sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Memórias de Jung

Há livros que ficam na nossa vida pelo sem-fim dos tempos. Como um grande amor, vira e mexe retornam à lembrança sob a provocação de qualquer "perfume". Desde que vi Nise, o Coração da Loucura, o belíssimo filme de Roberto Berliner, que constitui uma das mais eloquentes homenagens à psiquiatra Nise da Silveira, ocorreu-me resgatar do abandono da estante Memórias, Sonhos, Reflexões, a autobiografia de Carl Gustav Jung. E que experiência maravilhosa não é reler o texto do médico suíço. É como se, lendo-o, lêssemos a nossa própria vida à luz da história de um homem extraordinário, deparando com ressonâncias de nossas mais antigas descobertas.

Escrito a quatro mãos, pois Jung fora sempre avesso à ideia de tornar pública sua história pessoal  --  desafio somente enfrentado com sucesso por força da laboriosa dedicação da psicanalista alemã Aniela Jaffé, secretária dele  --, Memórias, Sonhos, Reflexões bem que poderia figurar num tipo elevadíssimo de autoajuda, tamanho é o enriquecimento de nossa "alma" ao descer, com Jung, às remotas circunstâncias humanas através das quais construímos a nossa identidade pessoal. Não a alma tal qual a entendemos na perspectiva da religião, de algumas religiões será mais acertado dizer, mas como se devem compreender "os abismos e cumes de nossa natureza psíquica", aquilo que resulta da acumulação de imagens de milhões de anos.

Num mundo marcado pela inversão de valores, onde a validade de nossas realizações é pesada pela lógica da economia e pela possibilidade de acúmulo da riqueza material, mais ainda livros como esse podem constituir alternativas de ação para a angústia dos tempos modernos. Não é muito observar, a essa altura, que se deve atribuir a Jung a inserção definitiva da psicologia no que se define como atividade científica dedicada a compreender a mente humana, pois sua produção intelectual resulta do acompanhamento criterioso de suas próprias experiências vitais, de que retira a substâncias de suas reflexões tão sábias em torno do que nos faz ser aquilo que somos.

Mas é a perfeita compreensão do que existe de essencial em cada um de nós que ainda mais fortalece este livro maravilhoso e o torna uma experiência em tudo enriquecedora. A propósito, não resisto à tentação de citar uma passagem notável sobre isso. Ei-la: "A vida sempre se me afigurou uma planta que extrai sua vitalidade do rizoma: a vida propriamente dita não é visível, pois jaz no rizoma. O que se torna visível sobre a terra dura só um verão, depois fenece... Aparição efêmera. Quando se pensa no futuro e no desaparecimento infinito da vida e das culturas, não podemos nos furtar a uma impressão de total futilidade; mas nunca perdi o sentimento de perenidade da vida sob a eterna mudança. O que vemos é a floração  --  e ela desaparece. Mas o rizoma persiste".

Não à toa, Memórias, Sonhos, Reflexões, como lembra Léon Bonaventure, em apresentação à edição brasileira, despertou interesse entre gerações de jovens americanos e europeus, constituindo-se num verdadeiro guia espiritual de muitos deles. A busca da individuação, diz o psicólogo belga, começa a surgir como um único valor que ainda faz sentido. Ele nos adverte, ainda, que o desabrochar da humanidade e seu desenvolvimento faz-se primeiro através dos indivíduos, atingindo depois toda uma cultura.

Mas isso, nos anos 70, quando os jovens liam e buscavam nos livros o bom amparo para suas instabilidades e conflitos. Diferente, pois, dos dias de hoje, quando se curvam aos mecanismos traiçoeiros do capitalismo mais perverso, caçadores enlouquecidos de "bichinhos" nas telas do celular, alimentando com sua basbaquice a indústria do lazer e do divertimento que imbeciliza e embrutece.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Apologia do adultério?

A propósito de texto recente, neste espaço, leitora faz uma acusação no mínimo incômoda contra este escriba: - "Sua crônica faz a apologia do adultério".

Li isso e falei para os meus botões: 'Ela não entendeu nada'. Ato contínuo, mostrei para amigos a crônica e o comentário, admitindo que, sob algum aspecto, o texto pudesse levar a tal conclusão. Ninguém, as mulheres sobremaneira, achou que a crônica pudesse ensejar uma defesa da traição.

Dito isso, volto ao assunto  --  uma forma de dirimir dúvidas que as minhas afirmações, eventualmente, tenham ocasionado a outros leitores.

O texto, para quem não leu a referida crônica, intitula-se Quem sabe isso quer dizer amor. Nele, reporto-me ao fato de que cada vez mais a sexualidade constitui tema nas conversas informais, o que, dizia eu, é bom para o amadurecimento das pessoas acerca de algo que move a vida de todos nós, e que, infelizmente, nem sempre foi encarado com naturalidade, constituindo, mesmo, um tabu, um desconforto para muitos. Para a leitora que me acusa de "apologista do adultério", por certo.

Tudo pelo fato de que citei no texto as afirmações da americana Gracie, 48, esta, sim, defensora apaixonada da liberdade sexual, mesmo depois do casamento, como forma de manter turbinado o interesse pelo marido Oz, 41, para quem as "escapulidas" da mulher antes contribuem para o fortalecimento de sua relação conjugal. Do que não discordam as filhas do casal, importante frisar.

Em momento algum, todavia, este colunista emitiu opinião condizente com a estranhíssima alternativa do casal americano para a preservação dos motivos e motivações mais elevados por que se devem nortear os relacionamentos, oficializados ou não. E não estou falando de amor, esta "palavra-tudo" tão banalizada, tão trivializada no discurso contemporâneo da mídia e dos aventureiros de plantão. Falo de paixão, de gosto, de tesão, de cumplicidade, de amizade, de respeito, de admiração, de vontade de continuar dividindo com o outro o milagre da vida. Sem isso, de que vale tentar segurar a barra e manter de pé o que já morreu, o que não mais se sustenta se não artificialmente, por força de conveniências ou falta de coragem para recomeçar?

Coincidentemente, agora sobre Conversas de cinéfilo, a última crônica do blog, outra leitora faz o seguinte comentário: - "Gostei da referência ao filme As pontes de Madison, um dos meus preferidos. Que coisa linda!".

Trata-se do filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood, 1995, baseado no livro homônimo de Robert James Waler, que narra o romance que durou quatro dias entre um fotógrafo da National Geografic e uma mulher casada no condado de Madison, Iowa, só conhecido da família em carta deixada aos filhos após a morte dela. O filme discute o tema do adultério à luz da renúncia à felicidade em favor da preservação de um casamento falido. 

É sagrado o direito de criticar. Mas não aplaudo a crítica que não faz justiça, e que prescinde da elegância.