terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Roda Viva

Em meio ao profuso debate em torno da Semana de 1922, assisti, ontem, pela TV Cultura, à entrevista do escritor Ruy Castro no Programa Roda Viva. Em que pese tratar-se de um intelectual que dispensa comentário, pela expressividade de sua obra em diferentes campos, o historiográfico, sobremaneira, ouso emitir sobre as posições do entrevistado, indisfarçavelmente sustentadas num bairrismo excêntrico (Ruy é mineiro de Caratinga - MG) em favor do Rio de Janeiro contra a cidade de São Paulo, onde ocorreu o evento a que ele, Ruy Castro, insiste em desqualificar, mesmo que, para isso, incorra num tipo de subjetivação em nada condizente com a importância e o rigor de informações de sua inquestionável obra. Birra, diriam os antigos.

Começo, portanto, por me contrapor a algumas de suas peremptórias afirmações acerca do que julga ser inconsequente (sem consequência) no evento  ---  segundo afirma, logo esquecido mesmo entre seus pares. Ignora, pelo que pude concluir, alguns fatos na linha do que relaciono abaixo, ainda que sem entrar no mérito da relevância de cada um deles, mas com a intenção apenas de reconhecer o que representaram no correr do século XX como um nada desprezível paradigma de análise de toda a produção intelectual e artística no país e que decorreram, queira-se ou não, do evento que conta, neste fevereiro, exatos cem anos.

Destaco, assim, o estabelecimento de novos parâmetros de avaliação da arte brasileira em suas diferentes linguagens, literatura e artes visuais sobretudo, isentas, a partir daí, de preconceitos de toda ordem, nomeadamente estéticos, de que a ruptura com os preceitos de versificação, sintaxe, morfologia, semântica etc., na literatura, e diluição das formas rígidas na pintura, revisão das noções de volume, utilização de espaço, aplicação de textura etc., por exemplo, embora essenciais, não esgotam as potências daquilo que se passou a definir como obra de arte moderna. Que dizer da Poesia Concreta, do Tropicalismo, cujas raízes prendem-se às inquietações de 22, ou do que se fez a partir daí em Minas, Recife, o Ceará, inclusive, em termos de literatura?

Nesse sentido, por sinal, é que mais uma vez incorreu Ruy Castro numa falácia sobre o significado políticos da Semana, como a tentar, por vezes sem esconder um certo esnobismo intelectual não necessariamente competente, que mais surpreende por se tratar de um escritor culto (diz a uma dada altura não ser "saudosista", mas "culto", como se uma coisa se contrapusesse à outra), insiste ele em rotular alguns dos principais nomes da Semana de "racistas, homofóbicos, mentirosos, machistas" etc., principalmente Oswald de Andrade, a quem se dedica como que sob as amarras de uma fixação a atacar obsessivamente, desmerecendo-o como poeta, prosador e, em última instância, como um intelectual reconhecido por gente da estatura de Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017).

Por tabela, não podendo desconsiderar que o principal intelectual mineiro sempre atribuiu a Oswald de Andrade um papel decisivo para a construção do pensamento estético do modernismo brasileiro, faz alusão a um desentendimento entre os dois, sem registro, e a que só ele dá importância. Para não falar da leitura (ritmo, impostação de voz, ênfase em trechos retirados de seu contexto) mal intencionada que faz de uma crítica a um romance de Oswald de Andrade no fito de desmerecer a qualidade da obra: inverte o juízo do autor do ensaio, ninguém menos que Augusto de Campos, como se fosse reprovação o que é exaltação dos méritos do romancista. Foi triste.

Fato mais grave na disposição fanática de desqualificar a Semana de Arte Moderna, no entanto, reside para além disso, pois que reflete uma motivação tendenciosa e desprovida de rigor analítico: ignorar que todo movimento, independentemente de sua natureza, do seu espaço e de sua posição histórica, assenta-se em alguma medida em forças contraditórias.

Sob este aspecto, mais acrescenta à Semana ter tido desdobramentos os mais diversos e conflitantes depois de 1922: a oposição entre os ideais de "brasilidade" antropofágica (a devoração ritual das influências europeias) e o nacionalismo verde-amarelo do grupo Anta  --- Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Cândido Mota Filho, entre outros ---, que resultaria no integralismo de Plínio Salgado, por exemplo.

