Ficara de nos encontrar tão logo caísse o pano, ao final da peça. Não o fez, e esperamos por algum tempo ainda acomodados às poltronas do teatro. Como não apareceu, descumprindo o trato, decidimos ir embora, César Rossas, seu primo, não conseguindo esconder sua decepção. “Deve ter ocorrido algum imprevisto… Vamos!”, ponderou, o braço repousado no ombro da mulher, a biógrafa Beta Fiuza.
Mal descemos os degraus que nos levava ao saguão do teatro, no entanto, como a querer nos pregar um susto à maneira de um menino travesso, sai ele detrás de uma coluna, o sorriso belo e solto, traço inconfundível do homem simples e exemplarmente generoso que sempre foi. Abraçou-nos com aperto e afeto, como se a reencontrar nesse abraço com toda a gente de sua terra — amava Fortaleza, de que estava ausente, exceto em vindas esporádicas, desde que decidira trocar a capital cearense pelo Rio de Janeiro, para se consagrar um dos maiores nomes da dramaturgia no país.
“Minutinho, que a Marieta foi se trocar!” Balbuciou, referindo-se a sua companheira durante 15 anos, a atriz Marieta Severo, cuja atuação no monólogo “Incêndios”, nos emocionara tanto, havia poucos instantes.
Não demorou, e vem ela ao nosso encontro, elegante e sorridente, ainda que visivelmente cansada depois de quase duas horas em cena.
Entre os muitos assuntos sobre os quais discorremos, falo ao casal sobre o fato de ter eu interpretado, em montagem mais recente, a personagem Osvaldo, na peça "Aquela garota dos olhos grandes", o último trabalho do diretor em Fortaleza, quando ainda era conhecido como Aderbal Jr.
O assunto desliza para nossa permanência no Rio e a agenda que temos para o dia seguinte.
Um dos mais prestigiados homens do teatro brasileiro, diretor de clássicos da dramaturgia mundial, a exemplo de “Hamlet”, de Shakespeare, em montagem histórica tendo Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca, ou nacionais, como “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde, Aderbal Freire-Filho contaria 85 anos no próximo mês, mais precisamente no dia 8.
Consequências de um AVC, contra o qual, em doloroso silêncio, lutou por três anos, em UTI montada em casa pela mulher, na Gávea, Aderbal morreria em 2023, abrindo um buraco enorme no meio teatral em que se notabilizou como o mais original e criativo diretor de sua geração.
Quatro anos antes de completar 80 anos (e dois antes do AVC), sem que nem mesmo Marieta Severo soubesse, Aderbal organizara um inventário de parte significativa de seus escritos, textos sobre teatro, cartas, entrevistas, artigos de conotação política e apresentações de peças que dirigiu ao longo de mais de trinta anos dedicados à arte cênica.
Esse material, para a felicidade da cultura artística brasileira, seria cuidadosamente organizado por Marieta Severo e Patrick Pessoa, amigo íntimo e admirador dedicado de Aderbal Freire-Filho, a quem a atriz confiaria a produção do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor” (Cobogó, 2026), a ser lançado dia 8 do próximo mês no Teatro Poeirinha, em Botafogo, inaugurando uma série de eventos em homenagem ao artista cearense.
Entre os escritos que compõem o livro, pelo menos um deles extrapola os limites do teatro e adentra o universo íntimo do casal: uma carta em que Aderbal, ao lado de recomendar, premonitório, como se deveria dar publicidade ao material inédito, revela seu amor pela mulher: “Em todos os meus sonhos estou com você. Eu te amo muito e nada é melhor que estar perto de você”.
A uma dada altura, com a mesma simplicidade e o mesmo jeito singularmente humano de ser e encarar a vida, o artista expõe algumas de suas inquietações de foro íntimo: “Não fui um bom pai. Não tive netos”.
O gesto, contudo, mais diz de sua imensa sensibilidade e correção pessoal, que da verdade dos fatos. Nesse sentido, é oportuno lembrar, pela irretocável correção de caráter e doçura interior contagiante, é que Aderbal Freire-Filho foi mesmo uma unanimidade entre aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Como pesquisador incansável, debruçou-se sobre as origens do teatro, encontrou caminhos nunca explorados para teorizar sobre as impensáveis possibilidades do ator em cena, bebeu nas fontes do Teatro Épico, de Bertolt Brecht (1898-1956), até criar o que se pode considerar um novo método, um teatro "coletivo", aberto ao diálogo com o público. Renovou a linguagem cênica, venceu preconceitos estéticos, repensou a semiologia teatral, engajando-se na luta pela liberdade do artista, atividades a que se soma a escrita de artigos de resistência política e cultural que se tornariam uma referência em termos do moderno teatro brasileiro.
Fez história. E se tornou eterno.
Algum tempo depois do encontro no Rio, a que me reporto no início desta coluna, estaria com ele em pelo menos duas ocasiões. A última delas, em companhia da escritora Ângela Gutierrez, sua prima, no Theatro José de Alencar, onde o diretor proferiu uma de suas notáveis palestras. Ao nos despedirmos, à beira do palco, com a ternura e simplicidade que lhe eram típicas, Aderbal diria: “Até breve, no Rio!” E nos sorriu um sorriso largo e doce.
César Rossas, seu primo, e irmão de Ângela Gutierrez, que me aproximara de Aderbal Freire-Filho, morreria pouco depois, quem sabe à falta da vacina que lhe salvasse a vida.
👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirMais uma vez, o que já é corriqueiro” um primor de “escrita” do “PROFESSOR”, valeu e novamente orgulhou-me de ser seu “primo/irmão”!
ResponderExcluir🙏🏼🙏🏼
ExcluirEdilmo? Obrigado, querido!
ResponderExcluirFui aluno do pai na Faculdade de Direito (direito do trabalho) o que me faz entender a boa dose de humanismo revolucionário artístico do filho. Cada vez mais me convenço que o melhor do Ceará é o cearense, de José de alencar a Aderbal.
ResponderExcluirParabéns pelo registro. B de Paiva incluso. Dalton Rosado.
Obrigado, Dalton!
Excluir