quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A lição de Tim e outras lições

Atribui-se a Tim Maia a afirmação: "Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita!"

Irreverência à parte, é a percepção que vêm causando os números das últimas pesquisas para presidente, pelo menos numa fatia do eleitorado constituída pela chamada nova classe média, aquela que mais diretamente foi beneficiada pelos governos do PT. Gente com renda mensal entre 3 e 5 salários, que teve acesso aos 20 milhões de empregos criados por Lula, passou a comer e a se vestir melhor e viu o improvável acontecer: seus filhos ingressar na universidade e vislumbrar um futuro melhor.

A confirmar o que existe de bizarro na ingratidão desses "emergentes", são os escolarizados e as mulheres que engrossam o coro em favor de um candidato preconceituoso, autoritário, homofóbico, misógino e entusiasta da tortura. Sem fechar os olhos, claro, para o fato de que são em grande número as exceções, a exemplo do que se vê no movimento #EleNão, capaz, como disse na última coluna, de decidir a eleição contra o retrocesso e a barbárie que já não se pode considerar, infelizmente, uma probabilidade remota.

No Brasil, sabe-se, a ingratidão é irmã gêmea da ambição. O empresariado, por exemplo, que nunca antes havia se servido à farta como o fez nos governos de conciliação de Luiz Inácio Lula da Silva, agora cospe no prato que comeu, humilha a quem bajulou um dia e vem a campo vomitar sua baba odienta contra Haddad. Se não é possível com o banqueiro Amoedo nem com o tucano Alckmin, vamos de Bolsonaro, que só não pode ser o PT.

Mas, em se tratando da burguesia hipócrita do país, ocorre-me lembrar da cena imperdível do Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulada "O Almocreve", lá pelo capítulo XXI, se não me falha a memória, do romance maravilhoso de Machado de Assis: Brás Cubas montava o seu burro quando, de repente, o bicho empacou. E haja saltos, pinotes, corcoveios, fazendo cair o nosso herói... o pé preso ao estribo. Eis que surge um almocreve que o ajuda, salvando-o do pior desastre.

Na medida em que se refaz do susto, Brás Cubas pensa em recompensar o pobre homem com três das cinco moedas de ouro que carrega no alforje. Mas três, ponderou, agora mais tranquilo, não serão demais? Fixa os olhos no pobretão, que "conversava" com burro repreendendo-o, que não fizesse outra vez assim. Duas moedas já seriam paga de bom tamanho para essa gente tão pobre e infeliz. Dá-lhe uma, e de prata.

E sai, montado no animal, enquanto repara no seu salvador à distância, grato com a recompensa. É aí que, vasculhando o bolso, constata ter ali alguns vinténs em moedas de cobre. Arrepende-se, pois que lhe poderia ter dado esses trocados ao invés da moeda de prata. Afinal, a um pobre, toda ajuda é bastante, pois que age sempre de modo desinteressado.  

 

 

  

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

#EleNão

"Estou cheia de raiva, mas não vou pegar uma arma e lutar. Vou usar minhas palavras para destruir o sistema de opressão". A declaração pacífica, mas exemplarmente corajosa, é de Kasha Jaqueline Nabagesera, uma militante de Uganda hoje reconhecida no mundo inteiro.

 

Bem cedo, Kasha descobriu que seu corpo era de mulher, mas suas escolhas, suas ideias, sua forma de vestir e seus desejos sexuais apontavam para algo diferente. Decidiu assumir-se lésbica e enfrentar o preconceito num país marcado por tabus e estupidamente violento contra as diferenças: Em 2009, para que se tenha uma ideia do que Nabagesera teve de enfrentar em decorrência de suas opções sexuais, o governo de Uganda defendeu uma lei que previa, entre outras punições, a pena de morte para homossexuais.

 

Mas Kasha Jaqueline Nabagesera não cedeu. Antes pelo contrário, resolveu comprar a briga em favor da tolerância e do direito das pessoas em seu país, e em todos os países, uma vez que sua voz, em pouco tempo, seria ouvida além-fronteiras. Em seus pronunciamentos, ela revelou ao mundo os atos de violência de que fora vítima: foi surrada, sofreu bullying, foi impedida de estudar em muitos colégios e viu seu nome aparecer na imprensa sob juízos profundamente injustos e levianos. Quanto mais era objeto de maus-tratos, mais encontrava forças para seguir em frente.

 

Conhecida como a "Mãe do Movimento dos Direitos Gays", fundou o Freedon and Roam Uganda (FARUG), organização que congrega as vítimas do preconceito, da homofobia e da intolerância à diversidade em seu país, e lutou com sucesso contra uma imprensa cúmplice do autoritarismo dominante.

 

Certa vez, ao deparar com fotos suas e de amigas estampadas num jornal, sem seu consentimento, Nabagesera reagiu, processou o órgão e venceu. No enfrentamento, originariamente pacífico, teve um de seus amigos assassinado. Desde então, sua luta teve repercussão internacional: falou na ONU, passou a ter espaço em jornais e revistas de prestígio e levantou apoio de autoridades, movimentos e organizações pelo mundo. --- "Se desistirmos agora", afirmou, "o que vai acontecer no futuro?".

 

Foi capa da Time, discursou na Europa e nos Estados Unidos. Como o primitivo da Caverna de Platão, rompeu grilhões e foi lá fora ver o mundo à luz plena, mas não se contentou com a liberdade conquistada para si. Quer mais: a liberdade para todas as mulheres, de Uganda e do mundo inteiro.

 

No Brasil, como nunca antes, as mulheres parecem decididas a fazer o mesmo. Nesta semana, a poucos dias do primeiro turno para a eleição, o #EleNão alcança dimensões inimagináveis. A exemplo do que fazem Nabagesera e incontáveis outras através dos tempos, mesmo quando anônimas, são milhões de mulheres que tiveram a coragem para enfrentar o reacionarismo, o preconceito racial, o terrorismo homofóbico, a misoginia e a apologia da violência como proposta de ação para o país. Elas representam mais da metade dos eleitores brasileiros, e podem decidir em favor de um Brasil diferente. Irão decidir.


 


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