quinta-feira, 30 de março de 2023

Correspondência Intelectual de Celso Furtado

Tenho pela obra do economista Celso Furtado, esse notável paraibano de Pombal, falecido em 2004, no Rio de Janeiro, uma admiração que extrapola os limites meramente intelectuais. Há no exemplo de vida desse brasileiro ilustre alguma coisa grandiosa, o que me levou, conhecendo "apenas" em linhas gerais sua densa produção acadêmica na área econômica, sobre a qual minha formação impõe assumida incapacidade de emitir juízos abalizados, dei-me a ler tudo que o mercado editorial tem disponibilizado acerca da própria vida de Celso Furtado e da repercussão internacional de suas ideias, projetos, proposições ---  a forma, enfim, de pensar o Brasil e a América Latina.

Nessa perspectiva, pois, é que li há muito tempo a trilogia autobiográfica do intelectual paraibano, composta pelos livros A fantasia organizada, A fantasia desfeita e o belíssimo Os Ares do mundo. Os três, iguais na qualidade formal do texto e na sensibilidade estética que emana de suas páginas. Livros para se ter ao alcance da mão, como se fossem livros de consulta, tão ricos e enriquecedores que são sob todos os aspectos, notadamente naquilo que diz respeito à interpretação do Brasil, na linha do que fizeram, por caminhos distintos, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Helio Jaguaribe, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro e (antes de pedir que esquecessem o que havia escrito) o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Expulso do País pelo golpe de 1964, Celso Furtado produziu no exterior o que há de mais expressivo na sua obra, período em que se dedicou a lecionar nas mais prestigiadas universidades da Europa e dos Estados Unidos, a exemplo das universidades de Paris, Yale, Cambridge e Columbia. É desse período que trata o segundo volume de sua trilogia, A fantasia desfeita.

Mas, como disse, é no terceiro título, Os ares do mundo, que o leitor depara-se com o fascinante universo intelectual e humano de Celso Furtado, suas viagens por diferentes países, inclusive aqueles do antigo bloco comunista, da Ásia e da África. A essa altura de sua autobiografia, é que sobem à cena da narrativa elegante de Furtado, com níveis de intimidade muitas vezes surpreendentes, nomes importantes como Jean-Paul Sartre, Juan Perón, Ernesto Sabato, Che Guevara e Glauber Rocha, para citar apenas alguns dos companheiros de jornada no exílio do autor de Formação econômica da América Latina.

Agora por último, lançado pela Editora Schwarcz, em 2021, tomei nas mãos e li-o de um fôlego, porque sedutor como poucos do gênero, o livro Celso Furtado - Correspondência Intelectual, 1949-2004, com que Rosa Freire D'Águiar brinda os admiradores do economista paraibano num trabalho notável de organização, apresentação e notas que dá visibilidade ao missivista Celso Furtado. São ao todo, quase trezentas cartas, enviadas ou recebidas por ele, cobrindo um extenso período e dando a ver um panorama até aqui desconhecido em livro do pensamento de Celso Furtado.

A leitura desse livro precioso, muito mais que nos três volumes de sua autobiografia, proporciona àqueles que ignoram a grandeza de Celso Furtado, sua importância como homem de ideias, como crítico profundo das contradições a que estiveram condenados, sempre, os países da América Latina, seu prestígio internacional e sua atualíssima visão dos problemas do Brasil, para os quais, do alto de sua inteligência iluminada, apontou, invariavelmente com clareza, alternativas de ação. É nessas cartas, mais que nos livros autobiográficos, que se pode ver de perto o quanto foi solicitado pelos principais centros intelectuais do mundo, e como se deu ao luxo de recusar, por razões de agenda ou por discordar de suas intenções, convites de trabalho e parceria com pensadores famigerados como Habermas, o temido e respeitado pensador da Escola de Frankfurt.

Ao se virar a última página do livro, a sensação é ao mesmo tempo de orgulho e de revolta ao saber o que o golpe de 1964 fez com intelectuais brilhantes como Celso Furtado, e o que esse temível "comunista" representou para a inteligência dos Estados Unidos e da Europa ao longo dos vinte anos em que foi proibido de voltar ao Brasil.

  

 

 

quinta-feira, 23 de março de 2023

Uma palavra amiga

Leio numa crônica de Martha Medeiros: "Estar só, totalmente só, é um direito e um dever. Não todo o tempo, mas por um bom tempo, o tempo que a gente precisa para reencontrar a si mesma". Na veia, Martha.

O grande equívoco dos que se separam, notadamente os homens, sempre mais apressados sob este aspecto (também!), é sair à caça, querendo a custo substituir a pessoa amada, ou que foi amada um dia. A leitura machista, retrógrada, de que só se cura uma paixão com outra paixão!

E o cara se entrega à busca insana, conquista Maria e Joana, mas o abismo só aumenta, fica mais profundo. É que para curar a 'velha' paixão, só existe um remédio, e esse remédio tem um nome: 'Tempo'.

A paixão é felicidade, mas não é a felicidade.

Fazer o quê?, haverá quem me pergunte. Não há fórmulas, receitas prontas. O primeiro passo, como nos adverte a cronista, é procurar ficar de bem com a solidão e aproveitá-la construtivamente. É hora dos bons livros, de ver e rever os grandes filmes, de ouvir as músicas de que você mais gosta --- não aquelas que maltratam, e deixam mais aberta a ferida em sangue. Essas, não.

Hora de retomar projetos esquecidos, de fazer, aos poucos, novas amizades, e, o mais importante, de deixar-se ficar só, sem fazer nada previamente pensado.... Esse ócio que nos permite sentir o próprio corpo, educar a respiração, deixar os olhos passearem pelos escaninhos nunca visitados do nosso espaço.

Hora de ocupar o tempo com as pequenas coisas, as miúdas experiências de afeto, inclusive para com você, com os animais, com as árvores, as flores do jardim ou da praça. Afeto para com os desconhecidos que haverão de cruzar o seu caminho...

Descrença no amor, na linha do que escrevi há alguns dias sobre um amigo que foge da paixão? Não, bem longe disso. Uma nova experiência passional é um tipo de premiação para o espírito que se fortaleceu na dor, no silêncio e na solidão, no processo às vezes lento do reencontro consigo mesmo.

A paixão é prêmio para a alma resolvida, nunca um recheio para o coração vazio, quando foi embora o objeto amado. Uma paixão não é algo que se procure de lupa na mão, agulha no palheiro.

A paixão vem do inusitado, daquilo que você jamais previu. A paixão é sorrateira, moleca, brinca de esconde-esconde, de pega-pega; vem de repente, não tolera festa de recepção, por isso jamais avisa quando vai chegar.

Está na belíssima canção de Eduardo Dusek: "Quem será que me chega / na toca da noite? / Vem nos braços de um sonho / que eu não desvendei? / Eu conheço o teu beijo / mas não vejo o teu rosto / Quem será que eu amo / e ainda não encontrei?"

Se está acontecendo com você o mesmo que ao eu lírico desta canção; se ainda não reorganizou por inteiro sua vida e seu coração, não abra mão de um tempo sozinho, esse tempo para o qual não existe preço nem definição --- como disse Medeiros, esse tempo é na mesma medida e proporção, um direito e um dever.

Deixe que a novidade venha, espontânea e doce, quando tiver de vir.

E que a novidade seja exatamente isso: uma novidade.