É aí que a sanha condenatória de Ruy Castro mais ainda se torna evidente: não se contentando com as acusações assacadas contra Oswald de Andrade no campo pessoal, nega a adesão do autor de "Serafim Ponte Grande" ao Partido Comunista, em 1931, ao qual permaneceria filiado até 1945. Realidade de todos reconhecida, exceto de Ruy Castro.

Conclusivamente, pois, não se pode desqualificar a Semana de 22 por suas contradições internas. Parece-me natural que, dadas as suas motivações de origem (e que remontam a 1917, pouco mais ou menos), os modernistas tenham ao longo do tempo tomado rumos desencontrados, quer estéticos, quer políticos, pois é da natureza humana, intelectual e artística, que o façam. O importante, no debate que se instalou por causa dos cem anos desde a sua eclosão, é a compreensão do que a Semana de Arte Moderna significou em termos de continuidade para a melhor discussão em redor da nossa identidade cultural e artística. E isto, não se pode negar, a história já se encarregou de dizer.   

 

 

  

 

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Na contramão do mito

O ato de barbárie de que o jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe foi vítima numa praia do Rio de Janeiro, abre o calendário dos 200 anos de nossa independência de forma a um só tempo revoltante e vergonhosa. Não se trata, diga-se, de mais um caso, a exemplo de tantos e tantos ocorridos ao longo do tempo no país, e a ele assemelhados. As pauladas que ceifaram a vida de Moïse, aos 24 anos, trazem com elas a materialização de um tríplice preconceito: contra o pobre, o negro, o imigrante.

Moïse era um jovem ordeiro, trabalhador, falava quatro línguas e ganhava a vida vendendo caipirinha e petiscos na praia, onde se fizera conhecido pela alcunha de Angolano. Morava com a mãe e dois irmãos; dormiam todos no mesmo quarto numa casa em Madureira, zona norte da cidade.

Era pobre, negro, imigrante.

Na contramão do que afirma a mitologia nacional, segundo a qual somos um povo tolerante, pacífico e acolhedor, ganham evidência os traços perversos de nossa identidade cultural, exemplarmente analisados por Lilia Moritz Schwarcz no incontornável "Sobre o autoritarismo brasileiro" (Companhia das Letras, 2019), em que explora com notável rigor acadêmico os subterrâneos de nossa história para colocar em evidência a dura constatação: fomos e somos uma nação muito mais excludente que inclusiva.

Em tempo, deve-se observar que no caso brasileiro a situação ainda mais depõe contra a nossa herança cultural, pois que a primeira das três condições, a pobreza, funciona como um elemento definidor de nossas reações em relação às outras duas, relativizando ou edulcorando a questão racial e a condição de imigrante.

Moïse era pobre, negro e imigrante, repita-se. Fatores históricos podem explicar o que lhe ocorreu na noite de 24 nas areias da Barra da Tijuca.

Se a naturalização da desigualdade, o racismo e a tentativa inescrupulosa de negá-lo (para o que alguns dos principais órgãos de imprensa abrem espaços generosos, a exemplo do que fez o jornal Folha de S. Paulo em edição recente)*, o mandonismo enraizado, a vocação autoritária e a intolerância nas mais elementares relações de poder, estão por trás do que ocorreu ao jovem congolês, são irrecusáveis as constatações de que esses desvios dos pressupostos democráticos encontram hoje um ambiente favorável para o seu recrudescimento, e constituem o nosso maior obstáculo para a construção de uma agenda igualitária e justa.

Moïse foi morto a pauladas na noite do dia 24, mas só no dia 28 o dono da barraca Tropicália, local que serviu de cenário para o ato de selvageria, foi instado a comparecer à Delegacia de Homicídios, numa irrecusável demonstração de que vivemos sob as regras de um Estado omisso e não raro conivente.

A comprovar isso, acrescente-se, os primeiros passos da investigação só ocorreram depois da repercussão do crime e das manifestações de protesto dos familiares do jovem assassinado. Importante destacar: a investigação teve início tendo como suspeito um indivíduo sobre quem pesa a suspeição de um outro homicídio 'a pauladas' no mesmo cartão postal do Rio de Janeiro.

Como afirma Lilia Schwarcz, com sensibilidade intelectual e aguda percepção dos nossos problemas estruturais, "Nosso presente anda, mesmo, cheio de passado, e a história não serve como prêmio de consolação".

Na contramão do mito, somos um país autoritário, racista e violento. Isto precisa mudar.

*Refiro-me ao sórdido artigo do antropólogo Antonio Risério em 15 de jan., no qual fala sobre a existência de "racismo de negros contra brancos".