sexta-feira, 12 de março de 2021

Efeito Lula

Apenas teve seus direitos políticos reconquistados e o ex-presidente Lula já presta bons serviços ao país. Curvando-se à correção com que Lula e sua equipe conduziram a solenidade em que proferiu seu primeiro pronunciamento como virtual candidato em 2022, ocasião em que o protocolo de combate à Covid-19 foi exemplarmente observado (distanciamento, uso de máscaras e álcool gel e outros cuidados), Bolsonaro, que estimulava aglomerações e ignorava o uso de máscaras, entre outras instruções criminosas, apareceu com nariz e boca protegidos durante evento oficial na quarta-feira 10.

Para quem considerava a pandemia uma "gripezinha", contrair o vírus era "a melhor vacina" e, esta, "coisa de maricas", e propagandeou o tratamento precoce à base da cloroquina, a mudança de comportamento não deixa de ser positiva, sobremaneira levando-se em conta que o presidente genocida finalmente assumiu responsabilidade pela compra de imunizantes, em que pese o descompasso entre o anunciado pelo Ministro Pazuello e o próprio presidente.

O importante mesmo, no entanto, conforme percebeu com entusiasmo a imprensa internacional, com destaque para jornais de prestígio como The Guardian, Inglaterra, Le Monde, França, El País, Espanha, entre dezenas de outros diários mundo afora, é que Lula volta ao cenário politico brasileiro como o único nome com chances reais de vencer o louco que está à frente dos destinos do país.

Nesse sentido, diga-se em tempo, analistas do Brasil e de vários países constatam que a repercussão do discurso do ex-presidente, verdadeiro divisor de águas em termos de densidade propositiva nos últimos anos entre nós, ensejou o que muitos definem como "nova onda" eleitoral, o que, afirmam, dir-se-á fato concreto nas próximas pesquisas de opinião. É só esperar.

Fato é que, antes tarde que nunca, tendo-se feito justiça a Lula, com a desconstrução do esquema que tinha por objetivo tirá-lo do páreo eleitoral, como atesta a anulação de suas condenações por inquestionável incompetência de Moro para fazê-lo (e torna explícito o crime cometido contra o ex-presidente), 2022 configura-se muito diferente do que parecia. Com Lula na disputa, ampliam-se as chances de que se evite um novo desastre, a exemplo do que ocorreu em 2018, com a eleição de um desmiolado para presidente do Brasil.

Em tempo, não é sem razão que o discurso de Lula entrará para a História do Brasil contemporâneo. Perfeito na forma, considerando-se o objetivo que perseguia, consistente enquanto análise da conjuntura de governo e propositivo como alternativa de ação para a crise sem precedentes que o país atravessa, a fala do ex-presidente prestou-se, ao lado de suas reconhecidas qualidades retóricas, para evidenciar o que alguns ainda resistem a aceitar: Luiz Inácio Lula da Silva é o maior estadista do Brasil pós-golpe de 1964.

 

 

 

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

O sentimento que não é "mi mi mi"

Em rigor não existe em outro idioma equivalente que diga com exatidão, vigor e poesia, o que nos diz, em português, a palavra saudade.

Ela traduz o mais comovente dos sentimentos humanos, o mais dilacerante, o mais doloroso, a lástima da ausência, a tristeza da partida, o inevitável das perdas e das separações. Insisto: só em língua portuguesa, que me perdoem os que forem buscar nos subterrâneos da etimologia e das possibilidades de tradução o sinônimo perfeito para o vocábulo com que definimos o que se sente na ausência da coisa amada, o que dói no fundo da alma quando desejamos conosco aquilo que se foi, ou ficou, enquanto partimos.

Está na pedra dos túmulos, no coração dos viajantes, dos exilados, dos solitários e dos esquecidos. No poema dos apaixonados.

Em Canção de Amor, um clássico do cancioneiro popular, Elano de Paula diz: "Saudade, torrente de paixão/emoção diferente, que aniquila a vida da gente,/uma dor que não sei de onde vem..."

Chico Buarque, em Pedaço de Mim, encontrou com sua genialidade poética a expressão que diz do sentimento: "A saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu".

Fausto Nilo, em Asa Partida, traz os versos antológicos: "E continua o teu sorriso no meu peito,/esta saudade, o cigarro, a luz acesa/e esta noite posta sobre a mesa".

A poesia diz figuradamente, transmitindo ao outro, o que parece incomunicável. O prodigioso poder da literatura! O milagre que só a arte é capaz de operar!

Que dizer de Brant: "Amigo é coisa pra se guardar/do lado esquerdo do peito/dentro do coração/mesmo que o tempo e a distância/digam, não".

Ou Duran, que, à falta de um lápis, escreveu a baton, no espelho: "Ah, a rua escura, o vento frio/esta saudade, este vazio/esta vontade de chorar".

Dia desses, conversando com amigos, ainda quando era dado sentar à mesa para conversar, o tema veio à tona: "É o doloroso gozo!", alguém falou, arrancando da memória a contradição.

É que não existe saudade que possa, por inteiro, aliviar a dor, mesmo quando a sentimos daqueles que amamos  --- e vão chegar! Da viagem de que nunca vamos esquecer, do beijo doce, dos dias felizes, da boa infância, do primeiro amor.

Há, no entanto, a saudade que é ferro em brasa atravessando o coração, que é ácido na ferida aberta, que traz consigo a sentença inassimilável: "Nunca mais!"

O sentimento que não é mi mi mi, como professam os monstros!