domingo, 25 de novembro de 2012

Minha mascote, o Zé

Quando a imprensa divulgou a mascote da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, como todo torcedor metido, fiquei muito frustrado. Primeiro porque não vejo graça nesse tatu-bola escolhido para simbolicamente nos representar, além, claro, do fato de sua espécie carregar no nome a palavra com que se designa o instrumento indispensável para a prática do esporte bretão. E a sugestiva forma, vá lá, que o animal assume sempre que se sente acossado. Muitas outras modalidades também não podem prescindir do mesmo instrumento. O argumento de que a escolha remete às campanhas em favor da preservação do meio-ambiente, que anima os entusiastas da mascote, também não me convence. Pelo menos a mim, que esperava uma outra figura, muito mais 'brasileira' em sua malemolência, simpatia e leveza, literalmente. Além disso, também o bom papagaio sofre ameaça de extinção.
 
Não bastassem tantos bons atributos, o meu indicado faz este ano 70 anos, no momento em que foi escolhido o tatu como o nosso exótico representante. Para não falar que não é todo dia que um brasileiro de quatro costados alcança tamanha longevidade, pelo menos quando se trata, como ele, de um brasileiro pobre, duro mesmo, folgado e desempregado, mas que não perde a alegria de viver e viver bem em meio a tamanhas adversidades. Ou seja, o legítimo brasileiro, tão macunaímico quanto a adorável personagem de Mário de Andrade, o maior e mais simbólico dos intelectuais brasileiros em sua inarredável disposição de imortalizar o verdadeiro Brasil e suas tradições. Pois o leitor, que deve estar se coçando de curiosidade, fique sabendo: o meu escolhido seria o Zé Carioca!
 
Explicada a minha intromissão em assunto que não me diz respeito, ou sim, para contrariar Caetano, que por sinal tem a mesma idade do Zé, repasso ao leitor um pouco da biografia do meu "herói", que, embora sem nome, junta forças para zombar dos outros, como outro Zé que também adoro, o de Carlos Drummond de Andrade. Mas deixemos de delongas e vamos aos fatos.
 
Zé Carioca foi gerado em 1941, num salão do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, como o sobrenome deixa ver. Mas o seu registro de nascimento é de 1942, quando o pai, ninguém menos que um certo Walt Disney, revelou ao mundo a chegada do herói brasileiro, que já veio assim, estiloso que só, com seu fraque, sua gravata-borboleta, seu chapéu de palhinha, seu charuto e seu chapiliniano guarda-chuva, inspirado num tal Dr. Jacarandá, personagem folclórica dos bares cariocas dos velhos tempos.
 
Minha simpática mascote, como se vê, já chegou abençoada, pelos deuses e pelos orixás, para fazer companhia ao rabugento Pato Donald e, com sua graça e malandragem, anunciar aos quatro ventos que, na contramão das evidências, é possível ser alegre e feliz sempre, mesmo sendo brasileiro. O diabo é que tem um nome que lembra, nestes tempos de trevas, um outro Zé, o qual, diga-se de passagem, não anda com essa bola toda. 
 
 
 
 
            
           

sábado, 17 de novembro de 2012

Penas medievais

A declaração do Ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, de que preferiria a morte a ser preso num presídio brasileiro, que muitos veem como política, é na verdade o reconhecimento do governo de que são desumanas as condições impostas aos condenados à cadeia neste país. Nada mais, o que, ao invés de surpreender e indignar aqueles que enxergam interesses políticos em tudo, deveria, antes, refletir um avanço de natureza ética do atual governo. Ou há quem não reconheça procedentes as palavras de Cardozo?
 
O fato, no entanto, pode ser analisado com imparcialidade e sem intenções partidárias, a exemplo do que fazem as maiores autoridades em assuntos jurídicos em face das penas fixadas para os envolvidos no chamado "mensalão". Ou seja, são racionais essas penas? Traduzem elas razoabilidades legais, uma vez que os apenados não representam efetivamente uma ameaça para a população? Não seria mais adequado condicioná-los a cumprir trabalhos sociais, depois de retirados os seus direitos políticos por um tempo ou definitivamente? São perguntas que surgem e que me parece saudável para os interesses do país se discutir. Ouso contribuir para tais discussões. Vejamos.
 
Parto de um ponto de vista talvez chocante para os "indignados" de plantão: Em que sentido essas pessoas constituem ameaça concreta à sociedade? Mantê-las encarceradas, em que proporção restituirá ao Estado o que lhe foi subtraído pelos condenados? Não seria mais aceitável impedir que essas pessoas voltassem a participar da atividade política como candidatos, ainda que por um tempo determinado e proporcional à gravidade e à extensão dos crimes cometidos? Punições alternativas não teriam para os envolvidos (e a própria sociedade) um resultado pedagógico mais eficaz? A pena de reclusão, por manter essas pessoas isoladas do convívio social, não contribuem mais diretamente para que sejam elas e seus crimes esquecidos com o passar do tempo? São perguntas que considero oportunas neste momento de tantos e tão significativos avanços em termos institucionais.
 
Superpovoar as nossas prisões, já tão desumanas em sua complexa realidade, como evidenciam as palavras do Ministro da Justiça, já não é uma consequência natural da forma como se tem levado a efeito os julgamentos no país ao longo de sua História? Quantos dos que ali estão, submetidos à exclusão pela exclusão, onerando o Estado, já não poderiam estar reintegrados à vida social se lhes tivessem imposto penas alternativas?
 
O sistema carcerário brasileiro, pelas condições em que se encontram as casas de detenção desde sempre, em nada contribui para a correção dos condenados, um princípio que não se pode afastar mesmo em relação aos criminosos mais perigosos. Se esses, por representarem uma ameaça física à sociedade, não podem estar no convívio direto das pessoas de bem, por um tempo que pode mesmo ser definitivo, não me parece ser o caso dos condenados do mensalão. Esses, sem deixar de reconhecer a extensão dos crimes cometidos, de alguma forma e em alguma medida poderiam ser úteis ao país. Em trabalhos comunitários, de forma produtiva, em vez de submetidos a condenações que lembram, de perto, às do tribunal eclesiástico criado no século XII pela Igreja Católica.