segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua/Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego/Uma flor ainda desbotada/Ilude a polícia, rompe o asfalto/Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/Garanto que uma flor nasceu./É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
 
Quando Carlos Drummond de Andrade escreveu os versos acima, uma bela porção do que há de mais representativo de uma fase de sua trajetória, por volta dos anos 40,45, quando trouxe a lume os livros mais engajados de sua obra, a exemplo de Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, o fez lançando mão de um princípio aristotélico que orienta a produção artística: "Não é ofício do poeta narrar o que acontece, e, sim, o de representar o que poderia acontecer, o que é possível, pois a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a História, pois esta se refere ao particular e aquela ao universal".
 
O que era apenas uma metáfora genial, pois, nascida da sensibilidade e do poder de criação de um artista atento à dor coletiva, à angústia e à miséria dos tempos modernos, parece ser mesmo uma realidade hoje. Está na edição desta segunda-feira, 28 de janeiro de 2013, da Folha: "[...] Uma árvore rompe o concreto do elevado Costa e Silva, em São Paulo".
 
Segundo a matéria, a árvore, a rigor, são 20 brotos nascidos das rachaduras do viaduto, um dos muitos monstros construídos pelo homem como alternativa para o problema do tráfego na maior e mais importante cidade do país.
 
Nascem do milagre, advindas dos grãos de que se alimentam os pombos da região, dos restos de comida e das sementes carregadas pelo vento, como se a vida, num passe de mágica, insistisse em se dizer possível em meio à irracionalidade, o materialismo e à ausência de humanidade dominantes.
 
Aqui em Belo Horizonte, nas minhas caminhadas de fim de tarde, todos os dias atravesso um elevado bem em frente ao Mineirão, cujas obras, praticamente concluídas, constituem um dos orgulhos das autoridades locais, pelo que ostentam de grandioso e moderno.
 
Mas não é a pujança das construções, nem as curvas desafiadoras do concreto o que mais me impressiona ali, mas a presença de árvores (uma delas frondosa) que sobrevivem, sabe o improvável como, bem debaixo de alguns desses viadutos. Estão lá, maltratadas, sem a luz que lhes dê a vitalidade natural de que carecem, mas resistem, carregadas de simbologia, como num quadro surrealista de Dalí. 
 
           

sábado, 26 de janeiro de 2013

Arte e violência em Django

Escrever sobre cinema, num blog tão despretensioso quanto o meu, é correr o risco de ser incompreendido e julgado atrevido. Afinal, como lembra um conhecido blogueiro brasileiro, escrever na internet é se expor ao clima de torcida organizada que toma conta de algumas discussões. Mesmo assim, em respeito aos que leem o que se publica neste espaço (ano passado foram quase 15 mil visitas, sem contar os leitores da versão impressa), e pelo amor à arte, não me furto ao desafio. Fui ver Django Livre, o último Tarantino (o Corinthians da tela grande), e vou comentar.
 
Não gostei. O filme, mais do que em toda a obra do cineasta americano, estetiza a violência do começo ao fim. Algumas cenas, visando aos entusiastas do diretor, chegam a ser engraçadas, como na sequência final, em que um tiro certeiro de Django faz desaparecer do quadro, como um foguete, uma mulher. E o público ri mesmo, ri muito. O efeito, recorrente num filme de ação vespertino, não caberia ali, quando se aproxima a "estase" (como está escrito, com S mesmo, o momento dramático em que todas as forças se equilibram e resulta na falta de movimento).
 
Mas os defeitos estruturais do filme são maiores: o roteiro não está à altura de Tarantino, sobretudo o de Bastardos Inglórios, referindo-me, obviamente, a um filme quase perfeito. Não me parece bem escrito, especialmente por se tratar de um filme que discorre sobre uma questão muito grave, como o verdadeiro holocausto a que foram submetidos os negros americanos através dos tempos. Nesse sentido, considero razoável o julgamento de Spike Lee: "A escravidão não foi um spaghetti western de Sergio Leone". Sob este aspecto, o filme de Tarantino reedita a mesma visada dos roteiristas americanos sobre a questão indígena. Fica na superfície.
 
A trama, a organização dos eventos dramáticos do argumento, gira em torno do martírio de Django (Jammie Foxx, numa interpretação que observa a estilização já conhecida de outros filmes do diretor), é libertado pelo Dr. King Shultz (Christoph Waltz, excelente, como sempre), um caçador de recompensas alemão, e decide acompanhá-lo na sua empreitada: chegar até os irmãos assassinos Brittle, no sul dos Estados Unidos. Ali, sem que saiba do paradeiro dela, Django vai deparar com Broomhilda (Karry Washington), sua esposa, escrava de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, sublime no papel). E vem o previsível.
 
Notável no filme, embora sem atingir o mesmo nível de genialidade de Cães de Aluguel, por exemplo, a forma fílmica, como a composição de alguns planos, plasticamente maravilhosos, e o manuseio inconfundível da câmera, que fazem lembrar, num e noutro momento do filme, a sequência de abertura de Bastardos Inglórios, um marco do cinema contemporâneo.
 
Mas é a estetização da violência, uma característica incontornável de Quentin Tarantino, capaz de levantar a torcida, que sobressai em Django Livre (com D mudo, diz Jammie Foxx). A cena de luta entre escravos, diversão e negócio de Candie, é um dos destaques do filme. Para não falar numa anterior, em que cães devoram um escravo sob o olhar revoltado e silencioso de Django. Mas a câmera, não seria Tarantino se não o fizesse, deixa ver.