedor, corajoso, menos polêmico que verdadeiro, em que pesem as questões não exploradas em toda a sua extensão, na linha das confissões feitas por Ratzinger a Bergoglio, quando a voz off de Bento XVI frustra a curiosidade do espectador num dos momentos mais dramáticos do filme, Dois Papas é a obra-prima de Fernando Meirelles, e, reafirme-se, uma das produções mais dignas de aplauso em termos cinematográficos no ano passado.
Em tempo: O final do filme, com os dois papas tomando cerveja enquanto assistem pela televisão à decisão da Copa do Mundo entre Alemanha e Argentina, em 2014, é de uma felicidade artística notável, coroando metaforicamente o confronto de duas linhas de pensamento no interior do Vaticano. 
Sublime.