quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Doce, pueril e belo

Eis que se confirma o que já era esperado: La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle, em cartaz nos cinemas da cidade, desponta como o grande favorito ao Oscar de melhor filme de 2017. A obra tende a se tornar, no entanto, o principal objeto da polêmica que, desde sempre, toma conta dos meios cinematográficos. Não por sua indicação ao prêmio de maior prestígio, o de melhor filme, quase um consenso, mas pelo fato de que o musical surpreende como o novo fenômeno em número de indicações, 14, igualando-se a Titanic (1997) e A Malvada (1950).

O filme é uma homenagem aos grandes musicais de Hollywood, reeditando, sob este aspecto, o que fez em 2011 Michel Azanavicius em relação ao cinema mudo, com O Artista, que arrebatou à época cinco estatuetas. Na opinião desse humilde colunista, todavia, o filme de Azanavicius é bem superior a La La Land, cujo roteiro beira ao banal. Mas, como me coloco ao lado daqueles que consideram que uma obra de arte é, antes de tudo, "forma", a produção de Damien Chazelle reúne, de sobra, qualidades condizentes com a repercussão obtida até aqui. É sobre algumas dessas qualidades que gostaria de falar.

Desde as primeiras aulas, qualquer estudante de cinema sabe que a montagem é o elemento mais específico da narrativa fílmica. É ela que estabelece a ordem, a duração, que dá sentido a cada plano na perspectiva do todo que é mesmo a sua razão de ser  --  e que a torna um componente indispensável para que se chegue a bom termo na realização de uma obra cinematográfica. Trata-se do que se convencionou chamar de "montagem narrativa", um procedimento básico, sem o qual não existirá o filme, pelo menos em se tratando da narrativa fílmica clássica: concatenação de planos numa ordem lógica e/ou cronológica que visa a contar uma história e desenvolver a ação dramática que a sustenta. Até aí, pois, nada que não se encontre em qualquer filme, mesmo em se tratando daqueles desprovidos de qualidades estéticas que os diferenciem e tornem dignos de admiração. Não é o caso, pois.

Em La La Land, depara-se com um tipo de montagem que constitui, não um meio, mas um fim. É o que se pode definir, com dose consciente de licença crítica, como "montagem expressiva", aquele tipo de montagem que, por si mesma, tem por objetivo exprimir ideias, emoções, sentimentos, tornando o todo fílmico muito mais que uma junção clarividente de partes (planos, cenas, sequências etc.), o encadeamento de ações segundo uma relação de causalidade. E nisso está, ao meu ver, a grande força da poética cinematográfica de Damien Chazelle. 

Não sem razão, o filme ocasiona, aqui e além, uma certa desorganização intelectual do espectador, não por incompetência no trabalho de edição, pelo contrário, pelo requinte com que tece a narrativa, levando-o (a ele, espectador) a jogar com as múltiplas forças de sentido surgidas da imaginação do realizador, o que torna o filme ainda mais autoral. Se a história é pobre, se o roteiro, sob o aspecto da fábula, deixa a desejar, a forma de narrá-la é viva, sedutora, poética.

As transições, os esbatidos, as elipses de espaço e tempo, o rigor do enquadramento, as panorâmicas, os travellings, o oblíquo de uma angulação e outra, a beleza da luz, ao que se soma uma trilha de roubar o fôlego, fazem de La La Land uma aula de cinema. A sequência final, mesmo apoiada em soluções já muito conhecidas, é irretocável. Um belo filme, não obstante o que tem de pueril e o doce exagerado do enredo.


 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Um país doente

Mal se confirmou a morte do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, nessa quarta-feira 19, em desastre aéreo, e uma onda de boatos passou a correr pela internet aventando a hipótese de um atentado com conotações políticas. No Brasil, a presunção de inocência é trocada sempre pela presunção de culpabilidade, até prova em contrário. É o que ocorre, outrossim, nos casos de acidentes, onde a suspeita sempre antecede a hipótese da fatalidade. Aviões caem, mas a probabilidade de que sejam derrubados é o que primeiro se passa pela cabeça das aves do mau agouro que tomam conta das redes sociais. Um país doente.

Não que as investigações não tenham de ser levadas a efeito com seriedade e o máximo de rigor, mas nada justifica as mensagens levianas que circulam desde o fatídico desastre que ceifou a vida de um dos poucos ministros respeitados no país, num momento de crise sem precedentes da nossa mais elevada corte de justiça. O pior é que essa onda de maldades encontra respaldo em parte do que afirmam personalidades importantes do atual cenário político brasileiro, bem como formadores de opinião da estatura de Joaquim Barbosa, cujos comentários divulgados em sua página na rede de comunicação constituem insinuação de que houve crime na queda do avião do proprietário do Hotel Emiliano, também vitimado no desastre.

Segundo Barbosa, "O que mais precisa acontecer para, definitivamente, nos conscientizarmos de que estamos sendo governados por criminosos?" Na esteira disso, o ex-presidente do STF alimenta a necessidade de medidas extremas para que o Brasil volte a uma situação de normalidade: "Em confirmado este crime, está mais do que na hora da Ministra Carmen Lúcia pedir intervenção".

O fato é que, se algum indício de atentado pode ser aventado antes das investigações, que mal foram iniciadas, tal hipótese tende a apontar para grandes quadros da dobradinha tucano-peemedebista, até aqui acintosamente poupadas pelo famigerado juiz Sérgio Moro, cujas decisões, é ver e constatar, expõem a inaceitável regra do atual Judiciário do Brasil, a de dois pesos e duas medidas. Não é sem razão que se deve lembrar o entrevero em que estiveram envolvidos o juiz paranaense e o agora morto ex-ministro Teori Zavascki, a quem Moro chama hoje de "o herói da operação Lava Jato". Zavascki fora indicado para o STF pela ex-presidente Dilma Rousseff e, mais de uma vez, repreendeu a forma como Moro vinha conduzindo as investigações.

Ao lado disso, na quarta-feira, sob quase absoluto silêncio da imprensa brasileira, foi divulgada nos Estados Unidos carta pública de 12 deputados do Partido Democrata em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em que acusam o juiz Sérgio Moro por perseguição ao líder do PT. O texto, assinado, entre outros sindicatos americanos, pela central AFL-CIO, que conta 12 milhões de membros, denuncia a tendenciosa ação de Moro contra Lula e a manipulação das informações por uma imprensa em tudo comprometida com os interesses da elite do país.

A carta critica, ainda, a PEC do teto de gastos do governo Temer, que "vai reverter anos de avanços econômicos e sociais, bem como o golpe praticado contra Dilma Rousseff".