sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Sem perder a ternura jamais

Pediram-me duas linhas sobre Jorge Amado, que, nessa terça 10, faria 109 anos. Aqui vão, cumprindo a pauta do jornal e homenageando singelamente um dos poucos escritores de quem posso afirmar ter lido, rigorosamente, todos os livros, contando o Navegação de Cabotagem, autobiografia lançada em 1992.

Começo por um fato curioso: durante palestra de Gilberto Mendonça Telles, no auditório Castelo Branco, da UFC, faz isso muitos anos, tenho a sorte de sentar ao lado do escritor baiano, que tinha à sua esquerda a mulher Zélia Gatai.

Enquanto o conferencista fazia seus agradecimentos à universidade, concluindo a sua fala, sinto a mão pesada de Jorge Amado apertar-me o braço convidando-me, e à mulher, para "tomar um ar lá fora".

Claro que o fez num gesto involuntário, sequer atentando para quem havia pouco sentara à sua direita. Quanto a mim, não me fiz de rogado. Segui o casal e compus, com ele, um trio que se pôs a conversar, descontraidamente, nos jardins da Reitoria, por um tempo que teve para mim a extensão da eternidade.

Estudante entusiasta de literatura, pelos vinte anos de idade, vivi ali os 15 minutos de fama de que nos falou Andy Warhol, não sem ter o cuidado de abrir a velha bolsa de couro e sacar dela um exemplar de Capitães da Areia em que guardo, na folha de rosto, a carinhosa dedicatória do casal.

Ler Jorge Amado é antes de tudo imensamente prazeroso. Poucos escritores brasileiros, Érico Verissimo talvez, terão sido capazes de escrever livros tão lúdicos e sedutores, o que por certo explica o fato de que foram, a seu tempo, os dois maiores sucessos editoriais do país.

O caso de Jorge Amado mais, pois que se trata do escritor brasileiro mais traduzido para outras línguas até que surgisse, anos depois, o fenômeno Paulo Coelho.

Estiliscamente identificado como integrante da geração de 1930, dentro da qual se produziu o que existe de mais representativo do que se convencionou chamar de neonaturalismo, Jorge Amado retira da realidade a matéria com que tece suas narrativas, mas o faz extrapolando as fronteiras do real para alcançar uma dimensão poética que transita com sublime habilidade entre o maravilhoso e o fantástico.

Seus romances têm, por isso, um sabor inconfundível, razão por que encantou e continua encantando leitores de diferentes países. Hoje, sua obra pode ser lida em meia centena de idiomas.

Mas, se a doçura do texto resulta no que se pode classificar como lúdico, isto é, numa literatura de entretenimento, não é sem relevo que se faz perceber nela o compromisso político.

Em muitos de seus romances mais importantes, a exemplo de verdadeiros épicos como Terras do Sem Fim, Jorge Amado explora as contradições de uma sociedade desigual e profundamente injusta, mostrando o que move um país onde o jogo de interesses e a insaciável busca de levar vantagem a qualquer custo, por parte dos mais ricos, ignoram os princípios éticos e humanos mais elementares.

Tudo isso, contudo, sem deixar de por em cena a resiliência do povo, sua força revolucionária, sua graça, sua malemolência e o seu jeito gostoso de tocar a vida. Não faz literatura panfletária, portanto, colocando-se à parte o não mais editado Subterrâneos da Liberdade.

Numa época em que o Brasil volta a viver o drama do obscurantismo, em que o Estado Democrático de Direito é pisoteado às claras, em que conquistas trabalhistas vêm sendo severamente suprimidas, os livros de Jorge Amado ressignificam-se, como numa reatualização do que existe neles de mais robusto e imorredouro: a coragem de denunciar o lado torto de nossa gente e o fascismo daqueles que nos governam.

Sem perder a ternura jamais, como quis um outro vibrante defensor da justiça e da liberdade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Manifesto meia boca

Seria animador, não fosse demasiado tarde, o pronunciamento do presidente do STF, ministro Luiz Fux, em repúdio às recorrentes investidas de Jair Bolsonaro contra a democracia. Em se tratando do Brasil contemporâneo, contudo, menos mal que a mais elevada corte finalmente tenha feito valer o seu papel enquanto instituição respaldada em amplos poderes constitucionais.

Quanto ao manifesto em defesa de eleições, alardeado pela grande imprensa, no entanto, há que se atentar para o que está por trás da iniciativa idealizada por gente que não só apoiou e continua a apoiar o governo federal, ou seja, empresários e banqueiros preocupados tão-somente com seus interesses econômico-financeiros.

A declaração do presidente do Credit Suisse no Brasil (e destacado signatário do manifesto), por exemplo, é incontrastável nesse sentido: "Não dá para a gente assistir a isso calado. É ruim  para o Brasil, para todo o mundo, inclusive para o governo. Está na hora de o governo rever a sua posição. Estamos vendo o princípio de uma recuperação econômica e queremos avançar", disse ele ao jornal Folha de S. Paulo.

Não é preciso ser nenhum especialista em análise do discurso para perceber o que move o 'banqueiro' e, por extensão, a turma da Faria Lima: pressionar o governo no sentido de ajustar-se ao que interessa aos donos do dinheiro no país. No caso, conter a repercussão negativa que o autoritarismo e as ameaças de golpe naturalmente vêm projetando sobre os números da economia.

A acrescentar elementos que os fazem aparecer bem na fotografia, note-se o fato de que banqueiros e empresários figuram ao lado do que se convencionou chamar de elite intelectual do país. Posam, nos limites das circunstâncias, de bem intencionados, comprometidos com a preservação do Estado de Direito e outros valores próprios de uma democracia. A garantia de que se terá eleições, por exemplo. Mas nada que aponte criticamente para o engavetamento de mais de 120 pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro pelos numerosos crimes cometidos na contramão do que agora dizem defender. É manifesto meia boca.

Sob este aspecto, atente-se para o que diz Carlos Ari Sundfeld, professor da Fundação Getúlio Vargas – SP e um dos principais autores do texto do manifesto: "Não existe uma ilusão na Faria Lima com as vantagens do autoritarismo. É o contrário. A elite financeira do país está associada à elite intelectual e defende a democracia. Quando as pessoas se manifestam, é porque sabem que inclusive seus próprios negócios não vão ter benefício se essa escalada seguir", disse à Folha, como num ato falho que põe em evidência o real significado da iniciativa.

Para o bem e para o mal, por essas e outras, é que chego à dura conclusão: nada mais parecido com um progressista do que um empresário sob riscos de perder dinheiro por ações do governo que apoiou com entusiasmo. É voltar a 2016 (golpe contra a presidente Dilma Rousseff) e às eleições de 2018 para entender o que digo.