sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Cine Alvorada

Como não pagasse entrada, posto que o dono do cinema era meu tio, ainda menino não perdia nem mesmo os filmes mais 'sérios', a exemplo de Os Incompreendidos e Acossado, de François Truffaut e Jean-Luc Godard, respectivamente, que viriam a figurar entre os meus cineastas preferidos.
 
Algumas dessas produções, não sei explicar com segurança por que chegavam a uma cidade sem qualquer tradição em termos de cinefilia. Acho que o fato prendia-se a uma questão meramente comercial, supostamente por serem oferecidos aos donos do cinema a preços promocionais.
 
Curiosamente, no entanto, por surpreendente que seja, tinham essas películas seu público assegurado. Herméticos ou não, rebuscados, cinema de arte, film noir, neorrealismo italiano, enfim, estava eu lá, o que decerto justifica que tenha adquirido uma verdadeira paixão pela sétima arte.Via tudo, do pop americano, passando pelos franceses e italianos, aos westerns, gêneros que passei a acompanhar com grande interesse quando fui morar num grande centro.
 
O interesse pelo cinema, tempos depois, ensejaria um convite para dirigir um super-oito plasmado na peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret. A película foi doada à UFC, mas é provável que, como a parte magnética dessas fitas é extremamente delicada, não exista mais. Além do que, assumidamente, o filme resultou muito ruim, colegial mesmo. É claro que foi rodado em condições precárias e com recursos ínfimos, mas nada justifica que o tenha realizado tão amadoristicamente.
 
O roteiro fora adaptado por mim e por Maria de Jesus de Sá Correia, hoje importante profissional ligada à Universidade Federal do Ceará e, já à época, grande conhecedora da literatura de Portugal.

A história narra os acontecimentos imediatamente posteriores à batalha de Alcácer-Quibir, (1578), em que desaparecera o rei D. Sebastião. Daí deriva o mito do "sebastianismo", segundo o qual D. Sebastião retornaria para redimir seu povo, que constitui um dos temas centrais da peça de Garret.
 
Hoje, com o advento do DVD, vejo e revejo filmes com freqüência, tenho predileção pelo drama, seja ele americano, francês ou italiano. Adoro Antonioni, Federico Felline, Ingmar Bergman, Billy Wilder e, entre os contemporâneos, Woody Allen, Pedro Almodóvar, Roman Polanski, Wim Wenders e Lars Von Trier, de quem vi, por último, Medeia, verdadeira obra-prima realizada a partir de um roteiro inédito de Carl. T. Dreyer. 
 
Não tendo uma biografia que pudesse justificar um livro, é o meu amor pelas artes, os meus filmes, livros e discos preferidos a matéria com que, sem tirar o olho da realidade, tive o atrevimento de escrever, tempo desse, minhas memórias. Quando menos, que sejam interessantes para os meus filhos. Isto já me basta!
            
            
           

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Yellow Press

Parte da imprensa brasileira, leia-se revista Veja e TV Globo e suas afiliadas, permanece num silêncio sepulcral em relação aos escândalos envolvendo sucessivos governos do PSDB em São Paulo e a gigantesca francesa Alstom. Primeiro, a comprovada formação de cartel para manipular licitações do Metrô e da CPTM em que estiveram envolvidos Mário Covas (pasmem!), José Serra e Geraldo Alckmin, cujas cifras de ilícitos já levantadas atingem dimensões aterradoras.
 
O caso, que mereceu destaque nos principais jornais europeus, sabe-se, é objeto de processo na Justiça desde que a empresa alemã Siemens assumiu ter pago propinas expressivas aos contratantes. Enquanto isso, a revista Veja, por exemplo, dedica metade das páginas de sua última edição a falar dos benefícios do "suco verde". Para não falar do "Cara Pálida" do Jornal Nacional da principal emissora de tevê brasileira. Fosse o PT...
 
Agora, quando se pensava que a roubalheira dos tucanos tivesse limites, novo tentáculo da promiscuidade vem à tona. Não é só em torno das licitações de trens do Metrô que a bandalheira vinha se verificando: os negócios da Alstom com a Empresa Paulista de Transmissão de Energia (EPTE), desde o primeiro mandato de Covas, em 1998, vem apresentando irregularidades gritantes.
 
Segundo pude ver em sites de diferentes jornais, pela Internet, a companhia francesa, em pelo menos dois contratos firmados à época, assume ter feito "doações" algo em torno de 15% dos valores fixados, pouco mais pouco menos que R$ 52 milhões. Deste dinheiro, uma metade era depositada, aqui, em contas dos envolvidos, e a outra metade em contas na Suíça. Tudo isso a fim de que não fosse instalado o processo licitatório previsto em Lei. Ou seja, burla às licitações legais com o fim de obter vantagens em cada negócio firmado.
 
Na contramão do que fazem a revista Veja e a TV Globo, em relação a esses casos e ao Mensalão do PSDB de Minas Gerais, que se arrasta a anos na 'Justiça', a Folha de S. Paulo, pelo menos, traz em sua edição de hoje um tímido e vacilante editorial sobre a matéria. Enquanto isso, segundo o importante jornal, "[...] a população do Estado [de São Paulo] ainda aguarda uma demonstração inequívoca de que ela e o governador se guiam mais pelo interesse do que por razões partidárias." Ok.
 
Em tempos que já vão longe, um caso envolvendo dois importantes jornais americanos, o New York World e o The New York, deu margem a uma curiosa expressão com que se passou a tratar as publicações inescrupulosas mundo afora. Entre nós, numa inversão cromática que se deve ao jornalista Calazans Fernandes, trocou-se o amarelo pelo marrom, ou seja, ficou "imprensa marrom". Menos ameno, como se vê.