sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Sobre política e perversão

Há artigos que valem por livros inteiros e são capazes de esclarecer com objetividade e concisão o que parece ser um problema complexo demais para ser examinado à luz de poucas palavras. A edição da Folha de S. Paulo desta sexta-feira traz um exemplo disso. Refiro-me ao incontornável artigo do advogado e professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, Silvio Almeida, intitulado Bolsonarismo, política e perversão. O tema, como o próprio título deixa ver, é o da ascensão global do fascismo e sua versão brasileira cujo substantivo deriva do atual presidente e candidato à reeleição.

Embasando-se em trabalhos de maior fôlego, o que é mesmo natural em artigos exemplarmente consistentes como o dele, Silvio Almeida traça um perfil do eleitor bolsonarista sem incorrer em categorizações repetitivas do que se pode definir como fascista, na linha do que mesmo livros clássicos sobre a matéria fizeram, a exemplo do aclamado O fascismo eterno, de Umberto Eco, no qual o autor de O Nome da Rosa e O pêndulo de Foucault estabelece 14 lições para identificar o neofascismo e o que define como fascismo eterno.

Intertextualizando o livro Crítica do Fascismo (Ed. Boitempo, 2022), Silvio Almeida  trabalha o conceito do fascismo à brasileira, numa perspectiva crítica, pelo viés da psicanálise e da economia política, e o resultado do artigo surpreende pela nitidez que dá a um fenômeno político que vem constituindo um desafio para diferentes campos da ciência política: como entender que uma liderança que sustenta sua ação no desprezo pelos pobres, manipulação da crença religiosa, mentiras, desapreço pela mulher, homofobia, racismo, ojeriza aos fundamentos da democracia, incentivo ao ódio e à violência, pode aliciar de forma impressionante quase metade dos eleitores brasileiros?

A explicação, que demanda obviamente outras vertentes de análise, concentra-se no fato de que o 'mito' "é a realização do desejo do homem médio, espremido pela miséria material e espiritual do capitalismo em crise". "O mito, diz ele, é o gozo sangrento, é o prazer espetacular com a morte". Nessa linha de interpretação, pois, é que Silvio Almeida nos faz entender por que o discurso bolsonarista centraliza-se num conceito de "liberdade ilimitada", que, em essência, é a própria negação da liberdade democrática, aquela que deita raízes no respeito à Constituição e aos valores de um Estado democrático de Direito: "ele é presidente e não trabalha, ofende as pessoas e as deixa morrer, anda de moto sem capacete durante o expediente, faz turismo em funerais, mente descaradamente, deixa os filhos fazerem o que quiserem e nada, absolutamente nada acontece com ele". Ele não é punido, sequer objeto de julgamentos por parte das instituições às quais caberia lhe impor limites, uma evidência na omissão desavergonhada do Procurador Geral da República e no silêncio servil de órgãos da grande imprensa.

O artigo de Silvio Almeida, a essa altura, vai ao cerne do que se tem, quase sempre em vão, procurado compreender sobre o fascismo brasileiro: "O bolsonarismo é o gozo perverso", pois prescinde do que é indispensável ao candidato adversário, a necessidade de mostrar-se melhor para presidir o país, pautando-se pelas regras do Estado democrático de Direito, a atenção cuidadosa com os que passam fome, os que precisam de emprego para sustentar suas famílias, os que são diferentes e fazem de suas vidas um bem precioso a ser respeitado, as mulheres, os indígenas, os negros e os desassistidos de toda ordem.

Na lógica dessa liberdade ilimitada, é que se sustenta quase metade dos brasileiros aptos a votar em 30 de outubro. Para esses, que se lixem as instituições, pois que Jair Messias Bolsonaro é o mito que representa "o triunfo do que de pior habita em cada um de nós. É o fracasso orgulhoso, o fracasso triunfante da dor".

Não à toa, pois, é que seus seguidores invertem o sentido do prazer, alimentam-se do ódio, fazem a apologia do sofrimento alheio como forma de alcançar seus objetivos malignos, projetando-se nas falas e ações de seu guia.

A duas semanas da mais importante eleição para presidente, é como desfecha seu artigo Silvio Almeida, resta aos brasileiros um único caminho: "... desarmar o fascismo e suas expressões passa por reorientar politicamente o desejo para formas de viver não alimentadas pela morte".

Sem medo de ser feliz.

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

As urnas dirão o que somos

Se, no primeiro turno, o otimismo bolsonarista não tinha fundamento; no segundo, a preocupação dos lulistas é pertinente. O dia seguinte para o atual presidente não poderia ser melhor: se já contava com o governador do Rio de Janeiro, seu companheiro de partido, passou a contar com o apoio escancarado de Romeu Zema, de Minas Gerais, e de Rodrigo Garcia, de São Paulo.

