“Conte-me como ele errou e se perdeu/depois de destruir a sagrada cidade de Troia/e por onde passou, e quem encontrou,/e a dor que padeceu nas tempestades no mar,/e como penou para salvar a própria vida/e trazer seus homens de volta para casa”. Emily Wilson, em tradução atualizada dos versos de Homero.
As “adaptações” do poema épico Odisseia, atribuído a um improvável Homero, voltam a ser objeto da atenção dos amantes da sétima arte. Tudo por conta do sucesso de bilheteria e da repercussão já alcançada pelo filme homônimo assinado pelo cineasta Christopher Nolan, em poucos dias considerado a grande realização do ano em termos cinematográficos.
Antes de qualquer comentário sobre a película, no entanto, sinto-me na obrigação de justificar o uso das aspas em “adaptações”: do latim adaptare (prefixo ad, ‘em direção’ mais aptus, ‘apto’), o verbo adaptar significa ‘adequar’, ‘ajustar’, dar a algo a forma conveniente ou em conformidade com um tempo, um espaço ou um ambiente determinado.
Historicamente o termo ‘adaptação’, originário do verbo ‘adaptar’, é utilizado nos meios cinematográficos para definir realizações fílmicas inspiradas em clássicos da literatura, a exemplo do que se vê com relação à grandiosa produção em cartaz nos cinemas do Brasil e do mundo.
Na perspectiva das teorias mais modernas, contudo, o termo ‘adaptação’ não me parece o mais adequado, leve-se em consideração que texto literário e texto cinematográfico são coisas diferentes, linguagens distintas, dotados um e outro de elementos formais específicos.
Assim, o uso da palavra ‘adaptação’ para definir o texto fílmico que teve como inspiração um texto literário, seja este um conto, um romance ou mesmo um poema, no caso o clássico poema épico Odisseia, explica a razão por que são superficiais, quando não preconceituosos e discriminatórios, os comentários sobre as tais “adaptações”, mesmo em se tratando de realizações levadas a efeito com recursos cinematográficos de altíssima qualidade estética, a exemplo do filme a que me refiro.
Há pouco mais de uma semana desde a sua estreia, em que pese a extraordinária receptividade ao filme de Christopher Nolan, objeto de exaltados e merecidíssimos elogios, não são raros os que o apontam como um desserviço à literatura, uma “traição”, uma “deformação”, uma “adulteração”, uma “profanação”, uma “vulgarização”, palavras e expressões que mal definem tais juízos e em que se sustentam as pretensas críticas. E não me refiro ao público não especializado, aos que se prestam a emitir opinião sobre aquilo que desconhecem com rigor analítico ou mínima fundamentação teórica. Mesmo entre críticos renomados, gente que escreve para grandes jornais, ocorre-me lembrar aqui de um conceituado articulista da Folha de S. Paulo, Martim Vasques da Cunha, no caderno Ilustríssima, em edição recente do jornal, para quem o filme de Nolan é um verdadeiro “naufrágio artístico”. O aludido crítico vai além, afirmando que o cineasta “não compreendeu o texto original ao substituir a Grécia Antiga pela sensibilidade moderna, transfigurando o épico em um reflexo da guerra cultural contemporânea”.
Na mesma direção, sem medir palavras, para citar outro exemplo, afirmou sobre o filme Ivan Finotti, alegando ser a atual versão do clássico atribuído a Homero uma deformação da história, “substituindo valores como honra e lealdade por uma visão focada no remorso e na reparação”, num tipo de condenação do herói do poema grego.
E aqui saio em defesa do filme de Christopher Nolan, iniciando o comentário a que me propus no início desta coluna. Odisseia, 2026, é uma outra obra, “inspirada” no que a teoria da “intertextualidade”, de Julia Kristeva, ancorando-se no “dialogismo”, de Bakhtin, defende como “permutação de traços textuais”, ou seja, o interminável processo de reescritura de um texto original (hipotexto) em textos posteriores (hipertextos), guardadas sua dimensão estética e, na perspectiva do novo autor, as possibilidades legítimas de novas leituras e interpretações. É nessa perspectiva que Umberto Eco professa ser “a adaptação cinematográfica um ato de tradução intersemiótica e uma tomada de posição crítica, onde o diretor transfigura os signos literários em uma nova linguagem visual sem buscar ‘matar’ a literatura”.
Não se trata, pois, de uma mera transcrição ou cópia fiel do hipotexto homérico em linguagem cinematográfica (o que, aliás, seria impensável em se tratando de uma obra monumental como A Odisseia), mas uma reescritura “plasmada” no poema clássico.
Sob esse aspecto, o filme conseguiu trabalhar com competência os elementos dramáticos do texto original, sua força e sua beleza estética, sem jamais abrir mão dos recursos de linguagem --- os mais modernos ---, que permitem ao realizador “ler” o leitmotiv (o fio condutor) da narrativa em nova chave: o conflito de Odisseu projeta-se aos olhos do espectador com a mesma intensidade e força poética que, ao leitor do poema, a profundidade das imagens e o retorcido estilizado da expressão poemática se impõem, carregados de sugestões e simbolismos. A escolha de Matt Damon para interpretar o herói, diga-se a tempo, foi extremamente feliz. Realçando a dimensão humana de Odisseu, dividido entre o arrependimento e a determinação irrefreável de retornar a sua casa, o ator confere à personagem o perfil de um homem comum, sem perder a dignidade do mito e a grandeza do herói.
Não sendo a fidelidade um item de maior relevância em obras do gênero, Odisseia, de Christopher Nolan, preserva à perfeição aquilo que é em essência o esteio temático da obra monumental de Homero: “Um homem encontra-se no estrangeiro há muitos anos; está sozinho e o deus Posêidon o mantém sob vigilância hostil. Em casa os pretendentes de sua mulher estão esgotando os recursos da família e conspirando para matar seu filho. Então, após enfrentar tempestades e sofrer um naufrágio, ele volta para casa, dá-se a conhecer e ataca os pretendentes: ele sobrevive e os pretendentes são exterminados” (Aristóteles, século IV a.C., em Poética).
A tola discussão em torno da fidelidade do filme ao poema clássico de Homero, até onde pude ver, nada diz sobre os méritos estéticos, narrativos ou dramáticos da película. Num tempo em que a arte de fazer filmes se encontra ameaçada pelos recursos da Inteligência Artificial e outras “inteligências”, Odisseia, de Christopher Nolan, extrapola expectativas, traz de volta a película e a moviola para mostrar que, daqui em diante, nem tudo estará perdido em termos cinematográficos.
Análise primorosa (mais uma) de Álder Teixeira, com a lúcida compreensão das diferenças que há entre literatura e cinema, como artes que se distinguem pela natureza estética e pelos recursos estilísticos que lhes são próprios.
ResponderExcluirEdmílson Caminha