quinta-feira, 8 de abril de 2021

Lições de liberdade

A semana que termina transcorreu com fatos importantes da vida cultural do país. Na terça 6, Cacilda Becker, maior e mais icônica figura do teatro brasileiro, faria cem anos. Na quarta 7, vítima da Covid-19, morreu Alfredo Bosi, expoente da crítica literária do país desde a morte de Antonio Cândido, em maio de 2017. Falemos um pouco dos dois.

Cacilda Becker Yáconis, paulista de Pirassununga, foi descoberta pelo crítico e professor de teatro Miroel Silveira, em Santos-SP, durante uma apresentação de "A Lenda de um Beijo", a partir de uma performance da atriz, que contava, à época, 16 anos. Silveira, para quem Cacilda "possuía uma irradiação particular, de quase transcendência, que a destinava aos mais altos níveis da realização artística", levaria a atriz para o Rio de Janeiro, onde, no Teatro do Estudante, a futura rainha das artes cênicas brasileiras daria os primeiros passos de uma trajetória brilhante, muito embora curta: Cacilda Becker morreu aos 48 anos, num entreatos do clássico Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett.

Para o renomado crítico teatral Sábato Magaldi (1927-2016), depois de 68 peças, dois filmes e algumas atuações na televisão, foi exatamente no papel de Estragon, na montagem realizada pela Companhia de Teatro Cacilda Becker, em 1968, com direção de Flávio Rangel, que a atriz atingiu o ponto mais elevado de sua extraordinária capacidade interpretativa. Em artigo publicado à época, Magaldi é afirmativo sobre isso: "A figura frágil, desajeitada, chapliniana, com a máscara clownesca, ilumina-se de uma vida interior e uma sabedoria que fazem de Estragon, talvez, o ponto mais alto da carreira de Cacilda e uma criação antológica em nosso palco".

Ao lado de ser esse mito, essa figura estelar detentora de uma brilho singular na constelação mais alta e mais prestigiada do teatro brasileiro, constituindo uma unanimidade entre profissionais, historiadores, críticos ou simples amantes do teatro, Cacilda Becker notabilizar-se-ia por sua militância nos movimentos de enfrentamento dos horrores da ditadura militar instalada no país com o golpe de 1964. Sua voz, calando a censura à liberdade de expressão artística, por exemplo, pode ser constatada num fato curioso ocorrido em 1968: protagonizando o espetáculo Feira Paulista de Opinião, a cujo texto a censura militar havia imposto 71 cortes, Cacilda recusou-se a cumprir a determinação autoritária interpretando na íntegra o texto original.

Para não falar de outros episódios, em que sobressaem a invasão e prisão do elenco da peça Roda Viva, no Teatro de Arena, a que se contrapôs com valente determinação, e as vezes em que bateu de frente com a repressão militar ao depor no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Grande Cacilda Becker.

Quanto a Alfredo Bosi...

Trata-se do mais rigoroso dos críticos de literatura brasileiros desde à morte de Antonio Cândido. Possuidor de um método de análise que se notabiliza pela fina compreensão dos componentes históricos da arte literária, sem perder de vista sua dimensão estética, Bosi escreveu muitas das obras consideradas fundamentais para o entendimento das artes contemporâneas do país. Entre esses, pela densidade e criteriosa perspectiva de análise, deve-se destacar O Ser e o Tempo da Poesia, Dialética da Colonização e o incontornável História Concisa da Literatura Brasileira.

Como Cacilda, Alfredo Bosi jamais abriu mão de suas convicções políticas, indo dos espaços acadêmicos à rua com a mesma desenvoltura, o mesmo espírito de luta e a mesma coragem de enfrentar toda e qualquer adversidade em favor de um país mais livre e mais justo.

 

 

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Clarão momentâneo

Como é próprio dos facínoras e dos loucos, o presidente Jair Bolsonaro não suporta que lhe obstruam o caminho. É de sua índole, como fazem aqueles, ir ao cabo de sua perversidade e estupidez na execução do crime; como estes, não ter olhos para enxergar a realidade senão sob a perspectiva de seus delírios e ilusões, sem a isenção que a doença lhes confere. Dois episódios, para além de milhares outros, ocorridos nas últimas horas, atestam a veracidade do que afirmo aqui. Vejamos.

Na quarta-feira 31, ensejando que se retomasse por instantes a esperança perdida, no que diz respeito a se tentar evitar uma tragédia ainda maior do que as 320 mortes pela Covid-19, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga finalmente veio a público para professar o óbvio: o uso da máscara, a proteção contra aglomerações e a vacinação em massa são as alternativas para tirar o país do colapso em que se encontra. O que parecia ser o lampejo de lucidez que poderia salvar os brasileiros de um desastre, no entanto, não passou do que fora realmente: um lampejo, e voltamos à escuridão plena no campo da saúde.

Mal fechou a boca, o ministro Queiroga mais uma vez viu enlamear-se o seu histórico acadêmico respeitável. Sem usar máscara, e lançando mão de sua linguagem de comboieiro, que me desculpem o que vai aqui de politicamente incorreto, desautorizou-o sem meias-palavras e com a desfaçatez de sempre. Conclamou a população a ir às ruas e desobedecer quaisquer medidas de lockdown, fazendo, cada um por si, o que acha que deve para se proteger. Hilário, não fosse dramático.

O outro episódio, que já ocupa espaço nos principais jornais do país, diz respeito à indicação do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira como comandante do Exército, em meio à crise das Forças Armadas desencadeada com a demissão sumária do ministro da Defesa Fernando Azevedo.

Cearense de Iguatu, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira é nome respeitado entre seus pares. Com um currículo notável, de que salta aos olhos de todos que o conhecem um perfil humano que o diferencia no conjunto do que existe de melhor e mais qualificado nos limites da corporação, Pauso Sérgio foi objeto de prestigiosa acolhida, mesmo para analistas da imprensa atentos ao que poderia haver por detrás de sua escolha num momento particularmente delicado por que passa o país. Menos pelo facínora louco que atende, ainda, pelo nome de Jair Messias Bolsonaro, claro.

Alçado ao posto de comando do Exército, principal das três Forças, o general Paulo Sérgio terá sob "sua" orientação algo em torno de 220 mil dos 380 mil militares do país. A concluir pelo que pautou a sua trajetória oficial  ---  dedicação irrepreensível à carreira, densidade intelectual e vasto domínio de conhecimento especializado  ---, a que se somam uma formação familiar impecável e uma elegância que impressiona no trato com as pessoas, o general Paulo Sérgio, como era previsível, contrasta com as pretensões de Bolsonaro e torna-se, da noite para o dia, alvo do olhar enciumado do presidente.

Assim, de mal a pior, o que se projetava nas últimas horas como uma mudança de rumo, um lampejo de esperança, como disse, não passa mesmo daquilo que é: um lampejo. Triste Brasil.