sexta-feira, 21 de junho de 2013

A voz rouca das ruas

"Odeio ser mal entendido!", costuma dizer um comentarista de futebol da ESPN Brasil. É o que me ocorre quando sento diante do computador para produzir a coluna de hoje. Refiro-me ao que escrevi no blog sobre as manifestações de protesto que tomam conta das ruas do País. Em momento nenhum acenei com "críticas tendenciosas" ao movimento popular como afirma um leitor em e-mail dirigido a este cronista.
 
Pelo contrário, comecei por dizer que esses movimentos são próprios da democracia (e necessários contra a ditadura, o que, felizmente, não é o nosso caso), mas que urge perceber o abismo que existe entre ir às ruas para protestar, reivindicar, seja lá o que for do interesse do povo (como faz a gigantesca maioria nos movimentos de agora) e o que fazem grupos de baderneiros infiltrados nas multidões Brasil afora, promovendo um estado de desordem e aviltamento da ação política a exemplo do que, novamente, pôde-se constatar ontem em diferentes cidades brasileiras, o Rio à frente.
 
Critiquei, ainda (e de forma enfática), aqueles que, historicamente comprometidos com o cerceamento das lutas populares, o avanço das liberdades e dos direitos essenciais, inclusive de comer e vestir de forma digna, ou empenhados em impedir que o País seja, de fato, conduzido por um projeto ideologicamente progressista, agora posam de democratas a fim de tirar proveito da situação e tentar desestabilizar o governo da presidente Dilma Roussef.
 
A propósito, não queria bater nesta tecla mas me sinto provocado a fazê-lo: as manifestações ocorrem, sob as mais diferentes bandeiras, em estados governados por partidos contrários ao PT ou "taticamente" aliados ao governo. Vejamos: São Paulo (PSDB), Rio de Janeiro (PMDB), Minas Gerais (PSDB), Paraná (PSDB), Ceará (PSB) etc. Sejamos mais claros: dos atuais 27 apenas 5 são do partido da presidente: Acre, Bahia, Rio Grande do Sul, Sergipe e o Distrito Federal.
 
Ademais, caro leitor, agradecendo-lhe pelo comentário, devo observar que fiz política estudantil e participei, na medida das minhas imensas limitações, de lutas pela democratização do País, bem como continuo a defender, no que escrevo e faço, o direito inalienável de ir às ruas por conquistas mais amplas, contra a corrupção, por serviços de saúde e educação mais dignos para todos, por um País melhor. Sem fechar os olhos para os avanços, todavia. A minha crônica, relei-a, condena a "partidarização" dos movimentos, belíssimos!, do gigante desperto. E teme que se faça do vandalismo um instrumento de negociação, como afirmo no último parágrafo do texto. Confira.
 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Da festa, ao caos

De repente, da festa do futebol, surge o caos. O Brasil, de Norte a Sul, parece endemoniado, tomado de fúria como não se via há tempos. Mas por quê, contra ou a favor de quem? Não se sabe ao certo. Nem o que resultará disso. Quem estará por trás, quem, aguçando o olho gordo do oportunismo, espreita à distância, como as ave de rapina a carne podre. Democracia, sim. Mas não a democracia que queremos, mesmo os que carregam no currículo as práticas ortodoxas. A democracia que confunde vandalismo, depredação, com expressão de ideias, com o direito sagrado de dizer sim ou não. E tudo parecia tão em paz. Que Brasil é o Brasil que vemos, atônitos, sem lugar onde repousar as mãos?

Haverá quem diga, claro, que as manifestações que tomaram conta do país nas últimas horas têm um endereço certo: o Governo do PT, a presidente Dilma. Canalhice, ao lado da cegueira mais lamentável, a cegueira dos que não querem ver. Não querem ver que o país mudou, que a impunidade parece, finalmente, ter os seus dias contados. Que os pobres podem, agora, comer, vestir, ter acesso a bens de consumo antes impensáveis. Que o desemprego cai a níveis nunca atingidos, que o Brasil, na contramão do que parecia lógico, possível, mesmo para os mais utópicos, atravessa a crise mundial com tranquilidade, em que pese a alta da inflação, a subida do dólar, as instabilidades próprias do momento em parâmetros globais.

De um amigo, vem, por telefone, a conclusão improvável: coisas do PSTU, numa alusão às práticas radicais de uma esquerda que não é mais possível. De outro, pelo mesmo meio, a apreensão: vai ter retrocesso, como se houvesse, hoje, clima para golpes. De um terceiro, mais sensível às efetivas consequências dos fatos, um comentário sereno e, a princípio, lúcido: abre-se um espaço para o salvador de plantão, relembrando Collor.

O certo, se certeza pode existir em meio à desordem que, num piscar de olhos, cobre de dúvidas uma Nação, é de que perdemos todos, sem exceção, a capacidade de entender o que querem os manifestantes, ou parte significativa deles (refiro-me aos que quebram, destroem, põem por terra a coisa pública). Como li há pouco, já nem lembro onde, escrito por quem, "algo ocorre. O quê, ninguém sabe exatamente". O perigo é que se faça do vandalismo um meio de negociação.