sexta-feira, 25 de julho de 2014

Belos escritores

O Brasil, que já perdera o poeta e tradutor Ivan Junqueira, no início do mês, em pouco mais de uma semana fica sem três outros dos seus grandes escritores. Primeiro, João Ubaldo Ribeiro, dois dias depois Rubem Alves e, na sequência desventurada, Ariano Suassuna. O Nordeste, que aqui nasceram o primeiro e o último dos quatro, sobremaneira, ainda mais quando sabemos que João Ubaldo e Suassuna eram nordestinos "assumidos", quer dizer, autores identificados com as bases culturais da região e devotados a sua gente.
 
De Ubaldo, li, além de Viva o Povo Brasileiro, que considero um livro à altura de Cem Anos de Solidão, a mais importante obra de García Márquez, três ou quatro outros romances, dentre os quais destaco A Casa dos Budas Ditosos, da série Plenos Pecados, da Editora Objetiva, 1999. O livro, sabe-se, em mais uma coincidência entre os dois autores, foi objeto das mesmas críticas dispensadas às Memórias de Minhas Putas Tristes, do escritor colombiano. Ambos tratam da luxúria, com os narradores expondo suas vidas e as infinitas possibilidades do sexo.
 
Mas, não apenas por um exercício de subjetivação estética, foi a morte de Ariano Suassuna que mais me comoveu. Primeiro, porque tenho a perfeita noção do que representa sua obra para o país, porque compreendo o quanto a sua literatura (aqui incluído o Teatro) guarda das nossas raízes mais profundas, estendendo-se de remotas influências ibéricas ao pop regional, sem jamais se tornar banal ou desprezar a densidade do erudito que perpassa toda a sua produção, notadamente o seu mais importante romance, A Pedra do Reino. O "armorial" a que todos se referem ao falar de Suassuna, é o nome do movimento que tem por meta ligar a arte erudita às origens da cultura do Nordeste brasileiro. E que teve o ilustre paraibano como seu principal líder, claro.
 
Nas minhas aulas de Estética, nos cursos de Artes do IFCE, adoto como livro-base o seu menos conhecido Iniciação à Estética, um belo manual de Filosofia da Arte que Ariano Suassuna produziu a partir das anotações de aulas na Universidade Federal de Pernambuco, onde lecionava a disciplina.
 
Trata-se de um livro "delicioso", em que o autor percorre uma trajetória que abrange o que se fez de mais significativo do ponto de vista teórico no terreno das Artes, indo de Platão e Aristóteles a Kant, deste a Hegel e Bergson, explorando as diferentes linguagens  --  pintura, escultura, arquitetura, música, mímica, literatura e as artes de espetáculo. Um livro marcado pela tino crítico de Ariano, um homem que conseguiu, como é raro, ser erudito e cristalino, acadêmico e animado.
 
Tenho, agora, a frustração de nunca ter assistido, sequer, a uma de suas aulas-espetáculo, de que o meu filho Saulo Teixeira, tendo presenciado uma à época de sua passagem pelo Cariri, fala maravilhas.
 
Enquanto escrevo este texto ligeiro em homenagem ao autor de O Auto da Compadecida, ocorre-me lembrar de algumas de suas "reflexões-piada", que meu filho reproduz para mim com tanta expressividade. Sem falar, por uma coincidência que antes incomoda, que tenho quase nas mãos, diante do computador, A História do Amor de Fernando e Isaura, uma espécie de tradução brasileira da lenda celta de Tristão e Isolda com que Ariano Suassuna nos presenteou em 1994.
 
Nesses próximos dias, ao estudar com meus alunos este pequeno romance a partir de suas relações intersemióticas, por certo estarei invadido de um sentimento curioso: o sentimento que mistura a admiração pelo intelectual com a afetuosidade quase familiar pelo homem. Pena!
 
Descansa em paz, mestre.
 
 
 
 
 
 
           

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nas malhas do amor

Tantas vezes tachado de repetitivo, mesmo por uma parte da crítica que reconhece as qualidades de seus filmes anteriores, Giuseppe Tornatore retorna ao circuito cinematográfico com o belíssimo A Melhor Oferta (The Best Offer), em cartaz no Centro Dragão do Mar. O filme quase nada reedita dos trabalhos anteriores do diretor de Cinema Paradiso, mesmo quando leva a efeito o seu tema mais caro, o amor e suas representações, como para evidenciar o quanto seus detratores têm de obtuso e preconceituoso. Mas de que 'fala' seu último trabalho? É o que veremos a seguir.
 
A Melhor Oferta narra a história de um especialista em artes visuais, Virgil Oldman (Geoffrey Rush, numa interpretação soberba) misógino e desonesto, que acumula riqueza e um acervo artístico imenso às custas da manipulação de informações em torno das obras que vende através de leilões. Para tanto, conta com a parceria de um amigo, Billy Whistler (Donald Sutherland) que adquire as peças para depois revender a Oldman.
 
É quando surge na história Claire Ibetson (Sylvia Hoeks), herdeira de um antiquário e suposta portadora de agorafobia (medo de se achar sozinha em espaços públicos), que contrata Oldman para vender o seu riquíssimo acervo. O contato dos dois, no entanto, passa a ocorrer através de uma porta do quarto em que Claire passa escondida a maior parte do filme, até que a estranha convivência leva os dois a se enroscar numa paixão a um tempo enternecedora e doentia.
 
O filme, assim, vai tecendo uma sedutora reflexão sobre o amor e sua indecifrável complexidade, para o que Tornatore, que assina também o roteiro, lança mão de um artifício estético notável: se Oldman é capaz de identificar toda e qualquer falsificação no mundo da Arte, é ingênuo ao lidar com os sentimentos, o que leva o espectador a compreender a solidão em que vive ao lado dos incontáveis quadros que tematizam a figura da mulher.
 
Surge, agora, a terceira personagem central da história, Robert (Jim Sturgess), um restaurador de relíquias a quem cabe recompor um autômato de aspecto humano que metaforiza os muitos fios da trama amorosa do filme, e que, aos poucos, vai conduzindo o espectador no labirinto de emoções e sentimentos que fazem de A Melhor Oferta um filme sublime.
 
Intrigas, reviravoltas, impoderabilidades, então, passam a dominar as mais de duas horas de desfile fílmico, tudo, como é próprio do diretor italiano, sob a sensibilidade de uma câmera prodigiosa, uma mise-en-scène precisa e uma atuação irretocável de todo o elenco, Geoffrey Rush à frente, sem esquecer outros detalhes das escolhas, como a composição equilibrada dos planos e a textura cromática que dialogam com a beleza das muitas telas que aparecem da primeira à última cena do filme. E a música de Ennio Morricone, linda, claro.
 
A Melhor Oferta, que haverá de encher os olhos de qualquer bom cinéfilo, articula-se, pois, entre o mais inspirado Hitchcock e o mais poético Scorsese, Vertigo e A Invenção de Hugo Cabret, por exemplo, pela irrepreensível qualidade do filme no que diz respeito aos planos de conteúdo e expressão, confirmando a presença de um cineasta definitivo no cinema de hoje e sempre.
 
Pena não se poder ser mais conclusivo, em respeito àqueles que ainda não assistiram ao filme. Resta dizer, desse modo, que se trata de uma obra em que o amor, fio condutor da história, transita entre o verdadeiro e o falso, como na arte que sustenta sua irrealidade. Não sem razão, pois, diz o protagonista a uma dada altura do filme: "Em toda falsificação existe um pouco da verdade do falsificador". No caso, só mesmo assistindo ao filme para entender isto. Recomendo.