sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Pra não dizer que não falei de política*

"A ignorância está na origem das superstições e de todos os outros males da humanidade". Disse-nos Epicuro (341-270 a.C.).
Por WhatsApp, recebo de leitor uma mensagem curiosa: "Leio com profundo interesse seus textos. São bem escritos e exploram temas que despertam a vontade de lê-los com prazer e atenção". Mensagem elegante e elogiosa, como se vê, não fosse o MAS que causa desconforto a qualquer escritor: "... gostaria de saber por que deixou as questões políticas de lado? É mais cômodo?"  A mensagem subliminar é clara: "O que está por trás de sua omissão?" (palavras minhas). Necessário esclarecer ou não, faço-o imbuído dos melhores propósitos, sobretudo em respeito ao referido leitor. Vamos lá.
Ao optar por dar ênfase à questão cultural, proporcionando aos leitores minha humilde contribuição no sentido de despertar e/ou fomentar o interesse pelas artes em suas diferentes linguagens --- cinema, teatro, música e, em especial, a literatura ---, não estou incorrendo em qualquer tipo de omissão, uma vez que são evidentes as minhas posições políticas e ideológicas, mesmo quando me dedico a falar daquilo que, aos olhos de muitos, parece não ter um interesse "prático" ou exercer o que, na falta de melhor expressão, poderia definir aqui como "função social". A Arte, por exemplo.
Querido leitor. Desarmado e inconscientemente omisso (indiferente, digo melhor!), é aquele que ignora a importância da cultura, que desconhece o passado da civilização em que vive, que não tem uma postura crítica do presente, que não vê que a Arte, não sendo o único instrumento de politização das pessoas, é por certo o mais eficiente, pois que seu poder didático é que justifica, para ficar num exemplo, o que fez Paulo Freire em Angicos, associando a seu método de alfabetização elementos da cultura popular nordestina, o teatro, a dança, os folguedos populares e suas manifestações estéticas.
É a falta de cultura de grande parte da população, a que se soma o oportunismo de setores perversos de nossa elite econômica e social, que quase levou o país ao desastre, e que ainda ameaça de forma preocupante a sua soberania, os valores do Estado Democrático de Direito, as liberdades essenciais de nosso povo.
É a falta de cultura que faz com que tantos brasileiros não pensem com sua própria cabeça, que se submetam ao fanatismo religioso mais delirante, que elejam falsos messias e políticos que se vendem como salvadores da Pátria, "mitos" de barro, ancorados em mentiras e desfaçatez.
Brecht estava certo: "Infeliz de um povo que precisa de heróis". É olhar para o passado e ver o que fez Hitler, na Alemanha; o que fez Stalin, na Rússia; o que fez Mussolini, na Itália; o que, nos dias de hoje, faz Trump nos Estados Unidos --- e quer fazer no mundo.
É a falta de cultura, de escolas, de acesso facilitado ao teatro, ao cinema, aos espetáculos artísticos em grande escala, a inexistência de bibliotecas e do hábito de ler, o que leva multidões às praças para pedir a volta da ditadura, e pessoas a bater continências para pneus e entrar em transe diante de Malafaia e outros "malas", filhotes ignaros do fascismo mal disfarçado e mais asqueroso.
Querido leitor. Não existe meio mais eficaz, para que um povo descubra a sua real identidade, que valorizar a cultura, o patrimônio intelectual e artístico de seu país e do mundo, agora muito mais, quando as fronteiras se diluem e a globalização, com as mais desencontradas implicações, é viagem sem volta.
Por isso mesmo, concluo, é que tenho tentado destinar a ex-alunos, professores, e a todos os interessados por cultura, minhas crônicas semanais, despertando-lhes a curiosidade e o desejo de conhecer melhor o que dizem os filmes, os livros, os espetáculos do teatro e da música, a vivenciar a experiência e a emoção estética, a contemplar o belo que "haverá de salvar o mundo".
De uma vez por todas, entenda, a cultura é a mais poderosa e a mais eficaz das armas políticas.
 *O título ecoa composição clássica de Geraldo Vandré.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Pequenos milagres do amor

Amor me move: só por ele eu falo. Dante (1265-1321), Divina Comédia.

Em sua bela autobiografia Viver para contar, Gabriel García Márquez traz em epígrafe uma afirmação bastante curiosa: "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la."
Prestes a começar um livro de memórias, vacilei, entre empolgado e inseguro. Achava um desafio tentar resgatar da mente já embotada acontecimentos tão distantes, agora que estamos em 2025.
O livro do escritor colombiano, assim, foi decisivo para que eu tivesse o atrevimento de produzir essas minhas memórias. Sem estrutura definida, sem o rigor assente em alguns clássicos do gênero. Não, não. Que saíssem essas recordações em absoluta afinação com a etimologia da palavra, isso me bastava. Do latim re + cordari: trazer de volta ao coração. E que o leitor, se houvesse, percebesse que o livro foi se compondo ao sabor das lembranças acidentais, da pequena chama que se acende na mente e no coração, quando, por exemplo, somos 'tocados' pelo perfume de alguém, pela música que por alguma razão marcou nossa vida, ou por depararmos, sem explicação, com fotos de uma viagem, de um lugar ou de alguém que, um dia, amamos mais do que nos fora dado amar.
Assumo que sou um saudosista, e que tenho uma tendência irrefreável para valorizar o passado, não de forma piegas, fechando os olhos para o caminho que se estende à frente, lamentando o que podia ter feito e não fiz. Nunca. Mas gosto de lembrar passagens, momentos de minha vida, lugares em que estive neste mundo vasto, como quis Drummond, sozinho ou na companhia de pessoas que enriqueceram minha história com a força de suas presenças.
Gosto do gênero. Memórias, biografias, autobiografias, diários. Leio sempre, de Jorge Amado a Rosa Montero, de Joel Silveira a Simone de Beauvoir. Agora, por último, li algumas autobiografias interessantíssimas: As curvas do tempo, de Oscar Niemeyer; O teatro e eu, de Sérgio Brito; Memórias de um intelectual comunista, de Leandro Konder; o extraordinário Meu último suspiro, de Luiz Buñuel, A soma dos dias, de Isabel Allende, e, ainda quentinho, em nova edição, De menino a homem, de Gilberto Freyre.
Acho uma experiência curiosa essa de voltar um pouco no tempo, de revisitar o passado.
Talvez por isso Ouro Preto, e algumas outras cidades do circuito histórico de Minas, estejam entre as viagens inesquecíveis. Entre 1979 e hoje, fui diversas vezes às cidades históricas mineiras, de cujas viagens, era minha intenção, resultaria um trabalho sobre o barroco brasileiro, tomando por base o acervo de Minas Gerais. O tempo passou e pouco escrevi sobre isso, um ou outro artigo, um ensaio numa especialização na PUC, e só. Em meio aos registros, pequenas anotações em agendas e papeis esparsos, dos quais tiro muitas das referências de que se compõem minhas recordações, deparo, a cair de entre as páginas de um livro, com um esboço do que seria um artigo sobre Os profetas de Congonhas do Campo.
Coisa do talvez ou do quem sabe, um sinal sonoro leva-me a abrir o display do celular em que me chega uma mensagem do Saulo, meu filho, a cujo texto se soma uma foto. No adro da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, sentados à mesma mureta em que fotografei seu pai muitos anos atrás, aparecem, lindos e amados, meus netos Saulo Filho e Luiza.
Coincidências que dispensam explicação. Pequenos milagres do Amor.