segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Antes de mergulhar

Toda noite eu arrancava meu coração. Mas de manhã ele tornava a crescer. (O Paciente Inglês)


Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna deste sábado. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim. Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Valorize as pequenas coisas, exercite a delicadeza, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2011 está chegando ao fim, foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal na Rua do Fogo

Dona Lili, desde que o marido morrera, havia muitos anos, vivia na mais desumana solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer, comprada nas casas Pernambucanas em módicas prestações. A rotina de sempre: receber clientes -- cada vez mais raros nesses tempos de butique --, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, fecho éclair, tubo de linha, agulhas, alfinetes: - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas, Fernando", dizia esperançosa ao dono do armarinho.

Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal, e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado, o dourado da abotoadura esfregado ao vestido, para conservar o brilho. O desvelo de uma apaixonada, nem parecia que já se contavam 27 anos de viuvez.

No começo, passados os quatro ou cinco anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de casar de novo, "quarentona muito da bem apanhada!", brincavam. Mas o tempo, amigo das surpresas, não fazia surpresa para dona Lili. A vida vidinha ia passando e, com ela, a juventude da velha costureira, o verde dos olhos ainda capaz de chamar a atenção... Nem filhos tivera, e Raimunda, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili por muitos anos, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz. Mas dona Lili nunca maldizia a vida, "até que Deus me leve para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.

Dia após dia, a rotina era a mesma no velho casarão: varrer, lavar, passar, fazer a comida e, no sem-fim daquela solidão, arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado contra o vestido de organdi para retomar o brilho.

Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa de tartaruga segurando o penteado simplório e o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se sobre o parapeito da janela para admirar o mundo: o movimento da rua, as barracas de guloseimas e bugigangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento do Menino-Deus, dali a poucas horas. E que a vida, no eterno viravoltear das coisas, anunciava-se nova a partir daquela noite, porque era Natal.

Alforriando o olhar para o longe da rua, a boa senhora deixou-se transportar para os velhos tempos ao lado do marido, a missa do galo na Matriz, as voltas incontáveis sobre o calçadão da praça (o braço enlaçando a cintura de Murilo) e aquela sensação gostosa de que a vida era um milagre...

Cansada, que por sorte foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu com cuidado, tateando o ar, o longo corredor e, como uma sombra, adentrou o quarto para dormir, não sem antes reorganizar as gavetas do marido, as gravatas, o pente, a navalha de barbear, a aliança -- "Ainda mando o joalheiro tirar os riscos!" --, o dourado da abotoadura arrastado no vestido para readquirir o brilho.

Lá fora, ainda se podia ouvir o pipocar das bombas, dos fogos de artifício, o badalar dos sinos da Matriz... Antes de assoprar a vela bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia havia 27 anos, beijou o retrato de Murilo, enquanto duas lágrimas, serenamente, rolaram sobre as maçãs do rosto.

Na manhã seguinte, a custo, conseguiu-se entrar no velho casarão, onde acharam dona Lili sem vida, em decúbido dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos. Ao enterro, compareceram dezoito pessoas, onze homens, seis mulheres e um menino.

Dizem que do interior da velha casa, à meia-noite, por muitos anos ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.