sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Ovo da Serpente

“Temos de vê-lo um ovo de serpente/Que chocado segundo o seu destino/Virá a ser maligno e deve então/Ser morto ainda na casaca.”

A fala acima faz parte da peça “Júlio César”. Escrita por Shakespeare em 1599, entre “Henrique V” e “Hamlet”, dois outros clássicos de sua obra magistral, assinala do ponto de vista dramatúrgico a transição da produção histórica para a tragédia. A fala é proferida pela personagem Brutus e aparece no início do II Ato, Cena I, quando conspiradores tomam a decisão de assassinar Júlio César, em 44 a.C., a fim de que não se inicie um período de grandes males para o povo romano.

A metáfora sugere que se deve eliminar o mal em gestação, ainda na casca. Foi com esse significado que se tomou a expressão “ovo da serpente” para definir a existência de prenúncio das grandes tragédias, quando a sociedade se mantém indiferente aos sinais da intolerância, do ódio e diferentes ameaças concretas de eclosão de regimes autoritários e totalitários.

Com esse título, “O Ovo da Serpente”, o cineasta Ingmar Bergman realizou um de seus filmes mais conhecidos, examinado por mim em livro sobre a filmografia do realizador sueco. Trata-se de uma película de 1977, e gira em torno do clima social e político da Alemanha nos anos que antecedem o surgimento do nazifascismo (1935-1945), de que resultaram os mais monstruosos acontecimentos registrados pela história da humanidade.

Como afirma Bárbara Heliodora, especialista na obra do dramaturgo inglês, Brutus representa o republicano convicto, para quem nenhuma mudança, por mais assentada em crenças de qualquer espécie, valeria mais que a preservação dos direitos do cidadão e a própria natureza do governo republicano. De outro lado, o aristocrata e militar Marco Antonio, opondo-se a Brutus, professava que, na verdade, “a maioria [das pessoas] preferia cuidar de sua vida que pensar no Estado”. Qualquer semelhança não será mera coincidência.

Como se vê, vencendo barreiras geográficas e cronológicas, a peça de Shakespeare impõe-se com uma atualidade que impressiona. No primeiro quarto do terceiro milênio, países de todos os continentes se veem sob ameaças que não podem continuar a ser ignoradas, sob pena de o mundo, bem na linha do que já está provado em diferentes latitudes, reviver tragédias que se pensava irrepetíveis.

No Brasil, como a anunciar-se dramaticamente inevitável, pelo que mostra o correr das águas turvas, sob a força de fundamentalismos religiosos, da ignorância de uma classe média equivocada, que se julga elite (latirá no jardim sem poder participar da festa) e de uma classe “A” perversamente egoísta e inescrupulosa, não é muito dizer que se veem, ao sabor de mecanismos subliminares de parte de uma imprensa tocada a interesses inconfessáveis, do nacionalismo entreguista da ultradireita e da cumplicidade de integrantes do Judiciário, já se veem, repito, fissuras na casca do ovo de que nos falou Brutus na desconcertante metáfora.

A pouco mais de duas semanas das eleições, ainda que tardiamente, ancorando-se nos valores do melhor arbítrio e das convicções redentoras, o povo brasileiro tem a chance de resistir ao monstro neofascista que se avizinha. Aparentemente inofensivo e ignorável, ele se mexe dentro do ovo da serpente para gerar consequências desastrosas.  

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