terça-feira, 27 de novembro de 2018

A morte do esteta

Amigo me telefona para falar sobre Bernardo Bertolucci, morto nessa segunda-feira 26, aos 77 anos. Ao final, faz a provocação:  ---  "Espero a crônica!", diz-me, sabedor de que no cinema é a beleza da linguagem o que mais me seduz. E Bertolucci era, acima de tudo, um esteta. A perfeição do quadro e da luz, a suavidade dos movimentos de câmera, a composição esmerada da imagem, que nem um pintor da renascença, davam aos filmes de Bertolucci uma sofisticação estética de encher os olhos, e tocar a alma como muitos poucos foram capazes de fazer.

Desligo o celular e me vem à tela da retina uma sequência de O Último Imperador, 1987, que considero uma das coisas mais lindas de sua filmografia  ---  a lágrima, discreta, já escorrendo pela maçã do rosto: Numa praça imensa da Cidade Proibida, Pu Yi, o garoto que protagoniza o filme, corre em busca de um balão (amarelo?) e a câmera de Bertolucci o acompanha num travelling carregado de poesia e cor.

Para Bernardo Bertolucci, as estratégias narrativas eram tão ou mais importantes que o significado do filme, no que, aliás, destacou-se exemplarmente bem. A prova disso é que muitas vezes encontrou na literatura o esteio de filmes memoráveis, como em Antes da Revolução, de 1962, plasmado no romance Cartuxa de Parma, de Stendhal, verdadeira obra-prima sobre as revoluções. Ou, um pouco mais tarde, como faria em O Conformista, de 1970, uma adaptação bem sucedida do livro de Alberto Moravia, Jean-Louis Trintignant no papel principal, soberbo, como sempre.

Que dizer, então, de películas apaixonantes como La Luna, 1979, o mais "freudiano" de seus filmes, todos eles perpassados de motivações psicanalíticas, no caso, sobre a relação filho e mãe? Do épico Novecento  (1900, no Brasil), de 1976, sobre a utopia em torno de um mundo melhor e mais humano? De O Céu Que nos Protege, 1990, sobre o antagonismo entre culturas?  Que dizer, insisto, de O Último Tango de Paris, 1973, um dos mais belos filmes da história do cinema, tão equivocadamente recebido por conta de uma "simples" cena de sexo? Sim, porque nele, em que pese o erotismo da cena referida, a famigerada cena da manteiga, o que se discute é muito mais que isso: é a angústia de um homem para o qual a vida deixou de ter sentido, e o mundo é apenas um vazio imenso.

Filho de poeta (Atílio Bertolucci), e crítico incansável do fascismo italiano, contra o qual fez de sua arte um instrumento de luta, Bernardo Bertolucci fez seus últimos filmes preso a uma cadeira de rodas, vítima de uma cirurgia de coluna malsucedida. Ironicamente, a propósito, disse durante uma entrevista:  ---  "Sempre gostei tanto de travelling, nunca imaginei que terminaria a vida num travelling permanente, vendo o mundo da perspectiva do deslocamento dessa cadeira". A voz incontida do esteta.

O fato é que o cinema perde com a morte de Bernardo Bertolucci um dos seus mestres mais adorados. Fica a beleza de sua arte, a que podemos, felizmente, nos entregar, vez e outra, sempre que a vida, como está em Nietzsche, pretenda nos matar de tanta realidade.

 

  

 

 

 

  

 

 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

As mil vidas de Jean-Paul

A palavra escrita não para de surpreender, o que é maravilhoso num mundo dominado pela imagem. Explico-me: "garimpando" estantes da livraria Cultura, no exercício diário do vício, eis que deparo com um livro intrigante  ---  não por outra razão: do autor, nada sabia além do fato de que se trata de um ator importante, e ícone da Nouvelle Vague francesa, uma estética cinematográfica que "amo de paixão", como diria Carol, minha filha. Como escritor, absolutamente nada conhecia de sua autoria. Eis o porquê da surpresa. Refiro-me Jean-Paul Belmondo, cuja autobiografia chega às lojas de livros brasileiras com um título curioso: "Mil vidas valem mais do que uma".

