quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A magia do cinema

O tema "frases inesquecíveis do cinema" fez uma legião de entusiastas, alguns dos quais enviam para este colunista "seus" momentos antológicos da sétima arte. De Mino Castelo Branco, por exemplo, o querido amigo e artista de traço inconfundível, vem a fala de Ali MacGraw para Ryan O'Neal em cena memorável de Love Store, uma História de Amor: "Don't worry. Love means never having to say you're sorry", algo como "Não se desculpe. Amar significa nunca ter de pedir perdão".
Inolvidável, ocorre por volta dos 58 minutos do clássico de Arthur Hiller, 1970, que marcou para sempre toda uma geração. A cena, em que pese pontuada pelo sentimentalismo, o que para uma obtusa crítica desmerece a película, revela uma idealização do amor própria do alto romantismo, que é mesmo o eixo dramático do roteiro de Erich Segal. Sem esquecer, claro, a belíssima música de Francis Lai, com justiça vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora.
O fato é que a magia do cinema, alguém já disse, constitui um tipo de "nosce te ipsum" socrático (conhece-te a ti mesmo) que nos faz percebermo-nos no "outro" saído da imaginação de grandes artistas, a exemplo de Visconti, Vitorio De Sica, Pasolini, Fellini, Alberto Sordi, Clouzot, Godard, Truffaut, Hitchcock, Woody Allen, Chaplin, Bertolucci, Bergman, nomes que povoam a memória dos amantes dessa arte incomparável a que se refere Mino citando a chorosa Jennifer, para o intranquilo Oliver Barret, na porta de sua casa em Boston, depois de uma briga passional.
Quanto a nós, os simples mortais, achamos, com razão, que amor e perdão não são coisas excludentes. Nessa perspectiva, aliás, também o cinema nunca se omitiu: "É que o amor nunca é pecado", diz Patrícia Pilar para Bruno Campos, na pele da adúltera Teresa, no belo O Quatrilho, de Fábio Barreto, 1996, uma feliz adaptação do romance homônimo de José Clemente Pozenato.
Se idealizado ali, aqui o amor se revela transverso. A fala de Teresa dá início ao romance "proibido" entre a personagem de Pilar e Massimo, cujo desfecho remete ao título do filme. Para surpresa de todos, os casais se cruzam e resolvem suas vidas na contramão de qualquer lógica, e são felizes para sempre.
"To love is to burn, to be on fire, like Juliet or Guinevere or Eloise". Está em Razão e Sensibilidade, 1995, o filme de Ang Lee, em que a personagem de Kate Winslet faz referência a três mulheres que, na literatura, viveram intensamente suas paixões: Julieta, de Shakespeare; Guinevere, a rainha consorte do Rei Athur da Távola Redonda e  Heloísa, na França do final da Idade Média.
Como diz ela, "Amar é arder, estar em fogo. Como Julieta, Guinevere, Heloísa". A magia do cinema.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Discurso do povo e outro discurso

As Olimpíadas Rio 2016, até pouco antes do seu início severamente criticadas pelos inimigos de Lula, que consideravam a iniciativa do ex-presidente de trazer o evento a todo custo para o país uma "irresponsabilidade", transformaram-se no mais irretocável motivo do "orgulho nacional", notadamente do governo ilegítimo de Michel Temer, que, indisfarçadamente, empenha-se em tirar proveito disso.  

O fato reedita o que já fora verificado em relação à Copa do Mundo, e serve para ilustrar o "macunaimismo" do nosso povo, herói sem nenhum caráter (sem características, carnavalesco, afeito à improvisação e à irreverência), na visão sensível de Mário de Andrade.

Nada, contudo, que tire o brilhantismo do mais importante acontecimento esportivo do mundo, inclusive (talvez principalmente) da participação absolutamente impressionante dos brasileiros no local das competições, na cidade olímpica e arredores. É linguagem pura a manifestação dos torcedores, codificada em bandeiras, slogans, faixas, gritos de guerra, rostos e corpos pintados, prática simbólica carregada de sentidos e mensagens de pertencimento a um país de fato surpreendente, mesmo quando está, como agora, moralmente, à beira do caos.

Na linha do que consideram alguns dos maiores teóricos da cultura e da representação, é pela construção do discurso simbólico que se afirma a identidade de um povo, mesmo quando, na perspectiva do que se disse acima, essa identidade se expressa na ausência de tipificações reducionistas pré-estabelecidas, a exemplo de "ser inglês", "francês", "alemão" etc.

É a representação da imprevisibilidade, da indisciplina, do senso de improvisação, da malemolência, do "jeitinho" que dá ao povo brasileiro sua identidade e constrói o discurso de um país múltiplo, diversidade visível nos estádios, praças e ruas do Rio de Janeiro. Nesse sentido, pois, é que não poderia ser outra a cidade escolhida, não apenas pela generosidade da natureza, montanhas, praias e florestas que embelezam a capital fluminense, mas pelos traços humanos que dão à cidade o feeling brasileiro.

O melhor, todavia, é saber que essa carnavalização, na contramão do que professam ideias conservadoras infelizmente dominantes, não contradiz a vocação política e democrática dos brasileiros, algo não menos positivamente representado nas vaias a Michel Temer e na força incontornável dos protestos, em que pesem as medidas adotadas com vistas a atenuar a insatisfação do país em face do golpe indisfarçável que se concretizará por esses dias. Ou concretizar-se-á, para não esquecer, no uso da mesóclise, outro discurso.