O primeiro, poderosamente instalado no Palácio da Liberdade, é sério candidato a presidente em 2026, e, pelo perfil liberal que encarna à perfeição, sabe que suas chances seriam pequenas na hipótese de uma vitória de Lula. Ademais, é filhote do capital e legítimo representante do que existe mais à direita em termos ideológicos. O segundo, antevendo o ocaso do PSDB, prepara voo para o que deverá surgir da fusão do PSL com o DEM, berço de sua aparição no cenário político de São Paulo. Sem contar que se move ao sabor de ressentimentos contra Haddad, que provocara, como prefeito de São Paulo, investigação de malfeitos de seu irmão Marco Aurélio Garcia, envolvido em escândalo na máfia dos fiscais.

O certo é que a situação fragiliza a percepção de que Lula chegara ao segundo turno em vantagem. Agora, queira-se ou não, é uma outra eleição, na qual o movimento das peças passa a obedecer a uma lógica diferente, e é sob essa perspectiva que a "turma do Gerson" (aquela que quer sempre levar vantagem) lança-se no mercado com seu apetite insaciável. Sem contar que estamos falando de um país com nítida identificação com o conservadorismo mais tacanho, mais equivocado e mais hipócrita, com práticas igrejeiras que negam o objeto que dizem venerar.

O caso de São Paulo, a rigor, não deveria surpreender. O estado foi, é e continuará sendo o retrato de um Brasil elitista, conservador e não raro delinquente em sua tradição política. É o estado de Ademar de Barros, de Maluf, entre tantos outros, ao que se soma, nesta eleição, um erro tático do PT ao considerar o candidato de Jair Bolsonaro um adversário mais frágil na hipótese de um segundo turno, confirmado no domingo.

Ao empenhar-se na desconstrução do candidato do PSDB, para quem direcionou suas baterias em debates, Haddad acabou por contribuir para o fortalecimento do seu, agora favorito nas pesquisas de intenção de voto, oponente, o que mais ainda traz para Lula o risco de que Bolsonaro alargue sua vantagem em São Paulo, o que será muito ruim para o candidato do PT.

Com o apoio do PDT, já esboçado desde o primeiro turno, de Simone Tebet, que fez nessa quarta-feira um pronunciamento histórico no plano da forma e do conteúdo, e dos tucanos de plumagem clássica (FHC, Tasso Jereissati e José Serra, entre outros), mais a suposta adesão de empresários, ancorados em nomes que lhes garantam a inexistência de um plano econômico mais à esquerda, a exemplo de Henrique Meirelles, Pérsio Arida e Armínio Fraga, Lula passa a depender dos humores do eleitorado de Minas Gerais e da esperança de que Zema não consiga desfazer os resultados obtidos por ele no Norte do estado.

Sem isso, mesmo que amplie sua vantagem no Nordeste, a situação do ex-presidente torna-se muito difícil, muito embora estejamos falando da maior, mais surpreendente e mais brilhante liderança política popular do país. Os últimos movimentos, no entanto, indicam uma retomada da dianteira petista, o que os números da pesquisa do Ipec (a primeira do segundo turno) confirmam: Lula aparece com 55% do votos válidos (descontados os votos brancos e nulos), contra 45% de Bolsonaro.

Os tempos são outros, mas o antipetismo é uma realidade que ainda impera em todas as regiões do país, exceto o Nordeste, onde o projeto de governo do PT deita suas raízes de forma incontrastável. E não adianta tentar ignorar o que os governos do PT fizeram em benefício de um povo pobre, mas digno e exemplarmente consciente do que é de fato melhor para ele.

Aí, se capaz de manter algo próximo do que conquistou a dois de outubro, mesmo sob o peso de uma correlação de forças profundamente desigual a partir de agora, quedam as melhores esperanças do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistar um terceiro mandato, resgatar o que restou de nossa combalida democracia e abrir novos horizontes em meio à tragédia em que se transformou o país.

Do contrário, como tão bem discorreu sobre o Brasil a jornalista Mariliz Pereira Jorge, em coluna de quarta-feira na Folha, corre-se o risco de ver-se confirmar o que supostamente somos: "Um povo que faz arminha com a mão, odeia o próximo e vai à igreja aos domingos."

A votação do dia 30 deste mês é, por certo, a mais importante desde a redemocratização do país. Mais que nunca, o povo brasileiro decidirá entre a continuidade da barbárie e o restabelecimento da normalidade democrática. Simples assim.