Tomo nas mãos um exemplar e, ali mesmo, leio com sofreguidão essa pérola sobre uma vida muito mais rica do que, cinéfilo contumaz, supunha eu até agora.

Delícia de livro este em que o astro francês desfia uma história pessoal marcada por experiências emocionantes, mesmo quando a narrativa se dedica às coisas mais banais: a infância em Neuilly-sur-Seine, onde nasceu em 1933; a convivência inesquecível com os horrores da guerra; a admiração pela mãe; o ateliê do pai, escultor, e os muitos amores. É que o texto de Belmondo, vazado num estilo leve e descontraído, como é raro no gênero, leva-nos a percorrer os mais inusitados caminhos, numa prática de leitura que a um tempo ensina e seduz.

Belmondo, sabe-se, além de protagonizar o filme Acossado, 1960, de Jean-Luc Godard, um dos marcos do cinema moderno, atuou em mais de oitenta filmes, sem falar nas dezenas de peças teatrais encantando plateias do mundo inteiro com o perfil "feio charmoso" que levou a cantora Édith Piaf a fazer a famosa revelação:  ---  "Saio como [Alain] Delon e volto com Belmondo".

O livro vai, assim, de página em página, proporcionando-nos um passeio atemporal pela Europa e pela história do cinema moderno. Intitulado "Então, Godard", o capítulo em que se reporta ao filme que o consagrou, contracenando com a lindíssima Jean Seberg, é uma aula de construção narrativa. É que Belmondo lança mão de uma forma curiosa de expor o seu pensamento sobre a personalidade controversa do diretor francês, no que surpreende com um depoimento originalíssimo que vai da repulsa ao mau caráter à verdadeira adoração ao gênio do cinema. O discurso desliza de um olhar a outro com a leveza de um mestre da escrita, sem sobressaltos ou declarações minimamente antipáticas tão comuns quando se é levado a julgar alguém. É sublime o estilo, na sua simplicidade quase franciscana.

As páginas em que narra a dura realidade da Segunda Guerra constituem um registro invulgar sobre a insanidade do combate armado entre homens: Jean-Paul, então com onze anos, e seus amigos de mesma idade, auxiliam um padre a recolher cadáveres de aviadores "abatidos" nos céus de Clairefontaine, cidade onde vivia com os pais. Tudo, reafirmo, com um domínio de linguagem que impressiona pela força de uma narrativa digna de nota mesmo se estivéssemos diante de um escritor consagrado.

Nomes célebres do cinema, das artes plásticas, do teatro, da literatura, protagonizam histórias impagáveis vividas com Jean-Paul Belmondo em diferentes países. Nesse sentido, aliás, é que o livro ganha fôlego enquanto registro do que houve de mais significativo na Europa na segunda metade do século XX. Aí estão Michelangelo Antonioni, Woody Allen, Ursula Andress, Jean Anouilh, Claude Chabrol, François Truffaut, Laura Antonelli, Alain Resnais e Gérard Depardieu, para citar apenas algumas celebridades que povoam essa mil vidas de Jean-Paul Pelmondo.

Mas o livro, diga-se por fim, é muito, muito mais que um depoimento de um astro do cinema e do teatro sobre seu tempo. Em muitas passagens, deparamos com o homem consciente do seu papel, politizado, portador de mensagens extremamente atuais sobre a impossibilidade de nos colocarmos neutros diante das contradições de um mundo submetido à lógica do capital, em que se professa, de forma desavergonhada, a neutralidade impossível. Referindo-se às corporações militares, por exemplo, à época da Segunda Guerra, diz sobre um dos chefes: "Usa a braçadeira das forças de Resistência quando precisa e tira quando se sente constrangido". 

E arremata, com uma precisão cirúrgica: "Quando a batalha surge, convém escolher de que lado lutar. Mas, para sobreviver, há os que fazem questão de não ter opinião, de esquecer de escolher um lado. Querem a paz a qualquer custo, até mesmo às custas da própria honra. No final do conflito, não pensarão duas vezes antes de marchar com os norte-americanos [...]. A duplicidade vem acompanhada de certa audácia".

Que bela surpresa estas Mil vidas... de Jean-Paul Belmondo.